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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

CARMELITAS: A aventura da Oração.

Emanuele Boaga, O. Carm. e Augusta de Castro Cotta, CDP

A. A dimensão contemplativa da vida
1. Em nossos dias, mais do que no passado, presta-se atenção à dimensão contemplativa do ser humano, individuando-se os seus elementos ontológicos, situados no intelecto e na vontade, ou seja, na capacidade que o homem tem de conhecer e de amar. Na vida cristã tal dimensão contemplativa é resposta teologal de fé, de esperança e de caridade. Através dela, o crente se abre à revelação e à comunhão com o Deus vivo por Cristo, no Espírito Santo. A dimensão contemplativa encontra sua fonte na comunicação de Deus e é fortemente caracterizada pelo aspecto dialógico da relação Deus-homem. Realiza-se através de um conjunto de elementos: a graça divina, as virtudes teologais, os sacramentos, a oração, a ascese. A oração, como expressão da experiência teologal, constitui algo essencial e fundamental para a vida humana e cristã, tal como a respiração para o corpo.
2. A oração, como expressão da dimensão contemplativa do ser humano, é portanto o ponto de partida da maior parte dos outros aspectos do complexo fenômeno religioso. Neste sentido, considerando a fenomenologia da religião, a oração é uma realidade complexa. Apresenta muitos elementos que devem ser avaliados singularmente e no seu conjunto para que se compreenda a inter-relação profunda e a interação harmônica entre eles. Tudo isto deve ser levado em consideração para se fazer uma exposição acertada sobre a oração.
3. No âmbito cristão, o desejo de conhecer a Deus e ver o seu “rosto”, de fruir tal conhecimento e visão, fazendo portanto uma experiência do divino, concretiza-se na contemplação do mistério, porque “a luz [de Deus] refulge em nossos corações para irradiar o conhecimento da glória de Deus que brilha no rosto de Cristo” (2 Cor 4,6). A busca de Deus torna-se o centro fundamental da vida: a contemplação.
4. A contemplação é descrita por Paulo VI nestes termos: “O esforço de fixar em Deus o olhar e o coração, que nós chamamos de contemplação, torna-se o ato mais elevado e mais pleno do espírito, o ato que também hoje pode e deve organizar a imensa pirâmide da atividade humana” (homilia na IX sessão do Concílio Vaticano II - 09/12/ 1965). Contemplar vem a ser a capacidade de fixar o olhar em Deus para ver a realidade com os seus olhos e amá-la com o seu coração. A contemplação é a penetração na verdade da existência que leva a compreender e aceitar até às últimas conseqüências o desígnio salvífico. Portanto, uma realidade (unitária de todo o ser humano-cristão) de fé, de esperança e de amor, que pela ação do Espírito Santo, chega ao dom da sabedoria que permite a entrada em comunhão com Deus e seu mistério da Salvação. Neste contexto, a oração e a contemplação se identificam, tornando-se relação vital Deus-Homem e caminho unificante de toda a vida na conformidade com a vontade de Deus.

B. Descrição da Oração
5 - A oração no seu aspecto dialógico (palavra-ação de Deus e resposta do homem) apresenta uma estrutura própria ou dimensões nas quais precisamos de colocar atenção. Estas dimensões são:
- a estrutura cristológica
- a estrutura trinitária
- a estrutura eclesial
- a estrutura pessoal
- a inserção na realidade
6. Estrutura cristológica: Na oração existe uma relação pessoal e intersubjetiva entre Cristo e o nosso ser. Cristo é o sujeito da nossa oração (cf. 2Cor 1,19ss). O amor de Deus nos é comunicado através dele, pois, somente nele podemos encontrar o amor divino. Só em Cristo é possível viver a vida cristã, entendida como a escuta e a obediência a Cristo na oração. Oração cristológica significa estar plenamente em Cristo: manifestação clara e vital de nossa vida escondida em Cristo. Isto se faz na aceitação, na adoração, na ação de graças e na súplica.
7. Estrutura trinitária: a oração em Cristo é também oração por meio de Cristo. Mergulhados Nele, colocamo-nos em comunicação com o Pai que assim fala diretamente a nós, através do Espírito Santo. Entramos desta forma, em comunhão com a Trindade. A estrutura trinitária da oração leva o Cristo a tornar-se a realização de nossa existência cristã, de modo que por sua comunicação o Espírito nos permite dizer “Abba, Pai”. O espírito nos ajuda a proclamar Cristo “o Senhor”, etc. Em Cristo e por Cristo nós ficamos mergulhados na Trindade.
8. Estrutura eclesial: como “em Cristo e por Cristo” nós estamos na Trindade (comunhão interpessoal com o Pai, o Filho e o Espírito Santo) assim “em Cristo e por Cristo” nós estamos também inseridos na Igreja e exprimimos esta existência como oração eclesial (Ef 3,20-21). A estrutura trinitária torna-se eclesial: uma e outra, se realiza em Cristo e por Cristo (Mt 18,19-20). Este encontrar-se juntos na fé é expressão do Mistério da Igreja (que é ao mesmo tempo, para nós, chamado e ponto de encontro com Deus). Em vista disto, quando um grupo se reúne para a oração, descobre que não está só diante de Deus, mas que Cristo está em seu meio, e isto se exprime no acolhimento e no amor mútuo. Desfruta então a consciência individual e comunitária de pertencer a Cristo.
9. Estrutura pessoal: a estrutura eclesial não destrói, porém potencializa a relação pessoal com Deus na oração. O mesmo está na base da estrutura cristológica e trinitária. A oração individual e a oração comunitária são dois momentos inseparáveis e insubstituíveis de um único evento: a pertença a Cristo e a Deus uno e trino.
10. Inserção na realidade: a salvação é oferecida a todos os homens. S. Paulo estende a intercessão e o gemido do Espírito a toda a criação (cf. Rom 8, 19ss). Nasce o significado do pedido na oração: pedido singular, individual, coletivo, material, o “dá-nos hoje o nosso pão”. Não só isto. A oração não é somente um ato da existência cristã, ou um ato de culto, mas ao contrário é o ato e a expressão da existência cristã e do seu culto. Não há solução de continuidade entre a oração e a vida-trabalho, porque tudo está sob a Palavra e a Ação de Deus. Na oração, a existência humana se torna consciente. Encontra a revelação do sentido da vida, coisa impossível de se obter e expressar apenas na atividade, tantas vezes mesclada de ambigüidades. Exclui-se assim uma oração como finalidade em si mesma, cheia de ilusões; excluem-se também as formas exageradas de atividade (ativismo), desligadas do discernimento do projeto de Deus.
11. Oração autêntica é aquela que nos torna compenetrados da experiência viva de Deus, elevando-nos a irresistível testemunho da fé e do amor salvador pelo fato de experimentar a própria salvação.

