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domingo, 1 de novembro de 2015

A REALIDADE DA AMÉRICA LATINA À LUZ DA TRADIÇÃO DO CARMELO

*Dom Frei Vital Wilderink, o. carm

Ao receber o convite para dar uma contribuição neste encontro, levei um susto. Achava o tema vasto demais: iluminar a realidade da América Latina a partir da tradição do Carmelo. Em primeiro lugar, porque dar uma visão de conjunto dessa realidade, levando em consideração os seus múltiplos aspectos e dimensões, pareceu-me uma tarefa muito difícil, senão impossível. Os instrumentos de análise, por necessários e pertinentes que sejam, não conseguem abranger o todo dessa realidade. Trata-se de um jogo de quebra-­cabeça em que se tenta combinar peças baralhadas para formar uma figura, mas sempre faltam ou sobram peças. É que a evolução da realidade não tem uma lógica, principalmente nos tempos atuais em que o processo da mundialização produz seus efeitos em toda parte. E freqüentemente os frutos bons e os frutos imprestáveis chegam misturados no mesmo transporte.
Mas o que se espera da minha contribuição não será, penso eu, uma leitura crítica da realidade. Os trabalhos feitos neste encontro na fase do ver, com a ajuda competente de um assessor, poderão oferecer valiosos elementos para esclarecer a situação em que nós, como carmelitas, devemos encontrar o nosso caminho. Esse conhecimento é importante e indispensável para tomarmos consciência de que "a viagem continua". Na vida, enquanto viagem e busca, há momentos em que você encontra algo que abre perspectivas. São momentos em que se tem a impressão de que tudo de repente se torna um pouco mais compreensível, momentos em que se consegue combinar algumas peças do jogo de quebra-cabeça que configuram já alguma parte da paisagem onde você quer inserir-se como carmelita. Isto dá uma alegria, uma força de libertação, dá perspectivas à vida. É que a partir do parcial você se liga com o total, do relativo você passa para o essencial que é mais do que o resultado atingido pelo trabalho feito até agora. É neste ponto que começa a contribuição que me foi pedido, e que, em carta recebida, foi formulado da seguinte maneira: "Exponha simplesmente o seu pensamento como carmelita que vive aqui na América Latina".

A luz da tradição do Carmelo

Talvez seja bom esclarecer um pouco a noção de tradição. Digo de propósito noção e não conceito porque, a meu ver, o termo noção sugere mais uma abertura para descobertas existenciais. Nesta perspectiva eu diria que "tradição é uma certa qualidade de vida que, na livre escolha feita em base da situação concreta, inspira a maneira na qual será organizado um dado perenemente novo". O lema do último capítulo geral "A viagem continua" é muito sugestivo para traduzir em que consiste a tradição do Carmelo. Tradição é uma viagem. E quem não viaja acaba com a tradição. Não sei se sou um expoente da tradição carmelitana. Sei que a recebi de outros, em primeiro lugar daqueles cristãos leigos que peregrinaram para a Terra Santa, considerada patrimônio de Jesus Cristo, e que se estabeleceram no Monte Carmelo. Como tantos outros eles queriam "viver em obséquio de Jesus Cristo e servi-lo fielmente com coração puro e consciência serena". Eles deviam ter na cabeça e no coração os referenciais daquele movimento difuso dos "Pobres de Cristo" que, já no século XII, foi nascendo, não sem conotações de protesto contra situações políticas e sócio-econômicas. do contexto histórico daquela época. Alberto, patriarca de Jerusalém, deu a eles uma sóbria fórmula de vida, um quadro de referências para viver de acordo com a opção deles. Na mensagem final aos irmãos e irmãs da Família Carmelitana, os participantes do Capítulo Geral de setembro do ano passado afirmam que, refletindo sobre o momento importante da história atual e repassando brevemente na memória o caminho que o Carmelo percorreu no passado, perceberam a vitalidade da Regra ao longo da história para inspirar, responder aos desafios, animar e fazer surgir novas formas de vida. Para continuar a viagem é preciso saber de onde se vem. Quem não sabe de onde vem, também não sabe para onde ir.
Se a tradição é uma viagem que continua, é evidente que o "filtro do tempo" desempenha um papel importante na sua vivência interpretativa. Seria interessante aprofundar as reformas pelas quais a Ordem passou ao longo dos séculos, enquanto re-interpretações do significado fundamental do Carmelo. Se a cada um de nós se fizesse a pergunta: o que é fundamental, o que é essencial ao Carmelo, provavelmente iríamos concordar com muitas respostas. Mas, ao mesmo tempo, cada resposta nos deixaria insatisfeitos. Por sinal, essa insatisfação revela o fundamental do Carmelo. Penso que Alberto apresenta essa insatisfação como conclusão da sua carta aos eremitas do Monte Carmelo.
É isso que, com brevidade, vos escrevemos, determinando a forma de conduta segundo a qual devereis viver. Se alguém fizer mais, o Senhor mesmo lhe retribuirá quando voltar. Use, porém, de discernimento que é moderador das virtudes.
         Pergunto o que os primeiros carmelitas podiam fazer mais, além do que Alberto escreveu na forma vitae? A própria Regra já aponta em praticamente todos os seus parágrafos para um mais na conduta dos carmelitas. Ela não predefine limites para a caminhada. Apesar de ter um valor jurídico, a Regra não é, no sentido estrito, um documento jurídico. Na conclusão a carta de Alberto faz uma alusão à parábola do Bom Samaritano, modificando-a em alguns pontos. O evangelho de Lucas o Bom Samaritano dá dois denários ao dono da hospedaria, e diz: "Cuida do homem ferido, e o que gastares a mais, eu, quando voltar, te pagarei" (Lc 1 0,35). O texto da Regra: "Se alguém fizer mais, o Senhor mesmo lhe retribuirá quando voltar". O conteúdo pragmático de Lucas (o que falta aos dois denários) é transformado em engajamento da pessoa. Se alguém der mais, se der mais da sua pessoa, ou melhor, se alguém se entregar a si mesmo, o Senhor mesmo lhe retribuirá quando voltar. Mas também isto já está na Regra quando diz que deve viver em obséquio de Jesus Cristo e servi-lo de coração puro e consciência serena. Afinal, trata-se de amar Deus e o próximo de todo o seu coração, de todo o seu espírito e de todas as suas forças. É um engajamento pessoal que não tem fim. Ou seja, é um convite para entrar num espaço que não pode ser descrito, que não pode ser objeto de uma fórmula de vida, de uma Regra. O que falta aos dois denários pode ser contabilizado, mas a fé como confiança é um pulo no desconhecido. A fé-confiança constrói sobre a fidelidade do Outro, fidelidade que eu não posso modelar (noite da fé). E o amor é um deserto onde não há caminho já traçado. Um verdadeiro dom é por sua natureza indefinido e escondido, pois a mão direita não sabe mais o que faz a mão esquerda. Recentemente, durante um retiro para carmelitas de clausura, emprestaram-me uma bíblia da biblioteca do mosteiro. Nela encontrei um papelzinho em que uma pessoa anônima (talvez uma irmã já falecida) tinha escrito: "Eu gostaria de amar como Deus se ama a si mesmo". E neste caminho vai também a esperança, aquela menina pequena que anda de mãos dadas com a fé e o amor (Charles Péguy), enquanto seus cabelos são tocados pelo vento que sopra do horizonte desconhecido. A parábola com que Kees Waaijman comenta o parágrafo final da Regra, merece ser transcrita:
 Nos confins do deserto existia um pequeno albergo. Uma sala de jantar, algumas camas e um estábulo para os animais. Era tudo. O hospedeiro vivia em função de seu albergo. Mantinha tudo em ordem. Os quartos eram limpos e havia o suficiente para comer e beber. Quando chegava um viajante, ele se colocava à disposição dele. Procurava adivinhar seus desejos. "Meu hóspede é meu patrão", como ele dizia. Muitas vezes, seu olhar se perdia no deserto. Em certo sentido ele esperava hóspedes imprevistos. Ele era conhecido por sua hospitalidade, sempre dava um jeito.
Numa tarde já avançada, enquanto os hóspedes conversavam do lado de fora, alguém se aproximou vindo do deserto. No seu animal ele trazia um homem gravemente ferido. Ele foi mal tratado por assaltantes. O viajante estava visivelmente emocionado. Dirigiu-se ao dono do albergo: "Tenha a bondade, cuide bem dele. Aqui você tem um adiantamento, o resto eu pagarei quando voltar”. Depois comeu um pedaço de pão, tomou um copo de vinho, beijou o ferido e desapareceu na noite.
"Bela generosidade!"  murmuravam os hóspedes. "O sujeito nos deixa os gemidos e ele mesmo escapa". O dono do albergo ficou calado, cuidou das feridas do homem assaltado, deu-lhe de comer e beber e o deitou na cama. A quantia já recebida não seria suficiente para as despesas, mas não pensou numa indenização. Será que o homem do cavalo voltaria? Mas também não se preocupou com isso. Fez tudo o que lhe foi pedido.
Depois que o homem ferido pegou finalmente no sono, o hospedeiro saiu um pouco. Silencioso, perscrutava o deserto. E ficou ali até que o sol se levantou.

