Total de visualizações de página

Seguidores

Mostrando postagens com marcador Silenciar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Silenciar. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

CARMELITAS: A aventura da Oração.

Emanuele Boaga, O. Carm. e Augusta de Castro Cotta, CDP

A. A dimensão contemplativa da vida
1. Em nossos dias, mais do que no passado, presta-se atenção à dimensão contemplativa do ser humano, individuando-se os seus elementos ontológicos, situados no intelecto e na vontade, ou seja, na capacidade que o homem tem de conhecer e de amar. Na vida cristã tal dimensão contemplativa é resposta teologal de fé, de esperança e de caridade. Através dela, o crente se abre à revelação e à comunhão com o Deus vivo por Cristo, no Espírito Santo. A dimensão contemplativa encontra sua fonte na comunicação de Deus e é fortemente caracterizada pelo aspecto dialógico da relação Deus-homem. Realiza-se através de um conjunto de elementos: a graça divina, as virtudes teologais, os sacramentos, a oração, a ascese. A oração, como expressão da experiência teologal, constitui algo essencial e fundamental para a vida humana e cristã, tal como a respiração para o corpo.
2. A oração, como expressão da dimensão contemplativa do ser humano, é portanto o ponto de partida da maior parte dos outros aspectos do complexo fenômeno religioso. Neste sentido, considerando a fenomenologia da religião, a oração é uma realidade complexa. Apresenta muitos elementos que devem ser avaliados singularmente e no seu conjunto para que se compreenda a inter-relação profunda e a interação harmônica entre eles. Tudo isto deve ser levado em consideração para se fazer uma exposição acertada sobre a oração.
3. No âmbito cristão, o desejo de conhecer a Deus e ver o seu “rosto”, de fruir tal conhecimento e visão, fazendo portanto uma experiência do divino, concretiza-se na contemplação do mistério, porque “a luz [de Deus] refulge em nossos corações para irradiar o conhecimento da glória de Deus que brilha no rosto de Cristo” (2 Cor 4,6). A busca de Deus torna-se o centro fundamental da vida: a contemplação.
4. A contemplação é descrita por Paulo VI nestes termos: “O esforço de fixar em Deus o olhar e o coração, que nós chamamos de contemplação, torna-se o ato mais elevado e mais pleno do espírito, o ato que também hoje pode e deve organizar a imensa pirâmide da atividade humana” (homilia na IX sessão do Concílio Vaticano II - 09/12/ 1965). Contemplar vem a ser a capacidade de fixar o olhar em Deus para ver a realidade com os seus olhos e amá-la com o seu coração. A contemplação é a penetração na verdade da existência que leva a compreender e aceitar até às últimas conseqüências o desígnio salvífico. Portanto, uma realidade (unitária de todo o ser humano-cristão) de fé, de esperança e de amor, que pela ação do Espírito Santo, chega ao dom da sabedoria que permite a entrada em comunhão com Deus e seu mistério da Salvação. Neste contexto, a oração e a contemplação se identificam, tornando-se relação vital Deus-Homem e caminho unificante de toda a vida na conformidade com a vontade de Deus.