C. A Oração diálogo-caminho com Deus
12. A oração é uma grande aventura de amor realizada com Deus, é como um diálogo e uma ascensão feita com ELE, rumo ao cume. È diálogo e caminho ou seja: realidade relacional, progressiva e dinâmica.
13. São protagonistas neste caminho: Deus (que toma a iniciativa) e o ser humano (que lhe responde).
14. O papel do Espírito: a oração não conhece limites, porque o ser humano deve deixar-se trabalhar (purificar, guiar) pelo Espírito que conduz para os caminhos por Ele escolhidos. Os dons do Espírito atuam nesta linha, especialmente:
a piedade: conduz o afeto filial a Deus
a ciência: eleva a realidade a Deus
a inteligência: ajuda a penetrar na riqueza do mistério de Deus, revelado ao longo do caminho, e a colocar o ser em sintonia com o projeto divino;
a sabedoria: permite provar a realidade divina.

15. A oração como caminho propõe atitudes que são interligadas entre si:
a) dar espaço a Deus:
• exige o silêncio e a solidão como base para a escuta e o acolhimento de Deus.
- exemplo se pode encontrar no Profeta Elias que vai ao Monte Horeb, o monte de seu encontro com Deus. Não é ele um alpinista espetacular, mas segue passo-a-passo até chegar ao cume do Horeb;
- Deus buscado, não de forma romântica, nas árvores, nem nas pedras, nos relâmpagos e no tremor de terra, mas, ouvido e experimentado na brisa leve;
- a solidão silenciosa e o silêncio solitário: portanto o sentir a palavra de Deus com os ouvidos do coração;
- o deserto: cf. Es 13,17; 3, 17; 5,1.
• a ascese individual e comunitária é o laboratório do Espírito, no qual ocorre a purificação, a elevação e união com Deus, na medida em que nos esquecemos de nós mesmos e colaboramos com a ação “crucificante” do mesmo Espírito.
b) consciência da presença de Deus:
• buscar a morada de Deus que está no centro do próprio ser;
• abrir-se conscientemente à presença de Deus em si mesmo e na criação: em, com e através de Jesus.

c) Deus companheiro no caminho: entrega e aceitação
• entrega: a consciência de Deus, presença-amiga no caminho, deve levar a entregar-se a Ele, acolhendo-O porque é o “Senhor”.
• aceitação: da sua presença orientadora, do seu projeto, deixando-se conduzir-se por suas mãos, através das circunstâncias concretas da vida quotidiana. Isto implica em esforço autêntico, empenho dinâmico (não é um deixar-se arrastar, mas um caminhar junto).
d) expressão contemplativa espontânea:
• adoração, louvor, ação de graças, súplica;
• desenvolvimento mediante formas concretas de oração correspondentes às exigências do caminho próprio da oração;

16. As dificuldades do caminho: nesta caminhada podem encontrar-se e encontram-se de fato, dificuldades que são de duas fontes:
• externas: a ambigüidade das coisas, a securalização, etc.
• internas: os pecados, ocupações e preocupações excessivos; preguiça: apegos; formalismo, medo ou temor de “deixar-se conduzir por Deus”.

17. As dificuldades podem ser superadas com:
• orientação personalizada e ajuda para a interiorização da oração e das suas formas concretas;
• renovação dos métodos, em resposta às exigências do momento e necessidades pessoais;
• esforço sincero de conversão;
• testemunho autêntico, porém nos limites da oração-vida, vida-oração.
18. O caminho que nos conduz à meta é longo e por isso temos sempre necessidade de sermos socorridos e educados por Deus para que, com fidelidade, possamos caminhar. Por isso, devemos dizer junto com os Apóstolos: “Senhor, ensina-nos a rezar” (Lc 11,1).

APROFUNDAMENTO E INTERIORIZAÇÃO
1. Para pesquisar e partilhar, ou fazer em grupos, como forma de aprofundamento:

• Argumentar as seguintes afirmações:
1 - Na vida cristã a dimensão contemplativa é resposta teologal da fé, da esperança e da caridade.
2 - A dimensão contemplativa se caracteriza pelo aspecto dialógico da relação entre Deus e o ser humano.
3 - Contemplar é fixar o próprio olhar em Deus para ver a realidade com seus olhos e amá-la com o seu coração.
• Dê sua impressão sobre as dimensões da estrutura da oração. Elas lhe parecem independentes ou complementares? Por quê?
• Refletir sobre a oração como necessidade da mesma natureza humana, à luz das seguintes considerações bíblicas: Rom 1,18-20 e At 17, 27-28: “A procura de Deus faz parte da própria natureza humana que não se realiza fora dela”. Ilustrar a afirmação destes textos bíblicos com fatos da atual realidade (as buscas da verdade e do transcendente pelo homem de nossos dias, nas diversas situações humanos e categorias sociais).
• O surto da “Nova Era”, oferece suas crenças, seus ritos e símbolos, como resultado do vazio de Deus, criado pela pós-modernidade, pela era do consumismo, do secularismo e do tecnicismo. Discutir as interpelações que esta postura do homem moderno pode fazer à nossa vida cristã e religiosa (ou consagrada). Como pensa que agiriam os Profetas neste contexto?
• Acompanhar, nos Evangelhos a Cristo modelo, mestre e mediador da oração cristã. Tomar algumas passagens para interiorização:
- Jo 1,18; 10,30. 38.14,11: Cristo, o revelador do Pai
- Mt 6,5-15: aprofundar o conteúdo ensinado por Jesus a respeito da vida de oração
- Rom 12,4-5; Gal 3,26-28; Jo 1,12: nos revelam nossa ligação com Cristo. Refletir sobre as repercussões desta verdade sobre a nossa vida de relação com o Pai (a divindade)
- Em Col 1,29; Gal 2,20; Jo 14,13; 15,16: o que podemos aprender de prático para nossa oração.
 • O diálogo com Deus pode ser realizado com todos os meios expressivos: mente, coração, sentimento voz, gesto, comportamento, lugar, tempo. Discutir sobre a utilização dos mesmos, em sua:
- relação entre a vida interior e o comportamento externo das pessoas;
- ligação dos diversos recursos com o ensinamento de Jesus em Mt 6,5-9; 26,39.42.44; 27, 46; Lc 23,46;
- busca de compreensão dos gestos orantes de Jesus e seus discípulos: Mt 14,19; Jo 11,41 (levantou os olhos ao céu); 1Tim 2,8 (elevou as mãos); Lc 22,41; At 20,36; Ef 3,14 (inclinação, pôr-se de joelhos, em sinal de adoração); Lc 18,11.13 (estar em pé, corpo ereto, olhos baixos, em sinal de sacrifício).
 • Analisar os ritmos e os lugares onde Jesus rezava:
- escolha de tempos reservados à oração: Lc 4,16; 18,1-8; Jo 7,10;
- o acompanhamento das festas litúrgicas: Lc 2, 41-49;
- busca da solidão: Mt 6,6; 14,23; Mc 1,35; 6,31; Lc 4,42; 5,16; 6,12; 11,1;
- presença nos lugares de encontro da comunidade orante: Mt 12,13; Mc 11,15; Lc 2, 22ss; 19,45-47.
2. As questões que seguem são para reflexão individual, anotação no próprio diário espiritual e partilha com o Mestre ou diretor espiritual. Esta parte deve ser feita com serenidade, em momentos de solidão previstos para o cuidado da vida espiritual do formando.
• Tomar como oração preparatória os textos bíblicos:
* Sab 9 - Pedir a Deus a sabedoria da vida
* I Reis 17, 1- 24 - O Senhor alimenta o seu Profeta
* Selecionar algum dos textos citados e fazer oração a partir dele.
• Selecionar os textos bíblicos citados no exercício acima que:
- lhe causaram maior impressão
- constituíram uma nova descoberta
- confirmam o que já pensava sobre a oração na vida humano-cristã
- lhe trazem dificuldade de compreensão ou para a prática.
• Com que fatos da vida de Nossa Senhora você mais aprende a viver com Deus e para Deus? Por que pensa assim?
• Como pode assumir na sua vida orante as diversas dimensões da oração?
• Das atitudes orantes de Cristo com qual delas você mais se identificou?
• Se não fosse chamado à vida carmelitana acha que mesmo assim precisaria de desenvolver uma vida de profunda oração? Por quê?
Feitos os exercícios não deixe de procurar ajuda com seu orientador espiritual. Ela é indispensável para o seu crescimento humano-espiritual-carmelitano.

