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terça-feira, 26 de novembro de 2013

Sínodo dos Bispos sobre a família. As respostas de uma teóloga ao questionário

A seguinte série de questões possibilita às igrejas particulares participarem ativamente na preparação do Sínodo Extraordinário, cujo propósito é proclamar o Evangelho no contexto dos desafios pastorais enfrentados pelas famílias hoje. A data limite para o envio das respostas é 30 de novembro de 2013.
A seguir podem ser lidas as respostas dadas ao questionário por Tina Beattie como um auxílio para outros que podem ter dificuldades com as questões (obviamente, as respostas são particulares a cada indivíduo e alguns podem desejar responder certas questões diferentemente). O que se segue não pretende sugerir respostas “corretas” às questões, mas fornecer um exemplo de como elas podem ser abordadas. Tina Beatie é uma teóloga britânica. Ela é professora de Catholic Studies na University of Roehampton, em Londres. A tradução é de Gabriel Ferreira.
Eis o questionário e as respostas.
1 - Sobre a difusão da Sagrada Escritura e do Magistério da Igreja a propósito da família
a) Qual é o conhecimento real dos ensinamentos da Bíblia, da “Gaudium et spes”, da “Familiaris consortio” e de outros documentos do Magistério pós-conciliar sobre o valor da família segundo a Igreja católica? Como os nossos fiéis são formados para a vida familiar, em conformidade com o ensinamento da Igreja?
Suspeito que poucos católicos estejam familiarizados com os documentos magisteriais per se, e referências a tais documentos são raramente feitas em homilias. A qualidade da formação depende do contexto. Em algumas escolas, programas paroquiais de educação e grupos de preparação para o matrimônio há uma excelente formação e suporte pastoral para as famílias, incluindo pais e mães solteiros, casais que moram junto e/ou casais do mesmo sexo, divorciados e pessoas em segunda união. Entretanto, tenho ouvido também alguns relatos de casais sendo alienados da Igreja por compreensões irreais e idealistas de matrimônio em cursos de preparação para o casamento, que oferecem interpretações romanceadas dos ensinamentos da Igreja, ao invés de um diálogo realista sobre a vida matrimonial. Isso pode ser um problema particular com certas interpretações da “Teologia do Corpo”.
Uma atitude excessivamente censória para com as transgressões percebidas em relação ao ensinamento da Igreja tem feito com que não seja dada informação suficiente sobre temas como contracepção e relações sexuais aos jovens, em escolas católicas e nas paróquias. (veja-se Danny Curtin, “Epidemia de pornografia mostra-nos que a Igreja não pode continuar envergonhada em falar sobre sexo”, The Tablet blog, 5 de novembro de 2013). É necessário que exista uma flexibilidade e uma sensibilidade pastoral entre os professores e líderes, em uma cultura na qual a vasta maioria dos jovens são sexualmente ativos antes do casamento e, a negação desse fato, pouco os ajuda a lidar com os complexos problemas que emergem daí, no que diz respeito à dignidade pessoal e a si próprios, bem como às ligações afetivas e os compromissos, o risco de uma gravidez indesejada e de doenças sexualmente transmissíveis.
b) Onde é conhecido, o ensinamento da Igreja é aceito integralmente? Verificam-se dificuldades na hora de pô-lo em prática? Se sim, quais?
A Igreja tem uma rica teologia sobre a família, mas ela não é completamente aceita porque há também aspectos problemáticos que convidam a um diálogo mais profundo entre o ensinamento do Magistério e os leigos. Uma pesquisa recente, feita por Linda Woodhead e publicada no The Tablet (“Espécies em extinção”, 14 de novembro de 2013), mostra que a vasta maioria dos católicos britânicos não aceitam o ensinamento oficial da Igreja acerca desses assuntos. Em minha experiência pessoal, os principais obstáculos são:
• Humanae Vitae: muitos católicos, mesmo entre aqueles conscientemente informados e com um profundo comprometimento com o matrimônio e com a paternidade responsável, categoria na qual eu mesma me incluo, ignoram os ensinamentos da Igreja no que se refere à contracepção.
• Divórcio e segunda união: a exclusão dos católicos divorciados e dos casais recasados, do acesso à Eucaristia, é prejudicial não apenas para os indivíduos envolvidos, mas também para seus filhos. Esses casais e suas crianças ficam frequentemente vulneráveis e traumatizadas pela experiência do rompimento do matrimônio e da família, e estão tentando criar novas e amorosas relações. Eles precisam não apenas de cuidado pastoral, mas também de inclusão sacramental e de um senso de plena pertença à comunidade.
• Mulheres e maternidade: os ensinamentos da Igreja sobre sexualidade e maternidade fracassam na tarefa de fornecerem recursos teológicos e pastorais para mulheres que estão se esforçando para reconciliar os desafios e demandas da maternidade, com as oportunidades que a sociedade moderna apresenta para a autorrealização, dentro e fora de seus lares.
• Relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo: a recusa da Igreja em contemplar a possibilidade do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, bem como a contínua ambiguidade com respeito ao status dos casais do mesmo sexo, é prejudicial. A Igreja torna-se vulnerável a acusações de homofobia quando sua posição é defendida em termos absolutos, sem um suficiente reconhecimento da complexidade dos problemas envolvidos e da diversidade de opiniões entre os católicos acerca destes assuntos.
• Celibato clerical: é patente que muitos padres católicos e leigos veriam com bons olhos um relaxamento das regras sobre celibato a fim de permitir que padres pudessem se casar. Pessoalmente, tenho sentimentos conflitantes sobre isso, e não gostaria de ver tal debate acontecendo a não ser no contexto de uma discussão mais ampla sobre a natureza do sacerdócio, incluindo a ordenação de mulheres.
• Sexualidade, violência e abuso: o escândalo dos abusos sexuais continua a solapar a boa vontade das pessoas em acreditar na autoridade moral da hierarquia da Igreja.
c) Como o ensinamento da Igreja é difundido no contexto dos programas pastorais nos planos nacional, diocesano e paroquial? Que tipo de catequese sobre a família é promovida?
Por vezes, a catequese sobre a família é interpretada de maneira demasiadamente estreita, de modo que ela falha na tarefa de representar os diversos caminhos nos quais as pessoas fazem experiência de família hoje. Nós não podemos mais assumir que a maioria dos católicos praticantes pertence a grupos familiares homogêneos e comunidades de católicos como eles próprios. O declínio da frequência à Igreja e a expansão do secularismo significa que um crescente número de católicos tem que fazer complexos arranjos entre viverem apartados da vida sacramental e as demandas e expectativas das famílias e amigos não-católicos, bem como da sociedade em geral. Para que os programas pastorais e a catequese sejam efetivas, eles devem levar em conta essas mudanças das realidades sociais (escrevo como uma mulher casada com um não-católico por quase 40 anos, e com quatro filhos adultos que deixaram a Igreja).
 d) Em que medida – e em particular sob quais aspectos – este ensinamento é realmente conhecido, aceito, rejeitado e/ou criticado nos ambientes extra-eclesiais? Quais são os fatores culturais que impedem a plena aceitação do ensinamento da Igreja sobre a família?
Desde meados do século XX, tem havido um enriquecimento e um aprofundamento da teologia da Igreja referente ao matrimônio e à família sob certos aspectos, mas isso tem sido desfigurado por uma ênfase exacerbada nos ensinamentos morais absolutos, com uma crescente tendência a definir o que significa ser um católico em termos de adesão aos ensinamentos da Igreja em uma restrita gama de assuntos, tais como contracepção, aborto, homossexualidade etc. Permite-se que vozes dogmáticas e conservadoras dominem, de modo que os católicos mais liberais ou tolerantes têm sido rotulados como “dissidentes” e sentem-se como se não fossem católicos “de verdade”. O ensinamento da Igreja sobre a família precisa ser apresentado no contexto de suas doutrinas mais fundamentais de Criação, Encarnação e Redenção, e de uma forma que mostre abertura ao diálogo em sociedades multiculturais nas quais as pessoas têm diferentes conceitos de uma “boa vida”.
Por outro lado, a resistência cultural aos aspectos positivos do ensinamento da Igreja pode ser atribuído a uma muito difundida hostilidade para com a religião, e à mentalidade secular consumista que está profundamente confusa em sua antropologia e em seus valores que dela emanam. Nós estamos atravessando uma crise nas relações sexuais humanas tendo, por vezes, consequências extremas, como o tráfico sexual de pessoas e a pornografia, a exploração sexual de crianças e adultos em situação de vulnerabilidade, assim como um número crescente de crianças rejeitadas e abandonadas, jovens e idosos provenientes de lares fraturados, relacionamentos fracassados e a destruição de pequenas comunidades. Mais do que focar em como a família ideal deve ser e como promovê-la de acordo com os ensinamentos da Igreja, talvez nós precisemos começar pela ruptura e pelo sofrimento da vida da família moderna. Isso passaria por questionar como Cristo pode tornar-se presente em situações de crise, trauma e abandono, ao mesmo tempo em que perguntamos como as relações sexuais que respeitam a dignidade humana e expressam o amor autenticamente, podem ser nutridas sem que se insista que isso só é possível no interior do matrimônio tal como a Igreja o entende.
2. Sobre o matrimônio segundo a lei natural
a) Que lugar ocupa o conceito de lei natural na cultura civil, quer nos planos institucional, educativo e acadêmico, quer a nível popular? Que visões antropológicas estão subjacentes a este debate sobre o fundamento natural da família?
Essa é uma questão filosoficamente complexa. Mesmo entre os teóricos católicos da Lei Natural, há discussão sobre como ela deve ser interpretada e aplicada – compare-se, por exemplo, Jean Porter e Robert Pasnau com John Finnis e Germain Grisez. Escrevo como uma acadêmica de Teologia, mas bem poucas pessoas que conheço têm algum entendimento sobre o tema da Lei Natural. Elas podem ter opiniões sobre o que encaram como comportamento “natural” e “não natural”, mas isso não é o que Lei Natural significa.
Lei Natural não é um conjunto de regras dadas divinamente e que podem ser aplicadas de uma maneira universal para todas as culturas e relações. Tal como apresentada em suas formulações teológicas clássicas (por exemplo, por São Tomás de Aquino), ela é um guia genérico que oferece um método de raciocínio por meio do qual nós podemos chegar a um entendimento mais profundo de como humanos podem desenvolver-se individual e coletivamente no interior da boa e ordenada criação de Deus, em diferentes contextos culturais, religiosos e históricos. A Lei Natural pode, por exemplo, ser usada para argumentar que a poligamia é boa em sociedades nas quais ela provê cuidado e auxílio a viúvas e órfãos, através de casamentos no interior de grandes grupos de parentesco e família. A Lei Natural também tem sido usada por fiéis e teólogos experientes para argumentar contra o modo como ela é aplicada na Humanae Vitae ou para sustentar que o casamento entre pessoas do mesmo sexo pode ser incluído no entendimento da Igreja acerca do matrimônio. Nós não devemos esquecer que por muitos séculos a Igreja apelou à Lei Natural a fim de afirmar que as mulheres eram inferiores aos homens na ordem da Criação e, portanto, não deveriam ser admitidas para governas ou legislar, enquanto alguns filósofos usaram-na para justificar ideologias racistas. A Lei Natural está aberta a diferentes usos e abusos.