B. Descrição da Oração
5 - A oração no seu aspecto dialógico (palavra-ação de Deus e resposta do homem) apresenta uma estrutura própria ou dimensões nas quais precisamos de colocar atenção. Estas dimensões são:
- a estrutura cristológica
- a estrutura trinitária
- a estrutura eclesial
- a estrutura pessoal
- a inserção na realidade
6. Estrutura cristológica: Na oração existe uma relação pessoal e intersubjetiva entre Cristo e o nosso ser. Cristo é o sujeito da nossa oração (cf. 2Cor 1,19ss). O amor de Deus nos é comunicado através dele, pois, somente nele podemos encontrar o amor divino. Só em Cristo é possível viver a vida cristã, entendida como a escuta e a obediência a Cristo na oração. Oração cristológica significa estar plenamente em Cristo: manifestação clara e vital de nossa vida escondida em Cristo. Isto se faz na aceitação, na adoração, na ação de graças e na súplica.
7. Estrutura trinitária: a oração em Cristo é também oração por meio de Cristo. Mergulhados Nele, colocamo-nos em comunicação com o Pai que assim fala diretamente a nós, através do Espírito Santo. Entramos desta forma, em comunhão com a Trindade. A estrutura trinitária da oração leva o Cristo a tornar-se a realização de nossa existência cristã, de modo que por sua comunicação o Espírito nos permite dizer “Abba, Pai”. O espírito nos ajuda a proclamar Cristo “o Senhor”, etc. Em Cristo e por Cristo nós ficamos mergulhados na Trindade.
8. Estrutura eclesial: como “em Cristo e por Cristo” nós estamos na Trindade (comunhão interpessoal com o Pai, o Filho e o Espírito Santo) assim “em Cristo e por Cristo” nós estamos também inseridos na Igreja e exprimimos esta existência como oração eclesial (Ef 3,20-21). A estrutura trinitária torna-se eclesial: uma e outra, se realiza em Cristo e por Cristo (Mt 18,19-20). Este encontrar-se juntos na fé é expressão do Mistério da Igreja (que é ao mesmo tempo, para nós, chamado e ponto de encontro com Deus). Em vista disto, quando um grupo se reúne para a oração, descobre que não está só diante de Deus, mas que Cristo está em seu meio, e isto se exprime no acolhimento e no amor mútuo. Desfruta então a consciência individual e comunitária de pertencer a Cristo.
9. Estrutura pessoal: a estrutura eclesial não destrói, porém potencializa a relação pessoal com Deus na oração. O mesmo está na base da estrutura cristológica e trinitária. A oração individual e a oração comunitária são dois momentos inseparáveis e insubstituíveis de um único evento: a pertença a Cristo e a Deus uno e trino.
10. Inserção na realidade: a salvação é oferecida a todos os homens. S. Paulo estende a intercessão e o gemido do Espírito a toda a criação (cf. Rom 8, 19ss). Nasce o significado do pedido na oração: pedido singular, individual, coletivo, material, o “dá-nos hoje o nosso pão”. Não só isto. A oração não é somente um ato da existência cristã, ou um ato de culto, mas ao contrário é o ato e a expressão da existência cristã e do seu culto. Não há solução de continuidade entre a oração e a vida-trabalho, porque tudo está sob a Palavra e a Ação de Deus. Na oração, a existência humana se torna consciente. Encontra a revelação do sentido da vida, coisa impossível de se obter e expressar apenas na atividade, tantas vezes mesclada de ambigüidades. Exclui-se assim uma oração como finalidade em si mesma, cheia de ilusões; excluem-se também as formas exageradas de atividade (ativismo), desligadas do discernimento do projeto de Deus.
11. Oração autêntica é aquela que nos torna compenetrados da experiência viva de Deus, elevando-nos a irresistível testemunho da fé e do amor salvador pelo fato de experimentar a própria salvação.

C. A Oração diálogo-caminho com Deus
12. A oração é uma grande aventura de amor realizada com Deus, é como um diálogo e uma ascensão feita com ELE, rumo ao cume. È diálogo e caminho ou seja: realidade relacional, progressiva e dinâmica.
13. São protagonistas neste caminho: Deus (que toma a iniciativa) e o ser humano (que lhe responde).
14. O papel do Espírito: a oração não conhece limites, porque o ser humano deve deixar-se trabalhar (purificar, guiar) pelo Espírito que conduz para os caminhos por Ele escolhidos. Os dons do Espírito atuam nesta linha, especialmente:
a piedade: conduz o afeto filial a Deus
a ciência: eleva a realidade a Deus
a inteligência: ajuda a penetrar na riqueza do mistério de Deus, revelado ao longo do caminho, e a colocar o ser em sintonia com o projeto divino;
a sabedoria: permite provar a realidade divina.

15. A oração como caminho propõe atitudes que são interligadas entre si:
a) dar espaço a Deus:
• exige o silêncio e a solidão como base para a escuta e o acolhimento de Deus.
- exemplo se pode encontrar no Profeta Elias que vai ao Monte Horeb, o monte de seu encontro com Deus. Não é ele um alpinista espetacular, mas segue passo-a-passo até chegar ao cume do Horeb;
- Deus buscado, não de forma romântica, nas árvores, nem nas pedras, nos relâmpagos e no tremor de terra, mas, ouvido e experimentado na brisa leve;
- a solidão silenciosa e o silêncio solitário: portanto o sentir a palavra de Deus com os ouvidos do coração;
- o deserto: cf. Es 13,17; 3, 17; 5,1.
• a ascese individual e comunitária é o laboratório do Espírito, no qual ocorre a purificação, a elevação e união com Deus, na medida em que nos esquecemos de nós mesmos e colaboramos com a ação “crucificante” do mesmo Espírito.
b) consciência da presença de Deus:
• buscar a morada de Deus que está no centro do próprio ser;
• abrir-se conscientemente à presença de Deus em si mesmo e na criação: em, com e através de Jesus.