O carmelita na América Latina.

A nova Ratio da Ordem que trata da formação no Carmelo descrevendo-a como um processo de transformação, coloca a contemplação no coração do carisma carmelitano. É precisamente o segredo da viagem que continua, pois ninguém se põe em caminho se o objetivo final da caminhada não estivesse de alguma maneira presente desde os primeiros passos.
A viagem é feita dentro da história em que nos encontramos inseridos, no meio do povo. A própria viagem toma-se missão. A dificuldade que muitos sentem é como ligar este cerne do carisma que é a contemplação ou experiência de Deus com os desafios dessa história, no nosso caso, com a realidade da América Latina. Continua persistente, também entre nós, um certo dualismo. Mesmo fazendo uma leitura sócio-pastoral da Igreja tropeçamos em fenômenos que fazem perceber a dificuldade de ligar fé e vida, revelação e experiência humana, Esta dificuldade provém em grande parte da imagem de Deus que não passa pelo filtro do nosso tempo. É preciso reconhecer que muita coisa de positivo foi feito para desfazer essa mentalidade dualista, principalmente através da pastoral bíblica (círculos bíblicos), pela teologia de libertação, na prática das comunidades de base, para mostrar que não se pode separar a revelação de Deus da caminhada do povo. O povo de Israel descobriu a presença de Deus na libertação da escravidão do Egito. E os profetas sempre insistem nessa manifestação de Yahweh quando o povo se torna infiel a essa aliança estabelecida com Ele.
"Como nós carmelitas deveríamos situar-nos frente à realidade que nos envolve na América Latina?" Faço minha esta pergunta feita na carta de quem me convidou para participar deste encontro. A resposta pode parecer simplista ou até um círculo vicioso: fazer com que a questão de Deus permaneça central na nossa existência. Não se trata em primeiro lugar da questão sobre um Ser supremo. A questão de Deus está ligada à questão da realidade. Se a questão de Deus deixa de ser central, ela será substituída pela problemática que nos envolve. A questão que se coloca é do sentido da vida, do destino da terra, da necessidade ou não de um fundamento. Perguntamos simplesmente qual é para cada um de nós a última questão, ou por que esta questão não é colocada. Mas para poder admitir a questão e refletir sobre ela, há necessidade de um silêncio interior, ou como diz a Regra de uma pureza de coração. Sem esse preliminar nem se percebe de que se trata. Já na Idade Média falava-se da necessidade do olho da fé É o órgão da
faculdade que nos dá acesso a uma dimensão que transcende, sem negar o que captam o olho dos sentidos e o olho da inteligência.
O discurso sobre Deus é radicalmente diferente de outros discursos, pois Deus não é um objeto. Do contrário ele seria um ídolo. Nenhum instrumento pode localizar Deus, nem a teologia acadêmica. Pode haver especialistas em teologia ou mesmo, em espiritualidade e mística. Não há, porém, cursos de especialização em Deus. A única mediação somos nós mesmos. Santo Tomás já dizia: "A criatura é a mediação entre Deus e o nada". Jamais podemos colocar Deus do nosso lado contra os outros. Talvez um texto de São Bernardo possa ilustrar o que acabamos de afirmar. Num sermão sobre o Cântico dos Cânticos ele confessa que recebeu com certa freqüência a visita do Verbo, mas que não soube explicar como Ele entrou.
Por onde entrou? Ou será que Ele não entrou, visto que não vem de fora? Pois Ele não é nenhuma das coisas que estão fora de nós. Também é certo que não veio de dentro de mim, porque Ele é bondade, e bem sei que em mim não existe nada de bom. Daí eu me elevei acima de mim mesmo, mas o Verbo está mais além. Intrigado, sondei o que está abaixo de mim, mas Ele está em maior profundidade. Olhando para fora de mim, concluí que está além de tudo o que do lado de fora fica o mais longe de mim. E olhando para dentro de mim, que a sua presença é mais interior que o meu íntimo. E assim compreendi a verdade daquilo que eu tinha lido: "Nele vivemos, nos movemos e somos" (At 17,28).
          Não é possível falar de um Deus puramente transcendente. Seria inclusive uma coisa supérflua, e mesmo, contraditória. Por isso o deísmo, herança recebida do Iluminismo, não nega a existência de Deus como Ser supremo, mas não admite a sua revelação porque é o próprio homem que determina o lugar que Deus pode ocupar. Aos poucos Deus vai se tornando uma hipótese inútil.
Mas Deus se revelou e, portanto, se engajou na história dos homens. A revelação é essencialmente Deus que se doa a nós. É o acontecer de um encontro. E neste encontro não atingimos algo de Deus, um aspecto ou um segmento do seu mistério. O que Deus revela é o seu "coração". Ao mesmo tempo, porém, Deus permanece sempre maior do que o nosso coração, Ele será sempre um Deus escondido, Ele é mais do que a sua revelação. Esse mais não deve ser pensado em termos quantitativos, mas significa que Deus não se torna objeto da revelação. Deus permanece o sujeito da revelação e como tal transcende a sua revelação, é anterior a ela. Deus é o mistério maior que não se esgota na sua relação reveladora. Além disso, não podemos aduzir nenhuma razão que explica ou justifica a revelação de Deus. É o seu "desígnio secreto" (Ef 1,9). "Ele nos amou primeiro" (1 Jo 4,10). A gratuidade do amor de Deus deixaria de ser gratuidade se pudéssemos explicá-la. Vale aqui a declaração de P. Evdokimov, teólogo ortodoxo: "Não é o conhecimento que ilumina o mistério, é o Mistério que ilumina o conhecimento".
Nenhuma linguagem humana é capaz de descrever o mistério de Deus. O que faz entender porque a Regra fala em dois parágrafos sobre o silêncio, não só como exercício ascético para chegar à pureza do coração, mas também como matriz de toda palavra autêntica. O que faz pensar no que escreveu santo Irineu: "Do silêncio primordial surgiu o logos". No silêncio se entrelaçam o tempo e a eternidade. Uma vida de silêncio não é a mesma coisa que o Silêncio da Vida. O mesmo santo Irineu escreve sobre essa Vida: "A glória de Deus é a Vida do homem, e a vida do homem é conhecer a Deus". A primeira parte deste texto foi muito citada em ambientes de pastoral social: a glória de Deus é a vida do homem. Omitindo a segunda parte surge de novo um certo dualismo entre fé e vida, entre revelação de Deus e caminhada do povo. Neste caso a opção pelos pobres, aos excluídos corre o perigo de ser reduzida a uma mera obrigação ética. "Tudo o que vocês fizerem ao menor de meus irmãos, e a mim que o fizestes". É uma afirmação ontológica da presença de Cristo no outro. Jesus manifesta nessa tomada de posição parcial, a universalidade do desígnio de Deus. Cristo não é símbolo para a realidade, mas da realidade. A evangélica opção preferencial se situa no nível do que Raimon Panikkar chama de cristofania. Por Cristo, com Ele e n’Ele, todas as dimensões da realidade se juntam: "Tudo foi feito por meio d’Ele e sem Ele nada foi feito de tudo o que existe" (10 1,2). O universo inteiro é chamado a participar da vida trinitária em Cristo e por Cristo. O que dá uma perspectiva profunda ao "viver em obséquio de Jesus Cristo" da Regra. . Volta aqui à contemplação como cerne do nosso carisma. Penso que sem esse cerne não encontramos uma resposta à pergunta que me foi feita na carta mencionada: "Como nós carmelitas deveríamos situar-nos frente à realidade que nos envolve na América Latina?"
A questão de uma vida de silêncio e do Silêncio da Vida pode parecer uma espécie de fuga do mundo, um viver no abstrato. Neste sentido ouve-se freqüentemente a crítica: basta de belas teorias, precisamos da prática. Cabe fazer aqui uma distinção entre o que é urgente e o que é importante. O urgente com suas características de imediato desvia a nossa atenção daquilo que é importante. Se o urgente não é importante nós nos lançamos numa prática contraproducente. Se o importante não é urgente mergulhamos numa teoria errônea: o importante será uma simples abstração. No urgente destacamos o fator do tempo, no importante acentuamos o fator do peso. A sabedoria conste em combinar o urgente com o importante. É a arte de fazer calar as atividades da vida que não são a Vida. Não são as atividades que produzem o ativismo, mas a falta de silêncio interior. Ativismo é como a gravidez psicológica: seus efeitos visam o presente. A gravidez real se dá no presente mas, não para o presente. Freqüentemente agimos a partir de atributos que configuram a nossa personalidade: sou professor, diretora de um colégio, empresário, operário, pároco, superior, etc. É assim que somos identificados, é assim que os olhos dos outros se fixam em nós. Quem se identifica exclusivamente a partir dessas atribuições, sem dúvida reais, estas freqüentemente começam a sufocar-lhe a identidade profunda.  No dia do seu aniversário (29.07.1959), Dag Hammarskjöld, secretário geral da ONU, escrevia no seu diário espiritual:

A humildade é o contrário tanto da humilhação quanto da exaltação de si mesmo. A humildade consiste em não se comparar. Repousando na sua realidade, o eu não é melhor nem pior, nem maior nem menor que outra coisa ou outra pessoa. Ele é – nada, mas, ao mesmo tempo, um com tudo. Neste sentido, humildade significa: apagamento sem reservas de si mesmo. Ser nada no apagamento de si, na humildade, e, mesmo assim, encarnar, em virtude da sua missão, todo o seu peso e autoridade: é a atitude de quem tem uma vocação.
 De certa maneira trata-se de  um despojamento do conjunto dessas atribuições para poder chegar ao Silêncio da Vida.*  Enfocando o relacionamento que deve existir entre o prior e os irmãos, Alberto ofereceu aos eremitas do Monte Carmelo uma pista para chegar a esse despojamento.

Tu, irmão B. e seja quem for indicado Prior depois de ti, tenhais sempre em mente e cumpram na prática o que o Senhor diz no evangelho: Todo aquele que entre vós quiser tornar-se o maior, seja o vosso servidor, e quem quiser ser o primeiro, seja o vosso empregado.
E vós, os demais irmãos, honrai humildemente o vosso Prior, pensando, mais do que nele, em Cristo que o colocou acima de vós, e que diz aos que estão à frente das igrejas: Quem vos ouve, é a mim que ouve; quem vos despreza, é a mim que despreza, a fim de que não sejais julgados como réus por menosprezo, mas possais merecer por obediência a recompensa da vida eterna.

Seria empobrecer o conteúdo do texto citado se fosse reduzido a uma exortação piedosa ou moral. Como em toda a Regra do Carmelo, também aqui aparece a tensão que existe entre o urgente e o importante, entre prática e teoria. Já no primeiro parágrafo da sua exposição, em que fala da eleição do Prior, Alberto insiste na obediência que cada um dos irmãos deve prometer ao que tiver sido eleito, e no empenho de cumprir na verdade da prática o que prometeu. É claro que na prática podem surgir abusos e comportamentos imaturos de ambas as partes. O que, porém, não invalida a perspectiva cristocêntrica que a Regra abre também para o relacionamento mútuo entre o Prior e os demais irmãos. O essencial é a obediência ao que ressoa além do meu horizonte. Trata-se da "salvação no Senhor" que Alberto deseja aos carmelitas já no início da sua carta. Salvação é "participar da natureza divina"(2 Pd 1,4) por Cristo. É precisamente nisto que consiste o mistério envolvido em silêncio desde sempre, mas agora revelado em Jesus (Rm 16,25) que veio para que todos tenham Vida, e a tenham plenamente (Jo 10,10).
Muitas vezes identificamos a Vida com as atividades da vida e nos alienamos da nossa própria fonte, estabelecendo uma dicotomia entre o fundamental ou essencial e o relativo. O essencial não seria essencial se não o descobríssemos a partir do relativo. O fato de vivermos no tempo, a nossa vida se desenvolve ao longo de uma linha temporal. A própria consciência que temos das coisas é marcada pelo tempo. Além disto, pelo fato de vivermos no espaço a nossa consciência é atingida pelo parcial e pelo distante que supõe o caráter material da realidade. Isto faz com que tudo em nós tenda para algo mais que não se estenda pelo tempo e pelo espaço. Surgem assim as interrogações fundamentais: de onde viemos e aonde vamos? São questões que sempre permanecem abertas, pois nenhuma resposta nossa é capaz de exauri-las. O desconhecido permanece e não se deixa manipular. E ao inverso, o relativo só pode ser relativo porque existe uma relação a partir do essencial. Teresa de Ávila o diz às suas filhas: Deus se faz encontrar também na cozinha no meio das panelas. E outro escritor que compara o homem e a mulher casados às duas margens de um mesmo rio. Não se trata, portanto de negar a importância das atividades e ocupações da vida. Não podemos viver sem sentir, sem amar, sem comer, sem trabalhar. Os parágrafos que a Regra dedica à refeição e ao trabalho, não são apenas de natureza disciplinar: apontam para o essencial. Agora sem o silêncio dos sentidos e do intelecto, o olho dá fé fica atrofiado e não conseguimos nos abrir à Vida que é anterior às suas expressões nas nossas diversas atividades. Lembro-me aqui de Tito Brandsma que sabia combinar o urgente com o importante e abrir-se ao Silêncio da Vida. Era um homem que se situava junto à Fonte. Sabia unificar-se por dentro e por isso estava inteirinho na sua cela, no atendimento aos humildes, aos estudantes, aos jornalistas, aos nazistas que o interrogavam e o maltratavam.

