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segunda-feira, 3 de março de 2014

PROVÍNCIA DOS CARMELITAS NA BAHIA: Olhar o passado com os pés no presente.

Por Frei Pedro Caxito O.Carm. In Memoriam

 
            A respeito desta Província da Bahia escreve Fr. André Prat que, segundo documentos existentes no Mosteiro, ainda nos tempos do Brasil-Colônia, reunia-se no Convento do Carmo de Salvador a Academia  dos  Ilustrados; mais  ainda: que  mantinha  escolas públicas, tendo recebido em 1871 os maiores elogios do Barão de São Lourenço e, já antes, em 1865, do próprio Dom Pedro II, por ter fundado escolas para educação da juventude, desde épocas remotas. O Visconde de Cairu, José da Silva Lisboa, carmelita terceiro, economista, político e jurisconsulto, confessa que fez os seus estudos no Carmo da Bahia ; sabemos que aos oito anos aprendeu com os frades música e piano e teve lições de filosofia e teologia moral .

            Em 1770, certo Jerônimo Ferreira da Costa e Góis, filho de Francisco Ferreira da Costa, para receber Ordens faz um requerimento, no qual pede certidão de ter freqüentado o curso de filosofia professado no Convento do Carmo por Fr. Francisco Félix de Santa Teresa .

            O Governador da Bahia, Marquês de Valença, aos 26 de abril de 1783, remete da Bahia um ofício a Martinho de Melo e Castro, onde informa a fundação e extinção do Colégio das Artes, e confessa que no restabelecimento do Colégio hão de seguir-se muitas vantagens para os moradores da Cidade e Capitania: tratava-se de um requerimento de Frei Francisco Xavier de Santana, "Procurador Geral do Carmo Calçado desta Província", diante do embargo oposto pela Irmandade do Santíssimo Sacramento da Freguesia do Pilar. Vem anexa cópia da provisão do Conselho Ultramarino dirigida ao Vice-Rei, Conde dos Arcos, datada de 16 de janeiro de 1755 com a ordem de extinção do Colégio. Frei Francisco Xavier apresenta um memorial, onde mostra as vantagens de restabelecer o Colégio, e um requerimento onde pede certidão do Breve de 6 de junho de 1747 e de outros documentos relativos à fundação do Colégio .

Compensa a publicação da íntegra do Ofício do Marquês de Valença:

            "Bahia, 26 de abril de 1783. Examinando, em execução da ordem de 2 de dezembro do ano passado, o como se erigiu nesta cidade o Colégio de Artes, de que faz menção o requerimento do Padre Fr. Francisco Xavier de Santana, procurador geral do Carmo Calçado desta Província, achei que fora pela patente do seu Geral Fr. Luís Laghius de 6 de junho de 1747 intimada aos Padres desta Província, os quais lhes deram execução com consentimento do atual Vice-Rei, talvez que pela carta de Aviso da Secretaria de Estado de 9 de novembro do dito ano para o Provincial desta mesma Província, em que lhe concedeu Sua Majestade poder executar os breves da Sé Apostólica e do Núncio, como também as patentes do Prior Geral da Ordem Carmelita, expedido tudo para concessão de graças aos religiosos nelas respectivamente declarados. A cópia da dita carta, com a patente, remeto a V.Excia. nesta ocasião.

            A Irmandade do Santíssimo Sacramento da freguesia do Pilar desta  Cidade se opôs  quando os religiosos  acrescentaram  o mencionado Hospício, pelo que houveram (sic) pleitos que chegaram à  Casa  da  Suplicação, até que  por  provisão  do  Conselho Ultramarino de 16 de janeiro de 1755 dirigida ao Conde dos Arcos se lhe ordenou a extinção do referido Colégio das Artes, vista a outra provisão de 21 de março de 1714 que proibiu no referido Hospício acrescentar obra ou fazer mais acomodações que as necessárias para dois religiosos. A dita provisão de 16 de janeiro de 55 igualmente vai remetida a V.Excia a qual foi executada e por isso se acha presentemente reduzido o sobredito Hospício ao seu primeiro estado.

            Sua Majestade pela mesma ordem de 2 de dezembro do ano passado me manda dar o meu parecer sendo este que, obrigando-se os referidos religiosos a ensinar, no sobredito Hospício, aos estudantes seculares gramática, filosofia e teologia, pondo-lhe mestres de virtudes e muito capazes nestas ciências, me parece que sendo do Real agrado da mesma Senhora o estabelecer-se novamente nele o Colégio das Artes não deixará de se seguir alguma utilidade aos moradores desta Cidade e Província..." O aviso régio sobre o qual fala o ofício vem também anexo .

            Passamos a citar alguns escritores, oradores sacros, poetas, mestres e doutores da nossa Província da Bahia

1. FREI EUSÉBIO DE MATOS

            "Nasceu o autor no ano de 1629, na Bahia. Em 1644 entrou para a Companhia de Jesus. Lecionou Filosofia, Letras Humanas  e Teologia. Em 1664 fez profissão solene no Rio de Janeiro. Segundo Barbosa Machado, em 1677 mudou-se para a Ordem de Nossa Senhora do Carmo, tomando então o nome de Frei Eusébio da Soledade. Faleceu na Bahia a 7 de julho de 1692". Entre as suas obras impressas cita-se Oraçam Funebre nas Exequias do Illustrissimo e Reverendissimo Senhor D.Estevam dos Santos Bispo do Brasil" .

            Em EDI encontramos: "Irmão do poeta satírico Gregório de Matos Guerra (...), substituiu Vieira na cátedra de filosofia, brilhando entre os seus colegas, Vieira e Antônio de Sá, pela subtileza e burilado da frase. Dedicou-se também à poesia, pintura, música e matemáticas; compôs vários hinos religiosos e profanos, que tocava e cantava com letra sua na harpa e na viola. Dizia dele o Pe. Antônio Vieira que «Deus se apostara em o fazer em tudo grande e não o fora mais por não querer...». Vieira ficou pesaroso e dizia, quando Eusébio deixou a Companhia para se tornar Carmelita: «Pois muito mal fizeram os Jesuítas, que tarde se criarão para a Companhia outros Matos».

            Os jesuítas, segundo o seu "modus agendi" severo e coerente, tiveram os seus motivos sérios para o não quererem, e tiveram os carmelitas os seus motivos para o quererem .

            Deixou Poema epicum latinum in laudem Ven.Patris Joannis Almeida (sem data), Oração Fúnebre (1672 - acima citada e publicada em 1735), Sermão da Soledade (1674) e Ecce Homo (1677), todos de quando na Companhia de Jesus; Sermões (1694), com o título Sermoens do Pe. Mestre Fr. Eusebio de Mattos, Religioso de Nossa Senhora do Carmo da Provincia do Brasil - Primeira Parte. Há algumas composições "litigiosas" entre ele e o seu irmão Gregório, e outras duvidosas .

            Conta-nos Manuel Duarte Moreira de Azevedo na obra acima citada: "Entrara o poeta Eusébio de Matos para a Companhia de Jesus em 1644, época em que era Reitor um Padre natural de Cabo Frio, mui rigoroso para os minoristas. Aconteceu ser afetado de um pleuris o Irmão Eusébio e tendo sido sangrado, vieram visitá-lo o Reitor e outros padres que observaram achar-se o sangue denegrido e como queimado, ao que replicou o doente: - «Pois não é queimado do calor, senão do vilão do Frio que logo ao princípio ia dando Cabo de mim»" .

            Renato de Almeida nos transmite a respeito da música no Séc. XVII: "Nesse século surge na Bahia, a única figura de músico, que se pode citar - Eusébio de Matos ou Frei Eusébio da Soledade (1629-1692). Manuel Raimundo Quirino, que o considera «o primeiro músico notável da Bahia», conta razão desse duplo nome . (...). "Além de músico exímio e inspirado compositor, tocava harpa e viola, instrumento muito em uso no seu tempo. Compôs muitos HINOS RELIGIOSOS e cantos profanos ameníssimos sobre poesias  suas  (...). Suas  obras  foram  em  grande  parte perdidas" .

            Podemos ler na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira: "Pedro Diniz, a p. 281 da sua obra «Das Ordens Religiosas», diz que Fr. Eusébio de Matos era homem muito douto e que a sua erudição  compreendia, além  da  Música, que  tinha  estudado seriamente e para a qual era naturalmente dotado de disposições vantajosas, a Teologia, Matemática e Filologia. Se era cultor distinto das ciências, não o era menos das Belas-Artes, pois à dedicação pela Música juntava os dotes do Desenho e da Pintura, sendo exímio em ambas estas artes".

            Foram seus discípulos Frei Inácio de Jesus, Frei José de Jesus Maria, Frei Joaquim Ramos, escritor notável, e muitos outros .

2. FREI JOSÉ DE JESUS MARIA

            "Religioso Carmelita, n. em 8 de janeiro de 1660, morreu em 8 de janeiro de 1727. Recebeu o hábito no convento do Carmo em 7 de dezembro de 1679, professou no convento de Goiana da Reforma de Pernambuco em 8 de dezembro de 1680. Foi eleito missionário apostólico pelo Arcebispo da Bahia, Dom Frei Manuel da Ressurreição, em 29 de março de 1690. Regressado a Portugal, exerceu o cargo de Comissário da Ordem Terceira, primeiro em Vila Franca de Xira, depois em Lisboa. Na vila Franca tinha erigido o Hospital junto ao Convento do Carmo, e mandou fazer, em 1722, com o produto de esmolas (e a soma que lhe renderam os seus sermões), o órgão do referido convento, que custou 7.000 cruzados (8:400$000). Foi definidor eleito em 1714. Escreveu: Tesouro Carmelitano Manifesto, e oferecido aos irmãos e irmãs da Venerável Ordem Terceira da Rainha dos Anjos, Mãe de Deus, Senhora do Carmo - Lisboa - 1705" . Discípulo de Eusébio de Matos.