Procure tirar as dúvidas, partilhar suas descobertas, desafios, dificuldades, expectativas, compromissos.

CARMELITAS: Contemplação e ação.

Emanuele Boaga, O. Carm. e Augusta de Castro Cotta, CDP

A compreensão que os Carmelitas têm da vida contemplativa, no seu caminho histórico, apresenta elementos próprios, além dos influxos provenientes do conflito entre a ação e a contemplação, presentes por muito tempo na espiritualidade cristã em geral. É fácil compreender como, também entre os carmelitas, existiram modos distintos de compreensão da vida contemplativa e da mesma contemplação.
Na primeira fase da experiência carismática carmelitana a vida contemplativa se nutre de elementos típicos do eremitismo (porém no “estilo” daquele tempo que é bem diverso das épocas seguintes); dos movimentos penitenciais e das peregrinações à Terra Santa, sem exclusão da atividade apostólica. A Norma de Vida de S. Alberto apresenta uma profunda unidade entre a contemplação e a ação.
Através da aprovação da Regra por parte de Inocêncio IV, em 1247, os Carmelitas de eremita-penitentes se transformam em mendicantes. Caem portanto as estruturas estritamente eremíticas. A vida contemplativa vem assim entendida no contexto da “vida mista” dos mendicantes, ainda que permaneça no interno da Ordem um apelo às origens (apelo também “romântico”!) Em seguida alguns carmelitas vêem no eremitismo um retorno ao verdadeiro espírito do Carmelo, mas não percebem que tal eremitismo é uma “nova” realidade, diversa do tipo daquela que se encontrava na experiência originária da Ordem. Este tipo de compreensão (ou melhor de incompreensão) determina ambigüidades e conflitos, por longo tempo, chegando a nossos dias.
Nos séculos XV-XVI o termo “vida contemplativa” era assumido pelos carmelitas quase como sinônimo de vida interior e de identificação com as estruturas que a promoviam. Nisto foi notório o influxo da “Devotio moderna”. Entre as formas de oração, que favoreciam a vida contemplativa, emergem, sobretudo a oração litúrgica (missa quotidiana e ofício cantando em coro) e a meditação pessoal favorecida pela prática do silêncio.
Ao mesmo tempo, a exclusão das monjas do apostolado externo (por imposição da clausura), produz nesta forma de vida uma intensificação da solidão e da oração. Nela os elementos “ contemplativos” da Regra (em particular: a meditação contínua da Lei do Senhor, o vigiar e orar sempre, o silêncio e as armas espirituais) se tornaram intensos desembocando na vida litúrgica, na meditação, no exercício da presença de Deus, no espírito de penitência. Nesta linha foram situadas as novas fundações das monjas (depois de 1452): as da Congregação de Mântua (como ex. os Mosteiros de Scopelli e Girlani) espalhando-se pouco a pouco até chegar a S. Maria Madalena de Pazzi.
S. Teresa dá a seus irmãos descalços as constituições e a espiritualidade das monjas, com acentuação de apenas alguns valores da Regra. Isto no contexto da “descalcez”, considerada então como única forma válida de vida religiosa. Tal impostação conduziu à seguinte passagem: contemplativo = eremítico= monja descalça = frei descalço. Esta passagem levou à seguinte consequência, na época, durando o equívoco até nossos dias:
verdadeiro carmelita = carmelita descalço.
A confusão e o equívoco, baseados na equação: contemplativo= eremítico, já estavam presentes mesmo antes de S. Teresa, porém não de forma difusa, como aconteceu no caso da Congregação de Albi e, depois desta, na Congregação de Mântua. (Ver “Releituras do carisma” em Como Pedras Vivas, p. 101, para recordar o assunto).
Depois de S. Teresa o termo “contemplativo” na nossa Ordem adquiriu um sentido muito restrito, chegando até mesmo a não poder ser aplicado nem à vida religiosa, nem mesmo à meditação, à oração vocal, ao ofício litúrgico.
Outra tendência surgida na Ordem, foi a de reduzir a “contemplação” ao grau mais elevado da oração e da vida interior, quase desprezando ou considerando a oração vocal somente como uma passagem, incluindo-se nesta a oração litúrgica. Surgiu dai a ênfase do papel da meditação considerada como a forma mais adequada de contemplação e portanto, mais própria para o desenvolvimento da vida interior.
Deve-se notar que em todo o caminho histórico da Ordem, do séc. XIV até à época recente, particularmente nas Reformas, a releitura do carisma e a revisão da vida da própria Ordem partiram sempre da contemplação e nunca do apostolado. Em matéria de oração encontram-se novos caminhos, mas ao mesmo tempo coloca-se o grave problema da relação ou dissídio “contemplação-ação”, que assinala profundamente a vida e o estilo da própria contemplação. A atividade apostólica é considerada geralmente como prolongamento da contemplação e ao mesmo tempo seu fruto. Deve-se também recordar que, mesmo neste contexto das reformas, não faltaram figuras eminentes que, através das formas de assistência aos pobres e aos humildes, típicas de sua época, têm enfrentado o desafio da encarnação da vida contemplativa. Entre esses, recordamos o Ven. Angelo Paoli, “pai dos pobres” na Roma do séc XVII e a terciária carmelita Mariangela Virgili, em Ronciglione (ver: Como Pedras Vivas, p. 119 e 150).
Os mesmos autores carmelitanos no decorrer dos séculos XVII-XIX, têm exortado àqueles que se dedicam a atividades apostólicas por chamado da Igreja para atender a suas necessidades, a adotarem uma atitude contemplativa. Nasce assim a insistência sobre as duas formas de oração consideradas adequadas a esta finalidade: o exercício da presença de Deus e da aspiração.
Dado que os nossos irmãos têm admirado e exaltado nas irmãs monjas a sua vida de oração como “a melhor forma” de realização do ideal contemplativo com o qual nasceu a Ordem”, deve-se ajuntar também algumas notas sobre sua relação com o apostolado por parte das próprias monjas, para que se tenha um quadro completo, evitando-se as mitizações ambíguas. Particularmente:
• é notório o desejo expresso nos primeiros núcleos de monjas carmelitas de serem úteis ao próximo através da oração de intercessão e da penitência;
• é também conhecida a motivação apostólica colocada na base da fundação das Descalças por S. Tereza de Jesus;
• para S. Maria Madalena de Pazzi, as monjas são chamadas “ad maiorem vitam” (isto é, aquelas dos primeiros carmelitas) em quem porém não se separa “Marta de Maria” (Marta sem Maria é “confusão” e Maria sem Marta é ociosidade”, diz a Santa). O genuíno influxo mariano na Carmelita tem como sinal o nascimento no coração, do desejo da saúde das almas. Portanto a vida interior, a vida apostólica e a vida mariana se fundamentam em uma síntese superior. Da união com Deus e Maria nasce a “salus animarum”, obtida e sustentada com a oração e com a ação para reconduzir as almas a Deus e a Maria. O apostolado é, então, “restituição” que se obtém também com uma vida pura, feita de fé, de simplicidade, de fidelidade.
• S. Teresa do Menino Jesus desejava ter todas as vocações para servir à Igreja. escolhendo então, se o “seu coração” através da oração e interesse missionário.