Acredito firmemente na Lei Natural quando ela é apropriadamente aplicada – isto é, quando é indutiva, guiada pela experiência, acomodando-se às mudanças dos valores e práticas culturais, e enraizada no entendimento sacramental da Criação.
b) O conceito de Lei Natural em relação à união entre o homem e a mulher é geralmente aceita, enquanto tal, por parte dos batizados?
Nunca encontrei um leigo comum que tenha se referido à Lei Natural nesse contexto. Para começar, como alguém pode falar de uma ideia como sendo “comumente aceita enquanto tal pelos batizados em geral”, dada a vasta diversidade do Cristianismo global? Penso que essa questão confunde o que as pessoas consideram como “natural”, com a Lei Natural. Assim, ela arrisca-se a atrair uma resposta que sancionaria o casamento heterossexual como “natural”, condenando todas as outras relações sexuais como “não-naturais” e não é assim que a Lei Natural deve ser interpretada.
A questão teológica que a Igreja enfrenta hoje é se a Lei Natural pode oferecer um entendimento tanto mais includente do que excludente, do matrimônio cristão enquanto um modelo para o florescimento das relações humanas – por exemplo, isso poderia servir como um modelo para casais do mesmo sexo? Como a teologia da Lei Natural pode nos ajudar a entender as mudanças da cultura e das normas éticas em torno das relações humanas e quais novos modelos de amor, responsabilidade e cuidado para com as crianças e os idosos devem emergir se queremos proteger as futuras gerações das piores consequências do nosso presente turbilhão social? Essa é tanto uma questão de política, economia e justiça social, quanto uma questão de sexualidade, casamento e família. A Lei Natural necessita ser aplicada de maneira mais ampla do que simplesmente em relação ao sexo.
c) Como é contestada, na prática e na teoria, a Lei Natural sobre a união entre o homem e a mulher, em vista da formação de uma família? Como é proposta e aprofundada nos organismos civis e eclesiais?
Há evidências que sugerem que, em todas as outras condições sendo iguais, crianças desenvolvem-se melhor no interior de matrimônios estáveis do que em outros contextos, embora globalmente se deva questionar como diferentes culturas definem casamento e família, antes de aproximar-se dessa questão da perspectiva da Lei Natural. Contudo, volto ao ponto de que a missão da Igreja é o pobre, o ferido e o vulnerável. Enquanto faz tudo o que é possível para encorajar matrimônios sólidos e ambientes familiares estáveis, a Igreja deve também estar consciente de que muitas pessoas, incluindo muitas crianças, encontram-se fora desses parâmetros e que não merecem menos cuidado pastoral e inclusão sacramental. Famílias sólidas e estáveis também precisam apoiar a comunidade. Hoje, muitas famílias são moldadas por um éthos competitivo, consumista e individualista que destrói o bem-comum – por exemplo, ao fazerem escolhas políticas, econômicas e sociais com respeito à habitação, educação e saúde que beneficiam os ricos e prejudicam as famílias e comunidades mais pobres, especialmente os jovens e os idosos. A Lei Natural diz respeito ao bem-comum, pois ela reconhece que o desenvolvimento humano é apenas possível em sociedades justas.
d) Quando a celebração do matrimônio é pedida por batizados não praticantes, ou que se declaram não-crentes, como enfrentar os desafios pastorais que disto derivam?
Tais situações podem ser vistas como oportunidades para explicar os ensinamentos da Igreja, para clarificar que ela oferece um entendimento mais rico e profundo do matrimônio do que aquele oferecido pela sociedade secular, mas que tal compreensão traz também consigo uma expectativa mais profunda de comprometimento e responsabilidade um para com o outro, para com os filhos e com a sociedade. Se as pessoas aceitam tal proposta e ainda assim querem travar tal compromisso, então elas estão testemunhando a bondade e o caráter do matrimônio cristão, mesmo se resistem a aceitar todas as doutrinas e ensinamentos da Igreja.
3. O Cuidado Pastoral da Família na Evangelização
a) Quais foram as experiências que surgiram nas últimas décadas em ordem à preparação para o matrimônio? Como se procurou estimular a tarefa de evangelização dos esposos e da família? De que modo promover a consciência da família como “Igreja doméstica”?
“Igreja doméstica” é uma realidade muito mais confusa e muito mais complexa do que o termo parece implicar. Talvez a doutrina da Igreja acerca da família deva aprender da “Igreja doméstica”. Por exemplo, a imensa maioria dos pais católicos, embora devotos, estão experienciando situações nas quais seus filhos são sexualmente ativos e, por vezes, vivem juntos com seus parceiros antes do casamento, ou ainda situações em que membros da família e/ou amigos próximos são homossexuais, ou então nas quais o divórcio e a segunda união são um fato da vida e onde há uma grande probabilidade de que, à medida que seus filhos crescem, alguns deles irão abandonar a Igreja. A questão deveria ser: que tipo de evangelização e apoio pastoral é apropriado e significativo nessas situações?
b) Conseguiu-se propor estilos de oração em família, capazes de resistir à complexidade da vida e da cultura contemporânea?
Essa questão faz muitas pressuposições sobre o modo de vida católica que muitos de nós experimentamos nas famílias e matrimônios modernos. Eu rezo pela minha família todos os dias, mas não rezo com eles porque meu marido não é um cristão praticante e todos os meus filhos saíram da Igreja. Acredito firmemente que nós aprendemos nossas atitudes culturais e nossos valores através do exemplo. Conheço famílias que rezam juntas, cujos valores eu não desejaria imitar e, outras, que não rezam juntas, mas que são inspiradoras em seus exemplos e modos de vida.
c) Na atual situação de crise entre as gerações, como as famílias cristãs souberam realizar a própria vocação de transmissão da fé?
Minha questão é mais como nós, como católicos, vivemos nossa fé em situações nas quais as “famílias cristãs” podem ser poucas e distantes entre si e ambientes nos quais precisamos aprender, mais do que pregar, daqueles que possuem perspectivas e crenças diferentes. Nós transmitimos nossa fé através do nosso modo de ser dentro dos contextos para os quais Deus nos chama – seja em uma família cristã, um casamento misto, uma relação sem filhos, uma família de apenas um dos pais etc, etc.
d) De que modo as Igrejas locais e os movimentos de espiritualidade familiar souberam criar percursos exemplares?
Vejo muitas famílias ao meu redor que levam vidas exemplares e que não estão contempladas nos moldes em que esta questão está formulada; vejo também algumas famílias católicas presunçosas e que são encorajadas a considerarem-se a si mesmas como exemplares sem que, no entanto, sejam o tipo de exemplo que todos nós procuramos seguir.
e) Qual é a contribuição específica que casais e famílias conseguiram oferecer, em ordem à difusão de uma visão integral do casal e da família cristã, hoje credível?
“Casal cristão” e “família cristã” sugerem um modelo homogêneo e reificado. A vida cristã é credível e integral de qualquer modo, desde que seja vivida com amor, dignidade, generosidade e integridade, e isso pode ser manifesto em relacionamentos e comunidades muito diversos.
 f) Que atenção pastoral a Igreja mostrou para sustentar o caminho dos casais em formação e dos casais em crise?
Penso que isso depende do contexto.
4. Sobre a pastoral para enfrentar algumas situações matrimoniais difíceis
a) A coabitação ad experimentum é uma realidade pastoral relevante na Igreja particular? Em que percentagem se poderia calculá-la numericamente?
Na sociedade moderna, as relações sexuais pré-maritais são quase a regra entre os católicos, assim como entre os não-católicos, e a coabitação é algo comum.
b) Existem uniões livres de fato, sem o reconhecimento religioso nem civil? Dispõem-se de dados estatísticos confiáveis?
Certamente tais uniões existem de fato. Casais em estado de coabitação são parte da vida moderna.
c) Os separados e os divorciados recasados constituem uma realidade pastoral relevante na Igreja particular? Em que porcentagem se poderia calculá-los numericamente? Como se enfrenta essa realidade, através de programas pastorais adequados?
Eles são uma realidade pastoral em toda a Igreja.
d) Em todos os casos acima, como vivem os batizados a sua irregularidade? Estão conscientes da mesma? Simplesmente manifestam indiferença? Sentem-se marginalizados e vivem com sofrimento a impossibilidade de receber os sacramentos?
Tenho encontrado muitos católicos que estão profundamente aflitos por aquilo que sentem como uma rejeição deles por parte da Igreja. Descrever suas situações como “irregulares” e negar a eles os sacramentos é causar sofrimento e um senso de marginalização.
e) Quais são os pedidos que as pessoas separadas e divorciadas dirigem à Igreja, a propósito dos sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação? Entre as pessoas que se encontram em tais situações, quantas pedem estes sacramentos?
Há uma angústia generalizada e, frequentemente, amargura sobre a exclusão das pessoas divorciadas e recasadas, da Eucaristia. Parece uma forma de julgamento que é causa de divisão, severa e que não oferece nenhuma oportunidade de arrependimento, perdão e cura. Eu nunca ouvi um católico comum defendendo tal exclusão.
f) A simplificação da praxe canônica em ordem ao reconhecimento da declaração de nulidade do vínculo matrimonial poderia oferecer uma contribuição positiva real para a solução das problemáticas das pessoas interessadas? Se sim, de que forma?
Talvez. Entretanto, algumas vezes matrimônios verdadeiros terminam. Não estou segura de que uma declaração de nulidade auxiliaria pessoas nessas situações.
 g) Existe uma pastoral para ir ao encontro destes casos? Como se realiza esta atividade pastoral? Existem programas para este propósito, nos planos nacional e diocesano? Como a misericórdia de Deus é anunciada a separados e divorciados recasados e como se põe em prática a ajuda da Igreja para o seu caminho de fé?
Ver as respostas acima.
5. Sobre as uniões de pessoas do mesmo sexo
a) Existe no seu país uma lei civil de reconhecimento das uniões de pessoas do mesmo sexo, equiparadas de alguma forma ao matrimônio?
Sim.
b) Qual é a atitude das Igrejas particulares e locais, quer diante do Estado civil promotor de uniões civis entre pessoas do mesmo sexo, quer perante as pessoas envolvidas neste tipo de união?
A Conferência dos Bispos da Inglaterra e do País de Gales tem sido inequivocamente oposta ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, embora aparentemente tem assumido uma linha mais conciliadora nos últimos anos para com as uniões civis.