Os “lugares” da contemplação

Deus está em toda parte e ele é simples, não tem partes. Assim já nos ensinava a teologia escolástica. Teresa de Ávila o sabia por "experiência".

Direis, porém: como viu ou entendeu que era o Senhor, se nada viu nem entendeu? Não digo que tenha visto. Depois é que vê claramente. Não a modo de visão, mas pela certeza que lhe fica na alma e que só Deus pode infundir. Conheço uma pessoa [a própria Teresa] que sabia que Deus está em todos os seres por presença, por potência e por essência. Tendo recebido uma dessas mercês do Senhor, compreendeu-o com tal firmeza que não deu ouvido a um dos semiteólogos a quem consultou. ... Mas como pode deixar-nos tão grande certeza algo que não vemos? Não sei - são obras de Deus. Só sei que digo a verdade (Moradas, 5, 1,10-11).

Não há "lugar" onde a experiência de Deus não possa não acontecer. Mesmo assim podemos falar de lugares privilegiados da experiência de Deus. Quais poderiam ser os lugares aqui na América Latina? Não compete a nós descrever os lugares da experiência de Deus e como acontece essa experiência. Não dá para organizar e programar a experiência de Deus. Uma coisa é certa: a experiência de Deus,  seja na alegria, como no sofrimento, é sempre acompanhada da experiência da própria contingência. Embora a experiência de Deus ressoe de alguma maneira na estrutura psíquica do indivíduo, ela não pode ser reduzida a um fenômeno psicológico como certas tendências psicologizantes fazem crer. Não se pode banalizar a experiência de Deus. Não se trata de um maravilhamento estético, de uma alegria biológica, de um sofrimento, de uma admiração entusiasta diante da natureza, de um encanto e atração suscitados por uma pessoa carismática. Não que esses fatores são excluídos como possibilidade, mas é importante fazer as devidas distinções. A mesma hesitação devo admitir quando se fala do self. É verdade que a experiência de Deus faz descobrir a própria identidade mais profunda, mas não é permanecendo no nível profundo do próprio eu que podemos falar de experiência de Deus. A águia pode voar em grande altura, mas não pode voar acima de si mesma (Ruusbroec). Posso fazer a experiência de Deus, fazendo a experiência de mim mesmo como de um tu de Deus, descobrindo-me como seu. Santa Teresa de Ávila diria: "Procura-me em ti, procura-te em mim". Deus não se coloca nas mãos de especialistas: "Dou-te graças, Pai, Senhor do céu e da terra! Porque, ocultando estas coisas aos entendidos, tu as revelaste aos ignorantes" (Lc 11, 25).
O amor será sempre o núcleo fundamental da experiência cristã. O amor-ágape é o princípio do cristianismo: Deus é amor, Ele nos amou primeiro. Para quem ignorar o amor humano, será difícil experienciar o amor de Deus. Mas também será difícil perseverar no amor humano se não se descobre nele uma alma divina. Quem diz que ama a Deus e não ama seu irmão é um mentiroso (1 Jo 4,20).
Sem esquecer-nos da alegria como lugar da experiência de Deus, é importante lembrar o sofrimento. Aliás, existe uma alegria que é compatível com o sofrimento. Tito Brandsma escreveu na cela da prisão:

Ainda que a descoberta exija                                    Na minha dor me rejubilo;
coragem, faz-me bem a dor:                          já não a julgo sofrimento,
por ela me assemelho a ti,                              mas sim predestinada escolha,
que ela é o caminho redentor.                       que me une a ti neste momento.

O que faz sofrer é a dor, a injustiça, a humilhação, o castigo, a fome, a privação de um bem, a angústia gerada por um futuro ameaçado ou incerto. Se o sofrimento pode purificar, amadurecer, também pode provocar o desespero. Quem é apaixonado pela justiça também sofre ao ver a atuação do mal, a inércia dos responsáveis e mesmo da própria história. Este sofrimento tem a ver com solidariedade que pode ser expressão do Silêncio da Vida. A reação ao sofrimento depende também da idéia que se tem de Deus. Se Deus é um Deus onipotente, a reação pode ser de protesto e de blasfêmia. Se esse Deus é um ser simplesmente transcendente - Ele lá nos céus e nós aqui na terra - a solidariedade humana não aparece, e as situações injustas são vistas e tratadas como fazendo parte de uma dinâmica política e econômica em que o fim justifica os meios. O sofrimento nos confronta com o irracional, nos desloca, faz afundar os nossos planos, nossas seguranças. Pode abrir caminho para a experiência de Deus, como pode provocar o contrário. Quando se trata do sofrimento dos nossos irmãos, a experiência de Deus é mais comunhão do que consolação. Mas é sempre graça porque se toca no mistério. Pode abrir para o transcendente, mas também pode ser uma revelação da "imanência" de Deus. Parece que o homem sente mais suas ligações com a realidade quando se apresentam aspectos negativos. É como a pessoa se lembra mais do seu fígado quando este começa a doer.
Existe também o mal, o pecado, o mistério da iniqüidade. Existem diversas elucubrações metafísicas que tentam explicar o mal no mundo. Em todo caso o problema do mal é um fato. Será que o mal pode ser um lugar da experiência de Deus? Não vamos entrar na questão. Só quero lembrar que ela se apresenta como uma questão religiosa que na prática é freqüentemente interpretada e manipulada de maneira nada religiosa. Permanecendo na tradição crista, basta citar as palavras de Paulo: "Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nos tomemos justiça de Deus" (2 Cr 5,21). E é conhecida a expressão da Vigília pascal, cantada em tom de júbilo: "Ó pecado de Adão, indispensável, pois o Cristo o dissolve em seu amor; ó culpa tão feliz que há merecido a graça de um tão grande Redentor!". Tudo isso faz pensar num parágrafo da nossa Regra: "Nos domingos ou em outros dias, caso houver necessidade, vocês devem tratar, todos juntos, da observância da vida comum e da salvação das almas. Na mesma ocasião sejam também corrigidos os excessos (= transgressões) e as culpas dos irmãos se em alguém forem encontradas, estando a caridade sempre no centro". Não creio que este parágrafo retrate o capítulo de culpas que, nos meus anos de jovem carmelita, se realizava na comunidade sob a presidência do prior. As faltas acusadas eram estereotipadas: quebrei um copo, olhei para o século, subi a escada correndo, etc. Podia ser um exercício de humildade, mas Alberto fala da salvação das almas, do desígnio de Deus realizado em Cristo. A comunidade é símbolo da comunhão dos santos, mas também da comunhão dos pecadores. A Regra diz que na correção fraterna a caridade, ou  seja, a salvação deve ser o ponto de referência. Ora, sem a dor causada pelo mal o amor torna-se impossível.