Atualmente a conflitualidade “contemplação-ação” parece superada teoricamente, como demonstram claramente os acenos que às questões são feitos nos documentos oficiais da Ordem, nestes últimos anos. A conflitualidade permanece porém, na prática, e sua solução postula uma profunda revisão e “conversão” de vida e obras.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

RÁDIO E POLÍTICA: Em 64 anos, rádio de Minas Gerais "elege" 24 parlamentares

Uma das rádios mais populares entre os mineiros, a rádio Itatiaia tem ajudado a alavancar a carreira política de vários profissionais que participam ou participaram de sua programação. Já são 24 os integrantes da "bancada da rádio" ao longo dos seus 64 anos de história.
Os dois últimos foram Álvaro Damião (PSB), repórter de esporte, e Catatau da Itatiaia(PSDC), comentarista sobre direitos do consumidor, que foram eleitos vereadoresem Belo Horizonte no início do mês.
Além dos novos vereadores, há atualmente o apresentador João Vítor Xavier (PSDB) e locutor esportivo Mário Henrique Caixa (PV) que são deputados estaduais, e o apresentador de programa policial Laudívio Carvalho (SD), que é deputado federal.
Fundada em 1952, já foram 12 profissionais de comunicação eleitos para a Câmara de Vereadores de Belo Horizonte, outros seis eleitos para Assembleia Legislativa de Minas, três para a Câmara Federal e um para a Câmara Municipal e Assembleia.
Junia Marise, por exemplo, além de vereadora, foi deputada estadual e federal, senadora e vice-governadora de Minas Gerais. E um dos mais conhecidos integrantes políticos da rádio é o jornalista Hélio Costa (PMDB), que foi deputado federal por dois mandatos, senador e ministro das Comunicações. Costa também se candidatou ao governo em 2010, mas acabou perdendo para o senador Antonio Anastasia (PSDB)
 "A rádio (Itatiaia) não incentiva, nem coloca obstáculos", afirma o proprietário da Itatiaia Emanuel Carneiro. "É direito do profissional participar do processo democrático", diz o radialista.
Para Carneiro, o fato de diversos nomes da rádio ter sido eleito revela a "intimidade" com que os locutores têm com a população de Belo Horizonte. "A atenção que damos, em toda a programação, sobretudo no jornalismo e esporte, à opinião das pessoas, faz com que tenhamos intimidade com a população", diz o executivo.
Essa relação de "intimidade" com o ouvinte, na avaliação de Carneiro, é reforçada pela possibilidade de opinião dos comentaristas nos programas, e pelo fato de os repórteres estarem sempre nas ruas da capital mineira.
As paróquias do município
"Eles (os repórteres e locutores) vão para as paróquias, vão para as feiras, acompanham os casos de polícia. Eles trabalham nas ruas, não ficam na redação. Isso reforça a relação com a população, estão sempre presentes aos fatos. Isso faz diferença entre ter ou não ter penetração", diz Carneiro.
"Não vejo problema nenhum, deles serem candidatos. Se voltam (para a rádio) ou não, se forem eleitos, é decisão de cada um".
"Quase todos que se candidataram e perderam (a eleição), voltaram para a rádio. Alguns que vencem a eleição, às vezes não voltam por causa do acúmulo de atividades. Porém, se quiser voltar, pode voltar", afirma o executivo.
O deputado federal Laudívio Carvalho (SD) explica que, embora não consiga manter o programa diário "Itatiaia Patrulha", às 17h, que tinha na rádio, após sua eleição em 2014, com as atividades legislativas que teve de assumir, ele continua participando de diversos programas da Itatiaia, sempre que pode.
"Mantenho contato com as pessoas, através da rádio, isso é muito importante. Participo direto dos programas, sempre emitindo a minha opinião", afirma o deputado.
"Meu voto é de opinião. Meu voto é de quem ouviu durante 35 anos a minha opinião, sobretudo sobre segurança, na Itatiaia", diz Carvalho.