 
3. FREI INÁCIO RAMOS

            "Pregador brasileiro; nasceu na Bahia em 1650 e morreu em 1731. Era irmão do padre Domingos Ramos (SJ). Professou (1672) no Convento de Nossa Senhora do Monte do Carmo, (onde adquiriu vasta ilustração e se  tornou  pregador  notável)  e indo  a  Portugal (1685) para tratar de negócios particulares, passou a Roma, a fim de assistir, na qualidade de representante do Provincial da Ordem, ao Capítulo celebrado em Santa Maria Transpontina (1692), sendo por essa ocasião nomeado Vigário Provincial do Brasil. Foi (na Bahia) também reformador e visitador geral dos conventos da Reforma de Pernambuco. Assistiu a um outro Capítulo celebrado em Roma (1700), ficando depois em Lisboa como Prior do Convento de São Domingos e secretário da Província de Portugal. Publicou os seus sermões em 4 volumes com o título Ramos Evangélicos (1724-1730)" - EDI . Era filho de Manuel Ramos Parente e D. Andrezza Casado  Ramos; foi definidor  perpétuo e faleceu no dia 18 de novembro de 1731 .

4. FREI ANTÔNIO DA PIEDADE

            "Religioso carmelita calçado; nasceu na Bahia e morreu na Cachoeira (1660-1724). Estudou filosofia na sua terra natal, recebendo o grau de Mestre em Artes. Entrando na Ordem do Carmo (1679), foi lente de filosofia e teologia na Vigararia do Maranhão, Prior do Convento do Pará, Vigário Provincial e Comissário da Bula (da Santa Cruzada) do Maranhão, Governador, Provisor e Visitador (e Vigário) Geral da Diocese do Pará. Deixou impressos dois sermões" - EDI. Segundo a Brasiliana da Coleção Barbosa Machado foi "Doutor em a sagrada Theologia, Diffinidor perpetuo desta Provincia da Bahia, & actualmente Missionario da aldea de Japaratuba em o Certaõ do Rio de Saõ Francisco da Praya", e um dos seus sermões é o Sermam qve em as Exeqvias da Serenissima Rainha Nossa Senhora D.Maria Sophia Isabel de Neobvrg, feitas pela nobre villa de S.Amaro das Grotas do Rio de Sergipe a 19 de abril de 1700 pregou o R.P.M. Fr. Antonio da Piedade . A Rainha Da. Maria Sofia era esposa de Dom Pedro II de Portugal e foi muito amiga do carmelita Frei Luís dos Anjos, acima citado.

            Pela Grande Enciclopédia, acompanhada por Raimundo de Menezes, ficamos sabendo que Fr. Antônio da Piedade "Foi lente de Filosofia e Teologia em Maranhão, cargo em que se jubilou em 27 de junho de 1694. Foi duas vezes prior do Convento do Pará, vigário provincial do Maranhão e comissário da Bula da Cruzada, governador, provisor e visitador geral do Bispado do Pará em 1693. Depois de passar algum tempo em Portugal, voltou para o Brasil, onde foi ainda prior do Convento da Bahia e Definidor perpétuo. Em 1703, além do sermão acima citado, publicou o Sermão de Santa Teresa, pregado no Convento das Religiosas Carmelitas Descalças da Bahia

5. FREI MANUEL DA MADRE DE DEUS BULHÕES

            Era filho do Capitão Manuel da Costa Campos e Da. Maria de Bulhões; nasceu na Bahia a 6 ou 26 de novembro de 1663 e faleceu em 1738, segundo Inocêncio Blake e Artur Mota, mas, segundo Pedro Calmon, o nascimento foi em 1666 e a morte em 1731 .            "Carmelita; nasceu na Bahia em 1663. Foi procurador da sua Ordem em Roma, Definidor Geral, Prior do Convento da Bahia e Provincial. Deixou um volume de sermões"  - EDI.

            "Religioso carmelita calçado, prior do convento da Bahia, definidor geral, provincial etc., nasceu na Bahia em 26 de novembro de 1663 e ignora-se a data do seu falecimento. Por morte dos  pais, apesar  de  ser  fidalgo  cavaleiro  e  alferes  de infantaria, entrou na vida claustral na ordem carmelitana, em 6 de dezembro de 1688 e professou um ano depois. Ensinou Filosofia no seu convento e ditou Teologia. Foi mandado a Roma como procurador da sua ordem para assistir ao capítulo geral em 1695, votando nele como definidor geral. Exerceu também o cargo de examinador sinodal do arcebispado da Bahia. Gozou fama de grande pregador e publicou em Lisboa os seguintes sermões pregados na Bahia: Sermão fúnebre pregado nas Exéquias de Roque da Costa Barreto, governador que foi do Brasil (1699); Sermão de Nossa Senhora da Ajuda (1704); Sermão em Ação de Graças pela saúde de El-Rei Nosso Senhor... Em 14 de maio de 1705 (1706); Sermão do Primeiro Sínodo Diocesano, que se celebrou no Brasil, pelo Ilmo. Sr. Dom Sebastião Monteiro, Arcebispo da Bahia, a 12 de junho de 1707 (1709); Sermão de Santa Teresa (1711); Sermão de São Félix de Cantalício (1717); Sermões da Soledade (1702, 1703, 1709); Sermão do Príncipe dos Apóstolos, na abertura do seu novo templo (1717); Sermão na festividade de Nossa Senhora da Barroquinha (1728); Oração Concionatória nas Exéquias da Ilma. Sra. Dona Mariana de Alencastro... (1732) ; Suma triunfal da nova e grande celebridade do Glorioso e Invicto Mártir São Gonçalo Garcia, dedicada ao sr. Capitão José Rebelo de Vasconcelos por seu autor (?) Sotério da Silva Ribeiro, com uma coleção de vários folguedos e danças, oração panegírica que recitou o Padre Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão na igreja do Sacramento em Pernambuco, no dia 1º de maio de 1745 (Lisboa, 1753); Sermões vários (2 tomos, 1737 e 1739)" .

            "Nasceu o autor a 6 de novembro de 1663 na Bahia. Entrou para a Ordem dos Carmelitas Calçados. Seguiu para Roma como Procurador da sua Ordem, onde votou como Definidor Geral. Foi ainda Prior no Convento da Bahia, Provincial do Carmo, Examinador Sinodal do Arcebispado da Bahia. Faleceu no ano de 1738". Foram publicados Sermam funebre nas Exequias do Senhor Roque da Costa Barreto, Sermam em Acçam de Graças pela saude DelRey Nosso Senhor (Dom Pedro II de Portugal) e Oraçam Concionatória nas sumptuosas Exequias da Excellentissima Senhora d. Marianna de Alencastro .

6. FREI JOSÉ DE SANTANA

            "Religioso carmelita, nascido no Porto no último quartel do século XVII. Professou no Convento dos Carmelitas em outubro de 1700, na Bahia, ao tempo capital da américa Portuguesa, para onde foi da pátria. Ascendeu, mais tarde, a Prior do Convento da Cachoeira, no Recôncavo da Bahia, e publicou THEZOURO EUCARISTICO em Lisboa, por Manuel Fernandes da Costa, impressor do Santo Ofício - 1731" .

7. FREI JOSÉ DE OLIVEIRA SERPA

            "Pregador do século XVIII; nasceu na Bahia em 1696 . Deixou  manuscritas  duas  obras  místicas:  Novo  Obséquio  do Patriarca São José e Trindade da Terra exaltada no temor de Deus por causa de uma grande trovoada" - EDI. Dele estão publicados 5 sonetos elegíacos, um soneto contínuo e ainda um mote com a sua glosa, e uma décima: estes últimos e 3 dos sonetos foram para lamentar a morte de Dom João V de Portugal . O Dicionário Literário Brasileiro cita-o como Jesuíta, sem o título de Frei.

8. FREI MANUEL ÂNGELO DE ALMEIDA

            "O autor, natural da Bahia, onde nasceu a 26 de fevereiro de 1697, em 1716 recebeu o hábito de Carmelita Calçado. Tendo sido nomeado sócio do Capítulo Geral celebrado em Roma em 1725, foi-lhe conferido pelo Geral o grau de Doutor em Teologia. De secretário da Província subiu a Provincial em 1735. Ignoramos a data do seu falecimento". Dele foi impresso um Sermam que nas exequias do Excellentissimo, e Reverend. Senhor D. Joseph Fialho, Bispo que foy de Pernambuco, Arcebispo da Bahia, e Bispo da Guarda. Celebradas com toda magnificencia na santa igreja de Olinda pelo Excelentissimo e Reverendissimo Senhor D. Fr. Luiz de Santa Teresa bispo actual de Pernambuco. Pregou o P.M.Fr. Manoel Angelo de Almeida mestre, e doutor na Sagrada Theologia, Ex-Provincial do Carmo da Provincia da Bahia, e o ofereceu ao mesmo Excellentissimo e Reverendissimo Senhor Bispo de Pernambuco (Lisboa - 1742)" .

            "Carmelita professo e grande orador sagrado, nasceu na Bahia em 1697. Lecionou ciências severas no convento de carmelitas de São Salvador, e foi eleito  para o Capítulo  Geral  celebrado em Roma em 1725. Foi-lhe  conferido pelo Geral da Ordem o grau de doutor em Teologia. Além do sermão acima citado, publicou Sermão de Ação de Graça a Nossa Senhora da Vitória em satisfação de um voto que lhe fez por um benefício alcançado pela dita Senhora na sua santa  igreja de Vitória da cidade de Elvas (Madri - 1733); Declamação moral na ocasião da rogativa que fez a venerável Ordem Terceira do Carmo da Bahia por ocasião da grande seca que sentiu a mesma cidade desde 1734 até 1735 (Lisboa - 1736)" .

9. FREI HENRIQUE DE SOUSA DE JESUS MARIA

            Foram impressos 2 sonetos, 1 cenotáfio pela morte do Abade Dom Manuel da Matos Botelho, irmão do Arcebispo da Bahia, Dom José Botelho de Matos, e 1 epitáfio e 2 sonetos por ocasião da morte de Dom João V, todos compostos na Bahia .

            "Religioso Carmelita da Província da Bahia, nasceu em Viana do Castelo em 16 de abril de 1705, morreu em data que se ignora. Foi para o Brasil aos 14 anos e residiu na Vila de Cachoeira, onde aprendeu a gramática latina. Aos 22 anos professou no Convento da Bahia e estudou, depois, as Ciências Escolásticas. Foi pregador notável e escreveu as seguintes obras: Sermão da Justiça na primeira oitava do Espírito Santo, estando presente o Ilmo. e Exmo. Sr. André de Melo e Castro, Conde das Galveias, Vice-Rei do Estado do Brasil com toda relação do mesmo estado, pregado no Convento do Carmo da Cidade da Bahia (Lisboa - 1745); Três sonetos no Diário Histórico das Celebridades, que na cidade da  Bahia  se  fizeram  pelos  felicíssimos  casamentos  dos sereníssimos Príncipes de Portugal e Castela (Lisboa - 1729); Dois sonetos e três décimas em aplauso do Reverendo Antônio de Oliveira (Lisboa - 1738); outra edição (1745); Três sonetos e um romance heróico às memórias fúnebres do Abade de Duas Igrejas, Manuel  de  Matos  Botelho  (Lisboa - 1745). Deixou  alguns manuscritos, entre os quais um volume de Sermões vários" .