c) Deus companheiro no caminho: entrega e aceitação
• entrega: a consciência de Deus, presença-amiga no caminho, deve levar a entregar-se a Ele, acolhendo-O porque é o “Senhor”.
• aceitação: da sua presença orientadora, do seu projeto, deixando-se conduzir-se por suas mãos, através das circunstâncias concretas da vida quotidiana. Isto implica em esforço autêntico, empenho dinâmico (não é um deixar-se arrastar, mas um caminhar junto).
d) expressão contemplativa espontânea:
• adoração, louvor, ação de graças, súplica;
• desenvolvimento mediante formas concretas de oração correspondentes às exigências do caminho próprio da oração;

16. As dificuldades do caminho: nesta caminhada podem encontrar-se e encontram-se de fato, dificuldades que são de duas fontes:
• externas: a ambigüidade das coisas, a securalização, etc.
• internas: os pecados, ocupações e preocupações excessivos; preguiça: apegos; formalismo, medo ou temor de “deixar-se conduzir por Deus”.

17. As dificuldades podem ser superadas com:
• orientação personalizada e ajuda para a interiorização da oração e das suas formas concretas;
• renovação dos métodos, em resposta às exigências do momento e necessidades pessoais;
• esforço sincero de conversão;
• testemunho autêntico, porém nos limites da oração-vida, vida-oração.
18. O caminho que nos conduz à meta é longo e por isso temos sempre necessidade de sermos socorridos e educados por Deus para que, com fidelidade, possamos caminhar. Por isso, devemos dizer junto com os Apóstolos: “Senhor, ensina-nos a rezar” (Lc 11,1).

APROFUNDAMENTO E INTERIORIZAÇÃO
1. Para pesquisar e partilhar, ou fazer em grupos, como forma de aprofundamento:

• Argumentar as seguintes afirmações:
1 - Na vida cristã a dimensão contemplativa é resposta teologal da fé, da esperança e da caridade.
2 - A dimensão contemplativa se caracteriza pelo aspecto dialógico da relação entre Deus e o ser humano.
3 - Contemplar é fixar o próprio olhar em Deus para ver a realidade com seus olhos e amá-la com o seu coração.
• Dê sua impressão sobre as dimensões da estrutura da oração. Elas lhe parecem independentes ou complementares? Por quê?
• Refletir sobre a oração como necessidade da mesma natureza humana, à luz das seguintes considerações bíblicas: Rom 1,18-20 e At 17, 27-28: “A procura de Deus faz parte da própria natureza humana que não se realiza fora dela”. Ilustrar a afirmação destes textos bíblicos com fatos da atual realidade (as buscas da verdade e do transcendente pelo homem de nossos dias, nas diversas situações humanos e categorias sociais).
• O surto da “Nova Era”, oferece suas crenças, seus ritos e símbolos, como resultado do vazio de Deus, criado pela pós-modernidade, pela era do consumismo, do secularismo e do tecnicismo. Discutir as interpelações que esta postura do homem moderno pode fazer à nossa vida cristã e religiosa (ou consagrada). Como pensa que agiriam os Profetas neste contexto?
• Acompanhar, nos Evangelhos a Cristo modelo, mestre e mediador da oração cristã. Tomar algumas passagens para interiorização:
- Jo 1,18; 10,30. 38.14,11: Cristo, o revelador do Pai
- Mt 6,5-15: aprofundar o conteúdo ensinado por Jesus a respeito da vida de oração
- Rom 12,4-5; Gal 3,26-28; Jo 1,12: nos revelam nossa ligação com Cristo. Refletir sobre as repercussões desta verdade sobre a nossa vida de relação com o Pai (a divindade)
- Em Col 1,29; Gal 2,20; Jo 14,13; 15,16: o que podemos aprender de prático para nossa oração.
 • O diálogo com Deus pode ser realizado com todos os meios expressivos: mente, coração, sentimento voz, gesto, comportamento, lugar, tempo. Discutir sobre a utilização dos mesmos, em sua:
- relação entre a vida interior e o comportamento externo das pessoas;
- ligação dos diversos recursos com o ensinamento de Jesus em Mt 6,5-9; 26,39.42.44; 27, 46; Lc 23,46;
- busca de compreensão dos gestos orantes de Jesus e seus discípulos: Mt 14,19; Jo 11,41 (levantou os olhos ao céu); 1Tim 2,8 (elevou as mãos); Lc 22,41; At 20,36; Ef 3,14 (inclinação, pôr-se de joelhos, em sinal de adoração); Lc 18,11.13 (estar em pé, corpo ereto, olhos baixos, em sinal de sacrifício).
 • Analisar os ritmos e os lugares onde Jesus rezava:
- escolha de tempos reservados à oração: Lc 4,16; 18,1-8; Jo 7,10;
- o acompanhamento das festas litúrgicas: Lc 2, 41-49;
- busca da solidão: Mt 6,6; 14,23; Mc 1,35; 6,31; Lc 4,42; 5,16; 6,12; 11,1;
- presença nos lugares de encontro da comunidade orante: Mt 12,13; Mc 11,15; Lc 2, 22ss; 19,45-47.
2. As questões que seguem são para reflexão individual, anotação no próprio diário espiritual e partilha com o Mestre ou diretor espiritual. Esta parte deve ser feita com serenidade, em momentos de solidão previstos para o cuidado da vida espiritual do formando.
• Tomar como oração preparatória os textos bíblicos:
* Sab 9 - Pedir a Deus a sabedoria da vida
* I Reis 17, 1- 24 - O Senhor alimenta o seu Profeta
* Selecionar algum dos textos citados e fazer oração a partir dele.
• Selecionar os textos bíblicos citados no exercício acima que:
- lhe causaram maior impressão
- constituíram uma nova descoberta
- confirmam o que já pensava sobre a oração na vida humano-cristã
- lhe trazem dificuldade de compreensão ou para a prática.
• Com que fatos da vida de Nossa Senhora você mais aprende a viver com Deus e para Deus? Por que pensa assim?
• Como pode assumir na sua vida orante as diversas dimensões da oração?
• Das atitudes orantes de Cristo com qual delas você mais se identificou?
• Se não fosse chamado à vida carmelitana acha que mesmo assim precisaria de desenvolver uma vida de profunda oração? Por quê?
Feitos os exercícios não deixe de procurar ajuda com seu orientador espiritual. Ela é indispensável para o seu crescimento humano-espiritual-carmelitano.

Procure tirar as dúvidas, partilhar suas descobertas, desafios, dificuldades, expectativas, compromissos.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

OUÇA O SILÊNCIO.

Lutar contra o vício em barulho revela o que realmente importa para viver bem.

Em uma sociedade na qual fazer barulho, seja online ou offline, virou sinônimo de sucesso, o silêncio parece ter virado um luxo, disponível apenas para quem puder comprá-lo em condomínios exclusivos ou lounges de companhias aéreas. Mas o bem-estar ao alcance pelo poder aquisitivo é, se tanto, uma amostra do que essa busca pode oferecer. Para ter o pacote completo, a resposta está aí dentro, no seu silêncio, que é ainda mais exclusivo: só você pode descobri-lo e usufruir dele.
É fácil se corromper com os desafios pelo caminho. Na era dos textões de Facebook e da avalanche de snaps, o silêncio e a reflexão acabam jogados para escanteio. Como estamos imersos na confusão, parece que precisamos participar de tudo e falar cada vez mais alto. Só que vale a pena se calar um pouco, inclusive para aprender que o silêncio não é senha para submissão.
"Pelo contrário”, afirma Marcelo Dermazo, professor de Medicina Preventiva da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). “Viver no piloto automático, simplesmente reagindo às situações, não satisfaz mais. As pessoas querem entender quem são e, no silêncio, encontram tempo para observar e refletir", completa. Ele também afirma que essa busca não se trata de uma fuga da vida moderna, mas sim entender que se expressar apenas para não ficar fora do jogo pode ser puro desperdício de energia.

CALADOS
Eles vão falar apenas para explicar o motivo de o silêncio ser necessário.