"Me enterrem com meu radinho ligado na Itatiaia"
A professora da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), Nair Prata, diretora da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação) e vice-presidente da Associação Brasileira de História da Mídia, conta que Juvenal Rosalvo Bispo, 87, morador de Belo Horizonte, poucas horas antes de morrer em 2008, teve frustrado seu último pedido em vida: ter um rádio na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) no hospital onde estava internado para ouvir a programação da Itatiaia.  O filho dele tentou, mas não conseguiu entrar com o aparelho "escondido" no hospital.
No dia seguinte, em 11 de novembro de 2008, o jornalismo da rádio Itatiaia deu ampla cobertura ao enterro de Bispo no Cemitério da Paz, em Belo Horizonte.
"O filho, com a concordância da viúva e de outros parentes, colocou no caixão, junto ao corpo do pai, um rádio ligado na Itatiaia, com pilhas novas", diz a professora.
"A Itatiaia representa Belo Horizonte. Representa Minas Gerais. Não há qualquer outro órgão de imprensa no Estado que tenha essa condição", afirma Prata.
A especialista explica que não é somente a audiência da rádio na região metropolitana de Belo Horizonte que, segundo ela, a Itatiaia tem o primeiro lugar há décadas (com 94% da audiência na programação esportiva), que explica o sucesso dos seus locutores nas urnas.
Prata lembra que Belo Horizonte não é sede de nenhuma das grandes redes de televisão, que estão concentradas no eixo Rio-São Paulo e isso incomoda a população. "A última emissora genuinamente mineira, com forte programação local e de jornalismo, a TV Itacolomi, acabou no fim da década de 1970, causando grande comoção na população, que se sentiu órfã", diz.
Assim, explica a professora, quando a Itacolomi acabou, a rádio Itatiaia soube assumir o papel de "representar" a população, identificando-se como defensora dos interesses de Minas Gerais.
"O slogan da TV Itacolomi era "a TV de Minas". A Itatiaia adotou o slogan "a rádio de Minas" e soube incorporar muito bem esse papel de representante dos interesses da cidade, dos moradores", afirma.
"Mas não é só isso", diz a especialista. "O fato de ter duas redações, de jornalismo e de esportes, funcionando 24 horas por dia, com diversas equipes de repórteres na rua, mantendo uma cobertura ágil e de qualidade das notícias locais, sustenta também o prestígio da Itatiaia que é alguma coisa inabalável, pelo menos até hoje", afirma.
"Qualquer líder político, empresário, sindicalista, morador de rua, dona de casa, motorista de táxi que vá falar com a cidade, o faz pela Itatiaia", afirma Prata.

"Os locutores, apresentadores e repórteres da rádio, por tudo isso, são bastante conhecidos e prestigiados. E alguns deles se candidatam e conseguem ser eleitos. Outros não. Há também muitos que se candidatam, mas perdem a eleição", diz a pesquisadora.

A bancada da rádio Itatiaia em 64 anos

1. Alberto Rodrigues – vereador

2. Aldair Pinto – vereador

3. Álvaro Damião – vereador

4. Antônio Roberto – deputado federal

5. Catatau da Itatiaia – vereador

6. Dênio Moreira – deputado estadual

7. Dirceu Pereira – deputado estadual

8. Edson Andrade – vereador

9. Eduardo Lima – vereador

10. Eli Diniz – vereador

11. Fernando Sasso – vereador

12. Hélio Costa – deputado federal, senador e ministro

13. João Vítor Xavier – vereador e deputado estadual

14. José Lino Souza Barros – vereador

15. Junia Marise – vereadora, deputada estadual e federal, senadora e vice-governadora

16. Laudívio Carvalho – deputado federal

17. Mário Henrique Caixa – deputado estadual

18. Mário de Oliveira – deputado federal

19. Nelson Carvalho – deputado estadual

20. Olavo Leite Kafunga Bastos – vereador

21. Tancredo Naves – deputado estadual

22. Vilibaldo Alves – vereador

23. Wânia Carvalho – vereadora

24. Wellington de Castro – deputado estadual. Fonte: http://noticias.bol.uol.com.br

380 ANOS: Ordem Terceira de Salvador-01

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

OUÇA O SILÊNCIO.

Lutar contra o vício em barulho revela o que realmente importa para viver bem.

Em uma sociedade na qual fazer barulho, seja online ou offline, virou sinônimo de sucesso, o silêncio parece ter virado um luxo, disponível apenas para quem puder comprá-lo em condomínios exclusivos ou lounges de companhias aéreas. Mas o bem-estar ao alcance pelo poder aquisitivo é, se tanto, uma amostra do que essa busca pode oferecer. Para ter o pacote completo, a resposta está aí dentro, no seu silêncio, que é ainda mais exclusivo: só você pode descobri-lo e usufruir dele.
É fácil se corromper com os desafios pelo caminho. Na era dos textões de Facebook e da avalanche de snaps, o silêncio e a reflexão acabam jogados para escanteio. Como estamos imersos na confusão, parece que precisamos participar de tudo e falar cada vez mais alto. Só que vale a pena se calar um pouco, inclusive para aprender que o silêncio não é senha para submissão.
"Pelo contrário”, afirma Marcelo Dermazo, professor de Medicina Preventiva da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). “Viver no piloto automático, simplesmente reagindo às situações, não satisfaz mais. As pessoas querem entender quem são e, no silêncio, encontram tempo para observar e refletir", completa. Ele também afirma que essa busca não se trata de uma fuga da vida moderna, mas sim entender que se expressar apenas para não ficar fora do jogo pode ser puro desperdício de energia.

CALADOS
Eles vão falar apenas para explicar o motivo de o silêncio ser necessário.