10. FR. FRANCISCO FELIX DE SANTA THEREZA

            "Requerimento de Jeronymo Ferreira da Costa, em que pede certidão de sua frequencia no curso de philosophia, professado no Convento do Carmo (da Bahia) por Fr.Francisco Felix de Santa Thereza - ano de 1768" .

11. FR. INOCÊNCIO DO MONTE CARMELO SENA

            Nasceu em Santo Amaro da Purificação (BA) no dia 28 de julho de 1828; com dezesseis anos professou na Ordem do Carmo. Foi nomeado Passante à cadeira de Filosofia e Lente de Teologia no dia 23 de abril de 1853. Como Reitor do Colégio dos Órfãos de São Joaquim lecionou latim e francês, agradando muito ao Arcebispo da Bahia, Dom Manuel Joaquim da Silveira, que no dia 25 de fevereiro de 1873 lhe concedeu o direito de usar anel e solidéu. Pelo seu grande amor à Ordem, em 1890, chegou a empreender uma viagem difícil até Roma para pedir ao Pe. Geral o envio de socorro à Bahia, que contava apenas com 6 religiosos, poucos e idosos. Foi nomeado Provincial da Província da Bahia no dia 1º de abril de 1892. Teve a felicidade de ver chegar no dia 25 de novembro de 1899 os primeiros religiosos vindos da Espanha para cuidar da restauração. Tendo tomado todas as providências canônicas e civis para que os frades espanhóis, já naturalizados brasileiros, não encontrassem dificuldades na obra da restauração, retirou-se para a sua Santo Amaro, onde faleceu piedosamente no dia 25 de junho de 1909 .

No livro Bom Jesus da Lapa (resenha histórica) escrito pelo Pe. Turíbio Villa-nueva y Segura (3ª edição - 1948) encontrei a p. 178-179 o seguinte: "NOTA - Prof. de escultura no Liceu de Artes e Ofícios da Bahia, João Guilherme da Rocha Barros, apelidado «O Frade», segundo informação do Clérigo Guimarães, Vice-Secretário, então, do Arcebispado, nasceu em 1851 e, entre outras obras, "produziu também «Nossa Senhora das Portas do Céu» no Carmo" (Ver Arte Cristã por Fr. Pedro Sinzig OFM  p.51).

O Folheto: O Padre e seu sobrinho.


Todos os domingos à tarde, depois da missa da manhã na igreja, o velho padre e seu sobrinho de 11 anos saíam pela cidade e entregavam
folhetos sacros.

Numa tarde de domingo, quando chegou à hora do padre e seu sobrinho saírem pelas ruas com os folhetos, fazia muito frio lá fora e também
chovia muito. O menino se agasalhou e disse:
-Ok, tio padre, estou pronto. '
E o padre perguntou:
-'Pronto para quê?':
-'Tio, está na hora de juntarmos os nossos folhetos e sairmos. '
O padre respondeu:
-'Filho, está muito frio lá fora e também está chovendo muito. '
O menino olhou surpreso e perguntou:
-'Mas tio, as pessoas não sofrem até mesmo em dias de chuva?'
O padre respondeu:
-'Filho, eu não vou sair nesse frio. '
Triste, o menino perguntou:
-'Tio, eu posso ir? Por favor!'
O padre hesitou por um momento e depois disse:
-'Filho, você pode ir. Aqui estão os folhetos. Tome cuidado, filho. '
-'Obrigado, tio!'
Então ele saiu no meio daquela chuva. Este menino de onze anos caminhou pelas ruas da cidade de porta em porta entregando folhetos
sacros a todos que via
Depois de caminhar por duas horas na chuva, ele estava todo molhado, mas faltava o último folheto. Ele parou na esquina e procurou por alguém para entregar o folheto, mas as ruas estavam totalmente desertas. Então ele se virou em direção à primeira casa que viu e caminhou pela calçada até a porta e tocou a campainha. Ele tocou a campainha, mas ninguém respondeu. Ele tocou de novo, mais uma vez, mas ninguém abriu a porta. Ele esperou, mas não houve resposta.
Finalmente, este soldadinho de onze anos se virou para ir embora, mas algo o deteve. Mais uma vez, ele se virou para a porta, tocou a campainha e bateu na porta bem forte. Ele esperou, alguma coisa o fazia ficar ali na varanda. Ele tocou de novo e desta vez a porta se abriu bem devagar.
De pé na porta estava uma senhora idosa com um olhar muito triste. Ela perguntou gentilmente:
-'O que eu posso fazer por você, meu filho?'
Com olhos radiantes e um sorriso que iluminou o mundo dela, este pequeno menino disse:
-'Senhora, me perdoe se eu estou perturbando, mas eu só gostaria de dizer que JESUS A AMA MUITO e eu vim aqui para lhe entregar o meu último folheto que lhe dirá tudo sobre JESUS e seu grande AMOR. '
Então ele entregou o seu último folheto e se virou para ir embora.
Ela o chamou e disse:
-'Obrigada, meu filho!!! E que Deus te abençoe!!!'
Bem na manhã do seguinte domingo na igreja, o Padre estava no altar, quando a missa começou ele perguntou:
- 'Alguém tem um testemunho ou algo a dizer?'
Lentamente, na última fila da igreja, uma senhora idosa se pôs de pé. Conforme ela começou a falar, um olhar glorioso transparecia em seu rosto.
- 'Ninguém me conhece nesta igreja. Eu nunca estive aqui. Vocês sabem antes do domingo passado eu não era cristã. Meu marido faleceu a algum tempo deixando-me totalmente sozinha neste mundo. No domingo passado, sendo um dia particularmente frio e chuvoso, eu tinha decidido no meu coração que eu chegaria ao fim da linha, eu Então peguei uma corda e uma cadeira e subi as escadas para o sótão da minha casa. Eu amarrei a corda numa madeira no telhado, subi na cadeira e coloquei a outra ponta da corda em volta do meu pescoço. De pé naquela cadeira, tão só e de coração partido, eu estava a ponto de saltar, quando, de repente, o toque da campainha me assustou. Eu pensei:
-'Vou esperar um minuto e quem quer que seja irá embora. '
Eu esperei e esperei, mas a campainha era insistente; depois a pessoa que estava tocando também começou a bater bem forte. Eu pensei:
-'Quem neste mundo pode ser? Ninguém toca a campainha da minha casa ou vem me visitar. '
Eu afrouxei a corda do meu pescoço e segui em direção à porta, enquanto a campainha soava cada vez mais alta.
Quando eu abri a porta e vi quem era, eu mal pude acreditar, pois na minha varanda estava o menino mais radiante e angelical que já vi em minha vida. O seu SORRISO, ah, eu nunca poderia descrevê-lo a vocês!
As palavras que saíam da sua boca fizeram com que o meu coração que estava morto há muito tempo SALTASSE PARA A VIDA quando ele exclamou com voz de querubim:,
-'Senhora, eu só vim aqui para dizer QUE JESUS A AMA MUITO. '
Então ele me entregou este folheto que eu agora tenho em minhas mãos.
Conforme aquele anjinho desaparecia no frio e na chuva, eu fechei a porta e atenciosamente li cada palavra deste folheto.
Então eu subi para o sótão para pegar a minha corda e a cadeira. Eu não iria precisar mais delas. Vocês veem - eu agora sou uma FILHA FELIZ DE DEUS!!!
Já que o endereço da igreja estava no verso deste folheto, eu vim aqui pessoalmente para dizer OBRIGADO ao anjinho de Deus que no momento certo salvou a minha vida e abriu os meus olhos para a misericórdia de Jesus.
Não havia quem não tivesse lágrimas nos olhos na igreja. O Velho Padre desceu do altar e foi em direção a primeira fila onde o seu anjinho estava sentado. Ele tomou o seu sobrinho nos braços e chorou copiosamente.
 PARA REFLETIR E REZAR...
Provavelmente nenhuma igreja teve um momento tão glorioso como este...
Às vezes, achamos que a Igreja é a nossa Pastoral, o nosso Movimento, o nosso Grupo e nos fechamos para aqueles e aquelas que estão à margem da Sacristia, do Salão Paroquial e dos muros da nossa Paróquia.
Segundo o Papa Francisco, “devemos sentir o cheiro das ovelhas”. Quantos católicos estão fora da nossa Igreja? Você sabe quantos habitantes tem a sua Paróquia e quantos participam da Missa Dominical? E as outras pessoas? Ah! Elas são pecadoras- Alguém pode justificar. Será esta a melhor resposta para responder as interrogações das Igrejas vazias, das Pastorais e Grupos Paroquiais sem atrativo, sem coração e sem vida?
Lembre-se: a mensagem de Deus pode fazer a diferença na vida de alguém próximo a você.
Por isso...
- Me perdoe se eu estou perturbando, mas eu só gostaria de dizer que JESUS TE AMA MUITO e eu vim aqui para lhe entregar o meu último folheto.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A metáfora do “corpo místico” e sua importância para o estudo das tensões entre Ordens Terceiras e Religiões mendicantes na época colonial.

