Total de visualizações de página

Seguidores

Mostrando postagens com marcador o silêncio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador o silêncio. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

OUÇA O SILÊNCIO.

Lutar contra o vício em barulho revela o que realmente importa para viver bem.

Em uma sociedade na qual fazer barulho, seja online ou offline, virou sinônimo de sucesso, o silêncio parece ter virado um luxo, disponível apenas para quem puder comprá-lo em condomínios exclusivos ou lounges de companhias aéreas. Mas o bem-estar ao alcance pelo poder aquisitivo é, se tanto, uma amostra do que essa busca pode oferecer. Para ter o pacote completo, a resposta está aí dentro, no seu silêncio, que é ainda mais exclusivo: só você pode descobri-lo e usufruir dele.
É fácil se corromper com os desafios pelo caminho. Na era dos textões de Facebook e da avalanche de snaps, o silêncio e a reflexão acabam jogados para escanteio. Como estamos imersos na confusão, parece que precisamos participar de tudo e falar cada vez mais alto. Só que vale a pena se calar um pouco, inclusive para aprender que o silêncio não é senha para submissão.
"Pelo contrário”, afirma Marcelo Dermazo, professor de Medicina Preventiva da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). “Viver no piloto automático, simplesmente reagindo às situações, não satisfaz mais. As pessoas querem entender quem são e, no silêncio, encontram tempo para observar e refletir", completa. Ele também afirma que essa busca não se trata de uma fuga da vida moderna, mas sim entender que se expressar apenas para não ficar fora do jogo pode ser puro desperdício de energia.

CALADOS
Eles vão falar apenas para explicar o motivo de o silêncio ser necessário.