Esse equilíbrio exige sacrifícios, claro, mas ao final do processo é comum os adeptos do silêncio mostrarem alívio ao falarem sobre o que tiveram de abrir mão. É o caso do ex-monge budista e arquiteto Marcio Lupion, 54, que por dez anos praticou o voto de silêncio.
"Abri mão de uma série de coisas que não me faziam feliz. Você percebe que quando chegava perto das pessoas e falava coisas do seu interesse, não se dava ao trabalho de perceber se o outro estava interessado. Percebi que existia um monólogo, cada um conversava consigo mesmo. Não tem nada muito fantasioso, é aprender a respirar e a ser verdadeiro com você mesmo. Ouvir é demonstrar afeto", afirma. 
De acordo com a proposta, só quando mudamos de postura conseguimos perceber o quanto o supérfluo pode se tornar nocivo. "Durante um retiro de silêncio, é comum ter quem diga que não aguenta mais a ausência de som. Nesses momentos, eu falo: 'para quieto, em silêncio, você não ouve nada? Tem um carro passando na estrada, ruído de passarinhos cantando e pelo menos mais quatro tipos de inseto, o farfalhar do vento nas folhas'. É uma barulheira danada, mas as pessoas não conseguem ouvir porque estão acostumadas à gritaria", diz Osmar Ludovico, teólogo, diretor espiritual e autor de “Meditatio”.
Mesmo que não haja um isolamento, é importante ter momentos de descanso para os ouvidos. É o que pensa a especialista Alice Bernardi, membro do Departamento de Audição e Equilíbrio da SBFA (Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia). Ela crê que a atual geração terá um envelhecimento auditivo precoce, resultado do vício em barulho. O indivíduo que quiser atenuar ou até mesmo superar esse quadro precisa de uma ação radical, e esse tipo de choque é oferecido a quem visita centros como o retiro de silêncio Vipassana, em Miguel Pereira, no Rio de Janeiro.
O sítio que serve de base para o curso fica isolado no meio da mata. É para relaxar, mas não tem oba-oba. Existem regras. Horário para as refeições, para acordar, às 6h, e dormir, às 21h. Além disso, homens e mulheres ficam separados. E nem mesmo no caminho para as áreas comuns, como refeitório e sala de meditação, é possível cruzar com o gênero oposto. Placas de "Limite" estão espalhadas pelo local. Tudo para evitar "distrações".
Estar em silêncio é uma questão de hábito. Não estamos acostumados a desafiar a nossa mente matraca. Mas para ter equilíbrio mental, precisamos diminuir a falação interna 
Arthur Shaker, antropólogo e coordenador do núcleo de neurociências da Casa de Dharma, centro budista Theravada, em SP
Quem explicou ao TAB sobre a técnica de meditação, uma das mais antigas da Índia, foi Macarena Infante. A chilena é professora do método há dez anos. Pode parecer clichê, mas Macarena transmite paz e sabedoria. Quando você a ouve, logo surge na sua mente um "nossa, é verdade" ou "meu Deus, isso acontece comigo", entre outros pensamentos. "As respostas para os nossos problemas não estão fora, mas dentro de nós mesmos. Aprendemos a não produzir sofrimento. Estamos acostumados a chorar, ter raiva, mas essa é a parte mais burra da mente", afirma a professora.
No Vipassana, você descobre, compreende e aceita. Esse é o primeiro passo para uma mudança interior. "Apenas no silêncio conseguimos perceber as reações bioquímicas do nosso corpo quando sentimos o que não gostamos, quais efeitos isso produz em nós e nos outros e erradicamos isso", diz Macarena.
Não é uma prática religiosa e, sim, o silêncio como chave para limpar e purificar a mente. Qualquer pessoa que esteja saudável e motivada pode fazer. Há listas de espera e um processo de inscrição no qual perguntam algumas vezes se os candidatos estão realmente dispostos: são dez dias sem comunicação - verbal e gestual. E nada de livros, celular ou caderninhos de anotação. É você com você mesmo e dez horas de meditação diária, em momentos espaçados.
Não custa absolutamente nada. Os centros do Brasil e do mundo se mantêm com doações dos próprios alunos, seja de trabalho voluntário ou algum bem material, que oferecem só depois de fazer o curso. A chilena frisa que Vipassana não é poção mágica. Trata-se de um processo. E os cursos chegam a mais de 30 dias sequenciais de quietude.
Parece assustador? Não para Gianni Galiano Vintimilla, 25, que passou três meses na Índia no ano passado após se formar em Administração em São Paulo. O objetivo era fazer trabalho voluntário com crianças da zona rural da cidade de Nagpur, na região central. Ela contou que descobriu o Vipassana na tentativa de absorver experiências culturais do país. 
"Tudo foi muito intenso e cada dia era uma descoberta. Os pensamentos vinham a mil. Acabei fazendo uma limpa, voltando mais leve. Hoje, quando sinto algo negativo, coloco em prática o que aprendi e não sofro tanto. Eles dizem que é um processo de purificação, no qual você elimina as três principais causas de infelicidade: desejo, aversão e ignorância".
Tudo bem pensar "que difícil, nunca conseguiria" ou, mais ainda, "quero muito passar por isso". Religiosos, guias espirituais e psicanalistas consultados peloTAB acreditam que a maioria das pessoas não se conhece além do superficial "gosto ou não de tal coisa".
Foi também por esse motivo que a jornalista Suzana Ferreira, 35, decidiu procurar o Vipassana. Ela passou pelo curso em agosto deste ano e, por querer se "afastar totalmente", a maior dificuldade não foi exatamente ficar sem comunicação. "Os problemas vão aparecendo durante o processo. Via pessoas sofrendo, chorando, mas não podia fazer nada para interferir, faz parte da descoberta de cada um. Eu mesma pensei em desistir todos os dias. É muito difícil". É impossível parar a mente.