William de Souza Martins (USP)

 

Ao advertir que as categorias usadas pelos agentes históricos do passado lançam luz sobre as suas respectivas visões de mundo, Peter Burke fornece como exemplo a imagem muitas vezes recorrente do “mundo como um organismo”.  A metáfora da sociedade como um “corpo místico” constitui uma das vias mais acabadas de um modo de pensar a coletividade baseado nas diferentes funções exercidas pelos órgãos do corpo humano. Assim ocorre, desde seu aparecimento no século XII nos escritos de João de Salisbury: a res publica possui pés, os camponeses; mãos, os cavaleiros que brandem suas armas e uma cabeça, representada pelo príncipe. Não obstante a posição privilegiada desse último, a sociedade apresenta também uma alma, os sacerdotes, cuja sabedoria mostrava ao monarca os caminhos da verdade. Nesse esquema, é possível vislumbrar, portanto, ecos da imagem trifuncional da sociedade, baseada na divisão entre os que oram, os que combatem e os que trabalham, embora Salisbury introduza na representação do corpo social outras compartimentações, tais como o coração, em que figuram os conselheiros do rei; o ouvido e a língua, os instrumentos da jurisdição régia e o ventre, que representa as gentes de finança.  Quando aplicada para a caracterização da sociedade laica, a imagem do corpo místico atravessou a Baixa Idade Média, reaparecendo no pensamento jurídico moderno inglês que, ao reforçar a tradicional concepção corporativa da sociedade, punha limites ao poder régio.  Atendendo a propósitos semelhantes, a metáfora é também empregada no pensamento político quinhentista português, aparecendo por exemplo no segundo livro do Espelho do Perfeito Príncipe Cristão de Francisco de Monçon, cuja caracterização do corpo místico da República repete pontualmente os topoi anteriormente estabelecidos por João de Salisbury, com a excessão da alma, o que indica a secularização crescente do pensamento e a perda relativa de importância da Igreja, em comparação com a Idade Média.  Em última análise, a incrível vitalidade da imagem em questão é patente quando se verifica sua presença no Príncipe perfeito de Francisco Antônio Moraes de Campos, editado em 1790, que torna a atribuir ao rei o lugar de cabeça do corpo místico da República, cujas funções de comando, não obstante, não substituem as atribuições específicas do restante do corpo.

A Igreja medieval não permaneceu insensível ao uso sociológico da metáfora do corpo místico. Como resposta à secularização em curso na Baixa Idade Média, manifestada principalmente pela autonomização dos corpos políticos privados, urgia que a corporação eclesiástica reafirmasse sua preponderância por meio de uma imagem universalizante. Assim, no início do século XIV, o papa Bonifácio VIII aplicaria a referida metáfora para representar a sociedade cristã ou Igreja no sentido mais amplo, à cabeça da qual assomava o próprio Cristo. A reação manifestada pelo clero ao uso laico da metáfora do corpo místico também pressupôs uma mudança mais lenta ocorrida no pensamento teológico. Se na Alta Idade Média, a imagem do corpo místico aplicava-se ao sacramento eucarístico, por causa de movimentos heréticos a Igreja insistiu cada vez mais na presença real do Cristo na hóstia, culminando com a aprovação do dogma da transubstanciação, em 1215. A partir de então, nos escritos eclesiásticos, a metáfora do corpo místico teria um sentido cada vez menos sacramental, referindo-se preferencialmente ao mundo social.

Mais recentemente, a reflexão teológica retomou a abordagem sociológica da metáfora do corpo místico, atitude influenciada talvez indiretamente pelo movimento de centralização das estruturas eclesiásticas ocorrido a partir do século XIX e, de modo mais direto, pela publicação em 1943 da encíclica Mystici Corporis. Conforme apontou precisamente Georges Duby, a referida imagem traz subjacente uma “moral de enquadramento”, que sacraliza a multiplicidade e a desigualdade de funções exercidas pelos agentes sociais ou eclesiásticos, de modo que sobreviva a união mística do todo. Ao lado disso, o uso da metáfora implica na interdependência entre as diferentes partes de um agregado cívico, na medida que “os súditos se acham incorporados no rei e este nos súditos” ; de modo similar, estende a mesma propriedade para a sociedade cristã: a graça de Cristo se espraia aos fiéis para uni-los entre si e com sua cabeça. Não obstante, os usos da imagem corpo místico variaram consideravelmente, conforme era aplicada para representar o governo de uma república perfeita ou o governo de Deus sobre os homens. Assim, enquanto que no pensamento jurídico inglês ou português, a imagem do corpo místico apontava para uma concepção limitada do poder do soberano, a reflexão teológica reforça, como seria de esperar, a capitalidade de Cristo, que opera em dois planos: externo ou de governo, representado “com a ajuda dos homens que ensinam, administram ou governam em seu nome”, ou seja, a corporação eclesiástica; interno ou de santificação, por meio da graça que atua individualmente em cada homem.

No uso específico que a metáfora do corpo místico assume nas três obras analisadas a seguir, da lavra de religiosos observantes das regras de Nossa Senhora do Carmo, de Santo Agostinho, e de São Francisco, todas elas publicadas no século XVIII, torna-se evidente uma característica: a apropriação da imagem operada pelos respectivos frades assinala a pulverização jurisdicional característica do Antigo Regime. Assim, na metáfora orgânica que cada uma das ordens propunha como auto-representação de si, está subjacente o fato de que a jurisdição dos órgãos periféricos “era sua própria (e não delegada) e inatacável pela coroa”.  Era como se no interior do corpo místico da República operasse uma pluralidade de corpos místicos, com jurisdições e hierarquias próprias. No caso aqui enfocado, tratava-se da jurisdição espiritual que cada uma das referidas Religiões exercia em relação às suas correspondentes Ordens Terceiras, constituídas por irmãos leigos. Desse modo, justificava-se a isenção das Ordens Terceiras da jurisdição do ordinário, no plano diocesano, e da do pároco, ao nível paroquial, representantes mais diretos da Coroa. Ainda neste caso, portanto, a metáfora do corpo místico atuava como imposição de limites ao poder do soberano.

Buscando seguir uma linha cronológica, a primeira obra a considerar é o Tesouro carmelitano de fr. José de Jesus Maria, dada à impressão ainda na primeiro decênio dos Setecentos.  No capítulo X, ao tratar das amplas obras meritórias de que participavam os irmãos terceiros carmelitas, o autor representa tal participação por meio da seguinte imagem:

Não há dúvida que é o mesmo ser admitido qualquer Católico ao sagrado Hábito da nossa Venerável Ordem Terceira, que ficar sendo membro deste místico corpo da nossa Religião Carmelitana (...) e se os membros no corpo humano se ajudam uns aos outros em ordem a viver, assim também no corpo místico da Religião se ajudam, para que todos se venham a salvar, comunicando uns aos outros o merecimento das boas obras que fazem.

Assim, diferentemente das simples irmandades leigas, os irmãos das Ordens Terceiras estavam inseridos em uma coletividade religiosa que lhes franqueava diversas vantagens espirituais. Sem detalhar por enquanto o modo pelo qual recebiam tais privilégios, importa reter que, à semelhança do organismo humano, o “místico corpo” carmelita apresentava-se hierarquizado, nele ocupando lugar proeminente a própria mãe de Cristo. Seguram-lhe uma série de profetas e santos, até chegar aos religiosos e religiosas da Observância, ou carmelitas calçados, e aos carmelitas Descalços, que se pautavam pela reforma de Santa Teresa.  O autor não faz explícita menção à posição ocupada pelos irmãos terceiros que, deduz-se, deviam figurar depois dos religiosos.

O autor, não obstante, parece não se satisfazer com essa metáfora, e tentou aprimorá-la recorrendo à outra imagem, a da “árvore mística”:

É Árvore porque se esta se compõe de raiz, tronco, cortiça, ramos, folhas, flores e frutos, as quais cousas, ainda que sejam de diversa condição e natureza, da raiz procedem, e dela tiram a vida e a vigor, assim também esta nossa Terceira Ordem se compõe, como Árvore, de muitas e diversas pessoas nobres e mecânicas, homens, mulheres, ricos e pobres, Eclesiásticos e seculares (...) assim, como os membros procedem da cabeça, assim como os raios procedem do Sol, e assim como os rios procedem da fonte, assim espiritualmente procedem de Maria Santíssima todos os Carmelitas regulares e seculares (...) São os carmelitas todos, assim Religiosos como Terceiros, os filhos desta Mãe, os ramos deste tronco, os membros desta cabeça, os raios deste Sol, e os rios desta fonte.

Se no primeiro trecho da citação acima a “árvore mística” abrange apenas os membros das Ordens Terceiras, nos dois últimos há claramente a inclusão dos frades e freiras, haurindo todos eles os benefícios espirituais emanados da Virgem. Se o texto afirma a preponderância desta sobre toda a “árvore mística”, por outro lado não empreende uma hierarquia espiritual entre os membros religiosos e os seculares, que surgem genericamente identificados aos “ramos” e “rios”. Há alusões apenas à hierarquia interna dos irmãos terceiros, cuja origem se encontra nas ocupações do século  “pessoas nobres e mecânicas” mas não a divisões baseadas no modo religioso de vida e nas obras espirituais.

No escrito acima, o autor lança mão de imagens retiradas da natureza, cujos significados mais profundos adquirem uma feição moral, conforme ensinou Sérgio Buarque de Holanda.  Se teólogos contemporâneos como o dominicano Emílio Sauras, seguindo os passos de S. Tomás de Aquino, criticaram tal abundância de imagens como “naturalismo vulgar”, é preciso ver entretanto que a Teologia patrística incluía como técnica hermenêutica o essencialismo. De acordo com tal doutrina, Deus escrevera através de dois livros, a Bíblia e as criaturas, que constituíam as vias para o conhecimento de sua Verdade. Conforme expressou S. Boaventura, cujas concepções aparecem refletidas na obra do carmelita José de Jesus Maria, “todos os seres criados simbolizam Deus. Pois Deus é a origem de todas as coisas, e todo efeito é símbolo de sua causa.”

No texto que será analisado em seguida, tais imagens estão ausentes; no entanto, uma vez mais, a metáfora do corpo místico ocupa uma posição central no discurso. Na primeira metade do século XVIII, o frei agostiniano José de Santo Antônio propôs à irmandade de Nossa Senhora da Graça, em Lisboa, que fosse elevada à categoria de Ordem Terceira sob a jurisdição de sua Religião, tornando-se o referido sacerdote o primeiro comissário da Ordem. Obtendo consentimento do grupo de devotos, o frade constituiu-se em “Padre espiritual” dos irmãos terceiros, delegado imediato da autoridade do provincial dos religiosos de Santo Agostinho.  De simples irmandade, aqueles fiéis atingiram uma nova condição:

Não se extingue logo a Irmandade antiga de Nossa Senhora da Graça, melhora-se sim pelo ascenso à Terceira Ordem Augustiniana. Não se extingue porque os que eram até aqui Irmãos no serviço e obséquios da Virgem Maria, subindo a ser Terceiros de uma Religião (...) nesta dita logram sobre o título de Irmãos o de filhos, e assim ficam unidos à Senhora com vínculo mais estreito [tendo] por Mãe a Virgem Maria da Graça, e por Pai o grande Patriarca Santo Agostinho, Luz da Igreja e Mestre universal de toda a Cristandade, o afeto que lhes merece há de obrigar aos bons Católicos a agregar-se a este Corpo Místico...