Esse equilíbrio exige sacrifícios, claro, mas ao final do processo é comum os adeptos do silêncio mostrarem alívio ao falarem sobre o que tiveram de abrir mão. É o caso do ex-monge budista e arquiteto Marcio Lupion, 54, que por dez anos praticou o voto de silêncio.
"Abri mão de uma série de coisas que não me faziam feliz. Você percebe que quando chegava perto das pessoas e falava coisas do seu interesse, não se dava ao trabalho de perceber se o outro estava interessado. Percebi que existia um monólogo, cada um conversava consigo mesmo. Não tem nada muito fantasioso, é aprender a respirar e a ser verdadeiro com você mesmo. Ouvir é demonstrar afeto", afirma. 
De acordo com a proposta, só quando mudamos de postura conseguimos perceber o quanto o supérfluo pode se tornar nocivo. "Durante um retiro de silêncio, é comum ter quem diga que não aguenta mais a ausência de som. Nesses momentos, eu falo: 'para quieto, em silêncio, você não ouve nada? Tem um carro passando na estrada, ruído de passarinhos cantando e pelo menos mais quatro tipos de inseto, o farfalhar do vento nas folhas'. É uma barulheira danada, mas as pessoas não conseguem ouvir porque estão acostumadas à gritaria", diz Osmar Ludovico, teólogo, diretor espiritual e autor de “Meditatio”.
Mesmo que não haja um isolamento, é importante ter momentos de descanso para os ouvidos. É o que pensa a especialista Alice Bernardi, membro do Departamento de Audição e Equilíbrio da SBFA (Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia). Ela crê que a atual geração terá um envelhecimento auditivo precoce, resultado do vício em barulho. O indivíduo que quiser atenuar ou até mesmo superar esse quadro precisa de uma ação radical, e esse tipo de choque é oferecido a quem visita centros como o retiro de silêncio Vipassana, em Miguel Pereira, no Rio de Janeiro.
O sítio que serve de base para o curso fica isolado no meio da mata. É para relaxar, mas não tem oba-oba. Existem regras. Horário para as refeições, para acordar, às 6h, e dormir, às 21h. Além disso, homens e mulheres ficam separados. E nem mesmo no caminho para as áreas comuns, como refeitório e sala de meditação, é possível cruzar com o gênero oposto. Placas de "Limite" estão espalhadas pelo local. Tudo para evitar "distrações".
Estar em silêncio é uma questão de hábito. Não estamos acostumados a desafiar a nossa mente matraca. Mas para ter equilíbrio mental, precisamos diminuir a falação interna 
Arthur Shaker, antropólogo e coordenador do núcleo de neurociências da Casa de Dharma, centro budista Theravada, em SP
Quem explicou ao TAB sobre a técnica de meditação, uma das mais antigas da Índia, foi Macarena Infante. A chilena é professora do método há dez anos. Pode parecer clichê, mas Macarena transmite paz e sabedoria. Quando você a ouve, logo surge na sua mente um "nossa, é verdade" ou "meu Deus, isso acontece comigo", entre outros pensamentos. "As respostas para os nossos problemas não estão fora, mas dentro de nós mesmos. Aprendemos a não produzir sofrimento. Estamos acostumados a chorar, ter raiva, mas essa é a parte mais burra da mente", afirma a professora.
No Vipassana, você descobre, compreende e aceita. Esse é o primeiro passo para uma mudança interior. "Apenas no silêncio conseguimos perceber as reações bioquímicas do nosso corpo quando sentimos o que não gostamos, quais efeitos isso produz em nós e nos outros e erradicamos isso", diz Macarena.
Não é uma prática religiosa e, sim, o silêncio como chave para limpar e purificar a mente. Qualquer pessoa que esteja saudável e motivada pode fazer. Há listas de espera e um processo de inscrição no qual perguntam algumas vezes se os candidatos estão realmente dispostos: são dez dias sem comunicação - verbal e gestual. E nada de livros, celular ou caderninhos de anotação. É você com você mesmo e dez horas de meditação diária, em momentos espaçados.
Não custa absolutamente nada. Os centros do Brasil e do mundo se mantêm com doações dos próprios alunos, seja de trabalho voluntário ou algum bem material, que oferecem só depois de fazer o curso. A chilena frisa que Vipassana não é poção mágica. Trata-se de um processo. E os cursos chegam a mais de 30 dias sequenciais de quietude.
Parece assustador? Não para Gianni Galiano Vintimilla, 25, que passou três meses na Índia no ano passado após se formar em Administração em São Paulo. O objetivo era fazer trabalho voluntário com crianças da zona rural da cidade de Nagpur, na região central. Ela contou que descobriu o Vipassana na tentativa de absorver experiências culturais do país. 
"Tudo foi muito intenso e cada dia era uma descoberta. Os pensamentos vinham a mil. Acabei fazendo uma limpa, voltando mais leve. Hoje, quando sinto algo negativo, coloco em prática o que aprendi e não sofro tanto. Eles dizem que é um processo de purificação, no qual você elimina as três principais causas de infelicidade: desejo, aversão e ignorância".
Tudo bem pensar "que difícil, nunca conseguiria" ou, mais ainda, "quero muito passar por isso". Religiosos, guias espirituais e psicanalistas consultados peloTAB acreditam que a maioria das pessoas não se conhece além do superficial "gosto ou não de tal coisa".
Foi também por esse motivo que a jornalista Suzana Ferreira, 35, decidiu procurar o Vipassana. Ela passou pelo curso em agosto deste ano e, por querer se "afastar totalmente", a maior dificuldade não foi exatamente ficar sem comunicação. "Os problemas vão aparecendo durante o processo. Via pessoas sofrendo, chorando, mas não podia fazer nada para interferir, faz parte da descoberta de cada um. Eu mesma pensei em desistir todos os dias. É muito difícil". É impossível parar a mente.