Conclusão

"No silêncio e na esperança estará a vossa força" É a citação que a Regra faz da Vulgata. E ainda "O silêncio é o cultivo da justiça", isto é,  conduz ao Silêncio da Vida, pois a justiça de Deus protege a verdade do ser humano. Dag Hammarskjõld, homem político e de ação, poucos dias depois da sua segunda eleição como secretário geral das Nações Unidas, em setembro de 1957: transcreveu no seu diário espiritual um pensamento de Mestre Eckhart: "O melhor e o mais maravilhoso que se possa atingir nesta vida, é silenciar e deixar Deus agir e falar".

No dia 10 de abril de 1958 ele escreve:

Graças à fé que é união de Deus com a alma, você é um em Deus e Deus é totalmente em você, como para você ele é todo inteiro naquilo que você encontra.
Graças a essa fé, você desce na oração no fundo de você para encontrar o Outro, na obediência e na luz da União,
Você vê todos, todos os outros como você, sós diante de Deus.
E toda ação é um ato criador que continua, de modo consciente porque você tem a responsabilidade de um homem, sendo guiado por essa força além da consciência que o homem criou.
Você é independente das coisas, mais você as percebe numa sensação que tem a pureza libertadora e a agudeza penetrante da revelação.
Graças à fé que é união de Deus com a alma, tudo tem um sentido.
Viver assim, utilizar assim o que foi confiado a você...



* Não se conhecem as motivações que levaram o Prior Geral Teodoro Straccio a mandar frei Luís da Purificação (de Mértola), ex-mestre de noviços em Lisboa, para o Brasil como seu comissário e visitador geral. Depois de percorrer os conventos no Brasil, ele escreve, em março de 1644, uma carta de avaliação dirigida aos confrades em que ele critica “o pouco interesse deles pelas coisas que conduzem à perfeição” e aponta entre outros defeitos o relaxamento na pobreza religiosa e  a ambição por cargos; ambição esta que  ele considerava a causa de todos os males. 

*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras- nas montanhas de Lídice- distrito do município de Rio Claro, Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

VIVER O CARMELO: VOCAÇÃO À SANTIDADE( Comentário da Regra do Carmelita secular)

*Dom frei Vital Wilderink, O. Carm. In Memoriam.
(Eremitério Fonte de Elias, 13.01.2006).

Recentemente recebi carta de uma pessoa amiga. Fiquei matutando sobre uma frase que nela estava escrita: “Descobri que eu não tenho vocação para ser santo”. Se tivesse dito: “Sinto que não tenho vocação para o ministério sacerdotal ou para a vida religiosa”, eu até poderia concordar porque se trata de vocações especiais a serviço da santidade da Igreja. Mas a vocação à santidade é universal, como o Concílio Vaticano II nos ensina com muita insistência, dedicando um capítulo inteiro a essa temática no documento sobre a Igreja (Lumen gentium). Além disso, parece que o nosso amigo tem uma ideia, não digo completamente errada, mas pelo menos insuficiente, do que a vem a ser santidade. Aliás, é uma idéia bastante difundida entre os cristãos que veem a santidade como conquista nossa, fruto extraordinário de esforços humanos, até heroicos, impossíveis para a maioria dos cristãos. É verdade que o exercício heroico das virtudes, é sinal de santidade e por isso é um ponto obrigatório nos processos de beatificação e canonização que a Igreja exige para declarar que uma pessoa cristã já falecida pode ser considerada e invocada como santa.
É importante que a Igreja nos apresente oficialmente modelos de santidade de várias origens, raças, culturas, estados de vida e contextos históricos para conscientizar-nos da nossa própria vocação à santidade. Neste sentido santa Teresinha se manifesta uma mestra. No seu terceiro manuscrito autobiográfico, a jovem carmelita escreve que sempre desejou ser santa, mas que, comparando-se com os grandes santos, constatou que lhe era impossível chegar a tais alturas. Mas não desanimou, dizendo a si mesma: “Deus não poderia inspirar desejos irrealizáveis, portanto posso, apesar da minha pequenez, aspirar à santidade”. Daí, lembrando-se do elevador elétrico, invenção nova na época dela, Teresinha faz uma comparação: “Eu também quisera encontrar um elevador para me elevar até Jesus, pois sou demasiado pequena para subir a íngreme escada da perfeição”. Na Bíblia (Is 66,12) ela encontra uma passagem que justifica a comparação: Sereis levados ao colo, sobre os joelhos sereis acariciados. Assim ela chega a formar a sua maneira de ser santa: “O elevador que deve me elevar até o céu, são vossos braços, ó Jesus! Para isso, eu não preciso crescer, pelo contrário, preciso que eu fique pequena, que eu me torne pequena cada vez mais”. A linguagem da Teresinha, a gosto do ambiente religioso da sua época, talvez não agrade à nossa mentalidade moderna, mas não deixa de colocar o segredo da sua pequena via numa perspectiva teológica muito sólida e profunda: Deus mesmo é a fonte da nossa vocação à santidade.

