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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A profecia do silêncio.

Enzo Bianchi

Precisamos do silêncio também do ponto de vista espiritual. Não se trata simplesmente de abster-se de falar ou da ausência de ruídos, mas sim do silêncio interior, aquela dimensão que nos restitui a nós mesmos, nos coloca no plano do ser, diante do essencial.
A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal Avvenire, dos bispos italianos, 29-08-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Se na nossa sociedade "o homem tornou-se um apêndice do ruído" (Max Picard), faz cada vez mais urgente a exigência de que cada um reencontre a sua própria humanidade através da redescoberta do silêncio e da aprendizagem da antiquíssima arte de "ouvir o silêncio". Empreendimento certamente nada simples, se ainda Heráclito definia os seus próprios semelhantes como "incapazes de ouvir e de falar": desde então, talvez, temos a impressão de ter dado passos à frente na capacidade de falar, mas certamente quanto à escuta parecemos ter voltado séculos. Temos a necessidade de uma pedagogia da escuta que só pode ter início a partir do silêncio. Sim, "ouvir o silêncio" pode parecer um oxímoro, mas é a chave que abre o mundo da escuta autêntica e da compreensão do que se sente.
A tradição espiritual, não só cristã, sempre reconheceu a essencialidade do silêncio para uma vida interior autêntica. "A oração – disse Savonarola , que entendia bem de discursos apaixonados – tem como pai o silêncio e como mãe a solidão". Só o silêncio, de fato, torna possível a escuta, isto é, a acolhida em si não apenas da palavra pronunciada, mas também da presença daquele que fala. O silêncio é linguagem de amor, de profundidade, de presença ao outro. Além disso, na experiência amorosa, o silêncio é muitas vezes linguagem mais eloquente, intensa e comunicativa do que as palavras.
Infelizmente, hoje, o silêncio é raro, talvez seja a realidade mais ausente nos nossos dias: somos bombardeados por mensagens sonoras e visuais, os ruídos nos roubam da nossa interioridade, e as próprias palavras são empobrecidas pelo fato de serem gritadas, reduzidas a slogans ou invectivas.
Ora, "quando diminui o prestígio da linguagem, aumenta o do silêncio" (Susan Sontag). Devemos confessar: precisamos do silêncio! Ele nos é necessário de um ponto de vista puramente antropológico, porque o homem, que é um ser de relação, comunica de modo equilibrado e equilibrado apenas graças à harmônica relação entre palavra e silêncio.
Mas precisamos do silêncio também do ponto de vista espiritual. Para a fé judaica e cristã, o silêncio é uma dimensão teológica: no monte Horeb, o profeta Elias percebeu que estava na presença de Deus não no estrondo do vento, trovões e terremoto, mas somente quando ele ouviu "a voz de um silêncio sutil" (1Rs 19, 12). Inácio de Antioquia diria que Cristo é "a Palavra que procede do silêncio".
Não se trata simplesmente de abster-se de falar ou da ausência de ruídos, mas sim do silêncio interior, aquela dimensão que nos restitui a nós mesmos, nos coloca no plano do ser, diante do essencial. "No silêncio, é inerente um maravilhoso poder de observação, de esclarecimento, de concentração sobre as coisas essenciais" (Dietrich Bonhoeffer).
O silêncio é guardião da interioridade, já que nos conduz de uma dimensão primária e "negativa" de sobriedade, disciplina no falar ou mesmo de abstenção de palavras, a um nível mais profundo, de intensa vida espiritual: isto é, de silenciar os pensamentos, as imagens, as rebeliões, os julgamentos, as murmurações que nascem no coração. É o difícil silêncio interior, aquele que encontra o seu próprio âmbito vital no coração, lugar da luta espiritual. Mas justamente esse silêncio profundo gera a atenção, a acolhida, a empatia com relação ao outro.
O silêncio escava no nosso profundo um espaço para ali fazer habitar a alteridade, para fazer ressoar a palavra e, ao mesmo tempo, nos dispõe à escuta inteligente, ao falar comedido, ao discernimento daquilo que arde no coração do outro e que está escondido no silêncio do qual nascem as suas palavras. O silêncio, então, esse silêncio, suscita em nós a caridade, o amor pelo irmão.
"O silencioso torna-se fonte de graça para quem ouve", afirmara São Basílio. Para o cristão, a referência à escuta obediente da Palavra de Deus, à acolhida do Verbo feito carne é evidente e extremamente eloquente.
Não por acaso é esse silêncio que chega a nós a partir de uma longa história espiritual: é o silêncio buscado e praticado pelos hesicastos para obter a unificação do coração, o silêncio da tradição monástica voltado à acolhida em si da palavra de Deus, o silêncio da oração de adoração da presença de Deus. Mas também é o silêncio caro aos místicos de todas as tradições religiosas e, antes ainda, é o silêncio do qual a linguagem poética está embebida, o silêncio que constitui a própria matéria da música, o silêncio essencial a todo ato comunicativo.
O silêncio, evento de profundidade e de unificação, torna o corpo eloquente, levando-nos a habitar o nosso corpo, a alimentar a nossa vida interior, guiando-nos para aquele habitare secum tão precioso para a tradição monástica como para a filosófica. O corpo habitado pelo silêncio torna-se revelação da pessoa inteira.
Tentemos, então, encontrar no ritmo da nossa vida um tempo para ouvir o silêncio: conseguiremos captar os esforços realizados para criá-lo e cuidá-lo, discernir os sons imperceptíveis da presença de outras criaturas ao nosso lado, compreender o não dito que habita a grande quantidade de palavras, ter inteligência do que acontece – ou seja, literalmente, a "ler dentro" dos eventos – e, finalmente, também ouvir melhor a nós mesmos e aos outros quando eles falam ao nosso coração e à nossa mente, e não só aos nossos ouvidos.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A Contemplação na experiência dos grandes místicos.