Esse equilíbrio exige sacrifícios, claro, mas ao final do processo é comum os adeptos do silêncio mostrarem alívio ao falarem sobre o que tiveram de abrir mão. É o caso do ex-monge budista e arquiteto Marcio Lupion, 54, que por dez anos praticou o voto de silêncio.
"Abri mão de uma série de coisas que não me faziam feliz. Você percebe que quando chegava perto das pessoas e falava coisas do seu interesse, não se dava ao trabalho de perceber se o outro estava interessado. Percebi que existia um monólogo, cada um conversava consigo mesmo. Não tem nada muito fantasioso, é aprender a respirar e a ser verdadeiro com você mesmo. Ouvir é demonstrar afeto", afirma. 
De acordo com a proposta, só quando mudamos de postura conseguimos perceber o quanto o supérfluo pode se tornar nocivo. "Durante um retiro de silêncio, é comum ter quem diga que não aguenta mais a ausência de som. Nesses momentos, eu falo: 'para quieto, em silêncio, você não ouve nada? Tem um carro passando na estrada, ruído de passarinhos cantando e pelo menos mais quatro tipos de inseto, o farfalhar do vento nas folhas'. É uma barulheira danada, mas as pessoas não conseguem ouvir porque estão acostumadas à gritaria", diz Osmar Ludovico, teólogo, diretor espiritual e autor de “Meditatio”.
Mesmo que não haja um isolamento, é importante ter momentos de descanso para os ouvidos. É o que pensa a especialista Alice Bernardi, membro do Departamento de Audição e Equilíbrio da SBFA (Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia). Ela crê que a atual geração terá um envelhecimento auditivo precoce, resultado do vício em barulho. O indivíduo que quiser atenuar ou até mesmo superar esse quadro precisa de uma ação radical, e esse tipo de choque é oferecido a quem visita centros como o retiro de silêncio Vipassana, em Miguel Pereira, no Rio de Janeiro.
O sítio que serve de base para o curso fica isolado no meio da mata. É para relaxar, mas não tem oba-oba. Existem regras. Horário para as refeições, para acordar, às 6h, e dormir, às 21h. Além disso, homens e mulheres ficam separados. E nem mesmo no caminho para as áreas comuns, como refeitório e sala de meditação, é possível cruzar com o gênero oposto. Placas de "Limite" estão espalhadas pelo local. Tudo para evitar "distrações".
Estar em silêncio é uma questão de hábito. Não estamos acostumados a desafiar a nossa mente matraca. Mas para ter equilíbrio mental, precisamos diminuir a falação interna 
Arthur Shaker, antropólogo e coordenador do núcleo de neurociências da Casa de Dharma, centro budista Theravada, em SP
Quem explicou ao TAB sobre a técnica de meditação, uma das mais antigas da Índia, foi Macarena Infante. A chilena é professora do método há dez anos. Pode parecer clichê, mas Macarena transmite paz e sabedoria. Quando você a ouve, logo surge na sua mente um "nossa, é verdade" ou "meu Deus, isso acontece comigo", entre outros pensamentos. "As respostas para os nossos problemas não estão fora, mas dentro de nós mesmos. Aprendemos a não produzir sofrimento. Estamos acostumados a chorar, ter raiva, mas essa é a parte mais burra da mente", afirma a professora.
No Vipassana, você descobre, compreende e aceita. Esse é o primeiro passo para uma mudança interior. "Apenas no silêncio conseguimos perceber as reações bioquímicas do nosso corpo quando sentimos o que não gostamos, quais efeitos isso produz em nós e nos outros e erradicamos isso", diz Macarena.
Não é uma prática religiosa e, sim, o silêncio como chave para limpar e purificar a mente. Qualquer pessoa que esteja saudável e motivada pode fazer. Há listas de espera e um processo de inscrição no qual perguntam algumas vezes se os candidatos estão realmente dispostos: são dez dias sem comunicação - verbal e gestual. E nada de livros, celular ou caderninhos de anotação. É você com você mesmo e dez horas de meditação diária, em momentos espaçados.
Não custa absolutamente nada. Os centros do Brasil e do mundo se mantêm com doações dos próprios alunos, seja de trabalho voluntário ou algum bem material, que oferecem só depois de fazer o curso. A chilena frisa que Vipassana não é poção mágica. Trata-se de um processo. E os cursos chegam a mais de 30 dias sequenciais de quietude.
Parece assustador? Não para Gianni Galiano Vintimilla, 25, que passou três meses na Índia no ano passado após se formar em Administração em São Paulo. O objetivo era fazer trabalho voluntário com crianças da zona rural da cidade de Nagpur, na região central. Ela contou que descobriu o Vipassana na tentativa de absorver experiências culturais do país. 
"Tudo foi muito intenso e cada dia era uma descoberta. Os pensamentos vinham a mil. Acabei fazendo uma limpa, voltando mais leve. Hoje, quando sinto algo negativo, coloco em prática o que aprendi e não sofro tanto. Eles dizem que é um processo de purificação, no qual você elimina as três principais causas de infelicidade: desejo, aversão e ignorância".
Tudo bem pensar "que difícil, nunca conseguiria" ou, mais ainda, "quero muito passar por isso". Religiosos, guias espirituais e psicanalistas consultados peloTAB acreditam que a maioria das pessoas não se conhece além do superficial "gosto ou não de tal coisa".
Foi também por esse motivo que a jornalista Suzana Ferreira, 35, decidiu procurar o Vipassana. Ela passou pelo curso em agosto deste ano e, por querer se "afastar totalmente", a maior dificuldade não foi exatamente ficar sem comunicação. "Os problemas vão aparecendo durante o processo. Via pessoas sofrendo, chorando, mas não podia fazer nada para interferir, faz parte da descoberta de cada um. Eu mesma pensei em desistir todos os dias. É muito difícil". É impossível parar a mente.

A natureza dela é essa: pensar 
Macarena Infante , professora de Vipassana

Suzana tem um problema de audição e contou que, durante o voto de silêncio, percebeu o quanto potencializa tudo, inclusive suas dores. "Muitas vezes pensava: 'o que estou fazendo aqui? Está doendo, eu deveria estar em um hospital'". Mas era só esperar que passava. "Não reclamar ou me preocupar é complicado. Por isso, o principal aprendizado foi a questão da impermanência: desapegar das dores, pessoas e problemas porque tudo vai passar, o que é ruim e o que é bom também."
O silêncio tem um significado particular para cada indivíduo. No caso dos religiosos, o suporte para seguir na quietude está em se encontrar com Deus. Irmã Maria José, 41, que já foi franciscana, encontrou o sentido para sua vida na congregação das Carmelitas Mensageiras do Espírito Santo, da qual faz parte há 16 anos. O carisma é contemplar para evangelizar. Embora seja um voto perpétuo, ela afirma que o "silêncio não custa, é uma necessidade".
"O verdadeiro silêncio é aquele que você consegue aquietar as faculdades. Silenciar os pensamentos. Temos uma tendência a julgar o outro, tantos juízos que fazemos de maneira precipitada. Educar os pensamentos, o coração e não se deixar prender por tantas preocupações. É um silêncio que não me leva a um vazio existencial, mas ao encontro com o outro."
A fonoaudióloga Claudia Cotes afirma que o equilíbrio entre silêncio e fala é essencial para o bem-estar do ser humano, que sempre vai viver momentos de crise. “Na medida que você se conhece, fica no silêncio, e depois passa a usar isso para ter uma fala mais equilibrada, é sinal que encontrou esse conforto”, explica.
Claudia acredita que o problema da sociedade atual é a falta de medida. Avanços tecnológicos, redes sociais, YouTube.... Tudo isso chega para agregar, mas quando perdemos o controle, falamos apenas de nós e esquecemos do outro. “A comunicação tem um grande poder, mas precisamos usá-la a nosso favor. Quando você fala desenfreadamente, só de você, perde os vínculos, não tem troca, fica algo vazio”, afirma.
Há 28 anos como professor do curso de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie, em São Paulo, Marcio Lupion afirma que encontrou nas aulas o meio de transmitir para os alunos a importância de conseguir perceber as pessoas. “As ligações mais profundas nascem com aqueles que conseguimos ouvir”, diz.
A passagem dele pelo mosteiro aconteceu entre os 21 e 31 anos, depois de ler a Bíblia “pelo menos umas dez vezes”. O voto não exigiu calar a boca por dez anos, mas foram seis meses de silêncio absoluto e três anos sem se olhar no espelho. A saída aconteceu quando os professores perceberam que ele estava se divertindo lá. “’Está na hora de você transformar tudo o que aprendeu aqui em bem-estar para as pessoas. ’ Foi o que meus professores falaram quando me pediram para sair”, afirma.
Para Suzana, a jornalista que fez o curso de Vipassana e pretende retornar em breve, o aprendizado não termina nunca. “Se não tenho paciência com alguma situação, vou segurar a reação e tentar não ferir o outro. Não é um milagre do tipo ‘faço um retiro, vou ficar zen e as coisas não vão me atingir’. É preciso exercitar a mente para superar as falhas e não se apegar aos sentimentos que causam sensações ruins. Se perdoar e entender que o outro também falha”, diz. Fonte: http://tab.uol.com.br