Combinando a metáfora orgânica à da família, o autor assinala que o grupo de devotos doravante participa de um corpo hierarquizado, de uma família à cabeça da qual figura um místico casal.  Esse discurso assinala a mudança do estatuto do referido grupo de devotos: de irmandade a gozar de relativa autonomia no campo religioso a Ordem Terceira ligada jurídica e espiritualmente aos religiosos de santo Agostinho.

Havia uma importante contrapartida espiritual que, para os leigos, parecia compensar largamente certa perda de autonomia na gestão do sagrado: o ingresso no “Corpo Místico” de uma Religião transmitia-lhes quase todas as graças e benefícios espirituais durante muitos séculos acumulados pelos religiosos. O franciscano Manoel de Maria Santíssima, guardião do convento português de Varatojo, ao tentar representar as relações de complementaridade entre as diferentes partes que compunham o corpo de sua Religião, exprimiu com clareza a idéia da transmissão do patrimônio espiritual:

Ora, sendo certo que as três Ordens Seráficas, Primeira de Religiosos, Segunda de Religiosas, terceira da Penitência para Seculares, formam um corpo místico na participação das boas obras, e merecimentos, e são todas ramos de um mesmo tronco e de uma mesma árvore, de cuja virtude participam todos os seus ramos e folhas, que tesouro de bens se não encerra aqui para os irmãos Terceiros de que tão facilmente se podem aproveitar?

No interior do “Corpo Místico” franciscano, os bens espirituais não se transmitiam apenas em sentido vertical , ou seja, dos religiosos até os irmãos terceiros: no âmbito deste último grupo, ocorria também a difusão das graças espirituais através da extensa rede de Ordens Terceiras existente na Cristandade. Assim, segundo o autor, apenas as graças conquistadas numa das partes do corpo Seráfico já seria o bastante para atrair a participação dos simples fiéis:

Só em doze Ordens (Terceiras) sujeitas à direção de Varatojo se dizem cada ano mais de mil Missas pelos irmãos vivos e defuntos com serem Ordens pobres. Que será na Ordem da Cidade [Lisboa] que tinha o ano de 1701 vinte mil Irmãos? Que será na Ordem de Madri em Espanha, que entre Noviços e professos tinha o ano de 1690 68 mil Irmãos?

Os três escritos da autoria dos religiosos acima referidos enfatizam uma acepção muito particular da metáfora do “Corpo Místico”: este não designa o conjunto formado pelo clero e fiéis, a Igreja em sentido amplo. Pelo contrário, refere-se a um agregado formado por religiosos que observavam votos de castidade e de obediência; e por seculares que viviam de seus ofícios mundanos, situados todos sob a égide dos fundadores das respectivas Ordens e, acima de tudo, de Maria Santíssima. Assim, no cume de cada edifício representado pelas diferentes Ordens Religiosas, a pessoa de Maria substitui a de seu próprio filho, guardando uma importante distinção em relação ao conjunto da Igreja, para quem o alicerce ou o cimo  as duas posições são equivalentes  é ocupado pela figura de Cristo.

Nota:

Esse trabalho reflete algumas indagações presentes na pesquisa Membros do corpo místico: Ordens Terceiras da cidade do Rio de Janeiro, que se desenvolve junto à Universidade de São Paulo sob a orientação da prof.ª dr.ª Maria Beatriz Nizza da Silva, e que conta com o amparo financeiro da FAPESP.

O mundo como um teatro. Lisboa, Difel, 1992, p. 44.

Georges Duby. As três ordens ou o imaginário do feudalismo. Lisboa, Estampa, 1982, p. 288-93.

Segundo Ernst H. Kantorowicz, “o corpo político, místico ou público da Inglaterra não se definia somente pelo rei ou cabeça, mas sim pelo rei juntamente com o conselho e o Parlamento”. Vide Los dos cuerpos del rey. Un estudio de teología política medieval. Madrid, Alianza, 1985, p. 217.

Ana Isabel Buescu. Imagens do príncipe. Discurso normativo e representação (1525-1549). Lisboa, Cosmos, 1996, p. 193-211.

Vide Ângela Barreto Xavier e Antônio Manuel Hespanha “A representação da sociedade e do poder” In A. M. Hespanha (coord.) O Antigo Regime (1620-1807). Lisboa, Estampa, 1993, p. 123 (História de Portugal, dir. José Mattoso, v. 4).

Ernst H. Kantorowicz, Los dos cuerpos..., cit., p. 188-200.

Vide fr. Emílio Sauras, OP. El cuerpo mistico de Cristo. Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 1952, p. 1-27.

Antônio Manuel Hespanha “Para uma teoria da história institucional do Antigo Regime” In A. M. Hespanha (org.). Poder e instituições na Europa do Antigo Regime. Lisboa, Calouste Gulbenkian, 1984, p. 59.

Tesouro Carmelitano manifesto e oferecido aos Irmãos e Irmãs da Venerável Ordem Terceira da Rainha dos Anjos, Mãe de Deus, Senhora do Carmo, pelo..., Comissário da mesma Terceira Ordem no Convento do Carmo de Lisboa. Lisboa, na Oficina de Miguel Menescal da Costa, Impressor do Santo Ofício, 1760. Nos fichários da BNRJ, consta uma edição de 1705, que não foi possível consultar, impressa na mesma oficina.

Ibid., p. 247-9. A expressão “árvore mística” está na p. 243.

Visão do paraíso. Os motivos edênicos no descobrimento e colonização do brasil. 2.ª ed. rev. e amp. São Paulo, Nacional, 1969, cap. VIII, p. 236: “os cenários naturais, em terra onde tudo era insólito, pareciam importar, não tanto por aquilo que aparentavam, mas sobretudo pelo que pareciam anunciar ou dissimular”. Conforme expôs João Adolfo Hansen em obra analisada a seguir, pode-se chamar de essencialista o procedimento dos escritores portugueses que se encarregaram da descrição do Novo Mundo, adotando para a análise do mundo sensível procedimentos hermenêuticos próprios da Teologia.

El cuerpo místico..., cit., p. 34. O autor refere que “por querer valorizar mais que o devido a metáfora, se chega umas vezes a extremos pueris e outros a extremos francamente errôneos”.

Apud João Adolfo Hansen. Alegoria. Construção e interpretação da metáfora. São Paulo, Atual, 1987, p. 4. Segundo o referido autor, a novidade da teologia de S. Tomás de Aquino em relação à tradição dos Santos Padres é a exclusão do “sentido figurado  metafórico ou alegórico  do sentido espiritual, (...) aquele desejado e inscrito por Deus no mundo e na história (...) Teológica, a concepção hipervaloriza a alegoria fatual, a única que apresenta o sentido espiritual” (p. 57-8). Ainda de acordo com Hansen, a alegoria fatual, também conhecida como tipologia, designa o procedimento hermenêutico dos teólogos em interpretar passagens do Antigo Testamento como prefigurações do Novo (p. 47).

Fr. José de Santo Antônio, Ord. August. Iman Espiritual atrativo dos corações ao amor, veneração e séquito da Terceira Ordem Augustiniana... dedicado à sagrada imagem de Nossa Senhora da Graça, colocada em seu convento de Lisboa Oriental, Padroeira e protetora da mesma venerável Ordem... Lisboa Ocidental, na Oficina da Música, 1726, p. 305.

Acerca da imagem do matrimônio, desta vez aplicada à aliança entre o príncipe e sua república, que estabelecia direitos e obrigações para ambas as partes envolvidas, cf. Ernst H. Kantorowicz, Los dos cuerpos..., cit., p. 206-8.

Sobre a autonomia relativa desfrutada pelas irmandades,  Sergio Chahon assinala que apenas na segunda metade do século XVIII, graças às medidas tomadas por Pombal, o Padroado Real procurou defender com mais ênfase a sua jurisdição, fazendo valer as prerrogativas de seus agentes mais diretos, como os párocos e os bispos diocesanos, contra as pretensões de autonomia das Ordens religiosas e irmandades. Cf. Aos pés do altar e do trono: as irmandades e o poder régio no Brasil, 1808-1822. Dissertação de Mestrado apresentada à USP, sob a orientação de Maria Beatriz Nizza da Silva. São Paulo, 1996, p. 22-7.

Terceiro franciscano instruído nas obrigações do seu Instituto da Terceira Ordem da penitência; com a notícia das muitas Indulgências concedidas aos Professores deste Instituto... por Fr. Manoel de Maria Santíssima, Missionário Apostólico e Guardião de Varatojo. Lisboa, na Oficina de Antônio Gomes, 1787, p. 159.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O corpo e a renúncia aos prazeres da carne na Idade Média Cristã presentes nos Concílios Ibéricos dos séculos V-VI d.C. e do século XIII d.C.

Sheila Rigante Romero
 
Introdução

O presente artigo objetiva mostrar como a construção das relações e das práticas sociais institui normas de condutas, estabelece espaços culturais por meio de interdições ou ritos de passagem. Tais normas se aplicam ao corpo de cada indivíduo, grupo, categoria ou classe social. Os estudos referentes à sexualidade e ao corpo constituem-se em objetos essenciais para o entendimento dos diversos significados das relações humanas, compreendidas no seus mais variados e complexos sentidos.

Michel Foucault, precursor dos estudos referentes à sexualidade, problematizou as questões da sexualidade humana e sua relação com o corpo. A sexualidade, para ele, não é uma qualidade herdada da carne que várias sociedades louvam ou reprimem – não como pensava Freud, um impulso biológico que a civilização canaliza em uma direção ou outra. Mas sim, uma forma de moldar o self “na experiência da carne”, que por si só é constituída em torno de certas formas de comportamento (LAQUEUR, 2001: 24). O sexo, assim como o ser humano, é contextual. É impossível isolá-lo de seu meio discursivo e de sua caracterização socialmente determinada, ao tentar fazer isso incorre ao erro. O corpo privado, incluso, estável, que parece existir na base das noções modernas de diferença sexual, é também produto de momentos específicos, históricos e culturais. Ele também, como os sexos opostos, entra e sai de foco (LAQUEUR, 2001: 27).