"Toda contemplação verdadeira nos leva ao encontro com o Cristo pobre, rasgado, cuspido, violentado, ensanguentado e abandonado na zona rural, nos viadutos, nas ruas e nas portas das nossas Igrejas". Frei Petrônio de Miranda (Foto), Padre Carmelita e Jornalista. Convento do Carmo, Lapa, Rio de Janeiro. www.olharjornalistico.com.br

RAFAEL CHECA CURI

            A Igreja vive da contemplação que lhe permite peregrinar na trajetória da história humana, pendente de Deus e de sua palavra. O Espírito Santo ilumina seu roteiro, descobrindo-lhe, cada vez mais profundamente, o mistério de Deus, do homem e do mundo. O próprio Deus não é uma abstração ou, apenas, uma esperança. Sua presença, a de Cristo ressuscitado e glorioso, é uma consoladora experiência. Jesus Cristo vive em seu corpo místico. A comunidade o compreende e o sente. A Igreja experimenta um crescimento gradual, na ordem do conhecimento sapiencial do mistério de Deus, da esperança ativa que a impele a transformar a sociedade humana, da caridade e do amor que faz presente o Senhor no mundo, como pai e como irmão dos homens.
           Esta experiência de que goza a Igreja se concretiza em seus membros, que participam desse dom contemplativo, na medida em que Deus lhos outorga gratuitamente e eles se dispõem a recebê-lo. O Concílio Vaticano II fez-se consciente desta realidade, quando considerou a necessidade de conservar e aumentar no homem as "faculdades da contemplação e da admiração que levam à sabedoria" (G.S. 56). Com isso o homem, "mais livre da escravidão das coisas, pode ser elevado com maior facilidade ao próprio culto e à contemplação do Criador" (G.S. 57).
            Todos nós levamos, ao recebermos o batismo, o germe da contemplação. Nossa inserção em Cristo, como cepas na videira (Jo 15,15), permite-nos viver sua vida de união com o Pai e de docilidade face à ação do Espírito. Essa vida é Vida de fé, de esperança e de caridade. Em São João da Cruz, "contemplar", mais do que grau de oração mística, é vida teologal em exercício, comunicação de Deus transcendente, acolhido em fé e amor. E a vida teologal é patrimônio do cristão e do homem a quem Deus a conceder.
            É claro que, se é vida e dinamismo da pessoa, está sujeita ao imperativo do crescimento gradual. Este crescimento supõe uma meta, a que Deus chama, ainda nesta vida e que, obviamente, amplia indefinidamente na glória. Do mesmo modo, todos os humanos estamos chamados à maturidade da vida, mesmo se alguns morrem na infância, na adolescência ou na juventude.
            A contemplação, Vida de face a face com Deus, passa por essas diversas idades: infância, adolescência, juventude e plena maturidade. Os grandes santos percorreram todas as etapas, ou, melhor dizendo, foram impelidos pela ação de Deus e por seu livre concurso, através de todas elas, até a comunhão plena do amor.
            Esses cristãos são os que chamados místicos, isto é, homens ou mulheres que viveram e experimentaram o mistério de Deus e de suas relações.
      A trajetória desses gigantes do espírito pode sintetizar-se assim: a contemplação cristã é obra do Espírito Santo, este intervém desde a arrancada inicial e prossegue através de cada uma das etapas: sua presença e sua ação, a medida que são mais intensas, potenciam qualitativa e quantitativamente as capacidades de crescimento espiritual da pessoa; esse desenvolver-se identificada ;mais e mais a pessoa com Cristo e abre-a para uma consciência de sua proximidade, de sua presença, de seu amor e de sua ação a partir de um momento querido por Deus, sua experiência começa a ser mais consciente e mais explícita: quando a presença divina e seu amor e influência se fazem mais lúcidos e relevantes, a obra de transformação e de união divino-humana adquirem uma expressão mística.
            Esses grandes místicos que atingiram o ponto mais algo do cimo da comunhão com Deus estão presentes em toda a história cristã.