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terça-feira, 10 de abril de 2018

Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate: Senso de humor e santidade segundo o Papa Francisco


A Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate trata também sobre o tema da "alegria", do "senso de humor", que - diz Francisco - é uma graça a ser pedida todos os dias.

Sergio Centofanti - Cidade do Vaticano
"O santo é capaz de viver com alegria e senso de humor", afirma o Papa em uma passagem da Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate.
Francisco lembra que o cristão, "sem perder o realismo, ilumina os outros com um espírito positivo e rico de esperança", porque a fé é "alegria no Espírito Santo" (Romanos 14,17).

O mau humor não é um sinal de santidade
Normalmente - observa - a alegria cristã é acompanhada por um senso de humor bem evidente, como por exemplo, em São Thomas More, São Vicente de Paulo ou em São Filipe Néri. O mau-humor não é um sinal de santidade: "Exclui a tristeza do eu coração" (Eclesiastes 11,10).
O Senhor nos dá tantas coisas, “para que possamos delas desfrutar” (1 Tm 6,17), e às vezes a tristeza está ligada à ingratidão, estando de tal forma fechado em si mesmo, que se torna incapaz de reconhecer os dons de Deus".

A oração do bom humor de São Thomas More
Francisco recomenda, em particular, recitar a oração atribuída a São Thomas More: "Dai-me, Senhor a saúde do corpo e, com ela, o bom senso pra conservá-la o melhor possível. Dai-me, Senhor, uma boa digestão e também algo para digerir. Dai-me uma alma santa, Senhor, que mantenha diante dos meus olhos tudo o que é bom e puro. Dai-me uma alma afastada do tédio e da tristeza, que não conheça os resmungos, as caras fechadas, nem os suspiros melancólicos…E não permitais que essa coisa que se chama o “eu”, e que sempre tende a dilatar-se, me preocupe demasiado. Dai-me, Senhor, o sentido do bom humor. Dai-me a graça de compreender uma piada, uma brincadeira, para conseguir um pouco de felicidade e para dá-la de presente aos outros. Amém!”

Sair de nossa "concha" para descobrir a alegria
Se deixarmos que o Senhor faça com que saiamos de nossa concha e nos transforme a vida - escreve o Papa - então nós poderemos alcançar o que São Paulo exclamou: "Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!" (Filipenses 4,4! ).
Existem tempos difíceis, tempos de cruz - disse ele - mas nada pode destruir a alegria sobrenatural que “se adapta e se transforma, e sempre permanece, pelo menos, como um raio de luz que vem da certeza pessoal de ser infinitamente amado, acima de tudo”.
É “uma segurança interior, serenidade cheia de esperança que oferece uma satisfação espiritual incompreensível segundo os critérios do mundo".

Deus nos quer positivos, não complicados
Francisco recorda uma de suas citações favoritas do Eclesiástico, o amor paterno de Deus que nos convida: "Filho, [...] faze algum bem a ti mesmo [...]. Não te prive de um dia feliz”. (Eclo 14,11.14)
O Senhor "quer que sejamos positivos, agradecidos e não muito complicados: “No dia da felicidade, sê alegre; Deus criou o homem reto, mas é ele que procura os extravios."  (Ecles 7,14.29).
Em todas as situações, é necessário manter um espírito flexível e fazer como São Paulo: "Aprendi a contentar-me com o que tenho." (Filipenses 4,11). É o que viveu São Francisco de Assis, capaz de comover-se de gratidão diante de um pedaço de pão duro, ou louvando a Deus, feliz, apenas pela brisa que acariciava seu rosto.

Uma alegria que vem da fraternidade 
O Papa não fala da "alegria consumista e individualista, tão presente em algumas das experiências culturais de hoje. De fato, o consumismo, torna pesado o coração; pode oferecer prazeres ocasionais e passageiros, mas não alegria".
Em vez disso, refere-se "àquela alegria que é vivida em comunhão, que é compartilha e participada, porque" "é maior felicidade dar que receber!"
(Atos 20,35) e " Deus ama quem dá com alegria "(2 Coríntios 9,7).
O amor fraterno multiplica nossa capacidade de alegria, pois nos torna capazes de nos alegrarmos com o bem dos outros".

Pedir a graça do senso de humor
"O senso de humor é uma graça que eu peço todos os dias" - revelou ele em novembro de 2016, durante uma entrevista à TV2000 e à Rádio InBlu - porque "o senso de humor levanta você, faz você ver o provisório da vida e encarar as coisas com um espírito de alma redimida. É um comportamento humano, mas é o mais próximo à graça de Deus".
"Eu - disse o Papa - conheci um padre, um grande padre, um grande pastor, para citar um, que tinha um grande senso de humor, mas ele fazia muito bem aos outros também com isso, porque relativizava as coisas: “O Absoluto é Deus, mas isso se ajeita ... não se preocupe ...!”.
Mas sem dizer isso, ele fazia as pessoas sentirem isto, com um senso de humor. E dele se dizia: “Mas este sabe rir dos outros, de si mesmo, e também da própria sombra".

Bento XVI e os anjos que voam porque tem alma leve
Finalmente, lembramos também de Bento XVI quando, em uma entrevista concedida em 5 de agosto de 2006 a três emissoras alemãs de TV e à Rádio Vaticano, falou sobre a importância do humor, de "saber ver o aspecto divertido da vida e sua dimensão alegre", e não considerar as coisas “tão tragicamente".
Ele considerava isto também um aspecto muito importante para o seu ministério.
Bento XVI, na ocasião, havia citado o escritor Gilbert K. Chesterton que, com uma pequena história, explicava que os anjos podem voar, porque tem a alma leve.
“Porque não levam tudo tão a sério”, acrescentou Bento XVI, que assim concluiu: “E nós, talvez, poderíamos também voar um pouco mais, se não déssemos assim tanta importância”. Fonte: http://www.vaticannews.va

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

RETIRO DO PAPA: Segunda meditação da Quaresma: "A ciência da sede"

Na Casa "Divino Mestre" de Ariccia, Papa Francisco e seus colaboradores participam dos Exercícios Espirituais de autoria do sacerdote português José Tolentino de Mendonça e intitulados “Aprendizes do estupor”.

Cidade do Vaticano –
Durante toda esta semana, o Papa Francisco se encontra em Ariccia, nas proximidades de Roma, para os Exercícios Espirituais de Quaresma. Até o próximo domingo (25/02/2018), estão suspensas todas as audiências públicas do Santo Padre, inclusive a Audiência Geral de quarta-feira, e as homilias na Casa Santa Marta.
Na manhã de segunda-feira, após as orações, o Pontífice e os colaboradores prosseguiram o retiro iniciado no domingo. Este ano, pela primeira vez, o pregador vem de Portugal.
A segunda meditação proposta pelo Pe. José Tolentino de Mendonça ao Papa e aos seus colaboradores foi dedicada ao tema “A ciência da sede”.
O tema foi inspirado na última frase pronunciada por Jesus no livro do Apocalipse (Ap 22, 17), “Quem tem sede, venha”.
O sacerdote português alternou citações bíblicas a obras de teólogos, escritores, poetas e dramaturgos como Milan Kundera, Padre Henri de Lubac, Emily Dickinson, Eugène Ionesco, Saint-Exupéry.
No trecho do Apocalipse, as palavras usadas são “quem tem sede”, “quem quiser” – expressões que se referem a nós, afirmou Pe. Tolentino. “Estamos tão próximos da fonte e vamos para tão longe, perdidos em desertos, em busca da torrente que nos mate a sede e ignorando assim ‘o dom que Deus tem para nos dar’.”

A dor da nossa sede
Não é fácil reconhecer que sentimos sede, prosseguiu o sacerdote, “porque a sede é uma dor que se descobre pouco a pouco dentro de nós”, por trás das nossas habituais narrações defensivas ou idealizadas.
Há uma violência no mundo e em nós mesmos que vem da sede, do medo da sede, do pânico de não ter as condições de sobrevivência garantidas. “Nós nos revoltamos uns contra os outros. A dor da nossa sede é a dor da vulnerabilidade extrema, quando os nossos limites nos comprimem.”
O sacerdote português citou o consumismo dos centros comerciais, mas ressaltou que não devemos nos esquecer que existe também um consumismo na vida espiritual. As sociedades que impõem o consumo como critério de felicidade transformam o desejo numa armadilha.
O objeto do nosso desejo é uma entidade ausente, um objeto inesgotável. O Senhor, porém, não cessa de nos dizer: «Quem tem sede, venha; quem quiser, tome de graça da água da vida».

O caminho da nossa sede
Para o Pe. Tolentino, existem muitos modos de enganar as necessidades que nos dão vida e adotar uma atitude de evasão espiritual sem jamais, porém, se conscientizar de que estamos em fuga.
Também aqui, como em outros âmbitos da vida, afimou, a verdadeira conversão não consistirá em belas teorias, mas em decisões que resultem de uma efetiva conscientização das nossas necessidades.  

Nem que fosse um único copo de água
O trecho do Apocalipse volta ao final da medtiação. «Quem tiver sede, venha …» Certamente não bebemos para matar a sede. Jesus sabe que um simples copo de água que damos ou recebemos não é algo banal. É um gesto que dialoga com dimensões profundas da existência, porque vai ao encontro daquela sede que está presente em todo ser humano, e é sede de relação, de aceitação e de amor.

“Carregamos conosco tantas sedes. A sede é um patrimônio biográfico que somos chamados a reconhecer e do qual somos gratos. Depositemos em Deus a nossa sede.” Fonte: http://www.vaticannews.va

RETIRO DO PAPA: Primeira meditação da Quaresma 2018: "Aprender a 'desaprender'"

De autoria do sacerdote português José Tolentino de Mendonça, e intitulada “Aprendizes do estupor”, a reflexão propôs citações de Simone Weil, Eduardo Galiano, Tolstoj e Fernando Pessoa.

Cidade do Vaticano
Como anunciado por ele mesmo após a oração do Angelus e com seu tuíte do dia, o Papa Francisco deixou o Vaticano domingo (18/02/2018) e se dirigiu a Ariccia, sudeste de Roma, aonde por uma semana, permanecerá em retiro espiritual.
O micro-ônibus do Vaticano deixou a Casa Santa Marta às 16h, levando o Papa e seus colaboradores mais próximos para a casa dos padres Paulinos ‘Divino Mestre’, aonde até sábado, (24/02) serão feitos os exercícios espirituais de Quaresma.
A primeira meditação, por obra do sacerdote português José Tolentino de Mendonça, teve como título “Aprendizes do estupor”, sugerido pelo Evangelho de João.
No texto, Jesus diz à samaritana apenas três palavras: “Dá-me de beber”. Assim como ela se surpreende com tal pedido, nós também ficamos desconcertados – antecipou o pregador – porque estas são as palavras que Jesus dirige a nós:
“ Dá-me o que tem, abre seu coração, dá-me o que é ”

O cansaço de Jesus
Deste estupor, a meditação passa ao ‘cansaço de Jesus’ e ao nosso. Podemos entender o diálogo de Jesus com a samaritana somente se mantivermos diante dos olhos o dom sem limites que Jesus faz de si na cruz. Em ambas as circunstâncias, o sol diz que é meio-dia, a hora sexta. É a hora central do dia, o meio do tempo, que marca o antes e o depois. Não é simplesmente a indicação cronológica, mas o símbolo da passagem de Jesus em nós. Por isso, explicou o sacerdote, mesmo que o relógio assinale outro horário, muitas vezes é meio-dia em nossas vidas. Cada vez que nascemos é meio-dia.

Ele veio nos procurar
Quando Jesus pede ‘Dá-me de beber’, a sua sede não se materializa na água. É uma sede maior. É sede de alcançar as nossas sedes, de entrar em contato com os nossos desertos, com nossas feridas. Nós devemos nos comportar com confiança. Temos que nos reconhecer como ‘chamados’.

Conhecer o dom de Deus
É o Senhor que toma a iniciativa de vir ao encontro de nós. Ele chega antes ao poço. Quando a samaritana entra em cena, Jesus já está lá, sentado. Quanto maior é o nosso desejo, o de Deus é sempre maior. Citando um trecho do ‘Livro dos abraços’ do escritor uruguaio Eduardo Galiano, Padre Tolentino completou:
“ Deus sabe que nós estamos aqui ”

Nossa oração sobe até Deus
Com novas citações, de Tolstoj a Fernando Pessoa, a meditação sugeriu os participantes a “desaprender”:
“Desaprendamos para aprender aquela graça que tornará possível a vida dentro de nós. Desaprendamos para aprender até que ponto Deus é a nossa raiz, o nosso tempo, a nossa atenção, a nossa contemplação, a nossa companhia, a nossa palavra, o nosso segredo, a nossa escuta, a nossa água e a nossa sede”.
Concluindo, Pe. Tolentino exortou os participantes:

“Digamos no nosso íntimo, com toda a verdade de que somos capazes: ‘Senhor, estou aqui à espera do nada’, ‘Senhor, estou aqui à espera do nada’. Ou seja, estou apenas à espera de ti, à espera do que és, à espera do que me dás’. Fonte: http://www.vaticannews.va

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

ABERTURA DA CF-2018: Papa envia mensagem aos brasileiros por ocasião da CF 2018

“Fraternidade e superação da violência” é o tema da Campanha para a Quaresma, em 2018. O Evangelho de Mateus inspira o lema: “ Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8).
Silvonei José – Cidade do Vaticano
Todos os anos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) apresenta a Campanha da Fraternidade como caminho de conversão quaresmal. Um caminho pessoal, comunitário e social que visibilize a salvação paterna de Deus. “Fraternidade e superação da violência” é o tema da Campanha para a Quaresma, em 2018. O Evangelho de Mateus inspira o lema: “ Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8).
A Campanha será lançada oficialmente nesta Quarta-feira de Cinzas e tem como objetivo geral: “Construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência”.
De acordo com o Secretário-Geral da CNBB, Dom Leonardo Ulrichs Steiner, sofremos e estamos quase estarrecidos com a violência. Não apenas com as mortes que aumentam, mas também por ela perpassar quase todos os âmbitos da nossa sociedade. A ética que norteava as relações sociais está esquecida. Hoje, temos corrupção, morte e agressividade nos gestos e nas palavras. Assim, quase aumenta a crença em nossa incapacidade de vivermos como irmãos.
Por ocasião do lançamento da Campanha da Fraternidade 2018 o Papa Francisco enviou uma mensagem ao Presidente da CNBB, o arcebispo de Brasília, Cardeal Dom Sérgio da Rocha.

Eis na íntegra a mensagem do Papa:
Queridos irmãos e irmãs do Brasil!
Neste tempo quaresmal, de bom grado me uno à Igreja no Brasil para celebrar a Campanha “Fraternidade e a superação da violência”, cujo objetivo é construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência. Desse modo, a Campanha da Fraternidade de 2018 nos convida a reconhecer a violência em tantos âmbitos e manifestações e, com confiança, fé e esperança, superá-la pelo caminho do amor visibilizado em Jesus Crucificado.
Jesus veio para nos dar a vida plena (cf. Jo 10, 10). Na medida em que Ele está no meio de nós, a vida se converte num espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos (cf. Exort. Apost. Evangelii gaudium, 180). Este tempo penitencial, onde somos chamados a viver a prática do jejum, da oração e da esmola nos faz perceber que somos irmãos. Deixemos que o amor de Deus se torne visível entre nós, nas nossas famílias, nas comunidades, na sociedade.
“É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação” (1 Co 6,2; cf. Is 49,8), que nos traz a graça do perdão recebido e oferecido. O perdão das ofensas é a expressão mais eloquente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir. Às vezes, como é difícil perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração, a paz. Deixar de lado o ressentimento, a raiva, a violência e a vingança é condição necessária para se viver como irmãos e irmãs e superar a violência. Acolhamos, pois, a exortação do Apóstolo: “Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento” (Ef 4, 26).
Sejamos protagonistas da superação da violência fazendo-nos arautos e construtores da paz. Uma paz que é fruto do desenvolvimento integral de todos, uma paz que nasce de uma nova relação também com todas as criaturas. A paz é tecida no dia-a-dia com paciência e misericórdia, no seio da família, na dinâmica da comunidade, nas relações de trabalho, na relação com a natureza. São pequenos gestos de respeito, de escuta, de diálogo, de silêncio, de afeto, de acolhida, de integração, que criam espaços onde se respira a fraternidade: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8), como destaca o lema da Campanha da Fraternidade deste ano. Em Cristo somos da mesma família, nascidos do sangue da cruz, nossa salvação. As comunidades da Igreja no Brasil anunciem a conversão, o dia da salvação para conviverem sem violência.
Peço a Deus que a Campanha da Fraternidade deste ano anime a todos para encontrar caminhos de superação da violência, convivendo mais como irmãos e irmãs em Cristo. Invoco a proteção de Nossa Senhora da Conceição Aparecida sobre o povo brasileiro, concedendo a Bênção Apostólica. Peço que todos rezem por mim.

Vaticano, 27 de janeiro de 2018.
[Franciscus PP.]


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O EXERCÍCIO DA AUTORIDADE NA REGRA CARMELITA

ENCONTRO DOS SUPERIORES MAIORES DA FAMÍLIA CARMELITA
SANTO DOMINGO - OUTUBRO 2004
Frei Joseph Chalmers, O.Carm. Ex-Prior General


Em obséquio de Jesus Cristo

Os eremitas do Monte Carmelo viveram ali durante algum tempo, antes de evoluir suficientemente e formar um grupo. Eles se dirigiram a Santo Alberto e lhe pediram que escrevesse para eles uma “fórmula de vida”. Eles não pediram uma Regra e isto demonstra que não desejavam ser inscritos numa das formas tradicionais de vida religiosa. Eram um grupo de leigos que desejavam viver uma vida eremítica e de penitência na terra de Jesus Cristo. Alberto baseou o que escreveu no “propósito manifestado” pelos eremitas (Regra 3), isto é, no que eles viviam e no ideal que lhe haviam apresentado. Eles tinham uma certa organização porque Alberto escreve a uma certo "B e demais eremitas, que vivem sob a sua obediência junto à Fonte, no Monte Carmelo” (Regra 1). Com a intervenção do Papa Inocêncio IV, porém, este documento se converteu e foi aceitado oficialmente como Regra da Igreja e os eremitas foram reconhecidos comoreligiosos”. O texto da Regra tal como o temos incorporou as contínuas experiências e evoluções que o grupo realizou desde que eles chegaram pela primeira vez ao Monte Carmelo até que começaram a instalar-se nas distintas partes da Europa e tomaram a decisão de tomar parte do movimento mendicante.
           
            No começo da Regra, Santo Alberto disse que cada um está chamado a “viver no obséquio de Jesus Cristo". Esta é a suprema e fundamental lei para todos. Entretanto, os eremitas tinham uma certa experiência em viver seu caminho particular e eles levaram esta experiência a Santo Alberto pedindo-lhe que lhes desse uma orientação para poder viver mais profundamente seu obséquio a Jesus Cristo. Estudos recentes sobre a Regra demonstram que esta não é uma simples lista de prescrições em que umas são mais importantes que outras. É um documento de valor em forma de carta com uma estrutura lógica. Muitas se devem aos escritos de Cassiano e está cheia de alusões e citações diretas da Escritura. Se comparamos o quadro da comunidade cristã descrita nos Atos dos Apóstolos (At 2,42-47 e 4,32-35) com a Regra, podemos encontrar todo tipo de paralelismos.
           
            Os eremitas tinham vindo de distintas partes da Europa para viver na terra, que se converteu em sagrada pela presença terrena de Jesus e pelo fato de que ali derramou seu sangue pela nossa redenção. Eles desejavam ser uma comunidade de discípulos como a comunidade cristã primitiva dos Atos dos Apóstolos. A fim de ser uma comunidade de discípulos, cada um deveria deixar que a lei do Senhor se apossasse de seu coração. Estar vigilantes em oração é uma atitude essencial (Regra 10) para que possamos estar atentos para quando venha o Senhor e Ele nos encontre despertos. A comunidade pode ser comparada a uma orquestra. A orquestra é composta por instrumentos independentes. Cada instrumento deve estar afinado para que o conjunto forme um som harmonioso. Se um está fora de tom, todo o conjunto se ressente. Por tanto, a saúde espiritual de um indivíduo, afeta toda a comunidade.

Deveis ter um de vós como Prior

            Uma comunidade não é uma coleção de indivíduos, por isso no primeiro capítulo legislativo os eremitas terão que eleger para eles um Prior ao qual devem prometer obediência. A obediência não é um assunto de meras palavras, mas que deve ser provado com as obras. O Prior, porque é um guia, é alguém que serve (Regra 22). Ele deve ser eleito com o consentimento unânime de todos, ou da parte maior e mais madura, a ele prometerão obediência todos os demais (Regra 4 e 23). Junto com os irmãos, o Prior decide onde fixar os lugares dos conventos (Regra 5). Com o consentimento dos outros irmãos ou da parte mais madura, o prior assinala a cada um a cela (Regra 6). A asignação da cela era muito mais importante do que dar uma habitação nas casas modernas. Somente com a permissão do Prior alguém pode mudar-se da cela asignada (Regra 8). Ele é um cuja missão é proteger o direito dos demais ao silêncio e à solidão no trato com os visitantes (Regra 9). O Prior é o responsável pela distribuição do alimento segundo a necessidade de cada qual. Ele exerce esta responsabilidade através de um delegado (Regra 12). Ao Prior se deve respeitar (Regra 23), porém, ele deve ganhar-se este respeito pela sua forma de vida. O papel dum guia numa comunidade não é o de alguém que regula tudo, mas o de quem inspira os outros. O guia deve ser um em quem, acima de tudo, os valores da Regra hão de tomar carne.
           
            O Prior deve viver de acordo com a Regra como os demais. Todos os irmãos se reunirão para distintas ocasiões: para comer (Regra 7); para rezar (Regra 11); para celebrar a Eucaristia cada manhã (Regra 14); cada domingo ou em outros dias, se for necessário, para tratar da observância da vida comum e do bem espiritual das almas e corrigir com caridade as faltas (Regra 15).
           
            A Regra não trata de cobrir qualquer tipo de eventualidade; nem tampouco pretende sufocar a criatividade. A intenção é dar umas linhas guias aos eremitas para ajuda-los a viver em obséquio de Jesus Cristo. Na oração silenciosa, na solidão e por meio do trabalho, eles formarão uma comunidade de discípulos unida em torno do Senhor. Sua quietude e sua vida humilde se elevarão até Deus e será um beneficio para seu próximo. Durante quase cerca de oito siglos, a Regra inspirou um número incontável de carmelitas em seus esforços de ser revestidos pela Palavra de Deus. A espiritualidade Carmelita não está contida completamente no breve texto da Regra, porém, esta é a fonte da qual dimana.
           
            O Prior é o signo da unidade dentro da comunidade, o qual é elegido para servir. Ele deve ser um modelo, em palavras e em obras, para o grupo que se le ha encomendado (1Ped 5,3) como tal, deve estar disposto para prestar a ayudad necessária a cada religioso; para fomentar a vida comunitária; para cuidar de todos, especialmente dos enfermos e anciãos; para supervisar as atividades comunitárias e as iniciativas de tal modo que esta sea signo por o qual os irmãos possam viver autenticamente “em obséquio de Jesus Cristo e servirle fielmente com coração puro e buena consciência”." (Regra 1).
           
            O papel do Prior em nossa Regra e em nossa tradição é o do serviço. Ele guia à comunidade antes de tudo com seu próprio exemplo e seu papel é o de assegurar que a comunidade se organize de tal maneira que os irmãos possam viver em obséquio de Jesus Cristo. Várias vezes se assinala na Regra que o Prior deverá tomar certas decisões com o consentimento dos demais irmãos, ou da parte maior e mais madura. O Prior não é um déspota, ou um pai que decide tudo por seus filhos. É para eles um guia, porém, cada membro da comunidade é responsável da salud de toda a comunidade e de su própria vida. O Prior é alguém  que recorda aos irmãos a nossa vocação comum e constantemente nos chama todos a viver-la. Entretanto, cada um é, em última instância, o responsável ante Deus de como está vivendo atualmente a vocação que Deus lhe deu.


O caminho do grupo

            Um aspecto do papel do guia é esforçar-se em fazer que a realidade, em quanto seja possível, se aproxime do ideal, guiado acima de tudo pelas exigências da caridade. Os ideais os teremos sempre diante de nós ; não podemos alcançar a perfeição até que Cristo venha de novo e leve todas as coisas à sua plenitude. O papel do prior é muito importante como o daquele que convoca os irmãos e que torna possível o diálogo. Se o Prior não faz isto,  quem o fará? Se o Prior não cumpre esta função, criará uma grade tensão dentro da comunidade. Os irmãos não desejam ter alguém que tome decisões por eles, mas desejam ter quem facilite o diálogo e seja um guia.
           
            Creio que uma das grandes dificuldades da vida comunitária é que os membros individualmente se preocupam de coisas diferentes e nunca compartilham suas expectativas. Cada membro da comunidade tem seu próprio modelo de vida religiosa e de Igreja que ele jamais questiona porque formam parte de si mesmo, todas suas expectativas são somente ir adiante com este modo de viver sua vida religiosa. A necessidade de uma profunda purificação da noite escura se faz luminosa, quando começamos a tomar consciência de como eram profundas nossas expectativas e preconceitos, que tínhamos construído inconscientemente e que cresceram conosco desde nossos primeiros anos de carmelitas. Estes estão tanto na autoridade como nos outros membros da comunidade.
           
            Existem maneiras de ler um texto. Um modo de o ler é perguntar-nos o que Alberto quis dizer e o que os eremitas entenderam do que escreveu. Entretanto, há outro possível significado, que vai mais além do ponto de vista de Alberto e dos primeiros eremitas. Estes significados podem ser descobertos quando nós tiramos fora os nossos próprios problemas, interesses, questões e experiências e nos perguntamos o que é que a Regra tem a nos dizer. Este método de interpretação o usamos inconscientemente quando lemos as Sagradas Escrituras, por exemplo: quando aplicamos algumas coisas do Cântico do Cânticos à Virgem, Nossa Senhora. O autor do Antigo Testamento não tinha em mente à Virgem quando o escreveu, porém, por causa de nossa experiência cristã podemos ver o significado do texto mais além do que quis dizer o autor original.
           
            Eu posso entender um texto, porém, este não pode afetar-me realmente. Também posso aproximar-me de um texto pensando que conheço o que significa. Em tal caso, este não me surpreende; somente diz o que eu poderia ter dito. O mesmo problema existe com as Escrituras. Nossa familiaridade com as palavras de Jesus, por exemplo, pode agir neste momento como barreira ao que Deus nos está dizendo. Nos podemos tornar imunes à mudar o que Deus nos está apresentando através de sua palavra, pensando que conhecemos o que Deus quer dizer-nos.


Ter por companheira a palavra de Deus

            A Regra está imbuída da palavra de Deus. É breve, porém, contém ao redor de uma centena de citações explícitas ou implícitas de textos da Escritura. Santo Alberto foi claramente um homem que meditava longamente a palavra de Deus. Os eremitas desfrutavam meditando a lei do Senhor dia e noite. Esta meditação estava dirigida à transformação individual em Cristo de dentro para fora. Não é simplesmente o caso de tratar de entender com a mente o que a palavra significa, ainda que isto seja importante, mas deixar que a palavra de Deus nos envolva de tal maneira que “tenhamos a palavra de Deus por companheira” (..“e o que devais fazer, fazei-o conforme à palavra do Senhor) (Regra 19).
           
            Está claro que a autoridade, num contexto cristão, deve ser exercida como um humilde serviço. O exercício da autoridade em nossos dias não é fácil e requer o exercício de certas habilidades. A pessoa que está chamada a exercê-lo como guia, deve engendrar respeito pelo teor de sua vida. Ninguém é perfeito, porém, os demais devem ser capazes de ver no guia alguém que se esforça em viver a vida Carmelita do melhor modo que lhe é possível. Não todos admirarão o superior e algumas de suas decisões serão incômodas, porém, deve tomar-las para o bem comum.
           
            A orientação da Regra é a transformação em Cristo. Ser carmelita é estar nesta viagem para ser transformado. O que exerce a autoridade está a caminho e, ao mesmo tempo, tem a missão de inspirar os outros para continuar o caminho e acompanhar os membros mais débeis da comunidade de tal maneira que não sejam rechaçados.
           
            Nós, que estamos no exercício da autoridade por um tempo, devemos ter claro que para exercer a autoridade como um verdadeiro guia e como um serviço real, devemos deixar que os valores da Regra transformem nosso modo de ver as coisas. Alguém disse uma vez que todo poder tende à corrupção e que um poder absoluto tende a uma corrupção absoluta. Devemos examinarmos constantemente de modo que nossa maneira de exercer a autoridade nunca caia no mal uso do poder e alimente nosso próprioego’.
           
            O que nos sucede durante o período em que somos guias é uma parte importante do caminho de transformação. Não creio que Deus seja a causa de tudo o que nos acontece, no sentido que Deus deseja que atualmente soframos, mas que Deus está no meio de todas as situações que encontramos. Deus nos chama desde o coração de cada irmão ou irmã e desde o centro de cada dificuldade que nos vem ao encontro.


Vigiar em oração

            Necessitamos escutar atentamente de modo que sejamos capazes de ouvir a voz de Deus em meio a outras vozes e poder discernir o que Deus quer nos dizer. Nossos sentidos espirituais necessitam afinar-se constantemente e isto acontece através do nosso modo de viver com os valores da Regra meditando na lei do Senhor dia e noite e velando em oração (Regra 10). Este é um elemento essencial do exercício da autoridade na Regra. Sem este cuidado e vigilância, corremos o rico de seguir nosso falso eu ao tomar as decisões e responder às necessidades dos irmãos e irmãs. O ‘falso eu’ é a parte falsa de cada ser humano que necessita morrer de modo que possamos ter vida e vida em abundância. O ‘falso eunão quer morrer e se reveste de distintos disfarces de modo que não possamos reconhecer o que é em realidade, trata de influenciar cada aspecto de nossas vidas. Vejamos o que sucede quando nossos planos e decisões não são levadas a cabo. Freqüentemente nos enfadamos e desconfiamos dos que, a nosso parecer, pensamos que sabotaram nossas idéias. Entretanto,  o que é que Deus nos está dizendo nesta situação? Talvez nossas idéias não eram tão boas, inclusive quando aos nossos olhos pareciam brilhantes e claras. Quiçá exista um outro modo de ver as coisas. O profeta Elias teve que fazer um reajuste do conceito de Deus que tinha depois de da sua experiência no Monte Horeb. Talvez necessitamos reajustar nossas idéias e planos.
           
            A viagem contemplativa é uma viagem de transformação que, pouco a pouco, purifica o nosso modo de ver, de comportarmos e de amar de sorte que se converta em modos divinos. Nossos modos humanos devem ser purificados e transformados porque são limitados e limitam o que vemos e amamos. Para que possamos ver com os olhos de Deus e amar com o coração de Deus, devemos mudar profundamente, e isto não é fácil. Recordo que um teólogo dizia que as pessoas mais difíceis a quem se podia falar eram os superiores, porque eles se criam superiores. Normalmente eles tem muitos dons e podem começar a pensar que têm resposta para todos os problemas que podem existir e que somente conhecem o caminho que têm adiante. Nós, somos membros de comunidades e, como nossos irmãos e irmãs, estamos no mesmo caminho de transformação. Ainda não chegamos e até que cheguemos, nosso modo de ver será limitado e nossas idéias estarão longe de ser perfeitas. Devemos permanecer abertos para ser corrigidos com caridade pelos outros membros da comunidade. Esta correção pode vir de diferentes modos, através da crítica de algumas de nossas decisões ou a falta de aceitação de algumas de nossas idéias…etc. É claro, nosso falso ego estará pronto para garantir-nos que nós temos razão e que os demais são estúpidos o retrógrados.
           
            O exercício da autoridade na Regra de Santo Alberto requer uma constante abertura à palavra de Deus. Devemos revestir-nos da armadura de Deus porque o caminho espiritual supõe a batalha. Não é contra os agentes externos, mas contra os demônios que existem dentro de nós , por exemplo, o egoísmo que está sempre disposto a aparecer. O capítulo 18 da Regra nos diz que devemos ter cuidado e ser diligentes para revestir-nos da armadura de Deus de modo que possamos resistir as insídias do diabo. Uma insídia ou um ataque de surpresa. O inimigo ataca quando crê que somos mais vulneráveis. Nós sabemos que o superior deve sofrer muito. Existem momentos felizes do cargo, porém, também está presente a cruz. Nossos momentos vulneráveis podem ser quando sofremos e talvez nos sentimos infelizes ou pode acontecer quando tudo vai bem e nos sentimos orgulhosos dos nossos logros. Estes momentos, entretanto, vêm e devemos estar prontos e somente o poderemos enfrentar quando estamos vigilantes em oração e abertos à palavra de Deus (Regra 10). A palavra de Deus nos vêm através da Liturgia, de nossas leituras particulares o da meditação, porém, também vêm através dos acontecimentos de cada dia.  O que Deus quer dizer no que está ocorrendo em minha vida?  Deus diz: “Vai adiante. Tens razão”, o Deus diz: “Olha o que está acontecendo. Deves mudar de atitude”?

Deveis estar em silêncio

            Nossas decisões, nossas idéias, nossos planos, devem brotar dum lugar de silêncio. O silêncio é um valor muito importante da Regra e é o caminho da justiça (Regra 21). O preceito de observar o silêncio exterior é para animar-nos a liberar o silêncio interior. Como é difícil permanecer em silêncio! Creio que é especialmente difícil para os superiores. Temos tantas coisas que dizer! Temos tanta sabedoria que partilhar! O ‘falso eu’ é ruidoso e continuamente está falando, fazendo comentários sobre a gente e os acontecimentos, sempre presente em tuas necessidades e teus diretos. Se todas nossas decisões, nossas idéias e nossos planos provierem desta algazarra, o resultado será a injustiça. Por o tanto, devemos fazer silêncio com respeito a este ruído interior, de modo que nossas palavras emerjam do silêncio e assim seremos sábios realmente, não devemos juntar palavras vazias ao nível de ruído em nosso mundo.
           
            O ser guia deve ser exercido como um serviço, tendo como modelo mesmo o Senhor Jesus (Regra 22).  Como saberemos que nosso falso ego não estropia a nossa guia? Com humildade, devemos reconhecer que não somos perfeitos e que nosso falso ego pode influir em nossas decisões ou planos. Não devemos esquecer que estamos envoltos em uma batalha espiritual contra nosso próprio egoísmo. Isto  nos faria humildes, por exemplo, conhecendo e aceitando a verdade acerca de nós mesmos e, contudo, aprendendo cada vez mais de Cristo sem o qual nada podemos fazer. Devemos esforçar-nos da melhor maneira que possamos, recordando que nosso falso ego está ansioso de garantir-nos que estamos fazendo as coisas muito bem e não escutar nenhuma crítica ou idéias de outros. Recordemos o final da Regra “Se algum está disposto a dar mais, o Senhor mesmo, quando votar, o recompensará” (Regra 24). Como o hospedeiro na parábola do Bom Samaritano, vamos a trabalhar com , porém, também tendo um olhar para o horizonte distante à espera da volta do Senhor.

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PERGUNTAS PARA REFLEXÃO

1.         Que deve fazer um guia efetivo de acordo com a tradição Carmelita?

2.         Quais são os problemas particulares de América Latina para que um guia seja realmente efetivo?

3.         Como se introduz o falso ego dentro do serviço da autoridade?


4.         Que podemos fazer para melhorar nosso exercício de autoridade?