Para Foucault até o século XVII as questões da sexualidade ainda não buscavam pelo segredo, vigorava-se uma certa franqueza em relação ao “uso dos prazeres”, e as palavras não eram tão disfarçadas a ponto de serem reduzidas a um vocabulário do que era ou não permitido dizer. Todavia, no início do século XVIII o pensamento burguês dá origem à Idade da Repressão, que coincide com “o desenvolvimento do capitalismo essa repressão que se pode ainda fazer coexistir, discretamente, em que o medo do ridículo ou o amargor da história impedem a maioria dentre nós de vincular: revolução e felicidade; ou então, revolução e um outro corpo, mais novo, mais belo; ou, ainda, revolução e prazer” (FOUCAULT, 1989: 11-12). Como o próprio autor mostra, designar o sexo seria cada vez mais difícil. Para domá-lo num plano real torna-se necessário reduzi-lo ao plano da linguagem, ou melhor, controlá-lo na sua livre circulação no discurso. Dessa forma, percebe-se que Foucault considera o silêncio como um conjunto de estratégia empregada para a montagem do discurso. O modo como uma sociedade lida com o saber e o poder (termos sinônimos) se realiza através da montagem de dispositivos discursivos (FOUCAULT, 1989: 181).

Os estudos produzidos sobre sexualidade, observados no desenrolar do século XIX, incorporaram as perversões e especificações do indivíduo, visto que nestes discursos há o enraizamento da cultura cristã, cuja construção da família baseia-se em casamentos monogâmicos entre casais heterossexuais, de forma que dêem continuidade a espécie humana.O Ocidente definiu novas regras no jogo dos poderes e prazeres, configurando a fisionomia rígida das perversões. (FOUCAULT, 2001: 96). Esses discursos explicavam os comportamentos e ações do homem por meio das Ciências Biológicas, como forma de garantir a preservação da instituição familiar.

No decorrer do século XX, estudos introduziram a problematização da questão de gênero, contestando a tendência que se tem em considerar como natural apenas o que é masculino e o que é feminino. Observou-se que a relação “homem/mulher” e “macho/fêmea” excedem os limites dessa relação binária. Por isso, escolheu-se criticar a definição do gênero pela categoria de sexo (BUTLER, 2003: 26), com o intuito de identificar os métodos que lhe são constitutivos. A noção de gênero expressaria, assim, os valores culturais ostentados pelo corpo sexuado, não podendo dizer que ela suceda de um sexo, desta ou daquela maneira. O contraste entre sexo e gênero insinua uma interrupção entre corpos sexuados e gêneros culturalmente construídos (BUTLER, 2003: 24). Com isso, entende-se que a formulação do termo “homens” não seja relativo necessariamente a corpos masculinos, assim como a expressão “mulheres” não sirva apenas para designar corpos femininos.

Segundo Theml, “o corpo humano é socialmente construído por meio da escolha social de um certo número de valores que configuram o que o homem deve ser, tanto em relação às virtudes morais e intelectuais quanto à representação, à exposição e uso do seu corpo ‘físico’” (THEML, 1998: 309). Nota-se, portanto, que o corpo não pode ser trabalhado pelo historiador apenas como biológico, ao contrário, deve ser percebido como árbitro de sinais culturais. Cada representação do corpo informa sua história e reúne um sistema de valores. Os discursos sobre sexualidade, por conseguinte, apresentam a construção de cada sexo num dado contexto social e cultural. A cada contexto existe uma mudança do discurso, e a sua demarcação é tanto mais difícil quanto menos instituído for este contexto. Tal discussão é essencial para compreender a percepção que o homem medieval tinha de sua sexualidade e de seu corpo, em sua interação social, nas construções ideológicas, num conjunto de predicados morais de comportamento, socialmente ratificado e constantemente pensado, relembrados, ou seja, em incessante processo de construção; e também para entender como se deu a normatização da sexualidade e do corpo do homem e da mulher medieval por parte dos clérigos, por meio dos Concílios Ibéricos. Essa discussão referente à sexualidade e ao corpo é relevante para entender que na Idade Média, como afirma Karras, as identidades dos medievos eram fundamentalmente formadas (moldadas) pelos seus status sexuais - não se eles eram “homossexuais” ou “heterossexuais”, como hoje, mas se eles eram castos ou sexualmente ativos (KARRAS, 2005: 09).

Os Concílios Ibéricos dos séculos V–VI d.C. e a influência do pensamento de Santo Agostinho na renúncia dos clérigos aos prazeres do corpo

Pode-se notar que, desde as formulações dos Concílios Ibéricos que normatizavam a vida cotidiana dos clérigos e leigos, a Igreja seria a primeira a incentivar o discurso sobre o sexo, quando passou a estimular o aumento das confissões aos padres. As insinuações da carne deveriam ser ditas em detalhes, incluindo os pensamentos carnais. O bom cristão precisaria, portanto, fazer de todo o seu desejo um discurso. Ainda que tivesse ocorrido uma interdição de certas palavras, esta era apenas uma maneira de tornar o discurso sobre a sexualidade e o corpo moralmente aceito e tecnicamente útil. Na Idade Média Cristã ocorreu uma derrocada das práticas corporais, assim como a “supressão ou ainda o confinamento dos lugares do corpo da Antigüidade, o corpo se torna paradoxalmente o coração da sociedade medieval” (LE GOFF, 2006: 31). Por meio das exigências canônicas se impôs o controle da Igreja ao domínio até então regido pelas famílias, homens e mulheres medievais, levando-os a manifestarem-se em relação ao seu corpo e a sua sexualidade (ROSSIAUD, 2006: 477).

Nos Concílios Visigóticos – a partir dos cânones que normatizavam juridicamente a vida cotidiana dos clérigos e dos leigos – pode-se observar a necessidade da Igreja de introduzir aos cristãos a noção de pecado e a importância da renúncia ao prazeres sexuais, utilizando-se do pensamento de Santo Agostinho sobre a questão da continência do corpo para manter a pureza da alma. Para Agostinho a sexualidade tinha uma finalidade estritamente delimitada: simbolizava um único e decisivo acontecimento dentro da alma. Ecoava no corpo a conseqüência inalterável do primeiro pecado da humanidade (Adão e Eva) (BROWN, 1990: 347). A tentação sexual era uma provação temível e debilitadora, por isso, a prática da continência representava a capacidade do homem de vencer as provações carnais e alcançar num plano metafísico a pureza da alma. As paixões e ações incontroláveis e descomedidas deveriam ser substituídas por ações comedidas. Tudo sobre o sexo, após a perda da pureza, podia ser sentido como lembranças contínuas na carne das tensões da condição humana fundamentalmente imperfeita. Tudo isso teve início com o aparecimento da cristandade (LAQUEUR, 2001: 73).

Para Laqueur, a nova interpretação de Agostinho sobre a sexualidade como um “sinal interno e sempre presente da alienação da vontade pela perda da pureza criou uma área alternativa para o corpo gerador” (LAQUEUR, 2001: 74).De acordo com o autor, as idéias pagãs e cristãs sobre o corpo coexistiram como várias doutrinas incompatíveis sobre a semente, a procriação e as homologias corpóreas, pois as diferentes comunidades pediam coisas diferentes da carne. Os monges e os paladinos, os leigos e o clero, (...) os confessores e os teólogos, em inúmeros contextos podiam continuar a interpretar o corpo segundo suas necessidades para compreendê-lo e manipulá-lo, à medida que os fatos do gênero mudavam (LAQUEUR, 2001: 74).

Durante o século V e VI, o cristianismo estava tornando-se religião do Estado e reprimia o corpo por meio da renúncia aos prazeres da carne e o controle a estas a partir das confissões. Por outro lado, com “a encarnação de Deus no corpo de Cristo, faz do corpo do homem o tabernáculo do Espírito Santo” (LE GOFF, 2006: 31). Ou seja, de um lado os clérigos reprimem as práticas corporais, de outro, as glorifica. Depreende-se assim, que o corpo e as práticas sexuais oscilam entre a repressão e a exaltação, a humilhação e a veneração.

A influência agostiniana na renúncia dos clérigos aos prazeres carnais para a purificação do corpo como forma de aproximar a alma ao mundo de Deus pode ser notada no IV Concílio de Toledo, cânone XXI, que explica a importância da castidade dos bispos pois, estes deveriam ser o exemplo para a sociedade medieval de um comportamento “correto” aos olhos de Deus (IV Concílio de Toledo,Cânone XXI, p.200-201).

Os Concílios Ibéricos do século XIII e o liame entre o corpo e a alma no pensamento de São Tomás de Aquino

No século XIII, período em que foram escritos os concílios de Calahorra e de Latrão, as questões do corpo e do prazer sexual não estavam ligadas ao mal, e a preocupação dominante passava a ser com a saúde. Entretanto, os diagnósticos mais importantes reforçavam a moral e condicionavam as atitudes. No IV Concílio de Latrão nos cânones 21 e 22 os padres, durante as confissões precisavam ter discernimento e prudência como um médico experiente ao aplicar as penitências aos fiéis; aos enfermos era preciso zelar primeiro pela alma depois pelo corpo. Os diagnósticos médicos recomendavam um controle no desejo sexual pois – ainda baseados nos estudos de Galeno – o “abuso do coito é muito perigoso: ele abrevia a vida (a destacada longevidade dos eunucos prova-o a contrario), debilita o corpo, consumindo-o, diminui o cérebro, destrói os olhos, conduz à estupidez” (ROSSIAUD, 2006: 478).

Tais diagnósticos, baseados no pensamento de São Tomás de Aquino, entendiam que a alma não estava dissociada do corpo, ao contrário, a alma era a forma do corpo organizado, devendo nascer e morrer com ele sem ter nenhuma destinação sobrenatural. Em oposição a Santo Agostinho, que pensava que quanto mais se renunciasse à carne mais próximo de Deus se chegava – por isso sua concepção da cidade dos homens e a cidade de Deus – para São Tomás, a alma humana era o horizonte onde se tocavam o mundo dos corpos e dos espíritos, ou seja, a alma e o corpo estavam intrinsecamente ligados. Dessa maneira, de acordo Rossiaud, para os médicos e filósofos medievais a saúde do espírito era inversamente proporcional ao vigor genital, tendo em vista que as agitações carnais, antes de representarem um pecado contra Deus, eram faltas contra a razão. O gozo físico era distinto do prazer racional; ele era uma força incontrolável, um tipo de loucura, de furor. Como reafirmam os filósofos do século XIII, depois dos latinos, dos gregos ou dos árabes, o desejo era subversão e submersão do ser (ROSSIAUD, 2006: 479).

Os cânones, mesmo a partir do século XIII, sempre colocaram a necessidade da renúncia dos desejos sexuais, sugerindo que jamais fossem seduzidos pelos impulsos e incontinências corporais. Para isso, a Igreja ainda precisava criar no pensamento laico o significado de “pecado”. Por isso a insistência nas confissões para a salvação da alma por meio das penitências aplicadas aos fiéis pelos padres. Era necessário transformar as questões do corpo e seus prazeres em um discurso ao padre, como foi observado por Foucault, ao tratar as confissões medievais cristãs como um dispositivo de poder utilizado pela Igreja. Como também é possível observar no cânone 21 do IV Concílio de Latrão, no qual enfatizava-se a necessidade de sempre tornar público tal cânone nas igrejas (p.174). A aplicação da penitência pelo padre – devido ao seu poder espiritual e da sua renúncia aos prazeres do corpo – aos confessores e pecadores, permitia a salvação do corpo pecador e impuro para salvar a alma da perdição.

O liame entre o corpo e a alma pode ser visto no cânone 22, em que a alma doente, devido aos pecados da carne, se reflete na enfermidade do corpo, portanto, a necessidade de chamar os “médicos da alma” (os padres) antes do “médico do corpo” aplicar os medicamentos (p.175). A preocupação com os costumes e condutas dos clérigos e leigos em relação aos prazeres carnais e a pureza da alma, também pode ser percebida no IV Concílio de Latrão, cânone 14, que reforçava a importância da continência – exigida desde o II Concílio de Braga – e da castidade dos clérigos, além de castigos severos àqueles que não conseguissem renunciar aos prazeres do corpo. Contudo, é importante destacar que nesta época corpo e alma estavam unidos, por isso, para a pureza da alma era necessária a pureza do corpo, e o corpo do padre deveria ser limpo para celebrar a palavra de Deus (IV Concílio de Latrão, Cânone 14, p.170-171). No século XIII o cuidado com o “uso prazeres” estava ligado ao cuidado com a pureza da alma. Controlar seus desejos e vontades significava manter uma alma limpa das luxurias da carne e aproximá-la dos ensinamentos de Deus. Um homem continente representava o princípio da razão que une o corpo e a alma, ou seja, o Espírito Santo.

Conclusão

Em suma, é possível afirmar que a Idade Média Cristã – dos séculos V, VI e XIII d.C. – produziu uma grande quantidade de discursos referentes ao corpo e à sexualidade por meio do incentivo a confissão como forma de manter, a partir da autoridade espiritual dos clérigos, o controle sobre a vida religiosa e cotidiana do homem e da mulher medieval. O discurso sobre a renúncia dos prazeres carnais para a salvação da alma produziu uma normatização do corpo e dos prazeres na Idade Média Cristã, o que Foucault chamou de um “policiamento do sexo”.

O incentivo a confissão – que se consolidou na vida do homem medievo no final do século XVI – possibilitou a transformação das práticas sexuais em discursos o que deu aos padres o direito de intervir, punir, julgar perdoar às condutas e ás práticas sexuais do medievo cristão e, também, deu o direito ao padre a inocentá-lo, a purificá-lo, a dar-lhe a salvação divina após a confissão de todos seus pecados da alma e do corpo, e após o cumprimento da penitência, esta regulada e sacramentada no IV Concílio de Latrão em 1215. Observa-se, assim, que a Instituição clerical foi a primeira a incentivar o discurso sobre o sexo, quando passou a estimular, como visto anteriormente, o aumento das confissões ao padre. As insinuações da carne deveriam ser ditas em detalhes, incluindo os pensamentos sobre o sexo.

 

Referências

BROWN, Peter. 1990. “Agostinho: sexualidade e sociedade”. Corpo e sociedade. O homem, a mulher e a renúncia sexual no início do cristianismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 318-351.

BUTLER, Judith. 2003. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

FOREVILLE, Raimunda. Lateranense IV. Vitoria: Editorial Eset.

FOUCAULT, Michel. 2001. História da sexualidade. A vontade de saber.14ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal.

____. 1989. História da sexualidade. O uso dos prazeres. 9ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal.

KARRAS, Ruth Mazo. 2005. Sexuality in Medieval Europe. Doing unto others. London: Routledge.

LAQUEUR, Thomas. 2001. “Da linguagem e da carne”. Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume Dumará, p. 13-40.

____. 2001. “Destino é anatomia”. Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume Dumará, p. 41-88.

LE GOFF, Jacques & TRUONG, Nicolas. 2006. “História de um esquecimento”. Uma história do corpo na Idade Média. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, p. 15-32.

____. 2006.”Quaresma e carnaval”. Uma história do corpo na Idade Média. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, p. 33-58.

ROSSIAUD, Jacques. 2006. “Sexualidade”. In: LE GOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário temático do Ocidente medieval. Bauru, SP: Edusc, vol. 02, p. 477–494.

SCOTT, Joan Wallach. 1996. Gênero: uma categoria útil para a análise histórica. Recife: S.O.S. Corpo.

THEML, Neyde. 1998. “História e imagens: ordem e transgressão do corpo nos vasos atenienses”. In: SILVA, Francisco Carlos Teixeira da (org.). História e Imagem. Rio de Janeiro: UFRJ- Capes, p. 305-319.

VIVES, José.& MARÍN, Tomás (orgs). Concílios Visigóticos e Hispano-Romanos. Barcelona/Madrid: Instituto Enrique Flórez.

SALVADOR-2014: Olhar Sobre o Carnaval- 03

SALVADOR-2014: Olhar Sobre o Carnaval- 02

SALVADOR-2014: Olhar Sobre o Carnaval- 01

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

PADRE JOSÉ THEISEN: Inspiração da minha vocação.


Padre belga revoluciona agreste de AL

"Missionário belga, Padre José Theisen, 86 Anos,
Da Diocese de Penedo-AL. Meu Padrinho de Crisma".
                 E inspiração da minha vocação.
                Frei Petrônio de Miranda, Carmelita.

Craíbas.

O missionário belga José Theisen ainda “arranhava” a língua portuguesa quando chegou à cidade sergipana de Gararu. No primeiro contato com os fiéis protagonizou grande polêmica quando afirmou que a cidade “tinha muita rapariga”. A confusão era reflexo do português assimilado em Portugal, onde rapariga significa moça.

“A população por muito pouco não me crucificou”, lembra o religioso, que vive há quase duas décadas na pequena Craíbas, cidade do agreste alagoano.

Natural de Namur, próspera cidade da Bélgica (um dos países com melhor qualidade de vida do planeta), padre José Theisen, o “missionário de apenas 78 anos”, sobrevive de forma franciscana - seus aposentos são muito simples - mas é o principal responsável por um trabalho social de grande impacto na sociedade local.

Amparado por voluntários, mantém uma creche para 80 crianças, proporciona abrigo para jovens dependentes químicos e ainda viabiliza a adoção de crianças abandonadas.

Resistência e ameaças

No início de sua missão em Craíbas o padre diz ter enfrentado muita resistência de setores da classe política. Por diversas vezes, recebeu ameaças de morte. “O bispo daquela época (Constantino Luers) não disse que a cidade era complicada. Até tentativa de homicídio houve”, recorda José Theisen. As desavenças e desconfianças seriam substituídas, anos depois, por apoio ao trabalho de evangelização e transformação social do religioso belga.

Inovação

O religioso, sempre “inconformado com o comodismo de quem pode, mas não soluciona as questões sociais” inovou ao implantar, no salão paroquial, o ensino de segundo grau em Craíbas.

“Nem todos podiam viajar a Arapiraca. Pedimos os professores e o governo do Estado, depois de muita resistência, concordou com o estudo de três turmas de jovens carentes dentro da casa do Senhor. Depois da repercussão positiva, aí veio a escola de segundo grau”, recorda.

Político ajuda, mas padre não promete nada.

As ações do religioso não se restringem ao campo educacional. Ele também criou - e mantém - uma creche para 80 crianças carentes cujos pais vivem em dificuldades e geralmente não têm condições de alimentá-las.

Uma das ruas da cidade foi fechada para servir de abrigo aos projetos sociais de José Theisen, que mantém outro projeto polêmico dentro da igreja: proporciona abrigo para 15 jovens carentes. Alguns deles tentam fugir da dependência química.

 
Vila de casas

Os projetos sociais tocados pelo religioso - que já edificou uma vila de casas para famílias carentes e também mantém uma rádio comunitária - “custam” aos cofres da igreja pouco mais de R$ 80 mil ao mês.

Questionado pela reportagem da Gazeta de Alagoas sobre quem paga a conta, o padre Theisen não esconde que recebe ajuda da classe política “para a qual não promete nada” e ainda da população, que envia donativos.

“A gente tem a idéia e busca ajuda da população. Aí, Deus é quem paga a conta”, explica-se José Theisen.

Belgas adotam crianças abandonadas em Alagoas

Craíbas - Em seus 18 anos de missão no Agreste, José Theisen viabilizou a adoção por casais belgas de dezenas de crianças que tinham sido abandonadas em hospitais ou orfanatos da região. Crianças que poderiam não ter futuro no interior de Alagoas sobrevivem agora com dignidade em famílias que gozam de elevado padrão de vida.

“Alguns deles já vieram ao Brasil conhecer suas origens”, explica José Theisen, que reúne os jovens adotivos uma vez por ano.

O “servo e empregado de Deus” marcou sua presença na cidade com a construção de uma estátua de Nossa Senhora. A imagem tem a altura de um prédio de dois andares e chama a atenção de quem chega ao centro de Craíbas, na região Agreste.

40 missas por semana

“A cidade precisava de proteção divina”, justifica o padre belga José Theisen, que se diferencia dos demais religiosos do interior por celebrar até 40 missas por semana. São três por dia. Todos os dias.

Quando recebeu a reportagem da Gazeta, o padre fez questão de mostrar o cronograma de celebrações na paróquia de Craíbas, cidade com 40 capelas distribuídas em seus diversos povoados.

Principal capelão do município por mais de 18 anos, José Theisen desenvolve trabalho social na periferia de Craíbas, onde mandou construir uma casa de taipa onde costuma dormir algumas vezes por mês.

“Precisei dormir numa casa de taipa para que o poder público instalasse luz elétrica na comunidade”, diz o religioso.

Palavra aos presos

Adaptado à vida no agreste de Alagoas, padre José Theisen comprou terreno e edificou, no alto de uma serra, a capela ao lado da qual pretende ser sepultado.

“Depois da morte quero ser sepultado aqui em Craíbas”, confessa. Ainda “distante da morte”, ele continua ativo e com tempo para levar a palavra divina aos detentos do presídio e da delegacia regional de Arapiraca.

Tanto na delegacia quanto no presídio costuma celebrar pelo menos uma missa a cada quinze dias. “Também levo palavra de conforto aos enfermos dos nove hospitais de Arapiraca”, diz o religioso belga, que mantém atividades de forma intensa aos 78 anos.

“Não sou velho. Ainda estou amadurecendo. Tenho muito o que fazer pela comunidade da minha querida Craíbas”, reforça.

7º Domingo do Tempo Comum: Missa em Alagoas.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

RETIRO EM CARMO DE MINAS/MG- 08.

Milagre de Nossa Senhora do Carmo: Mãe e irmã compreensiva...

Cido Antunes (Ex- Frade Carmelita), São José dos Campos, São Paulo.

 
Em Janeiro de 2008, mais um fato marca a minha vida, e pode crê como é forte pertencer a uma família.

Neste período, passei a sofrer de uma terrível dor de cabeça, ida e vindas do hospital e nada de descobrir o que havia de errado. A dor passou também a afetar meus olhos, uma dor insuportável. Até que um médico decidiu me internar para uma avalição mais profunda.

No dia seguinte os médicos desconfiavam que fosse dengue ou sarampo, pois começaram aparecer manchas pelo meu corpo e nesta época morávamos em Aparecida-  SP e por ser uma cidade turística existia sempre a possibilidade de doenças trazidas de outras regiões.

Terminados os exames não era nenhuma nem outra. Mas a dúvida persistia. Que doença seria? Então chamaram um infectologista para fazer sua análise. Ele me examinou, consultou livros e chegou a um veredicto: Um tipo de Rubéola bem agressiva.

Naquele instante, as preocupações mudaram de foco, há poucos dias tínhamos descoberto que minha esposa estava grávida e que o contato dela com essa doença não seria bom para o feto, podendo trazer graves consequências.

Após essa tempestade, só restava saber qual seria o resultados dos exames que minha esposa estaria realizando, para descobrir se seu organismo era imune a esse vírus.

Voltei para o quarto, sozinho, um isolamento, pois não se tinha ainda muitas certezas e pensando em tudo aquilo passei a olhar a vista da janela do meu quarto, entre um prédio e outro vi a torre de uma Igreja, e o mais surpreendente que no topo dessa torre havia uma imagem de Nossa Senhora do Carmo, lá de braços aberto com seu escapulário. Quando entrou uma enfermeira eu perguntei: Que igreja é aquela? É o colégio do Carmo, das irmãs salesianas. Então pensei: “Ó minha irmã, olhai por mim e minha esposa neste momento de angústia, não desamparai e nem nos desprezai”.

Na manhã seguinte, nunca que chagava o resultado dos exames e a angústia só aumentava. Às onze horas, chegou o resultado: Minha esposa era imune ao vírus. Graças a Deus!

Um grande alívio chegou, agora era só aguardar minha melhora e retornar para casa. Eu ficava todo dia olhando para minha irmã- Digo, Nossa Senhora do Carmo na torre da igreja, que de longe me olhava e acompanhava.

No último dia, quando fui ter alta, passei na capela do hospital para agradecer a Deus e a Nossa Senhora.

Peguei uma bíblia que estava ali e abri no livro de Salmos. Abri num salmo sem pretensão alguma e este salmo era o de numero 16 e dizia o seguinte no verso 16. “Sou ter servo, Senhor, filho de tua serva”. Sl 16,16.

Ali, mais uma vez pode testemunhar a presença de Maria, Irmã que caminha conosco e sempre pronta em nos socorrer. Vale apena ser carmelita!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

*MÍSTICA E MÍSTICOS. MÍSTICA: PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO (5ª Parte)

Dom Frei Vital João Wilderink, O. Carm.

 
Perceber a realidade tal como ela é chama-se experiência. Em qualquer experiência a pessoa se capta em relação com a realidade do mundo, da natureza, de si mesma, de Deus. Muitas vezes trata-se de contatos rotineiros, às vezes de uma descoberta de algo novo que atrai e convida, como acontece com pessoas que vão ver várias vezes o mesmo filme, o mesmo quadro, a mesma paisagem. A experiência é sempre acompanhada de sentimentos e emoções, de pensamentos e, mesmo, de ações. O que importa, porém, é a consciência da relação. Sem ela não se pode falar de experiência pessoal.  A experiência trata e carrega, veicula a realidade tal como dela o homem pode tomar consciência. Consciência que varia de acordo com o nosso jeito de ser, a nossa personalidade caracterizada por certos traços psicológicos cuja estruturação depende de diversos fatores, aspirações, critérios, etc. que ao longo dos anos interiorizamos. O que faz a pessoa situar-se frente às coisas que a rodeiam. É algo normal e até necessário para alguém poder tomar posição nos seus relacionamentos.[1]
Em tudo isso, porém, não deixa de haver uma certa ambiguidade porque a pessoa ao tomar posição, define a realidade que vem ao seu encontro. Em outras palavras: quem diz “eu” facilmente cria distância e isolamento. Transferimos o nosso eu para os outros, as coisas, o mundo, etc. O nosso eu classifica as coisas. Quanto mais trabalhamos com categorias do próprio eu, tanto menos somos capazes de um verdadeiro encontro. O nosso eu é o melhor vigia da sua própria prisão. Como acontece ao que se posiciona numa perspectiva neo-liberal: só é real o que promove o mercado. Aos poucos pode surgir uma alienação que impede o reconhecimento de outras dimensões importantes da vida humana. A mística oferece nesta época-do-eu valiosos contra-modelos, como Francisco de Assis que na sua pobreza se reconcilia com tudo e com todos, 
O que dizer da nossa relação com  Deus? Por vezes recebo folders de casas de retiro com o convite: venha fazer uma experiência de Deus! Penso que o êxito de um retiro depende da descoberta de que só Deus pode se mover para que o homem o encontre, pois se é Mistério, pertence a Ele estabelecer a modalidade de meu encontro com Ele. É doloroso descobrir que temos a tendência de reduzir Deus ao nosso tamanho. Mesmo querendo assumir a nossa condição de “peregrinos do Absoluto” carregamos na mochila os nossos “ídolos domésticos”, como fez Raquel quando partiu com Jacó, seu marido, para a Terra prometida a Abraão: “colocou-os na sela do camelo e sentou-se em cima”(Gn 31,34).  O próprio Jacó, apesar  da sua “teologia” mais ortodoxa que a da sua esposa, lutou com Deus a noite inteira até a aurora. Luta que deixou uma lembrança: Jacó ficou mancando. Mas não conseguiu que o “Adversário” lhe revelasse sua identidade (Gn 32,23-33). São imagens que ilustram o itinerário dos místicos. No século XIV, o autor inglês anônimo do tratado A nuvem do não-saber, utiliza uma linguagem que pode estranhar por uma aparente agressividade em relação às criaturas. Na realidade, o autor visa o eu que se apropria as criaturas e o próprio Deus, o que impede a verdadeira união com Ele. Só no despojamento do eu, descobre-se que não existe competição entre Deus e as criaturas.
 
Não permita que nada influa em sua mente ou em sua vontade, a não ser Deus. Tente destruir todo e qualquer conhecimento e experiência de qualquer coisa abaixo de Deus e reprimir, e arremesse tudo bem abaixo sob a nuvem do esquecimento. Entenda que neste exercício você deve esquecer não só todas as criaturas fora de você - e o que elas fazem e o que você faz - mas também deve esquecer você mesmo, até o que fez por causa de Deus. Porque é próprio do amante perfeito não apenas amar acima de si mesmo aquilo que ele ama, mas também em certo sentido detestar a si mesmo por causa daquilo que ele ama. É assim que deve fazer em relação a si mesmo. Todo objeto que influencie a sua compreensão e a sua vontade, você deve considerar como abominável e enfadonho... Esta massa disforme nada mais é do que você mesmo; isto deverá parecer-lhe como uma coisa única, só e solidificada com a substância do seu ser, como se não houvesse divisão entre eles. Portanto, você tem que destruir todo conhecimento e sentimento de todo tipo de criatura, porém muito especialmente de você mesmo. Pois é do seu próprio conhecimento e experiência que dependem o conhecimento e a experiência de todas as demais criaturas.[2]
O eu só admite o que lhe é conhecido. É um terreno cercado, propriedade particular onde o estranho, o desconhecido não entra. O Outro que é Deus também o deixa constrangido se não se assentar na cadeira que lhe reservamos. Quando a sua Presença se anuncia, tão diferente das visitas programadas pelo eu, este não sabe mais o que fazer. Perplexo, perdido, vai percebendo a sua situação de alienação no relacionamento com Deus. A casa do eu fica toda desarrumada. Já não se sente à vontade na sua casa “religiosa”, mas não encontra uma saída porque no vazio que se criou não há indicação do rumo a seguir. Mas a noite é necessária para encontrar a luz. João da Cruz descreve esta aventura mística no poema da Noite escura da subida do Monte Carmelo. No desenho que fez desse itinerário da subida, escreveu numa certa altura: Quanto mas tenerlo queria, com tanto menos me hallé. Há uma experiência da própria impotência diante do Mistério de Deus. E no outro flanco da montanha: Quanto menos lo queria, tengolo todo sin querer. A manifestação do Mistério pertence à iniciativa gratuita do Absoluto. Descobrir a Realidade última que está por baixo de todas as realidades visíveis, exige um desentulhamento da casa do eu.
 
Em uma noite escura
com ânsias, em amores inflamada,
ó ditosa ventura!
saí sem ser notada,
estando já minha casa sossegada.
 
Às escuras, segura,
pela secreta escada disfarçada,
ó ditosa ventura!
em trevas, às escondidas,
estando já minha casa sossegada.
 
Nessa noite ditosa,
em segredo, porque ninguém me via,
nem via eu qualquer coisa,
exceto a que no coração ardia.
 
Fiquei-me e esqueci-me,
o rosto inclinado sobre o Amado,
cessou tudo e rendi-me
em meio de açucenas olvidado.




[1] Cf Paul Mommaers, Wat is mystiek, pp. 26-34.
[2] A nuvem do não-saber, tradução portuguesa, São Paulo, Paulus, 1987, capítulo XLIII, pp. 111-112