c) Que atenção pastoral é possível prestar às pessoas que escolheram viver nesse tipo de união?
Ao invés de condenar tais uniões, acredito que a Igreja poderia vê-las como uma expressão de um desejo de fidelidade, comprometimento e respeito mútuo entre duas pessoas e isso deveria ser bem recebido e encorajado. Tais uniões não desvalorizam o matrimônio heterossexual, mas podem atestar seu sentido e seu caráter desejável. Como uma mulher heterossexual que está casada há aproximadamente 40 anos, e como mãe de quatro filhos já adultos, nunca entendi por que o casamento entre pessoas do mesmo sexo deveria ser compreendido com uma ameaça à instituição do matrimônio. Ao contrário – penso que isso afirma que o contexto ideal para uma união sexual é uma relação monogâmica vitalícia com outro ser humano, seja hétero ou homossexual.
 d) No caso de uniões de pessoas do mesmo sexo que adotaram crianças, como é necessário comportar-se pastoralmente, em vista da transmissão da fé?
Tais crianças devem ser bem-vindas e tratadas como filhos de qualquer união.
6. Sobre a educação dos filhos no contexto das situações de matrimônios irregulares
a) Qual é a proporção aproximativa de crianças e adolescentes nestes casos, em relação às crianças nascidas e educadas em famílias regularmente constituídas?
Não sei, mas nenhum matrimônio é “irregular” a partir da perspectiva das crianças envolvidas ou, ainda, do próprio casal.
b) Com que atitude os pais se dirigem à Igreja? O que pedem? Somente os sacramentos ou, inclusive, a catequese e o ensinamento da religião em geral?
Não sei.
c) Como as Igrejas particulares vão ao encontro da necessidade dos pais destas crianças, de oferecer uma educação cristã aos próprios filhos?
Não sei.
d) Como se realiza a prática sacramental em tais casos: a preparação, a administração do sacramento e o acompanhamento?
A real questão aqui é como a Igreja pode prover um ambiente de amor e apoio aos casais e seus filhos que experimentaram o trauma do divórcio e estão buscando o fomento do amor e da esperança que o novo casamento pode oferecer. Excluir os pais dos sacramentos em uma época na qual suas crianças estão particularmente vulneráveis a mudanças radicais no ambiente familiar e ao estresse e ao sofrimento de seus pais, é infligir uma severa forma de exclusão sobre as pessoas que pertencem à comunidade católica e que podem bem estarem tentando estabelecer novas famílias após experiência profundamente dolorosas de fracasso matrimonial. Tais pessoas e seus filhos necessitam sentir que pertencem à comunidade sacramental da paróquia.
7. Sobre a abertura dos esposos à vida
a) Qual é o conhecimento real que os cristãos têm da doutrina da Humanae vitae a respeito da paternidade responsável? Que consciência têm da avaliação moral dos diferentes métodos de planejamento familiar? Que aprofundamentos poderiam ser sugeridos a respeito desta matéria, sob o ponto de vista pastoral?
Há evidência substancial para mostrar que a grande maioria dos católicos ignora os ensinamentos da Humanae vitae, não raro conscientemente e com um profundo comprometimento com o matrimônio e a paternidade responsável. Até que os ensinamentos da Igreja concedam um maior espaço para a consciência individual e mostrem um maior respeito pelas experiências das pessoas casadas, haverá muito pouca autoridade moral nessa área.
b) Esta doutrina moral é aceita? Quais são os aspectos mais problemáticos que tornam difícil a sua aceitação para a grande maioria dos casais?
Ela não é aceita pela maioria. Coloca demasiada ênfase no ato sexual considerado individualmente e nem de longe enfatiza a paternidade como uma responsabilidade compartilhada que se estende por toda a vida do matrimônio e que, na experiência de muitos casais, é enriquecida e aprimorada com o acesso a métodos contraceptivos confiáveis. Assim também, em casais com situações diferentes quanto ao HIV/AIDS, a proibição do uso do preservativo para proteger o parceiro que não está infectado, parece desalmada e legalista.
c) Que métodos naturais são promovidos por parte das Igrejas particulares, para ajudar os cônjuges a porem em prática a doutrina da Humanae vitae?
O planejamento familiar natural é vigorosamente promovido em algumas partes da Igreja, mas muitos casais não procuram essa “ajuda” porque já têm suas cabeças feitas a respeito da Humanae vitae. Uma das pessoas mais próximas a mim teve cinco gravidezes indesejadas seguindo as demandas da Humanae vitae. Quando eu disse a ela sobre este questionário, sua primeira resposta foi: “livrem-se” da Humanae vitae.
d) Qual é a experiência relativa a este tema na prática do sacramento da penitência e na participação na Eucaristia?
Essa é uma questão que os sacerdotes estão mais aptos a responder.
e) Quais são, a este propósito, os contrastes entre a doutrina da Igreja e a educação civil?
Penso que a real tragédia é que a sabedoria do ensinamento da Igreja sobre a dignidade humana, no contexto das relações sexuais, tem sido negligenciada devido a uma atitude nada realista no que diz respeito à contracepção e a uma tendência condenatória que enxerga apenas o sexo procriativo, dentro do matrimônio, como bom. Isso simplesmente não reflete a realidade. A sociedade moderna secular está um caos no que diz respeito às atitudes referentes à sexualidade, mas até que a Igreja apresente seus ensinamentos de uma forma menos absolutista, informada através das experiências dos católicos em relação às relações sexuais, esses ensinamentos não serão levados a sério.
f) Como promover uma mentalidade mais aberta à natalidade? Como favorecer o aumento dos nascimentos?
Eu não penso que a Igreja deva promover o aumento do número dos nascimentos. A questão não é quantos filhos alguém tem, mas quanta responsabilidade se assume com essas crianças e como se exercita a paternidade responsável no contexto de preocupações acerca da superpopulação e da escassez de recursos naturais. Os filhos são um grande presente de Deus e a Igreja está certa em combater políticas de controle de população e a “mentalidade contraceptiva” que fracassa em promover o valor da procriação e da paternidade. Entretanto, à medida em que a mortalidade infantil diminui, e as mulheres tornam-se mais educadas e mais aptas a conceberem suas vidas em contextos diferentes da maternidade, há muitas e persuasivas razões para que se sustente que famílias menores são melhores de um ponto de vista ético, e devem ser encorajadas. A Igreja precisa ouvir as mulheres sobre esses temas e assumir uma abordagem mais bem informada e eticamente responsável com respeito às mudanças demográficas e questões de sustentabilidade, bem como de superpopulação, gerações futuras e bem comum.
8. Sobre a relação entre a família e a pessoa
a) Jesus Cristo revela o mistério e a vocação do homem: a família é um lugar privilegiado para que isto aconteça?
O lugar privilegiado para que isto aconteça é qualquer lugar no qual as pessoas expressam e experienciam amor, dignidade, respeito e cuidado. A família nuclear moderna não é necessariamente um lugar privilegiado da revelação cristã e a tradição católica não foi sempre tão absolutista quanto à família. Há muitas formas diferentes de vida cristã que revelam o mistério e a vocação da pessoa humana, entre as quais a família é apenas uma delas.
b) Que situações críticas da família no mundo contemporâneo podem tornar-se um obstáculo para o encontro pessoal com Cristo?
Penso que o maior desafio hoje é daqueles que não se sentem amados, os abandonados e excluídos de diferentes formas, por vezes por suas famílias e, por vezes, pela sociedade. Nós vivemos em tempos difíceis nos quais muitos seres humanos, particularmente os jovens e os idosos, sentem-se rejeitados e indesejados pela sociedade e, algumas vezes, também por suas famílias. A preocupação em relação ao desemprego, saúde e educação, envelhecimento e dependência, corroem as relações familiares. Uma pessoa que não se sente amada e valorizada pela família, amigos e sociedade pode achar extremamente difícil fazer a experiência do amor de Cristo. A Igreja precisa falar claramente contra a destruição do Estado de bem-estar social e a corrosão dos valores públicos de responsabilidade e cuidado para com as pessoas em estado de vulnerabilidade, pois as famílias são moldadas pelos valores sociais que, por sua vez, frequentemente refletem. Muito frequentemente, a voz da Igreja é ouvida apenas em relação à homossexualidade e ao aborto, mais do que sobre os temas da pobreza, consumismo e ganância, que corroem a sociedade, assim como sobre as situações extremas de injustiça que levam à destruição das famílias e comunidades.
c) Em que medida as crises de fé, pelas quais as pessoas podem atravessar, incidem sobre a vida familiar?
Em sua ação pastoral junto às famílias – e mesmo neste questionário – a Igreja promove frequentemente uma imagem da família católica que está longe daquilo que muitos de nós vivenciamos. Talvez haja a necessidade de dar uma ênfase menor à família e focalizar mais nos indivíduos católicos que podem experimentar diversas experiências de comunidade, família e relacionamentos. É claro que isso inclui indivíduos que frequentam a Igreja como uma unidade familiar, e é importante que se o faça, mas um número crescente de católicos praticantes não compartilham sua fé com suas famílias e amigos, e são, no entanto, tão partes da Igreja como aqueles que o fazem.
9. Outros desafios e propostas
a)Existem outros desafios e propostas a respeito dos temas abordados neste questionário, sentidos como urgentes ou úteis por parte dos destinatários?
Creio que se a Igreja seguir a direção do papa Francisco e tornar-se mais focada nos pobres e vulneráveis, e menos obcecada com temas ligados à sexualidade, muitas dessas questões sobre a família serão resolvidas. Acima de tudo, a Igreja precisa reconhecer que ubi caritas et amor, Deus ibi est (Onde estão a caridade e o amor, Deus aí está). Mais do que uma preocupação com o certo e o errado nos atos sexuais individuais e uma ênfase excessiva em um modelo particular de família (isto é, a família nuclear moderna), uma redescoberta da importância da formação do caráter e do cultivo de uma vida boa através dos hábitos da virtude seriam, na minha opinião, uma forma mais duradoura e efetiva de reconstruir as estruturas e instituições da vida ocidental que estão se desintegrando, tanto dentro quanto fora da Igreja. As mulheres precisam ser envolvidas nesse processo em todos os níveis do ensinamento e da prática da Igreja, caso esta queira ter credibilidade em questões de ética, justiça e relações humanas.
10. Se você tem mais algum comentário a fazer sobre esta consulta, por favor faça-o abaixo. Se desejar, deixe seu nome e e-mail de contato.
Eu agradeço pelo convite e pela oportunidade de responder a este questionário e sei que muitos católicos pensam da mesma forma. O questionário é difícil de responder por conta da natureza de algumas das questões, mas espero que aqueles que irão avalia-lo o façam com atenção e cuidado suficientes para assegurar uma justa representação da diversidade de respostas e desafios que podem ser expressos. Espero também que este seja o início de um processo mais consultivo e dialogado na Igreja.