A natureza dela é essa: pensar 
Macarena Infante , professora de Vipassana

Suzana tem um problema de audição e contou que, durante o voto de silêncio, percebeu o quanto potencializa tudo, inclusive suas dores. "Muitas vezes pensava: 'o que estou fazendo aqui? Está doendo, eu deveria estar em um hospital'". Mas era só esperar que passava. "Não reclamar ou me preocupar é complicado. Por isso, o principal aprendizado foi a questão da impermanência: desapegar das dores, pessoas e problemas porque tudo vai passar, o que é ruim e o que é bom também."
O silêncio tem um significado particular para cada indivíduo. No caso dos religiosos, o suporte para seguir na quietude está em se encontrar com Deus. Irmã Maria José, 41, que já foi franciscana, encontrou o sentido para sua vida na congregação das Carmelitas Mensageiras do Espírito Santo, da qual faz parte há 16 anos. O carisma é contemplar para evangelizar. Embora seja um voto perpétuo, ela afirma que o "silêncio não custa, é uma necessidade".
"O verdadeiro silêncio é aquele que você consegue aquietar as faculdades. Silenciar os pensamentos. Temos uma tendência a julgar o outro, tantos juízos que fazemos de maneira precipitada. Educar os pensamentos, o coração e não se deixar prender por tantas preocupações. É um silêncio que não me leva a um vazio existencial, mas ao encontro com o outro."
A fonoaudióloga Claudia Cotes afirma que o equilíbrio entre silêncio e fala é essencial para o bem-estar do ser humano, que sempre vai viver momentos de crise. “Na medida que você se conhece, fica no silêncio, e depois passa a usar isso para ter uma fala mais equilibrada, é sinal que encontrou esse conforto”, explica.
Claudia acredita que o problema da sociedade atual é a falta de medida. Avanços tecnológicos, redes sociais, YouTube.... Tudo isso chega para agregar, mas quando perdemos o controle, falamos apenas de nós e esquecemos do outro. “A comunicação tem um grande poder, mas precisamos usá-la a nosso favor. Quando você fala desenfreadamente, só de você, perde os vínculos, não tem troca, fica algo vazio”, afirma.
Há 28 anos como professor do curso de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie, em São Paulo, Marcio Lupion afirma que encontrou nas aulas o meio de transmitir para os alunos a importância de conseguir perceber as pessoas. “As ligações mais profundas nascem com aqueles que conseguimos ouvir”, diz.
A passagem dele pelo mosteiro aconteceu entre os 21 e 31 anos, depois de ler a Bíblia “pelo menos umas dez vezes”. O voto não exigiu calar a boca por dez anos, mas foram seis meses de silêncio absoluto e três anos sem se olhar no espelho. A saída aconteceu quando os professores perceberam que ele estava se divertindo lá. “’Está na hora de você transformar tudo o que aprendeu aqui em bem-estar para as pessoas. ’ Foi o que meus professores falaram quando me pediram para sair”, afirma.
Para Suzana, a jornalista que fez o curso de Vipassana e pretende retornar em breve, o aprendizado não termina nunca. “Se não tenho paciência com alguma situação, vou segurar a reação e tentar não ferir o outro. Não é um milagre do tipo ‘faço um retiro, vou ficar zen e as coisas não vão me atingir’. É preciso exercitar a mente para superar as falhas e não se apegar aos sentimentos que causam sensações ruins. Se perdoar e entender que o outro também falha”, diz. Fonte: http://tab.uol.com.br



quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A Contemplação na experiência dos grandes místicos.