A natureza dela é essa: pensar 
Macarena Infante , professora de Vipassana

Suzana tem um problema de audição e contou que, durante o voto de silêncio, percebeu o quanto potencializa tudo, inclusive suas dores. "Muitas vezes pensava: 'o que estou fazendo aqui? Está doendo, eu deveria estar em um hospital'". Mas era só esperar que passava. "Não reclamar ou me preocupar é complicado. Por isso, o principal aprendizado foi a questão da impermanência: desapegar das dores, pessoas e problemas porque tudo vai passar, o que é ruim e o que é bom também."
O silêncio tem um significado particular para cada indivíduo. No caso dos religiosos, o suporte para seguir na quietude está em se encontrar com Deus. Irmã Maria José, 41, que já foi franciscana, encontrou o sentido para sua vida na congregação das Carmelitas Mensageiras do Espírito Santo, da qual faz parte há 16 anos. O carisma é contemplar para evangelizar. Embora seja um voto perpétuo, ela afirma que o "silêncio não custa, é uma necessidade".
"O verdadeiro silêncio é aquele que você consegue aquietar as faculdades. Silenciar os pensamentos. Temos uma tendência a julgar o outro, tantos juízos que fazemos de maneira precipitada. Educar os pensamentos, o coração e não se deixar prender por tantas preocupações. É um silêncio que não me leva a um vazio existencial, mas ao encontro com o outro."
A fonoaudióloga Claudia Cotes afirma que o equilíbrio entre silêncio e fala é essencial para o bem-estar do ser humano, que sempre vai viver momentos de crise. “Na medida que você se conhece, fica no silêncio, e depois passa a usar isso para ter uma fala mais equilibrada, é sinal que encontrou esse conforto”, explica.
Claudia acredita que o problema da sociedade atual é a falta de medida. Avanços tecnológicos, redes sociais, YouTube.... Tudo isso chega para agregar, mas quando perdemos o controle, falamos apenas de nós e esquecemos do outro. “A comunicação tem um grande poder, mas precisamos usá-la a nosso favor. Quando você fala desenfreadamente, só de você, perde os vínculos, não tem troca, fica algo vazio”, afirma.
Há 28 anos como professor do curso de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie, em São Paulo, Marcio Lupion afirma que encontrou nas aulas o meio de transmitir para os alunos a importância de conseguir perceber as pessoas. “As ligações mais profundas nascem com aqueles que conseguimos ouvir”, diz.
A passagem dele pelo mosteiro aconteceu entre os 21 e 31 anos, depois de ler a Bíblia “pelo menos umas dez vezes”. O voto não exigiu calar a boca por dez anos, mas foram seis meses de silêncio absoluto e três anos sem se olhar no espelho. A saída aconteceu quando os professores perceberam que ele estava se divertindo lá. “’Está na hora de você transformar tudo o que aprendeu aqui em bem-estar para as pessoas. ’ Foi o que meus professores falaram quando me pediram para sair”, afirma.
Para Suzana, a jornalista que fez o curso de Vipassana e pretende retornar em breve, o aprendizado não termina nunca. “Se não tenho paciência com alguma situação, vou segurar a reação e tentar não ferir o outro. Não é um milagre do tipo ‘faço um retiro, vou ficar zen e as coisas não vão me atingir’. É preciso exercitar a mente para superar as falhas e não se apegar aos sentimentos que causam sensações ruins. Se perdoar e entender que o outro também falha”, diz. Fonte: http://tab.uol.com.br



quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A profecia do silêncio.