Santidade não é mérito, mas é dom.
Em última análise, só Deus é santo. É uma afirmação paradoxal para quem quer refletir sobre a nossa vocação à santidade. Mas é isto mesmo que a liturgia da missa na aclamação ao final do prefácio insiste em dizer: Santo, Santo, Santo, Deus do universo! Como dizer uma palavra sensata sobre a santidade de Deus, se Ele “habita em luz inacessível” como reza o prefácio da oração eucarística IV? Todos os nossos conceitos e categorias para definir uma realidade são humanos, forjados pela nossa inteligência a partir das nossas experiências sempre fragmentadas no tempo e no espaço. O conhecimento adquirido pela razão pode ser profundo e abrangente, mas nunca é exaustivo, não consegue penetrar até o fundo daquilo que existe e é. Como criaturas estamos sempre em caminho, inclusive na procura e no crescimento da nossa identidade mais profunda. Balbuciando uma possível descrição da santidade de Deus, podemos dizer que Deus é santo porque, em todo o seu ser e fazer, é perfeitamente idêntico a si mesmo, à sua majestade, à sua justiça e à sua bondade.
Se não temos acesso a Deus e à santidade dele, como podemos nos dirigir a Ele chamando-o de Pai que estais no céu?  Subir até a sua glória nas alturas, nem pensar! E como, Ele mesmo viria até nós sem descer? Não há nenhuma maneira de representar-se um relacionamento entre Deus e o ser humano que seja tão paradoxal e fora do alcance da nossa razão, que a Encarnação. No entanto, também não há maneira mais concreta de pensar essa descida impossível. Toda a liturgia do tempo de Natal fala deste admirável intercâmbio entre o céu e a terra pelo qual o Criador da humanidade, feito homem, nos doou sua própria divindade. Podemos agora falar de Deus-Trindade falando da história, e falar da história falando da Trindade. São Paulo fala disto na sua carta a Tito, cristão convertido do paganismo e companheiro dele:  “Quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor pela humanidade, ele nos salvou, não por causa dos atos de justiça que tivéssemos praticado, mas por sua misericórdia, mediante o banho da regeneração e renovação do Espírito Santo. Este Espírito, ele o derramou copiosamente sobre nós por Jesus Cristo nosso Salvador” (Tt 3, 4-6).
                       
Creio na Igreja santa católica
                        Deus convocou por meio de seu Filho, feito carne e história humana, um novo povo. A santidade da Igreja não tem sua origem na própria Igreja, mas nessa iniciativa de Deus: “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, a fim de santificar pela palavra aquela que ele purifica pelo banho da água” (Ef 5,25-26). Por isto, a santidade da Igreja também não é fruto da santidade dos seus membros. A pergunta que se faz aos catecúmenos: você quer ser batizado? equivale a: você quer fazer-se santo?  Isto faz entender melhor por que Paulo ao escrever uma carta à comunidade dos cristãos em Corinto, se dirige “aos que foram santificados no Cristo Jesus, chamados a ser santos” (1Cr 1,2).
                     A santidade da Igreja não é um toque de espiritualidade ou um enfeite, mas é uma dinâmica que lhe é intrínseca e qualificativa. Por isto  a Igreja não seria ela mesma se não fizesse da vocação universal à santidade uma urgência da sua pastoral permanente. Na sua carta programática para o terceiro milênio, o Papa João Paulo II escreve: “Em primeiro lugar, não hesito em dizer que o horizonte para que deve tender todo o caminho pastoral é a santidade”.
                     Mas, também é bom reconhecer que a história da Igreja, inserida na história dos homens, não é sempre, sob muitos aspectos, uma narração gloriosa. Já no século III falava-se da Igreja como um corpo misturado de santos e pecadores. São Cipriano, bispo e mártir, dizia que para a Igreja a santidade é um dom, para seus membros uma tarefa. Por isso a santidade doada por Cristo à sua Igreja, não é anulada, embora não deixe de ser turvada pela infidelidade à vocação à santidade por parte de seus membros

Restaurar todas as coisas em Cristo
                        A santidade encontra sua origem em Deus: “Só vós sois o santo” como  diz hino de louvor no início da missa dominical. Deus revelou a sua santidade no Filho que assumiu a nossa humanidade. A nossa santidade consiste na nossa união com Cristo. É um dom que nos foi feito através do batismo. Mas, o dom gera, por sua vez, uma tarefa, um dever: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1Ts 4,3). A união com Cristo em que consiste a santidade incide no nosso ser para transformá-lo. É muito significativo o gesto do sacerdote na hora do ofertório quando derrama um pouco de água no cálice com vinho enquanto reza baixinho: “Pelo mistério desta água e deste vinho possamos participar da divindade do vosso Filho, que se dignou assumir a nossa humanidade” A transformação do nosso ser deve envolver também o nosso agir, isto é a santidade deve atingir a dimensão moral da nossa vida. É o terreno em que atuam a nossa consciência e a nossa liberdade. Neste campo da moral não podemos dizer-nos: a minha união com Deus ou seja a minha vocação à santidade vai até certo ponto. É na vida de cada dia que a santidade vai se apropriando, num dinamismo contínuo, do nosso agir com todas as características pessoais de cada um. A união com Cristo não acontece em pessoas que vivem numa redoma, num espaço esterilizado, mas em pessoas reais inseridas em histórias concretas. Em última análise, na sua vocação à santidade elas refletem o movimento mesmo da encarnação.
                        Isto nos faz entender que a vocação à santidade é um chamado para “ajudar” Deus a restaurar todas as coisas em Cristo. A obra da redenção não visa apenas cada pessoa como indivíduo, “O que esperamos, de acordo com sua promessa, são novos céus e uma nova terra”. (2 Pd 3,13). A santidade tem tudo a ver com isto. A vocação à santidade não passa por cima dos problemas, múltiplos e intrincados, que afligem o mundo de hoje, repercutindo fortemente na sociedade, nas famílias e na vida de cada pessoa.  São Paulo diria: “Toda a criação espera ansiosamente a revelação dos filhos de Deus ... e não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito” (Rm 8,19.23). Não existe nenhuma fórmula mágica para solucionar os problemas que envolvem a humanidade.. Aliás, formulas mágicas (apresentadas também por  certas ideologias) jamais podem revelar ao ser humano quem ele é. Não será uma fórmula a salvar-nos, mas Alguém que nos infunde uma certeza: Eu estarei convosco!

O Carmelo e a vocação à santidade
A Ordem do Carmo nasceu de um grupo de homens, provavelmente leigos na sua maioria, que queriam “viver em obséquio de Jesus Cristo e servi-lo fielmente com coração puro e reta consciência”. É assim que se encaixavam na Igreja cuja missão é refletir a luz de Cristo. Para realizar esse imperativo da sua vocação, foram estabelecer-se na Terra Santa no Monte Carmelo. Mas para viver em obséquio de Jesus Cristo era preciso que se tornassem contemplativos do seu rosto, a fim de que a luz desse rosto pudesse refletir na vida deles. A Regra de Alberto, patriarca de Jerusalém, ofereceu-lhes orientações básicas para realizar o objetivo que tinham em mente. A Regra apresenta  uma pedagogia de santidade em que a oração ocupa um lugar de destaque. Esta tradição carmelitana, como carisma suscitado pelo Espírito Santo, é uma das expressões da santidade da Igreja. Através dos tempos houve sempre pessoas e grupos de pessoas, freqüentemente reunidas em forma de instituições, que descobriram na tradição do Carmelo um espaço acolhedor para a sua aspiração a um encontro com Deus, experimentando que a Graça dele nos precede para realizar a vocação à santidade. Também o carmelita secular deve ser alguém que busca a Deus, pisando com os dois pés neste mundo de criaturas humanas, vulneráveis e vulneradas, com as quais vive e celebra, movido a partir de dentro pela Misericórdia com que Deus o envolve.

*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo.

domingo, 21 de setembro de 2014

As Provações da vida.

*Dom Frei Vital Wilderink O.Carm. In Memoriam.