terça-feira, 27 de setembro de 2016

Golpe no Brasil “é mostra internacional do cinismo”, afirma Arcepisbo Raúl Vera

Mexicano ganhador do Prêmio Rafto fala sobre a situação de seu país, do Papa Francisco e do golpe no Brasil.
O Arcebispo de Saltillo, no México, Dom Raúl Vera López, ganhador do Prêmio Rafto, uma espécie de Prêmio Nobel da Paz alternativo realizado por um grupo norueguês defensor dos direitos humanos, soltou o verbo em entrevista concedida ao Brasil de Fato, ao falar sobre os 43 jovens mexicanos desaparecidos – tragédia que completa dois anos na próxima segunda-feira (26). Raúl Vera também comentou sobre o papel do Papa Francisco e o golpe no Brasil.
A entrevista é de Luiz Felipe Albuquerque, publicada por Brasil de Fato, 23-09-2016.
Diante do atual momento conturbado no mundo todo, o Arcebispo aponta que a “força libertadora desta Terra” está na organização da população menos favorecida e não tem dúvida do risco que Francisco passa por causa de seus posicionamentos políticos. “A cada momento ele pede que rezemos por ele porque sabe que podem assassiná-lo”, conta.
Quanto ao processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, Raúl Veraressalta que é “um artifício dos grandes ricos do mundo, que se valem dos serviços que cumprem os políticos, para se distanciar de um processo social de um governo que se preocupava com os pobres”, e representa “uma mostra internacional do cinismo dos políticos”.

Eis a entrevista.

Na próxima segunda-feira (26) serão completos dois anos do desaparecimento dos 43 jovens mexicanos. Como você avalia este processo?
Um aspecto, digamos, positivo, é a perseverança dos pais, dos familiares, dos estudantes e de boa parte do povo mexicano para manter na agenda nacional este assunto. Os pais conseguiram que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos criasse um grupo internacional especializado e independente - fazendo com que o governo mexicano aceitasse esse grupo - para que fizessem uma investigação que não estava sendo feita.
O segundo aspecto que tem que ter em conta, que é a parte negativa, é que que o governo mexicano utiliza o terror e horror como estratégia política. Estes garotos desaparecem em mãos do governo mexicano, e não quiseram se dar conta disso porque sabem o que passou. Se estão vivos, eles sabem onde estão, se não estão vivos quiseram inventar coisas que não deram certo. Este é o mesmo caso das cifras oficiais que dizem que há 27 mil desaparecidos no país, das quais não se tem esclarecimento.
Horror e terror são estratégias de controle da população por parte do governo neste momento, que une o exército, a marinha, a polícia federal, as polícias locais, o narcotráfico e grupos paramilitares. Tudo isso já está identificado por um processo realizado pelo Tribunal Permanente dos Povos no México, para julgar o Estado mexicano. Uma das conclusões que a sentença final traz é que o governo mexicano está fazendo um controle da população. Por quê? Porque são muitas injustiças que o governo mexicano está cometendo. Eles não estão governando para o México, para os cidadãos, mas são administradores das estratégias do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial, da Organização Mundial do Comércio, da Organização Mundial da Propriedade Intelectual, pelas multinacionais e das potências econômicas e políticas que estão por trás destas multinacionais. Há um desvio de poder.

Por que o Estado mexicano estaria se utilizando desta estratégia de terror contra a população?
Esta é uma estratégia de guerra psicológica, de criar insegurança na população, de criar temor para que os mexicanos não se organizem ante as reformas da Constituição, do repasse das empresas energéticas à iniciativa privada nacional e internacional. Querem acabar com a educação gratuita e se desfazer dos professores por meio de um suposto exame de avaliação, para acabar com a educação pública. O mesmo estão fazendo com a saúde: deixarão de existir vários tipos de garantias, reduzindo os serviços de saúde a uma mínima parte do que temos hoje em dia. Isso porque 40% do gasto público vinha do nosso petróleo, mas agora nosso petróleo já não é mais nosso. O México está sendo construído neste modelo econômico mundial, somente para uma parte que equivale a 1% dos mexicanos.
O dinheiro que os EUA mandaram para o México nesta guerra contra o narcotráfico foi para militarizar o país, e a militarização que o governo faz é contra a população. Há uma guerra, um ataque direto contra a população. Tem dois tipos de violência neste momento no México: a violência estrutural e a direta. A estrutural são todas estas reformas e leis para administrar a nação a favor das grandes multinacionais, e a direta é a que é realizada contra a população.
No meio deste contexto, Ayotzinapa (local onde aconteceu o desaparecimento dos 43 jovens) é emblemático. Ficou claro que por trás do desaparecimento destes garotos está otráfico de heroína, da a cidade de Iguala até Chicago (nos EUA). Os meninos, naquela noite, haviam sequestrados alguns ônibus (tomados à força, prática comum em suas mobilizações, a fim de arrecadar fundos para sua escola), e entre os caminhões, sem se dar conta, tinha um caminhão cheio de heroína escondida. Curiosamente, policiais dispararam em todos os caminhões, e o caminhão onde estavam as pessoas desaparecidas foi um caminhão que a polícia destruiu totalmente, mas não destruiu os meninos, que foram entregues ao crime organizado.
Ou seja, quem estava em busca deste caminhão com heroína era o exército, a polícia federal, a polícia local de Iguala e os narcotraficantes. Isso se converteu num paradigma de cumplicidade entre o governo mexicano e o crime organizado. Quem descobriu o lance da heroína foi o grupo internacional especializado, que fizeram um trabalho de três meses. Mas depois de descobrirem o caminhão de heroína, o governo mexicano retirou eles de campo.
Isso é uma mostra muito clara de toda articulação, e de que há uma estratégia bem organizada onde o principal objetivo é controlar o povo e manifestar o poder do governo frente à população, para que nós fiquemos parados diante das reformas estruturais e os saques que estão fazendo sobre os recursos do país.