"Toda contemplação verdadeira nos leva ao encontro com o Cristo pobre, rasgado, cuspido, violentado, ensanguentado e abandonado na zona rural, nos viadutos, nas ruas e nas portas das nossas Igrejas". Frei Petrônio de Miranda (Foto), Padre Carmelita e Jornalista. Convento do Carmo, Lapa, Rio de Janeiro. www.olharjornalistico.com.br

RAFAEL CHECA CURI

            A Igreja vive da contemplação que lhe permite peregrinar na trajetória da história humana, pendente de Deus e de sua palavra. O Espírito Santo ilumina seu roteiro, descobrindo-lhe, cada vez mais profundamente, o mistério de Deus, do homem e do mundo. O próprio Deus não é uma abstração ou, apenas, uma esperança. Sua presença, a de Cristo ressuscitado e glorioso, é uma consoladora experiência. Jesus Cristo vive em seu corpo místico. A comunidade o compreende e o sente. A Igreja experimenta um crescimento gradual, na ordem do conhecimento sapiencial do mistério de Deus, da esperança ativa que a impele a transformar a sociedade humana, da caridade e do amor que faz presente o Senhor no mundo, como pai e como irmão dos homens.
           Esta experiência de que goza a Igreja se concretiza em seus membros, que participam desse dom contemplativo, na medida em que Deus lhos outorga gratuitamente e eles se dispõem a recebê-lo. O Concílio Vaticano II fez-se consciente desta realidade, quando considerou a necessidade de conservar e aumentar no homem as "faculdades da contemplação e da admiração que levam à sabedoria" (G.S. 56). Com isso o homem, "mais livre da escravidão das coisas, pode ser elevado com maior facilidade ao próprio culto e à contemplação do Criador" (G.S. 57).
            Todos nós levamos, ao recebermos o batismo, o germe da contemplação. Nossa inserção em Cristo, como cepas na videira (Jo 15,15), permite-nos viver sua vida de união com o Pai e de docilidade face à ação do Espírito. Essa vida é Vida de fé, de esperança e de caridade. Em São João da Cruz, "contemplar", mais do que grau de oração mística, é vida teologal em exercício, comunicação de Deus transcendente, acolhido em fé e amor. E a vida teologal é patrimônio do cristão e do homem a quem Deus a conceder.
            É claro que, se é vida e dinamismo da pessoa, está sujeita ao imperativo do crescimento gradual. Este crescimento supõe uma meta, a que Deus chama, ainda nesta vida e que, obviamente, amplia indefinidamente na glória. Do mesmo modo, todos os humanos estamos chamados à maturidade da vida, mesmo se alguns morrem na infância, na adolescência ou na juventude.
            A contemplação, Vida de face a face com Deus, passa por essas diversas idades: infância, adolescência, juventude e plena maturidade. Os grandes santos percorreram todas as etapas, ou, melhor dizendo, foram impelidos pela ação de Deus e por seu livre concurso, através de todas elas, até a comunhão plena do amor.
            Esses cristãos são os que chamados místicos, isto é, homens ou mulheres que viveram e experimentaram o mistério de Deus e de suas relações.
      A trajetória desses gigantes do espírito pode sintetizar-se assim: a contemplação cristã é obra do Espírito Santo, este intervém desde a arrancada inicial e prossegue através de cada uma das etapas: sua presença e sua ação, a medida que são mais intensas, potenciam qualitativa e quantitativamente as capacidades de crescimento espiritual da pessoa; esse desenvolver-se identificada ;mais e mais a pessoa com Cristo e abre-a para uma consciência de sua proximidade, de sua presença, de seu amor e de sua ação a partir de um momento querido por Deus, sua experiência começa a ser mais consciente e mais explícita: quando a presença divina e seu amor e influência se fazem mais lúcidos e relevantes, a obra de transformação e de união divino-humana adquirem uma expressão mística.
            Esses grandes místicos que atingiram o ponto mais algo do cimo da comunhão com Deus estão presentes em toda a história cristã.