Enzo Bianchi

Precisamos do silêncio também do ponto de vista espiritual. Não se trata simplesmente de abster-se de falar ou da ausência de ruídos, mas sim do silêncio interior, aquela dimensão que nos restitui a nós mesmos, nos coloca no plano do ser, diante do essencial.
A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal Avvenire, dos bispos italianos, 29-08-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Se na nossa sociedade "o homem tornou-se um apêndice do ruído" (Max Picard), faz cada vez mais urgente a exigência de que cada um reencontre a sua própria humanidade através da redescoberta do silêncio e da aprendizagem da antiquíssima arte de "ouvir o silêncio". Empreendimento certamente nada simples, se ainda Heráclito definia os seus próprios semelhantes como "incapazes de ouvir e de falar": desde então, talvez, temos a impressão de ter dado passos à frente na capacidade de falar, mas certamente quanto à escuta parecemos ter voltado séculos. Temos a necessidade de uma pedagogia da escuta que só pode ter início a partir do silêncio. Sim, "ouvir o silêncio" pode parecer um oxímoro, mas é a chave que abre o mundo da escuta autêntica e da compreensão do que se sente.
A tradição espiritual, não só cristã, sempre reconheceu a essencialidade do silêncio para uma vida interior autêntica. "A oração – disse Savonarola , que entendia bem de discursos apaixonados – tem como pai o silêncio e como mãe a solidão". Só o silêncio, de fato, torna possível a escuta, isto é, a acolhida em si não apenas da palavra pronunciada, mas também da presença daquele que fala. O silêncio é linguagem de amor, de profundidade, de presença ao outro. Além disso, na experiência amorosa, o silêncio é muitas vezes linguagem mais eloquente, intensa e comunicativa do que as palavras.
Infelizmente, hoje, o silêncio é raro, talvez seja a realidade mais ausente nos nossos dias: somos bombardeados por mensagens sonoras e visuais, os ruídos nos roubam da nossa interioridade, e as próprias palavras são empobrecidas pelo fato de serem gritadas, reduzidas a slogans ou invectivas.
Ora, "quando diminui o prestígio da linguagem, aumenta o do silêncio" (Susan Sontag). Devemos confessar: precisamos do silêncio! Ele nos é necessário de um ponto de vista puramente antropológico, porque o homem, que é um ser de relação, comunica de modo equilibrado e equilibrado apenas graças à harmônica relação entre palavra e silêncio.
Mas precisamos do silêncio também do ponto de vista espiritual. Para a fé judaica e cristã, o silêncio é uma dimensão teológica: no monte Horeb, o profeta Elias percebeu que estava na presença de Deus não no estrondo do vento, trovões e terremoto, mas somente quando ele ouviu "a voz de um silêncio sutil" (1Rs 19, 12). Inácio de Antioquia diria que Cristo é "a Palavra que procede do silêncio".
Não se trata simplesmente de abster-se de falar ou da ausência de ruídos, mas sim do silêncio interior, aquela dimensão que nos restitui a nós mesmos, nos coloca no plano do ser, diante do essencial. "No silêncio, é inerente um maravilhoso poder de observação, de esclarecimento, de concentração sobre as coisas essenciais" (Dietrich Bonhoeffer).
O silêncio é guardião da interioridade, já que nos conduz de uma dimensão primária e "negativa" de sobriedade, disciplina no falar ou mesmo de abstenção de palavras, a um nível mais profundo, de intensa vida espiritual: isto é, de silenciar os pensamentos, as imagens, as rebeliões, os julgamentos, as murmurações que nascem no coração. É o difícil silêncio interior, aquele que encontra o seu próprio âmbito vital no coração, lugar da luta espiritual. Mas justamente esse silêncio profundo gera a atenção, a acolhida, a empatia com relação ao outro.
O silêncio escava no nosso profundo um espaço para ali fazer habitar a alteridade, para fazer ressoar a palavra e, ao mesmo tempo, nos dispõe à escuta inteligente, ao falar comedido, ao discernimento daquilo que arde no coração do outro e que está escondido no silêncio do qual nascem as suas palavras. O silêncio, então, esse silêncio, suscita em nós a caridade, o amor pelo irmão.
"O silencioso torna-se fonte de graça para quem ouve", afirmara São Basílio. Para o cristão, a referência à escuta obediente da Palavra de Deus, à acolhida do Verbo feito carne é evidente e extremamente eloquente.
Não por acaso é esse silêncio que chega a nós a partir de uma longa história espiritual: é o silêncio buscado e praticado pelos hesicastos para obter a unificação do coração, o silêncio da tradição monástica voltado à acolhida em si da palavra de Deus, o silêncio da oração de adoração da presença de Deus. Mas também é o silêncio caro aos místicos de todas as tradições religiosas e, antes ainda, é o silêncio do qual a linguagem poética está embebida, o silêncio que constitui a própria matéria da música, o silêncio essencial a todo ato comunicativo.
O silêncio, evento de profundidade e de unificação, torna o corpo eloquente, levando-nos a habitar o nosso corpo, a alimentar a nossa vida interior, guiando-nos para aquele habitare secum tão precioso para a tradição monástica como para a filosófica. O corpo habitado pelo silêncio torna-se revelação da pessoa inteira.
Tentemos, então, encontrar no ritmo da nossa vida um tempo para ouvir o silêncio: conseguiremos captar os esforços realizados para criá-lo e cuidá-lo, discernir os sons imperceptíveis da presença de outras criaturas ao nosso lado, compreender o não dito que habita a grande quantidade de palavras, ter inteligência do que acontece – ou seja, literalmente, a "ler dentro" dos eventos – e, finalmente, também ouvir melhor a nós mesmos e aos outros quando eles falam ao nosso coração e à nossa mente, e não só aos nossos ouvidos.