Em contraponto a estas estratégias, temos o Papa Francisco que vem denunciando constantemente as mazelas do mundo, apontando que os problemas de nossa sociedade são fruto do nosso modelo econômico de desenvolvimento. Como você avalia o papel que Francisco está cumprindo?
O papel do Papa é muito importante. Há um texto que Jesus leu no dia em que regressou a sua terra onde cresceu, Nazaré. Como era seu costume, foi à Sinagoga e leu um trecho do Livro de Jeremias. Jesus disse: "O espírito do Senhor está sobre mim porque ele veio para anunciar boas notícias para os pobres. Anunciar a libertação dos presos, animar os corações desanimados”.
Estes prisioneiros, hoje em dia, são as pessoas ganhando o salário que ganham, prisioneiras de um sistema, ao não terem acesso a um trabalho digno. Tudo o que há neste momento são pessoas aprisionadas. O mais interessante é que Jesus disse que estes prisioneiros vão ser glorificados, vão ser reconstrutores de cidades destruídas, povoadores de terras abandonadas, ministros do senhor, que significa também administrar o mundo e devolvê-lo a Deus um mundo livre de pecado, que significa ser livre de prisões injustas, da fome, de assassinatos, de tudo o que vemos hoje em dia.
Quem vai libertar o mundo? São estes 'prisioneiros'. Ou seja, o Papa, e me recordo o que ele disse durante o encontro com os movimentos populares em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia): “vocês, os excluídos, que estão organizados para lutar por um teto, por um trabalho e pela terra - nestes três pontos estão a liberdade, mas também está a saúde, a educação, o direito a uma vida digna e integral -, são os salvadores do mundo”. Isto é queFrancisco nos está dizendo, que se o mundo de hoje está sendo administrado a favor de 1% da população mundial, que são os grandes financeiros, banqueiros, empresários, os ricos do mundo, está nos pobres a força libertadora desta Terra.
O Papa está apontando o que disse Jesus: ser sujeitos, vocês que "não são nada" vão fazer um mar de justiça. O caminho é facilitar que as pessoas marginalizadas comecem a ser sujeitos e construtores de uma nova sociedade. Uma das grandes intuições de Francisco é levar a Igreja outra vez a entender que a construção do reino de Deus não é construir a Igreja para si mesma, mas coloca-lá no meio da problemática do mundo de hoje.
Francisco denuncia toda as artimanhas e toda a mentalidade do antropocentrismo, antropomorfismo, a tecnocracia. Francisco está falando da construção da fé. A fé tem a ver com a construção do mundo, com um modelo de sociedade, com um sentido da vida humana. Por isso que Francisco é compreendido muito bem por sociedades que não são cristãs. Os cristãos têm que colocar os olhos em todos os resultados de uma péssima administração da Terra e de uma péssima maneira de governar o mundo, porque os grandes ricos do mundo e os políticos estão a serviço do dinheiro.

Acredita que com esse posicionamento Francisco esteja incomodando muita gente?
Claro! Por isso a cada momento ele pede que rezemos por ele, porque sabe que podem assassiná-lo. Volto outra vez ao discurso de Santa Cruz de la Sierra, que foi muito claro. Disse que há a necessidade de mudanças na Terra. Francisco sabe que tem interlocutores que dizem a ele: “o que está fazendo? O mundo está bem."
Francisco sabe que tem interlocutores muito incomodados quando ele fala de desigualdade, de pobreza e de justiça. A grande diferença de Francisco é que ele fala quais são as causas. João Paulo II disse: o mau tem rosto e tem nome.

Logo após concluído o impeachment de Dilma Rousseff, Francisco protestou contra o processo em curso no Brasil. Como você avalia o atual momento político brasileiro?
Eu estive no grupo internacional que foi convocado pelos movimentos sociais no Brasil para qualificar o impeachment, e chegamos a conclusão de que houve um golpe de Estado, que não tinha jurisprudência para dizer que Dilma havia cometido crime. Isso não é mais que um artifício dos grandes ricos do mundo, que se valem dos serviços que cumprem os políticos para se distanciar de um processo social, de um governo que se preocupava com os pobres.
A prova é que logo no primeiro dia começaram a suspender todos os programas sociais. É uma mostra internacional do cinismo dos políticos atuais. Uma grande parte destes senhores que Temer colocou em seu gabinete são pessoas que tem problemas de corrupção. É um golpe suave de Estado.
Mas isso também tem a ver com a falta de prevenção dos governos que tem um sentido social. Eles teriam que ter amarrado tudo na Constituição para que todas estas conquistas não sejam retiradas. E tem que promover um pensamento hegemônico, um pensamento no povo do que deve ser um novo modo de consciência, porque os meios de comunicação também se valem disso. Isto é outra coisa que tem que ser levado em conta, o modo de governar. O modo de governar tem que criar o sujeito, e o sujeito que verdadeiramente esteja intervindo no governo. Isto é muito importante. O Brasil é uma mostra de que não fizeram as reformar que tinham que ser feitas, como regular os meios de comunicação, ai deixaram a Globo sozinha e fez o que teve vontade de fazer.
Essas 54 milhões de pessoas que votaram na Dilma teriam que ter saído às ruas para dizer "vocês não vão tirá-la, não'. Como pode poucos senadores tirar Dilma do poder? Isto é um erro e um problema que temos que resolver.

Quais saídas você identifica para estes processos?
No México, frente a situação que estamos vivendo, não vemos outra saída senão uma nova constituinte, mas uma constituinte que seja escrita pelo povo. Nesse período temos que juntar pelo menos 60% dos cidadãos, que teriam que estar ativamente no processo de constituição de uma nova Carta Mágna.
Depois, tendo um diálogo nacional e um enorme número de participantes, realizar uma eleição por consenso, já não mais pelos partidos políticos, que são quem estão fazendo todas estas barbaridades, são elites que se colocam a governar. Por um método de consenso que está no mundo indígena, introduzido na constituição da Bolívia, e é muito provável que sirva para os povos indígenas que são a maioria (no México). Já não mais pelas maiorias representativas, que não necessariamente são as maiorias populares.

Tem que ser por um consenso de toda a população, fazer uma votação formal e depois cercar o Congresso e dizer: 'aqui estão os novos deputados e vocês estão de férias, já não os queremos mais por aqui'. E começar um processo de democracia participativa. Temos tempo para fazer e existem muitas experiências no mundo. Muitos países estão buscando isso, porque as causas são globais. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br