sábado, 23 de novembro de 2013

A PALAVRA... Nº 470. Um Rei Crucificado.

A PALAVRA... Nº 470. Um Rei Crucificado.

A PALAVRA... Nº 469. Os Mensaleiros e as Penitenciárias.

34º Domingo do Tempo Comum: Cristo, um rei servido

Raymond Gravel
 
Festejar Cristo, Rei do Universo, é uma outra maneira de celebrar a Páscoa. Essa festa termina bem o ano litúrgico. Sem morte-ressurreição, a festa de hoje não teria nenhum sentido. De que realeza estamos falando? Que tipo de rei reconhecemos? Como dizia o biblista Jean-Pierre Prévost: "Para ser honesto com vocês, devo dizer francamente que não tenho nenhuma prelileção particular pela realeza e que, em si, o título de rei aplicado a Jesus não é aquele que mais me inspira". Por essa razão, devemos redefinir a realeza, caso quisermos aplicá-la ao Cristo ressuscitado na Igreja de hoje; caso contrário, corremos o risco de associar Cristo a um monarca igual a todos os outros e que nos faria perder de vista o que Cristo foi e ainda é na Igreja de hoje. Infelizmente, alguns dirigentes da Igreja com frequência confundiram a realeza de Cristo com aquela dos homens, a ponto de deformar o rosto de Jesus. Felizmente, em cada época, houve discípulos, homens e mulheres, que souberam devolver ao Cristo a sua verdadeira realeza, que consiste em servir e não em ser servido.
 
1. A problemática da realeza
Jean-Pierre Prévost escreve: "A história da realeza em Israel começou mal. Foi a contragosto que o profeta Samuelacabou por consagrar Saul primeiro rei de Israel, para responder à demanda do povo que queria ser como todas as outras nações" (1 Sm 8,5). Podemos acrescentar que esse não teve um sucesso real. E por quê? Simplesmente porque o poder corrompe e o prestígio sobe à cabeça daqueles que exercem o poder. É evidente que na história deIsrael houve reis melhores que outros; pensemos em Davi ou em Salomão. Mas esses dois reis, que a tradição bíblica soube embelezar, tornando-os símbolos idílicos, a história mostra que também eram muito humanos, portanto, limitados e pecadores.
No fundo, a Bíblia nos ensina que Deus não queria reis, porque a experiência da realeza era bastante negativa e a história de Israel é a prova disso, uma vez que a realeza não durou mais do que 400 anos e terminou de maneira trágica com o exílio de Sedecias para a Babilônia. O que Deus queria era um rei servidor e não um príncipe que dirige e que explora o seu povo. Esta má experiência da realeza permitiu ao povo de Israel purificar sua fé e imaginar um rei ideal, que seria um verdadeiro pastor e que viria estabelecer um reino de justiça e de paz a serviço dos pobres e dos desafortunados. Esse rei nós o reconhecemos no Cristo Pascal.
 
2. Cristo, Rei do Universo
Foi somente em 1925 que nasceu esta festa e não é pelas mesmas razões que nós continuamos a celebrá-la hoje. Jesus nunca se declarou rei; pelo contrário, o evangelho nos ensina que esse título foi dado a ele de maneira irônica e sarcástica por um rei, Herodes, e por um representante de César, Pôncio Pilatos... Jesus se defendeu: "Pilatosdisse a Jesus: ‘Então tu és rei?' Jesus respondeu: ‘Você está dizendo que eu sou rei'" (Jo 18,37a). Por outro lado, se dizemos que Cristo é rei, é porque reconhecemos nele o servidor que quis estabelecer o reino de justiça e de paz, tão desejado pelos homens e pelas mulheres do seu tempo. Mas ele não tem nada de outro rei: seu trono é a cruz; sua coroa é de espinhos e seu cetro é seu bastão de pastor. O evangelho de Lucas o apresenta, ao mesmo tempo, como um rei sem poder - "Se tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo" (Lc 23,37) - e como um rei muito humano, de sorte que o ladrão crucificado com ele que o interpela, não lhe diz: Majestade ou Senhor, ou Mestre ou ainda Sua Santidade ou Monsenhor... Não! Ele o chama de Jesus: "Jesus, lembra-te de mim quando vieres em teu Reino" (Lc 23,42). Esse bandido torna-se o primeiro sujeito do Reino: "Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará comigo no Paraíso" (Lc 23,43). É o que fez São João Crisóstomo dizer: "Fiel à sua profissão de ladrão, ele rouba por sua confissão o reino dos céus".
 
3. Atualização
Atualmente, temos necessidade de reler este evangelho para celebrar Cristo, Rei do Universo. É preciso nos perguntar: como sociedade e como Igreja, que tipo de rei apresentamos? Que rosto de Cristo mostramos às mulheres e aos homens do nosso tempo? Quantos políticos e lideranças da Igreja exercem o seu poder como monarcas déspotas e cruéis que têm coração muito mais para enriquecer do que servir a coletividade, a comunidade? Na Igreja, quantas dores foram infligidas aos cristãos(as) por lideranças principescas que acreditaram ser os únicos detentores da verdade?
Há alguns anos, o Papa João Paulo II pediu perdão pela Igreja do Renascimento; o cardeal Marc Ouellet fez o mesmo pela Igreja de Quebec antes de 1960, por todos os sofrimentos infligidos às mulheres, aos autóctones, aos judeus, às crianças, aos homossexuais... A reação das pessoas foi muito negativa. Homens, mulheres, membros do clero criticaram duramente tanto o Papa como o cardeal. Diziam que seu perdão era incompleto e condicional; não acreditavam em sua sinceridade. De sorte que o jornalista do jornal Presse, Alain Dubuc, resumiu bem o pensamento de muitos quebequenses sobre o cardeal Marc Ouellet, durante sua passagem pela Comissão Bouchard-Taylor, em 2007. Ele escreve: "Com seu ardor e sua carta de perdão, o cardeal Ouellet conseguiu nos lembrar porque os quebequenses rejeitaram em massa e tão brutalmente a sua Igreja durante os anos 1960. As reações foram muito vivas, porque Ouellet, com sua rigidez e sua arrogância, nos mergulha novamente neste período que os mais velhos dentre nós querem esquecer. Ouellet, eu o digo pesando minhas palavras, após uma leitura atenta das suas intervenções públicas, é um reacionário no sentido mais forte da palavra, alguém que se insurge contra a evolução da sociedade que o cerca, que quer resistir às mudanças e que defende as práticas e os valores que pertencem ao passado".
Pessoalmente, acredito sinceramente que algumas lideranças eclesiais de hoje fazem muito mais mal à Igreja do que a ajudam; eles encarnam esta Igreja que os quebequenses não querem mais: uma Igreja dogmática e doutrinal que sempre exclui as mulheres, uma Igreja homofóbica que condena os homossexuais, uma Igreja obcecada pela sexualidade, uma Igreja que rejeita aquelas e aqueles que vivem um fracasso em seu casamento e que querem continuar a amar, uma Igreja que acredita ser a única detentora da verdade sobre Deus e sobre o mundo, uma Igreja que recusa qualquer evolução e qualquer mudança na sociedade, uma Igreja que não está a serviço do povo de Deus, mas que se serve dos cristãos para aumentar seu prestígio e seu poder. Com uma Igreja assim, estamos longe do Evangelho e, como durante muito tempo encontramos nela esses príncipes, não deveríamos nos surpreender ao ver mulheres e homens se afastarem desta instituição que lhes parece completamente ultrapassada. Felizmente, há o Papa Francisco que nos faz ter esperança e que se junta a todos os bispos, padres religiosos(as), cristãos que continuam a acreditar e que tanto gostariam de viver o evangelho hoje, apresentando um rosto de Cristo amável, misericordioso, tolerante, aberto, livre, justo, respeitoso do outro, dos outros, compassivo: um rosto de Cristo que faz o homem e a mulher na Quebec de hoje ter esperança.
Concluindo, eu gostaria de citar novamente o Alain Dubuc em sua reflexão sobre a Igreja e sua aproximação negativa ao cardeal Marc Ouellet: "De acordo com o cardeal Ouellet, um povo não pode se esvaziar tão rapidamente da sua essência sem consequências graves. De onde a confusão da juventude, a queda vertiginosa dos casamentos, a taxa ínfima de natalidade e o número espantoso de abortos e de suicídios para elencar apenas algumas das consequência que se somam às condições precárias dos idosos e da saúde pública. Esse retrato apocalíptico apaga convenientemente as misérias desta época passada, os efeitos da pobreza e da ignorância. Ele atribui à revolução silenciosa um fenômeno que encontramos em todas as partes do Ocidente. E o mais importante, ele se esquece de perguntar se este abandono brutal da religião não se deve às falhas da Igreja mais do que aos complôs dos artistas da revolução silenciosa.
A Igreja, em vez de acompanhar seus fiéis em um período de mudanças difíceis, os abandona, orgulhosa de sua rigidez, e dessa maneira falha em sua missão. Outras Igrejas, portadoras dos mesmos valores, escolheram um outro caminho, especialmente os anglicanos,  nossa Igreja irmã, onde os padres são casados, onde se ordena mulheres e onde o casamento gay começa, com dificuldades, a ser aceito.
De fato, o que é mais prejudicial é que a alternativa de Ouellet, uma iniciativa individual, compromete o verdadeiro diálogo no qual se engajaram muitos de seus colegas. Mas seria assombroso se tivesse um grande impacto, eleitoral ou qualquer outro, porque o cardeal está se tornando num personagem marginal para os menores de 70 anos. Exceto para nos lembrar porque a separação entre a Igreja e o Estado é tão boa".

34º - Domingo do Tempo Comum: Lembra-te de mim (Cristo Rei)

José Antonio Pagola
 
Segundo o relato de Lucas, Jesus agonizou em meio às zombarias e ao desprezo daqueles que o rodeavam. Ninguém parece ter entendido sua vida. Ninguém parece ter captado sua entrega aos que sofrem, nem seu perdão aos culpáveis. Ninguém viu no seu rosto o olhar compassivo de Deus. Neste momento, ninguém parece perceber naquela morte nenhum mistério.
As autoridades religiosas caçoam dele com gestos depreciativos: "A outros ele salvou. Que salve agora a si mesmo. Se é de fato o Messias de Deus, ‘o Escolhido!', Deus virá em sua defesa".
Também os soldados aderem às zombarias. Eles não acreditam em nenhum Enviado de Deus. Eles riem do letreiro que Pilatos mandou colocar na cruz: "Este é o Rei dos judeus". É absurdo que alguém possa reinar sem poder. Ele deve demonstrar sua força salvando-se a si mesmo.
Jesus permanece calado, porém não desce da cruz. Que faríamos nós se o Enviado de Deus procurasse sua própria salvação fugindo da cruz que o une para sempre a todos os crucificados da história? Como poderíamos acreditar num Deus que nos abandonasse para sempre à nossa sorte?
De repente, em meio a tantas zombarias e desprezo, acontece uma surpreendente invocação: "Jesus, lembra-te de mim, quando entrares em teu Reino". Não é um discípulo nem um seguidor de Jesus. É um dos criminosos crucificados junto dele. Lucas o propõe como exemplo admirável de fé no Crucificado.
Este homem a ponto de morrer executado sabe que Jesus é um homem inocente, que não fez nada mais que o bem para todos. Intui na sua vida um mistério que escapa dele, mas está convencido de que Jesus não será derrotado pela morte. De seu coração nasce uma súplica: somente pede a Jesus que não o esqueça. Só Jesus pode fazer alguma coisa por ele.
Jesus responde imediatamente: "Hoje mesmo você estará comigo no Paraíso". A partir deste momento os dois estão unidos na angústia e na impotência, mas Jesus o acolhe como companheiro inseparável. Os dois morreram crucificados, mas entraram juntos no mistério de Deus.
Em meio à sociedade descrente de nossos dias, muitos vivem confusos. Não sabem se acreditam ou não acreditam.Quase sem sabê-lo, levam no seu interior uma pequena e frágil fé. Às vezes, sem entender por que nem como, sobrecarregados pelo peso da vida, invocam Jesus à sua maneira.
"Jesus, lembra-te de mim", e Jesus escuta-os: "Você estará sempre comigo". Deus tem seus caminhos para encontrar cada pessoa, e nem sempre é por onde indicam os teólogos. É decisivo ter um coração que escute a própria consciência.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Petição demanda ao Papa que ordene extradição de sacerdote acusado de pedofilia

Começou a circular na Internet uma petição pública ao Papa Francisco, criada pelo Coletivo Mulher e Saúde, da República Dominicana, para que o pontífice autorize a extradição do ex-núncio apostólico Josef Wesolowski ao país. O pedido é para ele seja julgado por um tribunal civil de acordo com as leis dominicanas, por ter abusado, durante anos, de crianças e jovens dominicanos.

A denúncia já teria sido confirmada pelo cardeal López Rodríguez, que declarou ter conhecimento e que tinha informado ao Vaticano sobre seus crimes, quando soube que os meios de comunicação tornariam públicas as ações delitivas em que Wesolowski estava implicado. Ele é polonês e, desde 2008, era núncio apostólico na República Dominicana. Até a tarde desta quarta-feira, 20 de novembro, a petição contava com quase 1.100 assinaturas.

O Coletivo considera inaceitável a impunidade que caracteriza esse tipo de caso, tendo em vista a atribuição exclusiva da investigação e julgamento aos tribunais eclesiais. "Isso implica no encobrimento e perdão das sanções civis que delitos como esses têm estabelecidos em todo o mundo, o que se contrapõe a todo sentido de justiça”.

A petição expressa a indignação dos dominicanos e dominicanas com os casos de pedofilia clerical cometidos contra crianças no país pelo menos 10 anos. Pelo menos sete sacerdotes teriam sido acusados por pedofilia desde 2003: Cirilo Antonio Núñez e Ramón Antonio Betances (2003), Domingo Aurelio Espinal Reynoso (2006), Alberto Zacarías Cordero Liriano (2012), Wojciech (Alberto Gil (2013)), Juan Manuel Mota de Jesús (padre Johnny, 2013) e o ex –núncio Joséf Wesolowski (2013).

O Coletivo acusa ainda as autoridades eclesiais locais de continuarem em cumplicidade protegendo os supostos perpetradores ao invés de apresentá-los para serem investigados e punidos pelas autoridades civis.

A petição é fundamentada na mensagem que o cardeal Levada, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, deu durante o simpósio "Rumo à cura e renovação sobre a pederastia", realizado na Universidade Gregoriana de Roma, em fevereiro de 2012. Nessa ocasião ele afirmou que o abuso sexual cometido por clérigos: "Não apenas é um delito no direito canônico, mas também é um crime que viola as leis penais na maioria das jurisdições civis. A Igreja tem a obrigação de cooperar com a lei civil e denunciar esses crimes às autoridades civis".

De acordo com a imprensa internacional, as primeiras acusações contra Wesolowski foram publicadas em agosto deste ano por meio de um programa de televisão. Uma equipe de repórteres seguiu os passos do sacerdote durante um ano, depois de receber denúncias de que ele era conhecido no centro histórico de Santo Domingo por buscar menores de idade. Imagens foram gravadas com Wesolowski ingerindo bebida alcoólica. Informações dão conta de ele pagava 100 pesos para fazer sexo oral e de que era cliente habitual de uma sauna, onde teria mantido relações sexuais com pelo menos sete menores.

Josef Wesolowski nasceu na Polônia em 1948, se ordenou sacerdote em 1972 e se converteu em arcebispo em 6 de janeiro de 2000. No dia 24 de janeiro de 2008 foi nomeado núncio apostólico na República Dominicana. Antes, havia sido embaixador da Santa Sé no Uzbequistão, no Quirguistão, no Tadjiquistão e no Casaquistão.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 467. A Internet Mata-02

sábado, 16 de novembro de 2013

CARMELITAS: Salve Regina.

33º Domingo do Tempo Comum: Apocalipse. Uma catástrofe ou uma esperança?

O estilo literário chamado apocalipse descreve simplesmente a realidade muitas vezes cruel da existência humana na qual nos encontramos, para lançar um grito de esperança, por causa da nossa fé na Ressurreição. Sim! Nós somos prometidos à Ressurreição, mas devemos passar pelo sofrimento e pela morte, por causa da nossa finitude humana. Não devemos, sobretudo, desesperar, e esses textos apocalípticos existem para nos fazer refletir.
A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 33º Domingo do Tempo Comum – Ciclo C do Ano Litúrgico (17 de novembro de 2013). A tradução é de André Langer.
Referências bíblicas:
Primeira leitura: Ml 3,19-20a
Segunda leitura: 2 Tm 3,7-12
Evangelho: Lc 21,5-19
Eis o texto.
No domingo passado, nós ouvimos os saduceus colocarem Jesus à prova sobre a Ressurreição dos mortos; hoje, o próprio Jesus começa um discurso sobre o fim dos tempos. Ao invés de ter medo e viver na angústia, o discípulo deve utilizar o tempo que lhe é dado para suportar e testemunhar o Evangelho: “É permanecendo firmes que vocês irão ganhar a vida” (Lc 21,19). Quando chegamos ao fim do ano litúrgico, a cada ano, temos textos do evangelho de sabor apocalíptico. Mas atenção! Alguns gostariam de ver nisso anúncios de catástrofes e de tragédias que precedem o fim dos tempos, por causa das imperfeições e dos limites humanos... mas, não é nada disso. Pelo contrário, esse estilo literário chamado apocalipse descreve simplesmente a realidade muitas vezes cruel da existência humana na qual nos encontramos, para lançar um grito de esperança, por causa da nossa fé na Ressurreição. Sim! Nós somos prometidos à Ressurreição, mas devemos passar pelo sofrimento e pela morte, por causa da nossa finitude humana. Não devemos, sobretudo, desesperar, e esses textos apocalípticos existem para nos fazer refletir.
 1. A realidade de Lucas
No tempo em que Lucas escreve o seu evangelho (80-90 d.C.), estamos em um período de plena perseguição. A guerra judaica de 66, que desembocou na tomada de Jerusalém pelos romanos e na destruição do Templo em 70, poderia ser percebida tanto pelos judeus como pelos cristãos como sinais precursores do fim dos tempos, tanto mais que durante os anos que se seguiram a essas turbulências, os cristãos conheceram tempos muito difíceis, tempos de perseguições. O livro dos Atos dos Apóstolos reúne as provas encontradas pela jovem Igreja: “Os sacerdotes, o chefe dos guardas do Templo e os saduceus prenderam Pedro e João” (At 4,11-3); “Paulo e Silas tiveram suas vestes rasgadas, foram acoitados e lançados na prisão” (At 16,22-24). A fidelidade a Cristo por parte dos discípulos provoca a oposição de todos: dos judeus, dos pagãos, do Estado romano e da sua própria família: “Vocês serão odiados por todos, por causa do meu nome” (Lc 21,17). Por outro lado, apesar dos sofrimentos e das aflições, os discípulos podem continuar a ter esperança: “Isso acontecerá para que vocês deem testemunho. Portanto, tirem da cabeça a ideia de que vocês devem planejar com antecedência a própria defesa; porque eu lhes darei palavras de sabedoria, de tal modo que nenhum dos inimigos poderá resistir ou rebater vocês” (Lc 21-13-15). E mais ainda: “Mas não perderão um só fio de cabelo” (Lc 21,18).
2. Os falsos messias
O que torna o discurso de Lucas original é o anúncio dos falsos messias. Podemos assinalar a atividade dos profetas zelotes durante a guerra judaica (66-70) que, segundo Flávio Josefo, anunciam como iminentes os sinais da salvação. Na ótica de Lucas, trata-se antes de falsos doutores que perturbam as comunidades: “Cuidado para que vocês não sejam enganados, porque muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Sou eu’. E ainda: ‘o tempo já chegou’. Não sigam esta gente” (Lc 21,8). Esses profetas da desgraça tinham uma influência maior sobre os cristãos à medida que esses eram realmente perseguidos: “Mas, antes que essas coisas aconteçam, vocês serão presos e perseguidos; entregarão vocês às sinagogas, e serão lançados na prisão; serão levados diante de reis e governadores, por causa do meu nome” (Lc 21,12).
Lucas reconhece que sua comunidade vive momentos difíceis e que a Igreja nascente atravessa tempos conturbados, mas esses momentos de prova podem ser encontrados ao longo de toda a história humana. Já o profeta Malaquias, no século V antes de Cristo, anunciava dias melhores, numa época de grandes turbulências, quando sua comunidade vivia um certo desânimo: “Vejam! O dia está para chegar, ardente como forno” (Ml 3,19a). Malaquias critica severamente o culto de seu tempo: faz críticas contra os fiéis que apresentam a Deus animais aleijados (Ml 1,8), críticas contra os sacerdotes negligentes que não ensinam a Lei de Deus (Ml 2,1-9). Por outro lado, o profeta compartilha seu otimismo: “Mas para vocês que temem a Javé brilhará o sol da justiça, que cura com seus raios” (Ml 3,20a).
Guerras, terremotos, fomes, epidemias e intempéries de todo tipo, sempre houve e sempre haverá. Este ano, houve terremotos em muitos países, um tufão acaba de destruir uma parte das Filipinas, a guerra continua a castigar na Síria e em outras partes do mundo; a aids continua a fazer vítimas nos países pobres e os cientistas temem catástrofes por causa do aquecimento climático. A partir destas duras realidades ainda existem profetas da desgraça e falsos messias para assustar as pessoas e para anunciar-lhes que é o fim do mundo. Chegam inclusive a anunciar que será em breve. Lucas nos reiterou: “Não sigam essa gente” (Lc 21,8b); “Não será logo o fim” (Lc 21,9b); “Isso acontecerá para que vocês deem testemunho” (Lc 21,13); “É permanecendo firmes que vocês irão ganhar a vida” (Lc 21,19).
3. Atualização
Ao atualizar a Palavra de hoje me dou conta de que sempre temos necessidade desses relatos de apocalipse para nos recordar que somos, em primeiro lugar, seres de finitude, isto é, seres materiais, frágeis, limitados, submissos às leis naturais e às regras muitas vezes cruéis da natureza humana, mas nós somos também seres espirituais, prometidos à Vida com V maiúsculo, porque salvos gratuitamente pelo Cristo ressuscitado. Como acontece, então, que na própria Igreja, ainda existem homens que ocupam funções importantes e que agem como profetas da desgraça e falsos messias? Quando se começou a falar de laicidade, o ex-arcebispo de Quebec, o cardeal Ouellet afirmou em alto e bom tom que em Quebec perdemos todos os nossos pontos de referência e que a sociedade laica na qual estamos dirigia-se para um beco sem saída. Felizmente, o bispo de Trois-Rivières da época disse exatamente o contrário. Ele optou por uma laicidade aberta; reconheceu que Quebec havia sofrido durante muito tempo um casamento às vezes fechado entre a religião e os governos, o que deixou um gosto amargo em muitos dos nossos contemporâneos.
Temos, pois, duas aproximações completamente diferentes: de um lado, o tom pessimista de um cardeal que fala de vazio espiritual, de ruptura religiosa e cultural, de crise da família e da educação, de cidadãos desorientados, desmotivados, sujeitos à instabilidade e apegados a valores passageiros e superficiais, ao relativismo religioso e ao fundamentalismo laicista... e de outro lado, o tom otimista de um bispo que, embora reconhecendo os limites da sociedade quebecoense atual, fala de esperança e de uma visão positiva sobre o futuro. Infelizmente, com o projeto de lei 60 do governo atual sobre os valores da laicidade, estamos em vias de dar razão ao cardeal Ouellet. E, assim mesmo, o bispo Vaillette escreveu coisas tão bonitas... Disse: “Eu defendo uma laicidade aberta... Eu não sou nostálgico da sociedade eclesial de antes de 1960 e, sobretudo, não quero restabelecê-la. O aumento da laicidade foi salutar para a sociedade e para a religião católica. Uma depuração. Um apelo que nos foi lançado, a nós católicos, para reencontrar as raízes profundas da nossa fé, para nos aproximarmos da humildade dos evangelhos e para continuar a trabalhar por um mundo melhor e mais justo numa economia de meios, mas animados pelo mesmo sopro. Eu faço um apelo por um diálogo com os defensores de todas as formas de laicidade. Um diálogo construtivo inspirado em nossos valores comuns e respeitosos da verdade da história”. Mas quando um governo quer proibir os seus funcionários de usar sinais religiosos, não estamos mais em uma laicidade aberta, mas numa espécie de perseguição daquelas e daqueles que tem fé e que querem simplesmente expressá-la.
Para terminar, gostaria de citar o exegeta francês Jean Debruynne, em seu comentário sobre o evangelho de hoje. Ele escreve: “... Virão dias em que não ficará pedra sobre pedra... É com estas palavras que Lucas anuncia a ruína do Templo de Jerusalém. Jesus, provavelmente, não se refere à demolição do prédio. Jesus não é um promotor que sonha em substituir uma velha igreja por uma nova, mais na moda e mais moderna. Jesus não quer mais o Templo porque não quer mais a religião. Chegou o momento em que seu Evangelho corre o risco de transformar-se rapidamente em religião: Muitos virão dizendo em meu nome: sou eu! Não sigam essa gente. Jesus não veio para anunciar uma religião, mas a fé”. E eu acrescentaria, a fé pode se expressar por um sinal e ninguém tem o direito de proibi-lo...

A PALAVRA... Nº 463. 33º Domingo do Tempo Comum. Ano-C.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Papa Francisco: ''Deus perdoa os pecadores, mas não os corruptos''

"A vida do corrupto é podridão". Na missa em Santa Marta, Francisco critica abertamente quem é "benfeitor da Igreja (…) mas rouba o Estado e os pobres". A condenação da corrupção dentro e fora da Igreja é um tema dominante do pontificado. A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no jornal La Stampa, 12-11-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Cristãos corruptos, padres corruptos", a "vida dupla" transforma o cristão em um "sepulcro caiado", talvez bonito externamente, mas "cheio de ossos mortos e podridão". Além disso, "Jesus diz que a esse tipo de cristão de vida dupla deve ser posta uma pedra de moinho ao pescoço e deve ser jogado ao mar".

Bergoglio sublinha a "diferença" entre pecar e escandalizar. "Quem peca e se arrepende, pede perdão, se sente fraco, se sente filho de Deus, se humilha", observa o pontífice, enquanto aquele que escandaliza "continua pecando, mas finge ser cristão", leva uma "vida dupla", engana, e "onde há engano não há o Espírito de Deus". Portanto, "nós devemos nos dizer pecadores, sim, todos aqui, todos o somos. Corruptos, não". De fato, "o corrupto é fixado em um estado de suficiência, não sabe o que é a humildade".

Jesus, sublinha Francisco, denuncia o comportamento de "sepulcros caiados". E "um cristão que se orgulha de ser cristão, mas não tem uma vida de cristão, é um desses corruptos". Além disso, "todos conhecemos alguém que está em uma situação semelhante, e quanto mal eles fazem à Igreja! Cristãos corruptos, padres corruptos, quanto mal fazem à Igreja! Porque não vivem no espírito do Evangelho, mas no espírito da mundanidade".

Bergoglio cita São Paulo, que adverte na Carta aos cristãos de Roma: "Não se conformem a este mundo, não entrem nos seus esquemas e parâmetros". Daí, de fato, "nasce a mundanidade que te leva à vida dupla".

A luta contra a corrupção é uma pedra angular do Evangelho social de Bergoglio. "A sua teologia é uma teologia da libertação que substitui o marxismo pela misericórdia cristã", observa o porta-voz da Comunidade de Santo Egídio, Mario Marazziti. "Ele coloca na centro a mudança e os direitos dos últimos, sem os quais não há dignidade humana, chamando a boa política a corrigir as distorções do capitalismo globalizado e a se retomar o primado na cena pública para não deixar o campo livre para a economia, para a religião da individualidade e para os interesses corporativos".

Além dos administradores desonestos, o papa se refere aos "gnomos das finanças". Na primeira viagem do pontificado, a Lampedusa, ele denunciou "a crueldade daqueles que, no anonimato, tomam decisões condições socioeconômicas que abrem o caminho para as tragédias das migrações". Uma abordagem de reformador que também encontra implementação na sua ação de limpeza financeira e organizativa da estrutura eclesiástica.

Uma verdadeira "perestroika" na Cúria que teve a sua incubação no "laboratório Buenos Aires", no qual se formou o primeiro pontífice jesuíta e sul-americano da história. Na América Latina, a batalha conquistou-lhe a estima dos líderes do movimento pelos direitos humanos, como Alicia de Oliveira, e o respeito das Mães da Praça de Maio, duríssimas contra a hierarquia católica.

Bergoglio nunca se curvou aos caudilhos, militares ou políticos, que se alternaram no comando da Argentina. Ele compartilha a postura política do seu antecessor, Antonio Quarracino, não distante da ala popular dos peronistas.

A PALAVRA... 461. Análise dos sites católicos-03

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

CARMO: Todos os Santos e Santas da Ordem.

Papa Francisco está sob a mira da máfia, diz juiz italiano; Vaticano nega risco

O papa Francisco está sob a mira da máfia calabresa, a 'Ndrangheta, por causa de sua recente cruzada contra a corrupção no Vaticano. O alerta foi dado pelo juiz Nicola Gratteri, em entrevista ao jornal italiano "Il Fatto Quotidiano". Para o Vaticano, "não há motivo real" para preocupação.
Segundo o magistrado, conhecido por combater a máfia na região da Calábria, a tentativa de Francisco de trazer mais transparência para o Vaticano deixou os mafiosos que fazem negócios com religiosos corruptos mais "nervosos e agitados".
"O papa Francisco está desmantelando os centros do poder econômico do Vaticano. Os chefões da máfia não hesitariam em tentar qualquer coisa contra ele", afirmou. "Não sei se o crime organizado está preparado para fazer algo, mas certamente está pensando a respeito. Eles podem ser muito perigosos."
O Vaticano negou, nesta quinta-feira (14), que o papa Francisco esteja na mira de grupos mafiosos italianos.
"Não há nenhum motivo real para nos preocuparmos. Não é o caso de alimentar alarmes, estamos tranquilos", disse o porta-voz da Santa Sé, padre Federico Lombardi.
Reforma no Banco do Vaticano
Francisco promoveu uma reforma no Banco do Vaticano depois que a instituição foi alvo de investigações por lavagem de dinheiro.
"A máfia que investe, que lava dinheiro, é a que tem o real poder. É essa que ficou rica com a conivência de anos da igreja", disse Gratteri. "São essas pessoas que ficaram nervosas."
O juiz atacou padres e bispos do sul da Itália que, segundo ele, legitimam a ação de mafiosos.
"Os padres locais costumam visitar as casas dos chefes da máfia para tomar um cafezinho. Isso dá força e poder popular para o crime", afirmou.
Em 26 anos de trabalho, Gratteri contou nunca ter entrado na casa de um mafioso que não tenha uma imagem religiosa. Segundo uma pesquisa, 88% dos mafiosos presos na Itália se dizem religiosos.
"Os ritos de afiliação na máfia evocam a religião. A igreja e a 'Ndrangheta caminham lado a lado", disse. "Antes de matar, o mafioso reza. Ele pede proteção para Nossa Senhora." (Com agências internacionais)

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A PALAVRA... 460. Análise dos sites católicos-01


No Quadringentésimo sexagésimo vídeo; "A Palavra do Frei Petrônio", o Frei Petrônio de Miranda, Padre  Carmelita da Ordem do Carmo, estudante de Jornalismo da Fapcom- Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação, fala sobre uma análise do desempenho de alguns sites católicos a partir do artigo, “Igreja e Mídia”, de José Lisboa Moreira de Oliveira, filósofo, teólogo, escritor, conferencista e professor universitário. Nesta primeira parte, veja a reflexão sobre a “Visão deturpada do Deus de Jesus”.  OBS: Leia o artigo na íntegra. Clique aqui: http://www.mensagensdofreipetroniodemiranda.blogspot.com.br/2013/11/igreja-e-midia.html. Convento do Carmo, São Paulo.  13 de novembro-2013. 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Igreja e Mídia

"A análise do desempenho de alguns sites católicos nos permite identificar pelo menos três problemas teológicos sérios: visão deturpada do Deus de Jesus, ausência do senso eclesial e fuga do compromisso com os outros. (...) O que se questiona é a forma como se está utilizando este recurso; forma essa que termina por alimentar uma religiosidade melosa, mágica, egoísta, falsa e não-cristã", escreve José Lisboa Moreira de Oliveira, filósofo, teólogo, escritor, conferencista e professor universitário, publicado no blog O Chamado, 07-11-2013. Segundo ele, "o que se questiona é a forma como se está utilizando a internet; forma essa que termina por alimentar uma religiosidade melosa, mágica, egoísta, falsa e não-cristã".

Eis o artigo.

"Em 2011 o jornalista e pesquisador Moisés Sbardelotto publicava o resultado de uma pesquisa por ele realizada sobre a midiatização do sistema religioso católico. O objetivo da pesquisa era analisar alguns serviços religiosos disponíveis em sites católicos. O resultado foi inicialmente publicado no número 35 da revista eletrônica do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, conhecida como Cadernos IHU, com o título: “E o Verbo se fez bit”. Uma análise da experiência religiosa na internet. Posteriormente o autor transformou sua pesquisa em livro, lançado em 2012 pela Editora Santuário de Aparecida (SP) com o título: E o Verbo se fez bit. A comunicação e a experiência religiosas na internet"

Mais do que fazer uma análise crítica dos conteúdos dos sites católicos, o autor pretendeu, com sua pesquisa, apenas registrar o fato de que, no contexto atual, as mídias são o ambiente onde tudo se move. Dentro dessa lógica, “o religioso já não pode ser explicado nem entendido sem se levar em conta o papel das mídias” (IHU, p. 5). Sbardelotto conclui, a partir de sua pesquisa, que os sites católicos analisados oferecem, além de informações gerais sobre religião, meios para um vínculo do fiel com Deus e elementos em ambiente online para a prática da fé. Deixa bem claro que os sites analisados não possibilitam um conhecimento racional da fé, mas, muito mais, estratégias para a experiência religiosa e uma modalidade de percepção da presença do sagrado, por parte das pessoas que acessam esses sites.

Nesse sentido, não era intenção do autor da pesquisa fazer uma análise teológica dos conteúdos. Somente na parte final do seu trabalho ele chama rapidamente a atenção do leitor para possíveis “escapes doutrinários”, ou seja, para elementos de crença que se distanciam do universo católico. Acredita que tais “escapes” se dão, antes de tudo, pela inferência dos fiéis que postam suas mensagens e suas preces nos referidos sites. O autor, salvo engano da minha parte, não faz nenhuma análise daquilo que é colocado nos sites pelos “sacerdotes da virtualidade” (Galimberti) e que, de certa forma, a meu ver, induz os fiéis aos deslizes doutrinários.

Seria arrogância da minha parte, pretender, num brevíssimo artigo como esse, fazer uma análise teológica do que aparece nos sites católicos. Porém, com a ajuda dos dados da pesquisa de Sbardelotto, e a partir de minhas próprias pesquisas, ouso fazer algumas considerações que poderão servir de pontapé inicial para uma reflexão maior. Quero aqui avaliar três aspectos que, a meu ver, aparecem nesses sites: a imagem de Deus, o modelo de Igreja apresentado e a compreensão do ser humano na perspectiva cristã, especialmente no que se refere ao compromisso cristão no mundo. Nessa análise sirvo-me de uma excelente reflexão que encontrei sobre o uso da internet e “mística virtual” no livro Rastros do Sagrado de Umberto Galimberti (Paulus, 2003, pp. 280-287). Uma análise bem anterior às pesquisas de Sbardelotto, mas nem por isso menos atual.

A primeira coisa que mais impacta nos sites católicos é a figura de Deus. De um modo geral, salvo algumas raríssimas exceções, é um Deus “pronto-socorro”, feito segundo os gostos dos clientes, sempre pronto a atender às necessidades imediatas e urgentes dos sujeitos. Um Deus mágico que atende prontamente aos pedidos, sob a condição de que esses fiéis acendam uma velinha virtual, acompanhem um terço online, façam uma adoração a um Santíssimo Sacramento que, de fato, não existe e, sobretudo, contribuam mensalmente para a manutenção de toda aquela parafernália virtual. Esse não é o Deus de Jesus, ao qual não precisamos ficar pedindo nada, pois ele já sabe de tudo o que precisamos, antes mesmo de o pedirmos. O multiplicar-se de palavras, de preces, de súplicas, de falatórios desses sites está mais para coisa de pagão, do que para cristão (Mt 6,5-8).

O segundo elemento é o reforço do individualismo religioso e a destruição da comunidade cristã a qual, necessariamente, deve estar situada em um lugar concreto (1Cor 1,2; Rm 1,7). E ao dizer da necessidade de estar situada num lugar concreto entendo falar não apenas da dominical “assembleia dos convocados” que define a Igreja, mas do encontro das pessoas entre si para conversarem pessoalmente sobre seus problemas e tocarem calorosamente os seus corpos uns nos outros através de um aperto de mão, de um abraço e de um beijo (Rm 16,16). Na “Igreja virtual” a pessoa não precisa mais sair de casa para obter graças e vantagens religiosas para si. As pessoas deixam de tomar parte ativa na vida concreta de uma comunidade e se transformam em meros consumidores de kits de salvação, disponíveis nos sites católicos. A Igreja passa a ser um supermercado virtual.

Com isso há sério risco de esfacelamento da Igreja, a qual se define como comunidade convocada e reunida pela Trindade. É verdade que nesses sites católicos aparecem pedidos e preces por outras pessoas. Mas, nos lembra Galimberti, falta o essencial de uma comunidade cristã que é a capacidade de fazer experiência. Pela maneira como são pensados e organizados, os sites católicos só são “capazes de pôr em comunicação milhões de solidões, que transformarão todos os solitários, privados exatamente pelos meios de comunicação da possibilidade de fazer uma experiência compartilhada, em habitantes de um mundo comum” (Galimberti, p. 287). Na virtualidade não há Igreja, mas massa anônima, consumidora de produtos religiosos virtuais, a qual geralmente só se encontra virtualmente através da degradação da individualidade.

O católico virtual que só acessa a “igreja do computador” não sai mais de casa. E, ao não sair de casa, ele se distancia da realidade, dos outros e dos problemas dos outros. Seu cristianismo ao invés de ser centrífugo (na direção do próximo), como pediu Jesus (Lc 10,29-37), se torna centrípeto (voltado somente para ele mesmo). É o católico “que não está mais com o outro, mas apenas ao lado do outro”, numa “fuga solitária que não compartilha com ninguém, ou no máximo com um milhão de solitários do consumo de massa, que ao mesmo tempo que ele, mas não junto com ele, cravam os olhos na tela” (Galimberti, p. 285).

A análise do desempenho de alguns sites católicos nos permite identificar pelo menos três problemas teológicos sérios: visão deturpada do Deus de Jesus, ausência do senso eclesial e fuga do compromisso com os outros. Não se trata aqui de “demonizar” a internet e a mídia, como, infelizmente, fazem alguns. Hoje o recurso midiático deve ser necessariamente usado na catequese, na evangelização, na informação e na formação da consciência crítica dos cristãos e das cristãs. O que se questiona é a forma como se está utilizando este recurso; forma essa que termina por alimentar uma religiosidade melosa, mágica, egoísta, falsa e não-cristã.

Por último, recordando o que nos diz ainda Galimberti (p. 283), não devemos esquecer que a mídia, em si, não é totalmente neutra. Ela, com seu poder, termina moldando a nossa natureza. Ela nos plasma, a tal ponto que, em vários lugares do mundo, já começam a surgir muitos casos de viciados em internet, precisando de tratamento psicológico e até psiquiátrico.

Na Igreja Católica já temos alguns casos de psicopatia eclesiástica: pessoas que chegam ao delírio de pensar que Jesus, o Verbo do Pai, é uma simples mercadoria, um software, a ser comercializado nas feiras católicas nacionais e internacionais.

Recentemente ouvi da boca de um desses organizadores da Expocatólica algo parecido: Jesus é um “produto” a ser oferecido através de um bom marketing. Com esses midiáticos voltamos a dois mil anos atrás, quando o Filho do Homem irritado com uma religiosidade mercadológica semelhante, pegou um chicote de cordas e botou todo mundo para correr dizendo: “Não façam da casa de meu Pai uma casa de negócios” (Jo 2,16). Não estaria na hora de alguém pegar um chicote não-virtual e expulsar da Igreja os que reduzem Jesus a um mero produto virtual?

domingo, 10 de novembro de 2013

32º Domingo do Tempo Comum: A vida depois da morte (Lucas 20,27-38)

O evangelho deste domingo traz à luz o antigo e sempre atual questionamento sobre o que acontece depois morte. Existe vida, ressurreição?

Jesus responde a esta pergunta. Mas, para entender sua resposta, precisamos conhecer um pouco sobre a fé na ressurreição no Primeiro Testamento.

Porque é dessa tradição veterotestamentária que bebe Jesus e os/as primeiros/as cristãos/ãs.

O texto explica claramente que os saduceus não acreditam na ressurreição. Eles se opõem ao pensamento inovador dos fariseus que afirmam a ressurreição, a existência de anjos e acreditam no juízo de Deus.

Quando lemos o Primeiro Testamento, descobrimos um Deus da vida e dos vivos. O livro do Deuteronômio O apresenta como "o Senhor da vida e da morte" (Deuteronômio 32,39).

O segundo livro dos Macabeus, em que se narra o martírio dos sete irmãos e sua mãe, expressa a esperança deles na ressurreição: "É o Criador do mundo que formou o homem em seu nascimento e deu origem a todas as coisas, que vos retribuirá, na sua misericórdia, o espírito e a vida..." (2 Macabeus 7,23).

Dessa maneira, este texto, assim como outros (Salmo 73,23; Isaías 26,19; Oseias 6,1-3), nos revelam um Deus que é fiel à aliança que fez com seu povo, e essa fidelidade é salvadora. Por isso, os justos, aqueles/as que vivem conforme a sua lei, não conheceram a corrupção, senão a vida em plenitude que Deus lhes dará em recompensa.

Jesus se situa em continuidade a esta fé. Tomando as palavras de Moisés, afirma sua crença num Deus que "não é Deus de mortos, mas de vivos, pois todos vivem para ele".

Ele conhece o amor de seu Pai a cada uma de suas criaturas e sabe também que esse amor criador, incondicional, é mais forte que a morte, a ponto de ele mesmo chegar a proclamar: "Eu sou a ressurreição e a vida, quem acredita em mim, mesmo que morra, viverá" (João 11,22).

O texto de hoje quer também esclarecer o conceito de ressurreição. Podemos fazer uma parada e nos perguntarmos qual é nossa ideia sobre a ressurreição dos mortos.

A pergunta dos saduceus a Jesus se baseia na lei judaica do levirato, que buscava proteger a viúva (Deuteronômio 25,5-10). Quando o homem morre sem deixar filhos, seu irmão deve tomar sua mulher para cuidar e também gerar prole. Então, "na ressurreição, de quem a mulher vai ser esposa?".

Esta pergunta desenha um imaginário errôneo de ressurreição como repetição desta vida, anulando a novidade que a ressurreição cria, gera, não regida mais pelas leis físicas ou biológicas, senão pelo amor de Deus no qual a criatura ressuscitada participa. Isso não quer dizer que a pessoa, ao ressuscitar, perde sua identidade, diluindo-se na presença de Deus.

Ao contrário! Assim como Jesus, ao ressuscitar, alcança sua plenitude humana, seus irmãos e irmãs que morrem, ao ressuscitar, não perdem sua identidade, continuam sendo eles/as e seu mundo de relações que os/as definem, mas de uma maneira mais plena, total, que transcende as barreiras do tempo e do espaço.

O teólogo espanhol Andrés Torres Queiruga, refletindo sobre a afirmação de Jesus de que na ressurreição os homens e as mulheres "não se casarão mais, porque não podem mais morrer, pois serão como os anjos", considera que estas palavras não anunciam uma vida abstrata ou despersonalizada.

Antes, elas aludem à plenitude do novo modo de existência, em que o amor, porque estará livre do egoísmo, não se submeterá à rivalidade e à exclusão. Os vínculos e o amor se conservarão, mas já não se limitarão à vida e às relações, mas se expandirão para alegria de todos.

Assim sendo, o evangelho de hoje é um convite a renovar nossa fé no Deus da vida, que fez de seu filho Jesus o primogênito dos que ressuscitam dos mortos, criando para nós o caminho da vida eterna.

Crer na ressurreição de Jesus nos leva a crer na nossa própria ressurreição, a celebrar a vida nova de nossos mortos e a esperar ativamente nos encontrarmos todos e todas no banquete eterno, onde todos, sem exceção, nos sentaremos na mesma mesa dos filhos e filhas de Deus.