Sem passar por provações não vamos descobrir quem nós somos na verdade. Enquanto não passarmos pelo fogo da provação, sabemos muito pouco de nós mesmos, e também de Deus. Por isto, Jesus não tem medo das provações pelas quais seus discípulos hão de passar. No texto do capítulo 6, anterior ao evangelho de hoje, Jesus se apresentou como o Pão que desceu do céu.  Esta fala dele escandalizou muitos dos seus ouvintes, principalmente quando acrescentou que eles não teriam vida neles se não comessem a carne do Filho do Homem e não bebessem o seu sangue. Mas, Jesus não pretende poupar a ninguém com esse realidade "chocante". Até, sem ser violento, parece aumentar a dose, provocando uma reação nos seus discípulos: "Esta palavra é dura. Quem consegue escuta-la?" Jesus perguntou: Isto vos escandaliza? E quando virem o Filho do Homem subindo para onde estava antes?".
É importante, até necessário, que a crise exploda que ela se apresente como de fato é: incompreensível e absurdo, sem sentido. Assim cada um é obrigado a descer no profundo para descobrir o que Deus lhe pede, e o que não pede. Esta tomada de consciência pode ser muito dolorosa, mas não há jeito de evitá-la. Não adiante girar em torno dela. Jesus não vai impedir a ninguém. Não vai violentar nenhuma liberdade. Pelo contrário, ele solta seus discípulos de toda ligação inútil e infrutífera que os prende a ele. Até dirige-se aos doze apóstolos: "Vocês também querem ir embora?" Não é uma pergunta tática. Jesus não vai impedir se alguém quer ir embora. Para Jesus os discípulos são livres. Mas para eles é um momento precioso e decisivo porque agora pode aparecer o amor verdadeiro e livre.  Tal liberdade parece dar-nos vertigens e às vezes fugimos antes de tomar consciência dela.  No entanto, é esta liberdade que nos torna pessoas autônomas, capazes de reconhecer amor e de responder a ele.
Não se exclui que Pedro também ficou murmurando diante dos ensinamentos de Jesus. Mas, de repente ele tem a impressão de que Jesus pretende deixá-lo. Pedro se você quiser, você também pode ir embora. Mas é precisamente esse respeito de Jesus à liberdade dele que faz com que Pedro volte sobre seus passos: "A que iremos Senhor, Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus".  No ponto mais profundo da crise sobra uma saída só: reconhecer que Jesus está presente e que toda a minha vida depende dele, do sim ou do não que sai dos seus lábios, da palavra de amor que só ele pode pronunciar. Todo o resto é fogo de palha. Só aí a alegria pode aparecer no nosso jeito de ser, graças a este amor em que, na verdade, nunca tínhamos chegado a acreditar. É num momento assim que podemos fazer uma opção livre. Só Jesus permanece: A que iremos Senhor? Nós cremos e sabemos que Tu és o Santo de Deus".
Sem a provação, Pedro não teria podido fazer um discernimento.É o Espírito que dá vida, a carne, isto é, o ser humano entregue a si mesmo não está em condições de saborear as coisas de Deus. Pedro descobriu isto: Senhor, tu tens palavras de vida eterna. É nisto que está o significado de cada provação: ela permite que a vida verdadeira apareça na superfície.
No mais profundo da cada provação, no ponto mais baixo de cada fragilidade, mesmo no pecado, quando tudo fica escuro e faz desaparecer o horizonte, ressoa a Palavra de Jesus. Não é a carne que a revela. Como tantos outros discípulos no evangelho estamos inclinados a tomar os nossos caminhos deixando de seguir o Senhor. Felizes somos nós que temos acesso a Ele porque este dom nos é concedido a cada momento pelo Pai.

*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo.

sábado, 20 de setembro de 2014

*O silêncio do Carmelo como caminho espiritual

O parágrafo que na Regra trata do silêncio apresenta na sua própria estrutura a imagem do silêncio do Carmelo.  No capítulo há duas partes:. A primeira parte consiste em citações de Isaías, a segunda trata da instituição religiosa do silêncio.
Na primeira parte há dois textos de Isaias que devem sublinhar a exortação de Paulo. Essas duas citações guardam a força fundamental do silêncio eliano. Neste silêncio havia dois eixos essenciais: o silêncio da morte que nos silencia até para dentro da nossa existência insignificante, até o ponto de perder referências de imagens nossas e de ser transformados interiormente em respeito; e a esperança silenciosa, que arde em nosso nada e, libertada da sua reclamação angustiada, nos abre para o Seu Silêncio sem imagem. São precisamente esses dois eixos que juntos formam uma só estrutura dinâmica, que a Regra coloca nas duas citações de Isaias  em primeiro lugar como inspiração fundamental.
            A primeira citação – silêncio fomenta justiça – salienta o primeiro eixo: silêncio é um viveiro para justiça, silêncio permite as sombras da vida, não as exporta para fora, não culpa os outros por elas, não foge delas, mas deixa o seu veneno agir como um fogo que acaba com as nossas referências e formação de imagens, até que, adquirida uma fluidez interior, chegamos ao que nós somos:’ uma sombra que passa’. A partir desta consciência do nosso próprio nada e espoliados das nossas fixações, cresce em nós um respeito a partir de dentro, uma reverência silenciosa pela qual podemos ajudar no amadurecimento de nós mesmos e dos outros. Não será mais necessário deformar a nós mesmos e aos outros conforme a imagem das nossas fixações. O forno do silêncio, aceso pela Voz martelando no silêncio, nos transforma em justiça: ‘O silêncio fomenta a justiça’.
            A segunda citação: ‘No silêncio e na esperança estará a vossa força’ – mostra sobretudo o segundo eixo. O nosso nada aspira com dores ter a vida, até grita por ela. O silêncio liberta esta esperança da sua angústia. Ele muda a correnteza das nossas aspirações, libertando-as da centralidade angustiada do seu ego e transferindo-as para o outro/Outro como este é sem imagem no seu silêncio inexpugnável. É esta a esperança silenciosa que não quer outra consolação que o próprio silêncio, em que o outro como outro se confronta comigo, um silêncio em que eu não tenho mais nada a perde, que assim me fortalece a partir da sua própria fonte. É a esperança silenciosa que Isaias nos deseja: ‘Em silêncio e esperança estará a vossa força’. É importante perceber a conexão entre os dois eixos. O silêncio profético deve sempre de novo abrir-se em receptividade mística à Sua Presença silenciosa. Vice-versa o silêncio místico pede sempre de novo ser aceso pelo silêncio da morte que nos silencia sempre. O dominante é formado neste caso pelo profético silêncio da morte. No Carmelo este dominante se expressa entre outros na atenção à vida de silêncio de Cristo e principalmente no silêncio da morte da sua Cruz. Também o amor preferencial à incognoscibilidade de Deus e à noite escura da fé encontra aqui a sua origem.
Na parte B do capítulo sobre o silêncio o silêncio é institucionalizado na forma de silêncio da noite e do dia. Primeiro o silêncio da noite que, como mediador do encontro com Deus, que nos conduz para fora do mundo das idéias fixas  e dos padrões de conduta, para nos levar para a entrega desnuda a Deus que é inimaginável e inefável. Esse movimento irá aos poucos  atingir todas as ‘ocupações’ da noite: horas litúrgicas e orações, leitura da Escritura e meditações, trabalho manual e sonos. Em seguida é institucionalizado o silêncio do dia que cujo espaço é caracterizado pelo falar com cautela (o menos possível, bem distante do falar-muito) e falar com atenção ( falar sim, mas como cultura de justiça). Silêncio forma desta maneira o dia em duas dimensões: por diminuição e atenção no falar, por sobriedade e pureza, por recolhimento e veneração. ‘O silêncio fomenta a justiça” (Is 32,7). Silêncio é um viveiro para a justiça, silêncio admite as sombras da vida e não as exporta para fora, não foge delas, mas deixa o seu veneno trabalhar como um fogo que acaba com as nossas autodefinições e imagens, até tornar-nos fluidos, chegados à nossa essência: uma sombra que passa. A partir desta consciência do nosso nada e liberados das nossas fixações cresce no nosso interior respeito, veneração silenciosa que nos fazem ver a nós mesmos e aos outros como somos. Não é mais necessário reduzir o outro e a nós mesmos à imagem das nossas fixações: ‘O silêncio fomenta a justiça’
            A segunda citação: ‘No silêncio e na esperança está a vossa força’. A nossa pequenez deseja com dor chegar a vida, até grita. O silêncio liberta esta esperança da sua angústia. Ela muda a direção do seu desejo libertando-o da sua ego-centralidade angustiada e fixando-o no outro/Outro como este é sem imagem no seu silêncio inexpugnável.  Esta é a esperança silenciosa que não quer outro consolo que o próprio silêncio, em que o outro se eleva frente a mim como outro, um silêncio em que não tenho mais nada a perder, que por isto me fortifica da sua própria fonte.  É esta a esperança silenciosa que Isaias deseja para nós: No silêncio e na esperança está a vossa força’. É importante a conexão dinâmica entre as duas partes do parágrafo. O silêncio profético sempre de novo deve ser aberto em receptividade mística referente á usa Presença silenciosa. Vice-versa, o silêncio místico pede constantemente de novo ser aceso pelo silêncio-morte que nos faz silenciar. O dominante Nisto, o dominante é formado pelo silêncio-morte profético. Esse dominante se expressa no Carmelo entre outros na atenção à vida silenciosa de Cristo e principalmente ao silêncio mortal da sua Cruz. Também o amor preferencial pela inefabilidade de Deus e pelo spcto noturno da fé encontra aqui a sua origem.
A Regra faz a diferença entre o silêncio durante a noite e o silêncio do dia. O silêncio da noite que, como mediadora do encontro com Deus, nos conduz para fora do mundo das idéias fixas e dos padrões de comportamentos, para nos conduzir à confiança despojada em Deus que é sem imagem e inefável. Esse movimento passará progressivamente por todas as ‘ocupações’ da noite: horas litúrgicas e orações, leitura da Bíblia e meditações, trabalho manual e sono. Em seguida foi instituída o silêncio do dia que caracterizado pelo falar ponderado (o menos possível, longe do falar muito) e falar com atenção (falar, mas como cultura de justiça).  Silêncio forma dessa maneira a noite de dois lados: por diminuição e atenção no falar, por sobriedade e pureza, por recolhimento e respeito.
            Também aqui é importante prestar atenção à estrutura dinâmica das duas formas de silêncio. O silêncio do dia é uma forma de justiça silenciosa, que na noite se abre ao Inefável como à verdadeira fonte e forma da nossa vida. Vice-versa, a experiência de banir imagens e formas nos prepara interiormente para um respeito acolhedor de nós mesmos e do outro. Neste sentido a repetição do provérbio de Isaias:’o silêncio fomenta a justiça’ diz muita coisa. Ele pode ser entendido em duas maneiras. O silêncio da noite forma a condição para o falar com justiça: o silêncio da noite faz crescer a atitude fundamental em que o silêncio do dia floresce. E vice-versa: a justiça cria a condição para o silêncio da noite. Só uma ‘boa consciência’ pode receber o silêncio da noite. No silêncio da noite que renuncia a tudo e que respeita profundamente o Mistério, floresce o silencioso respeito durante o dia.
A estrutura do capítulo sobre o silêncio conserva a estrutura típica do silêncio do Carmelo. A parte A forma  no  interior de tudo isso a esfera de valores: no  Carmelo trata-se da  encarnação de um silêncio específico. Nele o impulso profético do silêncio-morte em suas numerosas formas é o início e o princípio. Depois disso e a partir disso o caminho do silêncio conduz para o silêncio místico que está fora de si mesmo. Esta esfera de valores forma a essência do silêncio do Carmelo. Ela o orienta e motiva, ela é a sua alma.  Parte B forma dentro dessa totalidade o aspecto institucional do silêncio: a ‘institucionalização’ do silêncio  na forma do silêncio do dia e silêncio da noite. Como uma arquitetura do tempo ela ‘guarda’ o silêncio eliano. Este forma o cristal em que a luz pode quebrar.  ‘A luz, a luz branca de Deus se quebra em cores, cores são os atos da luz que quebra’ (Nijhoff).  Assim podemos dizer do silêncio do Carmelo: ‘O Silêncio, o silêncio Eliano se quebra em justiça e horizonte. Horizonte e justiça são os atos do silêncio que quebra’. Silêncio eliano e silêncio-instituição formam juntos um modelo de transformação, um caminho espiritual que nos convida a caminhar.

SILÊNCIO ELIANO---SILÊNCIO DO CARMELO --INSTITUCIONALIZAÇÃO

O silêncio fomenta -----------------esfera de valores----------------Silêncio da noite
a justiça (Is 32,17)                            orientação                       mediadora de encontro
                                                                                                         com Deus
Mística profética ---------------------transformação --------------- viveiro de justiça
No silêncio e na esperança--------- dar forma---------------------Silêncio do dia, falar
está a vossa força (Is 30,15)        trabalho manual                 ponderado e com atenção

O silêncio eliano encontra seu dominante no impulso profético para o silêncio. A ordem é: a) justiça e b) mística. É também desta maneira que as citações de Isaias estão conectadas: ‘Silêncio fomenta justiça’ é seguido por ‘No silêncio e na esperança está a vossa força’. Na institucionalização do silêncio a ordem é em sentido oposto: primeiro (b) o silêncio místico da noite depois (a) o silenciar do dia da justiça. Não somente em relação à ordem, mas também em relação à importância o silêncio da noite (com suas poucas palavras!) parece ser o ponto de referência. Pois após a institucionalização do silêncio da noite, a Regra continua com o silêncio do dia assim: ‘Fora deste tempo, porém, ----não é tão rigorosa a observância’. Assim mantêm-se em equilíbrio a esfera do silêncio eliano e a arquitetura do silêncio do dia e da noite.

*Tradução incompleta de um artigo de Kees Waaijman O.Carm.: De Karmelstilte, Oorspronkelijke tekst van de Engestalige bijdrage in: Carmelus 40 (1993) 11-42.
Eremitério Fonte de Elias, 22 de outubro de 2011.
+fr. Vital Wilderink O.Carm.

( Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo)