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sábado, 16 de novembro de 2013

CARMELITAS: Salve Regina.

33º Domingo do Tempo Comum: Apocalipse. Uma catástrofe ou uma esperança?

O estilo literário chamado apocalipse descreve simplesmente a realidade muitas vezes cruel da existência humana na qual nos encontramos, para lançar um grito de esperança, por causa da nossa fé na Ressurreição. Sim! Nós somos prometidos à Ressurreição, mas devemos passar pelo sofrimento e pela morte, por causa da nossa finitude humana. Não devemos, sobretudo, desesperar, e esses textos apocalípticos existem para nos fazer refletir.
A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 33º Domingo do Tempo Comum – Ciclo C do Ano Litúrgico (17 de novembro de 2013). A tradução é de André Langer.
Referências bíblicas:
Primeira leitura: Ml 3,19-20a
Segunda leitura: 2 Tm 3,7-12
Evangelho: Lc 21,5-19
Eis o texto.
No domingo passado, nós ouvimos os saduceus colocarem Jesus à prova sobre a Ressurreição dos mortos; hoje, o próprio Jesus começa um discurso sobre o fim dos tempos. Ao invés de ter medo e viver na angústia, o discípulo deve utilizar o tempo que lhe é dado para suportar e testemunhar o Evangelho: “É permanecendo firmes que vocês irão ganhar a vida” (Lc 21,19). Quando chegamos ao fim do ano litúrgico, a cada ano, temos textos do evangelho de sabor apocalíptico. Mas atenção! Alguns gostariam de ver nisso anúncios de catástrofes e de tragédias que precedem o fim dos tempos, por causa das imperfeições e dos limites humanos... mas, não é nada disso. Pelo contrário, esse estilo literário chamado apocalipse descreve simplesmente a realidade muitas vezes cruel da existência humana na qual nos encontramos, para lançar um grito de esperança, por causa da nossa fé na Ressurreição. Sim! Nós somos prometidos à Ressurreição, mas devemos passar pelo sofrimento e pela morte, por causa da nossa finitude humana. Não devemos, sobretudo, desesperar, e esses textos apocalípticos existem para nos fazer refletir.
 1. A realidade de Lucas
No tempo em que Lucas escreve o seu evangelho (80-90 d.C.), estamos em um período de plena perseguição. A guerra judaica de 66, que desembocou na tomada de Jerusalém pelos romanos e na destruição do Templo em 70, poderia ser percebida tanto pelos judeus como pelos cristãos como sinais precursores do fim dos tempos, tanto mais que durante os anos que se seguiram a essas turbulências, os cristãos conheceram tempos muito difíceis, tempos de perseguições. O livro dos Atos dos Apóstolos reúne as provas encontradas pela jovem Igreja: “Os sacerdotes, o chefe dos guardas do Templo e os saduceus prenderam Pedro e João” (At 4,11-3); “Paulo e Silas tiveram suas vestes rasgadas, foram acoitados e lançados na prisão” (At 16,22-24). A fidelidade a Cristo por parte dos discípulos provoca a oposição de todos: dos judeus, dos pagãos, do Estado romano e da sua própria família: “Vocês serão odiados por todos, por causa do meu nome” (Lc 21,17). Por outro lado, apesar dos sofrimentos e das aflições, os discípulos podem continuar a ter esperança: “Isso acontecerá para que vocês deem testemunho. Portanto, tirem da cabeça a ideia de que vocês devem planejar com antecedência a própria defesa; porque eu lhes darei palavras de sabedoria, de tal modo que nenhum dos inimigos poderá resistir ou rebater vocês” (Lc 21-13-15). E mais ainda: “Mas não perderão um só fio de cabelo” (Lc 21,18).
2. Os falsos messias
O que torna o discurso de Lucas original é o anúncio dos falsos messias. Podemos assinalar a atividade dos profetas zelotes durante a guerra judaica (66-70) que, segundo Flávio Josefo, anunciam como iminentes os sinais da salvação. Na ótica de Lucas, trata-se antes de falsos doutores que perturbam as comunidades: “Cuidado para que vocês não sejam enganados, porque muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Sou eu’. E ainda: ‘o tempo já chegou’. Não sigam esta gente” (Lc 21,8). Esses profetas da desgraça tinham uma influência maior sobre os cristãos à medida que esses eram realmente perseguidos: “Mas, antes que essas coisas aconteçam, vocês serão presos e perseguidos; entregarão vocês às sinagogas, e serão lançados na prisão; serão levados diante de reis e governadores, por causa do meu nome” (Lc 21,12).
Lucas reconhece que sua comunidade vive momentos difíceis e que a Igreja nascente atravessa tempos conturbados, mas esses momentos de prova podem ser encontrados ao longo de toda a história humana. Já o profeta Malaquias, no século V antes de Cristo, anunciava dias melhores, numa época de grandes turbulências, quando sua comunidade vivia um certo desânimo: “Vejam! O dia está para chegar, ardente como forno” (Ml 3,19a). Malaquias critica severamente o culto de seu tempo: faz críticas contra os fiéis que apresentam a Deus animais aleijados (Ml 1,8), críticas contra os sacerdotes negligentes que não ensinam a Lei de Deus (Ml 2,1-9). Por outro lado, o profeta compartilha seu otimismo: “Mas para vocês que temem a Javé brilhará o sol da justiça, que cura com seus raios” (Ml 3,20a).
Guerras, terremotos, fomes, epidemias e intempéries de todo tipo, sempre houve e sempre haverá. Este ano, houve terremotos em muitos países, um tufão acaba de destruir uma parte das Filipinas, a guerra continua a castigar na Síria e em outras partes do mundo; a aids continua a fazer vítimas nos países pobres e os cientistas temem catástrofes por causa do aquecimento climático. A partir destas duras realidades ainda existem profetas da desgraça e falsos messias para assustar as pessoas e para anunciar-lhes que é o fim do mundo. Chegam inclusive a anunciar que será em breve. Lucas nos reiterou: “Não sigam essa gente” (Lc 21,8b); “Não será logo o fim” (Lc 21,9b); “Isso acontecerá para que vocês deem testemunho” (Lc 21,13); “É permanecendo firmes que vocês irão ganhar a vida” (Lc 21,19).
3. Atualização
Ao atualizar a Palavra de hoje me dou conta de que sempre temos necessidade desses relatos de apocalipse para nos recordar que somos, em primeiro lugar, seres de finitude, isto é, seres materiais, frágeis, limitados, submissos às leis naturais e às regras muitas vezes cruéis da natureza humana, mas nós somos também seres espirituais, prometidos à Vida com V maiúsculo, porque salvos gratuitamente pelo Cristo ressuscitado. Como acontece, então, que na própria Igreja, ainda existem homens que ocupam funções importantes e que agem como profetas da desgraça e falsos messias? Quando se começou a falar de laicidade, o ex-arcebispo de Quebec, o cardeal Ouellet afirmou em alto e bom tom que em Quebec perdemos todos os nossos pontos de referência e que a sociedade laica na qual estamos dirigia-se para um beco sem saída. Felizmente, o bispo de Trois-Rivières da época disse exatamente o contrário. Ele optou por uma laicidade aberta; reconheceu que Quebec havia sofrido durante muito tempo um casamento às vezes fechado entre a religião e os governos, o que deixou um gosto amargo em muitos dos nossos contemporâneos.
Temos, pois, duas aproximações completamente diferentes: de um lado, o tom pessimista de um cardeal que fala de vazio espiritual, de ruptura religiosa e cultural, de crise da família e da educação, de cidadãos desorientados, desmotivados, sujeitos à instabilidade e apegados a valores passageiros e superficiais, ao relativismo religioso e ao fundamentalismo laicista... e de outro lado, o tom otimista de um bispo que, embora reconhecendo os limites da sociedade quebecoense atual, fala de esperança e de uma visão positiva sobre o futuro. Infelizmente, com o projeto de lei 60 do governo atual sobre os valores da laicidade, estamos em vias de dar razão ao cardeal Ouellet. E, assim mesmo, o bispo Vaillette escreveu coisas tão bonitas... Disse: “Eu defendo uma laicidade aberta... Eu não sou nostálgico da sociedade eclesial de antes de 1960 e, sobretudo, não quero restabelecê-la. O aumento da laicidade foi salutar para a sociedade e para a religião católica. Uma depuração. Um apelo que nos foi lançado, a nós católicos, para reencontrar as raízes profundas da nossa fé, para nos aproximarmos da humildade dos evangelhos e para continuar a trabalhar por um mundo melhor e mais justo numa economia de meios, mas animados pelo mesmo sopro. Eu faço um apelo por um diálogo com os defensores de todas as formas de laicidade. Um diálogo construtivo inspirado em nossos valores comuns e respeitosos da verdade da história”. Mas quando um governo quer proibir os seus funcionários de usar sinais religiosos, não estamos mais em uma laicidade aberta, mas numa espécie de perseguição daquelas e daqueles que tem fé e que querem simplesmente expressá-la.
Para terminar, gostaria de citar o exegeta francês Jean Debruynne, em seu comentário sobre o evangelho de hoje. Ele escreve: “... Virão dias em que não ficará pedra sobre pedra... É com estas palavras que Lucas anuncia a ruína do Templo de Jerusalém. Jesus, provavelmente, não se refere à demolição do prédio. Jesus não é um promotor que sonha em substituir uma velha igreja por uma nova, mais na moda e mais moderna. Jesus não quer mais o Templo porque não quer mais a religião. Chegou o momento em que seu Evangelho corre o risco de transformar-se rapidamente em religião: Muitos virão dizendo em meu nome: sou eu! Não sigam essa gente. Jesus não veio para anunciar uma religião, mas a fé”. E eu acrescentaria, a fé pode se expressar por um sinal e ninguém tem o direito de proibi-lo...

A PALAVRA... Nº 463. 33º Domingo do Tempo Comum. Ano-C.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Papa Francisco: ''Deus perdoa os pecadores, mas não os corruptos''

"A vida do corrupto é podridão". Na missa em Santa Marta, Francisco critica abertamente quem é "benfeitor da Igreja (…) mas rouba o Estado e os pobres". A condenação da corrupção dentro e fora da Igreja é um tema dominante do pontificado. A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no jornal La Stampa, 12-11-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Cristãos corruptos, padres corruptos", a "vida dupla" transforma o cristão em um "sepulcro caiado", talvez bonito externamente, mas "cheio de ossos mortos e podridão". Além disso, "Jesus diz que a esse tipo de cristão de vida dupla deve ser posta uma pedra de moinho ao pescoço e deve ser jogado ao mar".

Bergoglio sublinha a "diferença" entre pecar e escandalizar. "Quem peca e se arrepende, pede perdão, se sente fraco, se sente filho de Deus, se humilha", observa o pontífice, enquanto aquele que escandaliza "continua pecando, mas finge ser cristão", leva uma "vida dupla", engana, e "onde há engano não há o Espírito de Deus". Portanto, "nós devemos nos dizer pecadores, sim, todos aqui, todos o somos. Corruptos, não". De fato, "o corrupto é fixado em um estado de suficiência, não sabe o que é a humildade".

Jesus, sublinha Francisco, denuncia o comportamento de "sepulcros caiados". E "um cristão que se orgulha de ser cristão, mas não tem uma vida de cristão, é um desses corruptos". Além disso, "todos conhecemos alguém que está em uma situação semelhante, e quanto mal eles fazem à Igreja! Cristãos corruptos, padres corruptos, quanto mal fazem à Igreja! Porque não vivem no espírito do Evangelho, mas no espírito da mundanidade".

Bergoglio cita São Paulo, que adverte na Carta aos cristãos de Roma: "Não se conformem a este mundo, não entrem nos seus esquemas e parâmetros". Daí, de fato, "nasce a mundanidade que te leva à vida dupla".

A luta contra a corrupção é uma pedra angular do Evangelho social de Bergoglio. "A sua teologia é uma teologia da libertação que substitui o marxismo pela misericórdia cristã", observa o porta-voz da Comunidade de Santo Egídio, Mario Marazziti. "Ele coloca na centro a mudança e os direitos dos últimos, sem os quais não há dignidade humana, chamando a boa política a corrigir as distorções do capitalismo globalizado e a se retomar o primado na cena pública para não deixar o campo livre para a economia, para a religião da individualidade e para os interesses corporativos".

Além dos administradores desonestos, o papa se refere aos "gnomos das finanças". Na primeira viagem do pontificado, a Lampedusa, ele denunciou "a crueldade daqueles que, no anonimato, tomam decisões condições socioeconômicas que abrem o caminho para as tragédias das migrações". Uma abordagem de reformador que também encontra implementação na sua ação de limpeza financeira e organizativa da estrutura eclesiástica.

Uma verdadeira "perestroika" na Cúria que teve a sua incubação no "laboratório Buenos Aires", no qual se formou o primeiro pontífice jesuíta e sul-americano da história. Na América Latina, a batalha conquistou-lhe a estima dos líderes do movimento pelos direitos humanos, como Alicia de Oliveira, e o respeito das Mães da Praça de Maio, duríssimas contra a hierarquia católica.

Bergoglio nunca se curvou aos caudilhos, militares ou políticos, que se alternaram no comando da Argentina. Ele compartilha a postura política do seu antecessor, Antonio Quarracino, não distante da ala popular dos peronistas.

A PALAVRA... 461. Análise dos sites católicos-03

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

CARMO: Todos os Santos e Santas da Ordem.

Papa Francisco está sob a mira da máfia, diz juiz italiano; Vaticano nega risco

O papa Francisco está sob a mira da máfia calabresa, a 'Ndrangheta, por causa de sua recente cruzada contra a corrupção no Vaticano. O alerta foi dado pelo juiz Nicola Gratteri, em entrevista ao jornal italiano "Il Fatto Quotidiano". Para o Vaticano, "não há motivo real" para preocupação.
Segundo o magistrado, conhecido por combater a máfia na região da Calábria, a tentativa de Francisco de trazer mais transparência para o Vaticano deixou os mafiosos que fazem negócios com religiosos corruptos mais "nervosos e agitados".
"O papa Francisco está desmantelando os centros do poder econômico do Vaticano. Os chefões da máfia não hesitariam em tentar qualquer coisa contra ele", afirmou. "Não sei se o crime organizado está preparado para fazer algo, mas certamente está pensando a respeito. Eles podem ser muito perigosos."
O Vaticano negou, nesta quinta-feira (14), que o papa Francisco esteja na mira de grupos mafiosos italianos.
"Não há nenhum motivo real para nos preocuparmos. Não é o caso de alimentar alarmes, estamos tranquilos", disse o porta-voz da Santa Sé, padre Federico Lombardi.
Reforma no Banco do Vaticano
Francisco promoveu uma reforma no Banco do Vaticano depois que a instituição foi alvo de investigações por lavagem de dinheiro.
"A máfia que investe, que lava dinheiro, é a que tem o real poder. É essa que ficou rica com a conivência de anos da igreja", disse Gratteri. "São essas pessoas que ficaram nervosas."
O juiz atacou padres e bispos do sul da Itália que, segundo ele, legitimam a ação de mafiosos.
"Os padres locais costumam visitar as casas dos chefes da máfia para tomar um cafezinho. Isso dá força e poder popular para o crime", afirmou.
Em 26 anos de trabalho, Gratteri contou nunca ter entrado na casa de um mafioso que não tenha uma imagem religiosa. Segundo uma pesquisa, 88% dos mafiosos presos na Itália se dizem religiosos.
"Os ritos de afiliação na máfia evocam a religião. A igreja e a 'Ndrangheta caminham lado a lado", disse. "Antes de matar, o mafioso reza. Ele pede proteção para Nossa Senhora." (Com agências internacionais)

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A PALAVRA... 460. Análise dos sites católicos-01


No Quadringentésimo sexagésimo vídeo; "A Palavra do Frei Petrônio", o Frei Petrônio de Miranda, Padre  Carmelita da Ordem do Carmo, estudante de Jornalismo da Fapcom- Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação, fala sobre uma análise do desempenho de alguns sites católicos a partir do artigo, “Igreja e Mídia”, de José Lisboa Moreira de Oliveira, filósofo, teólogo, escritor, conferencista e professor universitário. Nesta primeira parte, veja a reflexão sobre a “Visão deturpada do Deus de Jesus”.  OBS: Leia o artigo na íntegra. Clique aqui: http://www.mensagensdofreipetroniodemiranda.blogspot.com.br/2013/11/igreja-e-midia.html. Convento do Carmo, São Paulo.  13 de novembro-2013. 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Igreja e Mídia

"A análise do desempenho de alguns sites católicos nos permite identificar pelo menos três problemas teológicos sérios: visão deturpada do Deus de Jesus, ausência do senso eclesial e fuga do compromisso com os outros. (...) O que se questiona é a forma como se está utilizando este recurso; forma essa que termina por alimentar uma religiosidade melosa, mágica, egoísta, falsa e não-cristã", escreve José Lisboa Moreira de Oliveira, filósofo, teólogo, escritor, conferencista e professor universitário, publicado no blog O Chamado, 07-11-2013. Segundo ele, "o que se questiona é a forma como se está utilizando a internet; forma essa que termina por alimentar uma religiosidade melosa, mágica, egoísta, falsa e não-cristã".

Eis o artigo.

"Em 2011 o jornalista e pesquisador Moisés Sbardelotto publicava o resultado de uma pesquisa por ele realizada sobre a midiatização do sistema religioso católico. O objetivo da pesquisa era analisar alguns serviços religiosos disponíveis em sites católicos. O resultado foi inicialmente publicado no número 35 da revista eletrônica do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, conhecida como Cadernos IHU, com o título: “E o Verbo se fez bit”. Uma análise da experiência religiosa na internet. Posteriormente o autor transformou sua pesquisa em livro, lançado em 2012 pela Editora Santuário de Aparecida (SP) com o título: E o Verbo se fez bit. A comunicação e a experiência religiosas na internet"

Mais do que fazer uma análise crítica dos conteúdos dos sites católicos, o autor pretendeu, com sua pesquisa, apenas registrar o fato de que, no contexto atual, as mídias são o ambiente onde tudo se move. Dentro dessa lógica, “o religioso já não pode ser explicado nem entendido sem se levar em conta o papel das mídias” (IHU, p. 5). Sbardelotto conclui, a partir de sua pesquisa, que os sites católicos analisados oferecem, além de informações gerais sobre religião, meios para um vínculo do fiel com Deus e elementos em ambiente online para a prática da fé. Deixa bem claro que os sites analisados não possibilitam um conhecimento racional da fé, mas, muito mais, estratégias para a experiência religiosa e uma modalidade de percepção da presença do sagrado, por parte das pessoas que acessam esses sites.

Nesse sentido, não era intenção do autor da pesquisa fazer uma análise teológica dos conteúdos. Somente na parte final do seu trabalho ele chama rapidamente a atenção do leitor para possíveis “escapes doutrinários”, ou seja, para elementos de crença que se distanciam do universo católico. Acredita que tais “escapes” se dão, antes de tudo, pela inferência dos fiéis que postam suas mensagens e suas preces nos referidos sites. O autor, salvo engano da minha parte, não faz nenhuma análise daquilo que é colocado nos sites pelos “sacerdotes da virtualidade” (Galimberti) e que, de certa forma, a meu ver, induz os fiéis aos deslizes doutrinários.

Seria arrogância da minha parte, pretender, num brevíssimo artigo como esse, fazer uma análise teológica do que aparece nos sites católicos. Porém, com a ajuda dos dados da pesquisa de Sbardelotto, e a partir de minhas próprias pesquisas, ouso fazer algumas considerações que poderão servir de pontapé inicial para uma reflexão maior. Quero aqui avaliar três aspectos que, a meu ver, aparecem nesses sites: a imagem de Deus, o modelo de Igreja apresentado e a compreensão do ser humano na perspectiva cristã, especialmente no que se refere ao compromisso cristão no mundo. Nessa análise sirvo-me de uma excelente reflexão que encontrei sobre o uso da internet e “mística virtual” no livro Rastros do Sagrado de Umberto Galimberti (Paulus, 2003, pp. 280-287). Uma análise bem anterior às pesquisas de Sbardelotto, mas nem por isso menos atual.

A primeira coisa que mais impacta nos sites católicos é a figura de Deus. De um modo geral, salvo algumas raríssimas exceções, é um Deus “pronto-socorro”, feito segundo os gostos dos clientes, sempre pronto a atender às necessidades imediatas e urgentes dos sujeitos. Um Deus mágico que atende prontamente aos pedidos, sob a condição de que esses fiéis acendam uma velinha virtual, acompanhem um terço online, façam uma adoração a um Santíssimo Sacramento que, de fato, não existe e, sobretudo, contribuam mensalmente para a manutenção de toda aquela parafernália virtual. Esse não é o Deus de Jesus, ao qual não precisamos ficar pedindo nada, pois ele já sabe de tudo o que precisamos, antes mesmo de o pedirmos. O multiplicar-se de palavras, de preces, de súplicas, de falatórios desses sites está mais para coisa de pagão, do que para cristão (Mt 6,5-8).

O segundo elemento é o reforço do individualismo religioso e a destruição da comunidade cristã a qual, necessariamente, deve estar situada em um lugar concreto (1Cor 1,2; Rm 1,7). E ao dizer da necessidade de estar situada num lugar concreto entendo falar não apenas da dominical “assembleia dos convocados” que define a Igreja, mas do encontro das pessoas entre si para conversarem pessoalmente sobre seus problemas e tocarem calorosamente os seus corpos uns nos outros através de um aperto de mão, de um abraço e de um beijo (Rm 16,16). Na “Igreja virtual” a pessoa não precisa mais sair de casa para obter graças e vantagens religiosas para si. As pessoas deixam de tomar parte ativa na vida concreta de uma comunidade e se transformam em meros consumidores de kits de salvação, disponíveis nos sites católicos. A Igreja passa a ser um supermercado virtual.

Com isso há sério risco de esfacelamento da Igreja, a qual se define como comunidade convocada e reunida pela Trindade. É verdade que nesses sites católicos aparecem pedidos e preces por outras pessoas. Mas, nos lembra Galimberti, falta o essencial de uma comunidade cristã que é a capacidade de fazer experiência. Pela maneira como são pensados e organizados, os sites católicos só são “capazes de pôr em comunicação milhões de solidões, que transformarão todos os solitários, privados exatamente pelos meios de comunicação da possibilidade de fazer uma experiência compartilhada, em habitantes de um mundo comum” (Galimberti, p. 287). Na virtualidade não há Igreja, mas massa anônima, consumidora de produtos religiosos virtuais, a qual geralmente só se encontra virtualmente através da degradação da individualidade.

O católico virtual que só acessa a “igreja do computador” não sai mais de casa. E, ao não sair de casa, ele se distancia da realidade, dos outros e dos problemas dos outros. Seu cristianismo ao invés de ser centrífugo (na direção do próximo), como pediu Jesus (Lc 10,29-37), se torna centrípeto (voltado somente para ele mesmo). É o católico “que não está mais com o outro, mas apenas ao lado do outro”, numa “fuga solitária que não compartilha com ninguém, ou no máximo com um milhão de solitários do consumo de massa, que ao mesmo tempo que ele, mas não junto com ele, cravam os olhos na tela” (Galimberti, p. 285).

A análise do desempenho de alguns sites católicos nos permite identificar pelo menos três problemas teológicos sérios: visão deturpada do Deus de Jesus, ausência do senso eclesial e fuga do compromisso com os outros. Não se trata aqui de “demonizar” a internet e a mídia, como, infelizmente, fazem alguns. Hoje o recurso midiático deve ser necessariamente usado na catequese, na evangelização, na informação e na formação da consciência crítica dos cristãos e das cristãs. O que se questiona é a forma como se está utilizando este recurso; forma essa que termina por alimentar uma religiosidade melosa, mágica, egoísta, falsa e não-cristã.

Por último, recordando o que nos diz ainda Galimberti (p. 283), não devemos esquecer que a mídia, em si, não é totalmente neutra. Ela, com seu poder, termina moldando a nossa natureza. Ela nos plasma, a tal ponto que, em vários lugares do mundo, já começam a surgir muitos casos de viciados em internet, precisando de tratamento psicológico e até psiquiátrico.

Na Igreja Católica já temos alguns casos de psicopatia eclesiástica: pessoas que chegam ao delírio de pensar que Jesus, o Verbo do Pai, é uma simples mercadoria, um software, a ser comercializado nas feiras católicas nacionais e internacionais.

Recentemente ouvi da boca de um desses organizadores da Expocatólica algo parecido: Jesus é um “produto” a ser oferecido através de um bom marketing. Com esses midiáticos voltamos a dois mil anos atrás, quando o Filho do Homem irritado com uma religiosidade mercadológica semelhante, pegou um chicote de cordas e botou todo mundo para correr dizendo: “Não façam da casa de meu Pai uma casa de negócios” (Jo 2,16). Não estaria na hora de alguém pegar um chicote não-virtual e expulsar da Igreja os que reduzem Jesus a um mero produto virtual?

domingo, 10 de novembro de 2013

32º Domingo do Tempo Comum: A vida depois da morte (Lucas 20,27-38)

O evangelho deste domingo traz à luz o antigo e sempre atual questionamento sobre o que acontece depois morte. Existe vida, ressurreição?

Jesus responde a esta pergunta. Mas, para entender sua resposta, precisamos conhecer um pouco sobre a fé na ressurreição no Primeiro Testamento.

Porque é dessa tradição veterotestamentária que bebe Jesus e os/as primeiros/as cristãos/ãs.

O texto explica claramente que os saduceus não acreditam na ressurreição. Eles se opõem ao pensamento inovador dos fariseus que afirmam a ressurreição, a existência de anjos e acreditam no juízo de Deus.

Quando lemos o Primeiro Testamento, descobrimos um Deus da vida e dos vivos. O livro do Deuteronômio O apresenta como "o Senhor da vida e da morte" (Deuteronômio 32,39).

O segundo livro dos Macabeus, em que se narra o martírio dos sete irmãos e sua mãe, expressa a esperança deles na ressurreição: "É o Criador do mundo que formou o homem em seu nascimento e deu origem a todas as coisas, que vos retribuirá, na sua misericórdia, o espírito e a vida..." (2 Macabeus 7,23).

Dessa maneira, este texto, assim como outros (Salmo 73,23; Isaías 26,19; Oseias 6,1-3), nos revelam um Deus que é fiel à aliança que fez com seu povo, e essa fidelidade é salvadora. Por isso, os justos, aqueles/as que vivem conforme a sua lei, não conheceram a corrupção, senão a vida em plenitude que Deus lhes dará em recompensa.

Jesus se situa em continuidade a esta fé. Tomando as palavras de Moisés, afirma sua crença num Deus que "não é Deus de mortos, mas de vivos, pois todos vivem para ele".

Ele conhece o amor de seu Pai a cada uma de suas criaturas e sabe também que esse amor criador, incondicional, é mais forte que a morte, a ponto de ele mesmo chegar a proclamar: "Eu sou a ressurreição e a vida, quem acredita em mim, mesmo que morra, viverá" (João 11,22).

O texto de hoje quer também esclarecer o conceito de ressurreição. Podemos fazer uma parada e nos perguntarmos qual é nossa ideia sobre a ressurreição dos mortos.

A pergunta dos saduceus a Jesus se baseia na lei judaica do levirato, que buscava proteger a viúva (Deuteronômio 25,5-10). Quando o homem morre sem deixar filhos, seu irmão deve tomar sua mulher para cuidar e também gerar prole. Então, "na ressurreição, de quem a mulher vai ser esposa?".

Esta pergunta desenha um imaginário errôneo de ressurreição como repetição desta vida, anulando a novidade que a ressurreição cria, gera, não regida mais pelas leis físicas ou biológicas, senão pelo amor de Deus no qual a criatura ressuscitada participa. Isso não quer dizer que a pessoa, ao ressuscitar, perde sua identidade, diluindo-se na presença de Deus.

Ao contrário! Assim como Jesus, ao ressuscitar, alcança sua plenitude humana, seus irmãos e irmãs que morrem, ao ressuscitar, não perdem sua identidade, continuam sendo eles/as e seu mundo de relações que os/as definem, mas de uma maneira mais plena, total, que transcende as barreiras do tempo e do espaço.

O teólogo espanhol Andrés Torres Queiruga, refletindo sobre a afirmação de Jesus de que na ressurreição os homens e as mulheres "não se casarão mais, porque não podem mais morrer, pois serão como os anjos", considera que estas palavras não anunciam uma vida abstrata ou despersonalizada.

Antes, elas aludem à plenitude do novo modo de existência, em que o amor, porque estará livre do egoísmo, não se submeterá à rivalidade e à exclusão. Os vínculos e o amor se conservarão, mas já não se limitarão à vida e às relações, mas se expandirão para alegria de todos.

Assim sendo, o evangelho de hoje é um convite a renovar nossa fé no Deus da vida, que fez de seu filho Jesus o primogênito dos que ressuscitam dos mortos, criando para nós o caminho da vida eterna.

Crer na ressurreição de Jesus nos leva a crer na nossa própria ressurreição, a celebrar a vida nova de nossos mortos e a esperar ativamente nos encontrarmos todos e todas no banquete eterno, onde todos, sem exceção, nos sentaremos na mesma mesa dos filhos e filhas de Deus.

sábado, 9 de novembro de 2013

A PALAVRA... Nº 456. Dedicação da Basílica do Latrão.

http://www.youtube.com/v/XRoXZpiAFRc?autohide=1&version=3&attribution_tag=X8fuu_713an9rtQ2xtOHBA&feature=share&autoplay=1&autohide=1&showinfo=1

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

32º Domingo do Tempo Comum. Ano-C: A ressurreição. Uma certeza ou uma esperança?

A ressurreição não é, como supõem os saduceus, um retorno ao passado. Pelo contrário, é a entrada em uma outra vida. Ressuscitar não é voltar a ser como antes, é voltar a ser como depois. Não é tornar-se outro, é tornar-se outramente. Mas atenção! Não são apenas os saduceus do tempo de Jesus que pensam dessa maneira. Seu raciocínio é o de muitos cristãos de hoje, que imaginam o além como aqui e que se representam a vida após a vida a partir dos conceitos materiais que correspondem à sua realidade e que eles transportam para o além, para o céu.
A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 32º Domingo do Tempo Comum – Ciclo C do Ano Litúrgico (10 de novembro de 2013). A tradução é de André Langer.
Referência bíblica:
Evangelho: Lc 20,27-38
Eis o texto.
Estamos nos aproximando do final do ano litúrgico. Nós acompanhamos Jesus na sua subida para Jerusalém a partir do Evangelho de Lucas. Eis que hoje o Jesus do Evangelho de Lucas afirma que o nosso Deus não é o Deus dos mortos, mas dos vivos (Lc 20,38). Nós somos prometidos, portanto, não à morte, mas à Vida e esta Vida já começou. Isso deveria transparecer em nossos rostos de cristãos e de cristãs; nós devemos viver já em ressurreição. Nietzsche dizia: “Eu acreditarei nos cristãos no dia em que eles tiverem semblantes de ressuscitados”.
1. O que é a Ressurreição?
Muitas pessoas, hoje, mesmo entre os cristãos, não acreditam na Ressurreição. Para alguns, a morte é o fim de tudo e a Ressurreição é apenas a resposta à recusa de morrer e o reflexo de uma ignorância persistente que se opõe à realidade científica. Outros, mesmo entre os cristãos, acreditam na reencarnação, isto é, nas sucessivas vidas que permitem às almas se purificarem, emprestando sucessivos corpos, até a divinização. Pessoalmente, acredito na Ressurreição e sei que a minha fé não é fruto da minha ignorância e que ela não se opõe à ciência. É evidente que a minha fé não é uma certeza, e é melhor que seja assim, porque os crentes seguros de si mesmos, são, muitas vezes, integristas e extremistas que impõem sua religião a todo o mundo... O que é contrário ao Deus de Jesus Cristo.
Bernanos dizia que sua fé estava cheia de dúvidas: “24 horas de dúvidas, menos 1 minuto de esperança”. Mas que esperança! Uma esperança a toda prova, dizia Doris Lussier: “Eu não digo: eu sei; eu digo: eu creio. Crer não é saber. Eu saberei quando verei, como os outros. Se eu tenho o saber... E, além disso, depois de tudo, como eu disse um dia a um amigo descrente: tu sabes, nossas respectivas opiniões sobre os mistérios do além não têm grande importância. No que nós acreditamos ou não, isso não muda absolutamente nada da verdade da realidade: o que é e..., e o que não é não é, um ponto, é tudo. E temos de conviver com isso”.
Por outro lado, se eu li bem o evangelho de hoje, me dou conta de que a Ressurreição não está na ordem da materialidade; ela não é, sobretudo, a reanimação de um cadáver que continua a viver como antes. E para provar isso, Jesus diz aos saduceus que tentam provar pelo absurdo a ideia da ressurreição, falando da lei judaica do levirato (Dt 25,5-6) que obriga o irmão de um morto a esposar a viúva desse para dar uma descendência ao seu irmão: “‘Mestre, Moisés escreveu para nós: Se alguém morrer, e deixar a esposa sem filhos, o irmão desse homem deve casar-se com a viúva, a fim de que possam ter filhos em nome do irmão que morreu. Ora, havia sete irmãos. O primeiro casou e morreu, sem ter filhos. Também o segundo e o terceiro casaram-se com a viúva. E assim os sete. Todos morreram sem deixar filhos. Por fim, morreu também a mulher. E agora? Na ressurreição, de quem a mulher vai ser esposa? Todos os sete se casaram com ela!’” (Lc 20,28-33).
Jesus denuncia esta concepção materialista da Ressurreição. Os saduceus não se dão conta de que sua maneira de abordar o problema supõe que Deus se serve do mesmo raciocínio que aqueles nos quais eles mesmos se trancaram. O exegeta francês Jean Debruynne escreve: “Eles querem fazer Deus entrar a qualquer preço em suas adições e subtrações. Mas a ressurreição não é, como supõem os saduceus, um retorno ao passado. Pelo contrário, é a entrada em uma outra vida. Ressuscitar não é voltar a ser como antes, é voltar a ser como depois. Não é tornar-se outro, é tornar-se outramente”.
Mas atenção! Não são apenas os saduceus do tempo de Jesus que pensam dessa maneira. Seu raciocínio é o de muitos cristãos de hoje, que imaginam o além como aqui e que se representam a vida após a vida a partir dos conceitos materiais que correspondem à sua realidade e que eles transportam para o além, para o céu. Quantas vezes, sem se dar conta, os cristãos emprestam a Deus os sentimentos que são os seus, os desejos que habitam neles, os pensamentos que os tranquilizam e os julgamentos que fazem a balança pesar a seu favor. A Ressurreição é certamente uma vantagem em relação ao que se vive aqui e agora, e o importante não é saber, mas crer e esperar. No limite, mesmo que não houvesse nada depois da morte, poderíamos continuar a crer e a esperar. É exatamente o que uma mulher jovem com câncer disse a um jornalista que lhe dizia: “Se não há nada após a morte, você acreditou por nada, inutilmente!”. Ela respondeu: “Se a fé meu ajudou a viver bem com o meu marido e os meus filhos, e se ela me ajuda a morrer bem, sem me revoltar, em que terei perdido meu tempo? Uma coisa é certa: eu não terei acreditado inutilmente!”.
2. Ressurreição pessoal e coletiva
Nós não estamos sozinhos na Terra; somos coletividade, comunidade, humanidade. A nossa vida nós a recebemos uns dos outros. Nós somos seres de relação, de comunicação, de comunhão. Estamos em relação com toda a humanidade. É por isso que a Ressurreição não é somente pessoal; ela também é coletiva. São Paulo, na primeira Carta aos Coríntios, dizia: “Ora, vocês são membros dele, cada um no seu lugar” (1 Cor 12,27). “Se um membro sofre, todos os membros participam do seu sofrimento; se um membro é honrado, todos os membros participam de sua alegria” (1 Cor 12,26). Em seu livro ‘Céu! Para onde vamos?’, André Myre escreve: “Nós fazemos parte uns dos outros, tanto para o bem como para o mal, para ser salvos ou para nos perdermos sozinhos. Se apenas um está perdido, então todos estão perdidos. Se um só é salvo, então todos são salvos. Ora, Cristo ressuscitou, portanto... Daí a grande serenidade dos primeiros cristãos. Eu contribuo para a salvação dos outros e eles para a minha”.
Portanto, como cristãos, somos responsáveis uns pelos outros. André Myre acrescenta: “Nada do que os outros fazem pode me deixar indiferente. Quando estoura uma guerra, é a minha ressurreição que está ameaçada. Quando eu mato uma pessoa, é a sua ressurreição que está ameaçada. Quando a igualdade entre os homens e as mulheres é afetada, é o corpo da humanidade ressuscitada que é rompido. Quando um povo se liberta ou a democracia progride, é a esperança da minha ressurreição que aumenta. Quando um santo se levanta entre nós, é a nossa salvação que se afirma”.
E o julgamento em tudo isso? É uma realidade importante que precisamos viver desde agora. Nossa humanidade é ferida pelas injustiças, pela opressão, pelas guerras. Nós devemos, pois, trabalhar para restabelecer a justiça e restaurar a paz, para que a Ressurreição ecloda no grande dia. Para chegar lá, precisamos reconhecer nossas falhas e repará-las, nossos erros e perdoá-los. Sem isso, a Ressurreição não pode ser plenamente alcançada. André Myre chama esse tempo de tomada de consciência, de arrependimento, de reparação e de perdão, o purgatório. Ele escreve: “O purgatório só faz sentido sobre o pano de fundo de um grande amor, por parte da grande humanidade reunida em um só corpo e tomando consciência de repente do grande amor de Deus por ela. O mal se pagará, mas o amor vencerá. Enfim.”
A solidão corresponde, na perspectiva da responsabilidade coletiva da Ressurreição, ao que é o inferno: “E o inferno?, escreve André Myre. Ele terá sido uma grande solidão, solidão dos idosos ou dos abandonados, solidão dos drogados, solidão dos políticos felizes por fazerem guerra, solidão dos financistas ou dos homens de negócios sozinhos na cúpula e sem vínculos com ninguém, solidão dos homens religiosos que condenam os outros, em nome de Deus. Há tanta solidão!” Mas o inferno, se realmente existe, não pode ser eterno: “Será possível que um ser humano decide excluir-se eternamente da humanidade? Talvez, se ele foi abandonado à sua solidão. Mas se Deus é Deus, como poderá não intervir? Afinal, essa será a felicidade de todos os outros. Quem já amou ou foi amado ou desejou ser amado jamais estará perdido”. Há matéria para reflexões!
Para terminar, podemos dizer com André Myre: “Morrer não é perder tudo, mas encontrar tudo”. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

PALAVRA... Nº 453. Ficha Suja para os Eleitores.

No Quadringentésimo quinquagésimo terceiro vídeo; "A Palavra do Frei Petrônio", o Frei Petrônio de Miranda, Padre  Carmelita da Ordem do Carmo, estudante de Jornalismo da Fapcom- Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação, fala sobre a Condenação do Deputado Federal do PP-SP e Ex-Prefeito, Paulo Maluf na última segunda feira, 04, pelo Tribunal de Justiça de São Paulo por superfaturamento nas obras do túnel Ayrton Senna quando esteve no comando da prefeitura da capital paulista entre os anos 1993-1996. Convento do Carmo, São Paulo.  06 de novembro-2013. DIVULGAÇÃO: www.mensagensdofreipetroniodemiranda.blogspot.com; www.dailymotion.com/olharjornalistico www.facebook.com/freipetronio2; www.olharjornalistico.com.br; www.mais.uol.com.br/olharjornalistico; www.facebook.com/olharjornalistico; www.flickr.com/photos/avozdoscarmelitas; www.myspace.com/olharjornalistico; www.youtube.com/olharjornalistico; www.freipetrniomiranda.muzy.com; www.youtube.com/carmo160; www.videolog.tv/freipetronio; www.twitter.com/freipetronio; www.youtube.com/petros637; www.youtube.com/PetrosAntonio; http://www.tivio.tv/tv/?/olharjornalistico; https://vimeo.com/olharjornalistico

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

SÃO NUNO: Da Crônica dos Carmelitas de Portugal.

O Frei Petrônio de Miranda, Padre  Carmelita da Ordem do Carmo, estudante de Jornalismo da Fapcom- Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação, fala sobre São Nuno de Santa Maria, Carmelita. Nuno Álvares Pereira nasceu a 24 de Junho de 1360. Por vontade de seu pai, casou-se aos 16 anos. Dos três filhos do seu matrimónio, dois faleceram ainda crianças, ficando apenas uma filha, Beatriz, que veio a casar com o filho do rei D. João I, D. Afonso, primeiro duque de Bragança. Quando, a 22 de Outubro de 1383, faleceu rei D. Fernando I, não deixou filhos varões, mas apenas uma filha casada com o rei de Castela, que pretendeu apoderar-se da coroa de Portugal. Opôs-se-lhe D. João, Mestre de Avis, irmão de D. Fernando, com o apoio de D. Nuno Alvares Pereira. Este, nomeado Condestável, conduziu o exército português a várias vitórias contra os castelhanos, até à vitória final, em Aljubarrota, a 14 de Agosto de 1385. O Condestável, aos dotes militares, aliava uma espiritualidade sincera e profunda, caraterizada pelo amor à Eucaristia e à Virgem Maria. Com a morte da sua esposa, em 1387, D. Nuno recusa contrair segundas núpcias e, quando a paz é definitivamente estabelecida, distribui grande parte dos bens pelos seus companheiros, antigos combatentes, e faz-se carmelita, com o nome de frei Nuno de Santa Maria. Logo após a sua morte, no dia 1 de Abril de 1431, Frei Nuno começou a ser chamado “santo” pelo povo. Beatificado por Bento XV em 1918 e Bento XVI canonizou-o, em 2009. Convento do Carmo, São Paulo.  06 de novembro-2013. DIVULGAÇÃO: www.mensagensdofreipetroniodemiranda.blogspot.com; www.dailymotion.com/olharjornalistico www.facebook.com/freipetronio2; www.olharjornalistico.com.br; www.mais.uol.com.br/olharjornalistico; www.facebook.com/olharjornalistico; www.flickr.com/photos/avozdoscarmelitas; www.myspace.com/olharjornalistico; www.youtube.com/olharjornalistico; www.freipetrniomiranda.muzy.com; www.youtube.com/carmo160; www.videolog.tv/freipetronio; www.twitter.com/freipetronio; www.youtube.com/petros637; www.youtube.com/PetrosAntonio; http://www.tivio.tv/tv/?/olharjornalistico; https://vimeo.com/olharjornalistico

Processo de Canonização do Beato Nuno de Santa Maria.

Pe. Frei Francisco J. Rodrigues, O. Carm. (Vice Postulador)

 
Nuno Álvares Pereira, uma das mais altas figuras da História Portuguesa foi guerreiro, herói e santo. Nasceu a 24 de Junho de 1360. Depois de uma vida longa e depois de ter contribuído com a sua coragem, inovação de procedimento e o seu brio militar para a consolidação da Independência de Portugal no momento mais crítico da sucessão, deixou a vida militar e entregou se à vida religiosa, já quando tinha 63 anos. Professou a 15 de Agosto de 1423. Morreu na'sua cela no convento que ele mesmo construíra em 1 de Abril de 1431 com 71 anos no dia de todos os Santos de 1431 (ao tempo 511 Domingo da Páscoa). Aplica-se bem o ditado "tal vida tal morte". Uma vida vivida totalmente para Deus e sua Mãe Maria Santíssima e para os homens seus irmãos. Assim descreve o Cronista Carmelita Frei José Pereira Santana "Continuando o Venerável Nuno de Santa Maria as asperezas da vida, sem nunca afrouxar dos seus primeiros fervores, chegou ao ano de 1431 tão destituído de forças, que no corpo apenas conservava alguns alentos para poder mover-se.

Entrando enfim na última agonia, rogou que, para consolação do seu espírito, lhe lessem a Paixão de Cristo escrita pelo Evangelista S. João; logo que chegou à cláusula do Evangelho onde o mesmo Cristo, falando com Sua Mãe Santíssima a respeito do amado discípulo, lhe diz: Eis aqui o vosso filho, deu ele o último suspiro e entregou sua ditosa alma ao mesmo Senhor que o criara".

A triste nova correu célere a cidade, que se cobriu de luto. "Morreu o Santo! Morreu o Santinho"! ... foi o grito que se levantou em toda a cidade aos ouvirem os sinos do Carmo.

Os olhos dos humildes, dos enfermos, arrasavam-se de lágrimas! O povo, que o canonizara em vida, jamais abandona a romagem piedosa no Convento do Carmo.

A fama da santidade estendeu se por todo o povo.

Não tardou que lhe consagrassem altares em que se celebrava Missa em sua honra com tácito consentimento da autoridade eclesiástica e depois com aprovação clara, não só em Lisboa, mas também nas comarcas de Avis e Cernache do Bonjardim.

Logo se começaram a lavrar algumas imagens do Condestável que foram expostas nalgumas Igrejas de Lisboa e de outras terras do país. Chamava lhe o povo Santo Condestável, e acudia a visitar o túmulo e a levar lhe ofertas em animadas romarias.

Na Oitava da Páscoa, era a Peregrinação das mulheres de Lisboa, que se juntavam na Capela-Mor do Mosteiro do Carmo, cantando versos ao som de pandeiros e adufes.

Na Oitava de Pentecostes, era a dos habitantes do Restelo e Belém, que vinham em cortejo, de batéis pelo rio desembarcar em Santos e daí subiam ao Carmo a fazer junto do túmulo as suas orações e descanses.

A 24 de Junho vinham os habitantes de Sacavém com uma oferenda de azeite e a 15 de Agosto, os de Almada com muitas candeias e velas.

O povo celebrava nas suas trovas os inúmeros milagres que a tradição ia atribuindo ao Santo Condestável, desde as ressurreições dos mortos, até às aparições e cura de toda a espécie de enfermidades.

Sem chegar a extinguir se, este culto popular resfriou com o tempo. Diz se que durante o domínio Castelhano, se deu o nome de Santo Amaro à imagem do Condestável que se venerava em Moura. Cessaram as romarias ao Carmo porque o templo ficou arruinado com o terremoto de 1755.

As invasões Francesas, as lutas civis, a extinção das ordens religiosas eis outros tantos motivos que explicam o declínio desse culto.

Manteve se, porém, o que parece, sem interrupção, na Capela da Ordem Terceira do Carmo, onde estava exposto sobre o altar à veneração dos fiéis o painel do Santo Condestável, e não se interrompeu a tradição litúrgica na Ordem Carmelita e em várias Igrejas.

 

Processo de Canonização

Com uma vida tão rica de santidade reconhecida, depressa apareceram atos de intercessão e até milagres e que vêm descritos na Crônica dos Carmelitas", já citada. Várias tentativas se fizeram a seguir à sua morte para introduzir o Processo de santidade, mas sem êxito. O próprio D. Duarte, após seis anos da sua morte, faz diligências para que se abra em Roma o Processo. Os mais significativos foram as súplicas dirigidas à Santa Sé para a Beatificação e Canonização, conforme as leis e normas seguidas, pelos reis D. João IV e D. Pedro 11 e pelo Episcopado Português.

O Processo ordinário de Lisboa toma mais corpo quando, com sentença dada a 07 de Março de 19 1 4, foi apresentado à Sagrada Congregação dos Ritos, e mostra que o culto que publicamente se lhe prestou logo depois da morte, cresceu com o andar dos tempos, perseverando até hoje, com a autorização dos Ordinários.

Os documentos da Cúria Patriarcal, da Biblioteca Nacional, dos Anais, Arquivos e cronistas da Ordem Carmelita, narram e provam que o Servo de Deus tinha festa anual nos primeiros dias de Novembro com Missa de Confessor; que diante do seu túmulo ardiam lâmpadas; que lhe foram delicadas capelas e altares; que as sua imagens e estátuas com sinais de Bem aventurado e coroadas de auréolas, eram expostas à veneração particular e pública, e distribuídas pelos fiéis que as pediam. Acrescem os reconhecimentos e transladações do seu corpo e relíquias, feitas canonicamente em 1522, 1548, 1768, 1836 e 1906, em que se afirma ter havido graças e prodígios operados por Deus por intervenção sua em favor dos fiéis que imploravam a sua proteção.

Finalmente em 14 de Fevereiro de 191 7 por pedidos instantes do Em.mo e Rev.mo Senhor Cardeal D. Antônio Mendes Belo e do Episcopado Português, bem como do Postulador Geral da Ordem do Carmo em Roma, a Sagrada Congregação dos Ritos ultrapassou algumas formalidades e em 1 5 de Janeiro de 191 8 esta Congregação propõe a Sua Santidade Sento XV que houve por bem confirmar e ratificar a sentença de culto prestado desde tempos imemoriais ao Servo de Deus Nuno Álvares Pereira, leigo, professo, da Ordem dos Carmelitas Calçados. Sendo proclamado Beato Nuno de Santa Maria a 23 de Janeiro de 191 8.

A partir daqui foi um trabalho constante para preparar a sua canonização com várias iniciativas da Ordem Terceira do Carmo e a Cruzada Nuno Álvares e mais tarde a Ala do Santo Condestável. Estamos em 1940, data em que o Papa Pio XII pensou em canonizá-lo por equipolência (por Decreto), mas o Processo não foi adiante. Em 28 de Maio de 1941 num documento que se chama "Restrito de Reassunção da Causa" Sua Santidade Pio XI 1 autoriza começar o Processo da Canonização "Via milagre". Muito se trabalhou até 1948 neste Processo que parou abruptamente sem ainda se descobrir a sua causa. Em 1960, ao celebrar se o 61 Centenário do seu nascimento, recomeçou se a campanha com as relíquias percorrendo Portugal, mas antes do seu final rebentou a guerra no Ultramar Português que aglutinou toda a atenção dos portugueses, ficando mais uma vez para segundo plano o Processo de Canonização.

Em 13 de Abril de 2000 fui nomeado Vice Postulador para a Causa de Canonização do Servo de Deus Nuno de Santa Maria Álvares Pereira pelo Postulador da Ordem Carmelita, Pe. Frei Filipe Amenós i Bonet.

Comecei por fazer uma recolha de assinaturas para pedir ao Santo Padre a Canonização por Decreto como Pio XII o queria fazer. Houve uma recepção e colaboração, recolhendo-se muitos milhares de assinaturas. Enviadas estas para a Causa dos Santos foi-nos respondido que não poderia ser por este meio, mas como Pio XII tinha indicado "via milagre". Começando os preparativos tivemos a alegria de no dia 13 de Julho de 2003 em sessão solene nas Ruínas do Carmo, o Em.mo e Rev.mo Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José da Cruz Policarpo, reabria o Processo da "fama e santidade" do Beato Nuno de Santa Maria, nomeando um tribunal e a Comissão Histórica para o efeito. O Trabalho decorreu a bom ritmo de modo que em 03 de Abril de 2004 o mesmo Senhor Cardeal encerrava o Processo em Sessão Solene na Igreja do Santo Condestável em Lisboa.

No dia 23 de Novembro de 2004 o Em.mo e Rev.mo Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa, nomeava por sua vez o tribunal que estudaria o Processo do suposto milagre ocorrido na pessoa da Dona Guilhermina de Jesus. No dia 29 de Setembro de 2000 estando ela a fritar peixe salpicou óleo fervente atingindo a córnea do olho esquerdo. Não obedecendo aos tratamentos, ele e um grupo de pessoas fizeram a Novena ao Beato Nuno pedindo a cura.

Esta cura operou-se na noite de 07 de Dezembro instantaneamente.

Este Processo encerrou-se no dia 10 de Janeiro de 2005 e enviado para a Causa dos Santos em Roma.

Em 17 de Outubro de 2006 recebemos da Causa dos Santos pela informação do Padre Emanuel Boaga uma nota a pedir-nos que a Comissão Histórica preparasse mais um estudo complementar, pois o primeiro trabalho desta só contemplava o período pós a Beatificação e não o anterior. Como o Processo da Beatificação foi só para provar que tinha havido culto ininterrupto desde a sua morte, não contemplou as obras escritas. Assim deste modo no dia 11 de Janeiro de 2007 torna posse um novo tribunal e a Comissão Histórica com a finalidade de apresentar o estudo suplementar ao primeiro processo.

Dedicou-se esta Comissão ao árduo trabalho de investigação centrada no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, na Biblioteca Nacional de Lisboa, na Biblioteca Carmelita, na Biblioteca da Academia das Ciências e outras. Todo este estudo estava concluído em poucos meses.

Depois de tudo entregue e aceite na Congregação para a Causa dos santos e dos convenientes estudos, o Santo Padre Bento XVI aprova os decretos sobre as virtudes heróicas do beato Nuno de Santa Maria e o Decreto sobre o milagre no dia 03 de Julho de 2008 e em 21 de Fevereiro marca o dia 26 de Abril de 2009 para a cerimônia da Canonização. Com esta cerimônia dá-se por concluído este processo que conheceu vários tempos e várias vicissitudes.

A minha sensação neste momento é de regozijo por estar envolvido neste trabalho que com a graça de Deus e a proteção maternal de Maria Santíssima chegou a um bom êxito.

São Nuno de Santa Maria: “Exemplo heroico em tempo de crise”. Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa por ocasião da canonização de Nuno Álvares Pereira

1. Nuno Álvares Pereira proclamado santo

A 21 de Fevereiro de 2009, o Papa Bento XVI anunciou a canonização de D. Nuno Álvares Pereira o já beato Nuno de Santa Maria para o dia 26 de Abril, junto com outras quatro figuras ilustres da Igreja.

Este facto é para Portugal e os portugueses motivo de júbilo e de esperança. Deve também constituir ocasião de reflexão sobre as qualidades e virtudes heróicas desta relevante personagem histórica, digna de ser conhecida e imitada nos dias de hoje. Nuno Álvares Pereira viveu em tempos difíceis de crise dinástica, com fortes divisões no tecido social e político português, que punham em perigo a própria identidade e independência da Nação.

Os Bispos de Portugal, em nome de todos os católicos do nosso país, desejam exprimir a sua alegria e gratidão pelo reconhecimento oficial da santidade heróica de mais um filho da nossa terra. Ultrapassando a mera saudade do passado e assumindo, com realismo e esperança, o tempo que nos é dado viver, querem ressaltar algumas virtudes heróicas de Nuno Álvares Pereira, cuja imitação ajudará a responder aos desafios do tempo presente.

2. Breves dados biográficos

Nascido em 1360, Nuno Álvares Pereira foi educado nos ideais nobres da Cavalaria medieval, no ambiente das ordens militares e depois na corte real. Tal ambiente mareou a sua juventude. As suas qualidades e virtudes impressionaram particularmente o Mestre de Aviz, futuro rei D. João 1, que encontrou em D. Nuno o exímio chefe militar, estratégia das batalhas dos Atoleiros, de Aljubarrota e Valverde, vencidas mais por mérito das suas virtudes pessoais e da sua táctica militar do que pelo poder bélico dos meios humanos e dos recursos materiais.

Casou com Dª. Leonor Alvim de quem teve três filhos, sobrevivendo apenas a sua filha Beatriz, que viria a casar com D. Afonso, dando origem à Casa de Bragança. Tendo ficado viúvo muito cedo e estando consolidada a paz, decidiu aprofundar os ideais da Cavalaria e dedicar se mais intensamente aos valores do Evangelho, sobretudo à prática da oração e ao auxílio dos pobres. Assim, pediu para ser admitido como membro da Ordem do Carmo, que conhecera em Moura e apreciara pela sua vida de intensa oração, tomando o profeta Elias e Nossa Senhora como modelos no seguimento de Cristo.

De Moura, no Alentejo, vieram alguns membros da comunidade carmelita, para o novo convento que ele mesmo mandara construir em Lisboa. Em 1422, entra nesta comunidade e, a 15 de Agosto de 1423, professa como simples irmão, encarregado de atender a portaria e ajudar os (D. Nuno Álvares Pereira entrega o Convento do Carmo, por ele mandado construir, aos Carmelitas) pobres. Passou então a ser Frei Nuno de Santa Maria. Depois de uma intensa vida de oração e de bem fazer, numa conduta de grande humildade, simplicidade e amor à Virgem Maria e aos pobres, faleceu no convento do Carmo, onde foi sepultado.

Logo após a sua morte começou a ser venerado como santo pela piedade popular. As suas virtudes heróicas foram oficialmente reconhecidas pelo Papa Bento XV, que o proclamou beato, em 19 1 8, passando a ter celebração litúrgica a 6 de Novembro.

 
3. Virtudes e valores afirmados na vida de Nuno Álvares Pereira

D. Nuno Álvares Pereira não é apenas o herói nacional, homem corajoso, austero, coerente, amigo da Pátria e dos pobres, que os cronistas e historiadores nos apresentam. Ele é também um homem santo. A sua coragem heróica em defender a identidade nacional, o seu desprendimento dos bens -e amor aos mais necessitados brotavam, como água da fonte, do amor a Cristo e à Igreja.

A sua beatificação, nos começos do século XX, apresentou o ao povo de Deus como modelo de santidade e intercessor junto de Deus, a quem se pode recorrer nas tribulações e alegrias da vida.

Conscientes de que todos os santos são filhos do seu tempo e devem ser vistos e interpretados com os critérios próprios da sua época, desejamos propor alguns valores evangélicos que pautaram a sua vida e nos parecem de maior relevância e atualidade.

Os ideais da Cavalaria, nos quais se formou D. Nuno, podem agrupar se em três arcos de ação: no plano militar, sobressaem a coragem, a lealdade e a generosidade; no campo religioso, evidenciam se a fidelidade à Igreja, a obediência e a castidade; a nível social, propõem se a cortesia, a humildade e a beneficência. Foram estes valores que impregnaram a personalidade de Nuno Álvares Pereira, em todas as vicissitudes da sua vida, como documentam os seus feitos militares, familiares, sociais e conventuais.

Fazia também parte dos ideais da Cavalaria a proteção das viúvas e dos órfãos, assim como o auxilio aos pobres. Em D. Nuno, estes ideais tornaram se virtudes intensamente vividas, tanto no tempo das lides guerreiras como principalmente quando se desprendeu de tudo e professou na Ordem do Carmo. Como porteiro e esmoler da comunidade, acolhia os pobres de -Lisboa, que batiam ás portas do convento e atendia os com grande humildade e generosidade. Diz-se que teve aqui origem a "sopa dos pobres".

Levado pela sua invulgar humildade, iluminada pela fé, desprendeu se de todos os seus bens que eram muitos, pois o Rei o tinha recompensado com numerosas comendas e repartiu-os por instituições religiosas e sociais em beneficio dos necessitados. Desejoso de seguir radicalmente a Jesus Cristo, optou por uma vida simples e pobre no Convento do Carmo e disponibilizou-se totalmente para acolher e servir os mais desfavorecidos. Esta foi a última batalha da sua vida. Para ela se preparou com as armas espirituais de que falam a carta aos Efésios (cf. Ef 6, 10 20) e a Regra do Carmo: a couraça da justiça, a espada do Espírito (isto é, a Palavra de Deus), o escudo da fé, a oração, o espírito de serviço para anunciar o Evangelho da paz, a perseverança na prática do bem.

Precisamos de figuras como Nuno Álvares Pereira: íntegras, coerentes, santas, ou seja, amigas de Deus e das suas criaturas, sobretudo das mais débeis. São pessoas como estas que despertam a confiança e o dinamismo da sociedade, que fazem superar e vencer as crises.

 

4. Apelo à Igreja em Portugal e a todos os homens e mulheres de boa vontade

Ao aproximar-se a data da canonização do beato Nuno Álvares Pereira, pelo Papa Bento XVI, -em Roma, alegramo-nos por ver mais um filho da nossa terra elevado às honras dos altares. Algumas peregrinações estão a ser organizadas para marcar a nossa presença na Praça de S. Pedro, na festa da sua canonização, no dia 26 de Abril. Confiamos que outras iniciativas pastorais sejam promovidas para dar a conhecer e propor como modelo o exemplo de virtude heróica que nos deixou este nosso irmão na fé.

A pessoa e ação de Nuno Álvares Pereira são bem conhecidas do povo português.

A nível civil, é lembrado em monumentos, praças e instituições; a nível religioso, é celebrado em igrejas, imagens e associações. Figura incontornável da nossa história, importa revitalizar a sua memória e dar a conhecer o seu testemunho de vida. Para além de ser um modelo de santidade, no seguimento radical de Cristo, que "não veio para ser servido mas para servir" (Mt 20, 28), apraz nos pôr em relevo alguns aspectos de particular atualidade, para todos os homens e mulheres de boa vontade:

Nuno Álvares Pereira foi um homem de Estado, que soube colocar os superiores interesses da Nação acima das suas conveniências, pretensões ou carreira. Fez da sua vida uma missão, correndo todos os riscos para bem servir a Pátria e o povo.

Em tempo de grave crise nacional, optou corajosamente por ser, parte da solução e, numa entrega sem limites, enfrentou com esperança os enormes desafios sociais e políticos da Nação.

Coroado de glória com as vitórias alcançadas, senhor de imensas terras, despojou se os seus bens e optou pela radicalidade do seguimento de Cristo, como simples irmão da Ordem dos Carmelitas.

Não se valeu dos seus títulos de nobreza, prestígio e riqueza, para viver num clima de luxos e grandezas, mas optou por servir preferencialmente os pobres é necessitados do seu tempo.

Vivemos em tempo de crise global, que tem origem num vazio de valores morais. O esbanjamento, a corrupção, a busca imparável do bem estar material, o relativismo que facilita o uso de todos os meios para alcançar os próprios benefícios, geraram um quadro de desemprego, de angústia e de pobreza que ameaçam as bases sobre as quais se organiza a sociedade. Neste contexto, o testemunho de vida de D. Nuno constituirá uma força de mudança em favor da justiça e da fraternidade, da promoção de estilos de vida mais sóbrios e solidários e de iniciativas de partilha de bens. Será também um apelo a uma cidadania exemplarmente vivida e um forte convite à dignificação da vida política como expressão do melhor humanismo ao serviço do bem comum.

Os Bispos de Portugal propõem, portanto, aos homens e mulheres de hoje o exemplo da vida de Nuno Álvares Pereira, pautada pelos valores evangélicos, orientada pelo maior bem de todos, disponível para lutar pelos superiores interesses da Pátria, solícita por servir os mais desprotegidos e pobres. Assim seremos parte ativa na construção de uma sociedade mais justa e fraterna que todos desejamos.

Fátima, 6 de Março de 2009

06 DE NOVEMBRO: Festa de São Nuno de Santa Maria: Entrevista


A Família Carmelita, (a seguir indicada como F.C.), quis saber mais da vida do Beato Nuno de Santa Maria decidiu fazer uma entrevista ao Vice-Postulador, a seguir indicado como F.F.R.

F. C. - Refira em poucas palavras a vida de D. Nuno Álvares Pereira?

F. F. R. - Nuno Álvares Pereira nasceu em Cernache do Bomjardim, segundo uns, ou em Flor da Rosa, segundo outros, em 24 de Junho de 1360, filho de Álvaro Gonçalves Pereira, Prior do Hospital do Crato e de Ilia Gonçalves do Carvalhal, e perfihado passado um ano ei@ Santarém por D. Pedro.

A mãe procurou e conseguiu que ele fosse educado na corte de D. Fernando e D. Leonor. A Rainha D. Leonor, vendo a sua inteligência e esperteza, fá-lo seu escudeiro aos 13 anos. Forma-se na doutrina da Cavalaria e escolhe para si a figura de Galaad, um dos Cavaleiros da Távola Redonda no qual se inspira para uma. vida de virtude. Como ele, quis ser puro para merecer seguir a sua dama escolhida, Nossa Senhora.

Contudo, aos 16 anos, por obediência ao pai, tem que renunciar aos seus propósitos e contrai matrimônio com D. Leonor Alvim, deixando a corte para ir viver em Pedraça, Cabeceiras de Basto. Do matrimônio nasceram três filhos, dos quais só sobreviveu uma menina de nome Beatriz.

Dali foi, chamado para defender a zona fronteiriça do norte. Logo viu que para se fazer alguma coisa de sucesso precisaria de moralizar as tropas e prepará-las para os grandes feitos que se seguiram. Começou este trabalho em Chaves, dando assim inicio à sua gesta militar. Esta teve como seus pontos altos a vitória de Atoleiros, Aljubarrota e Valverde. Depois de consolidada a independência da nação portuguesa, entra no Convento do Carmo por ele construído, tomando o hábito de Irmão Donato da’Ordem Carmelita. No dia de Todos os Santos de 1431 entregou a sua vida ao criador. Morreu com fama de Santidade.

F. C. - Quais são os seus ideais?

F. F. R. -1. Viver o Espírito da Cavalaria, ser mesmo como o Galaad que de tão puro com a sua lança tocaria o sol no cimo duma montanha.

2. Integridade como homem, como cristão e como cidadão.

3. Amor à Pátria.

4. Amor e fidelidade à Igreja.

5. Amor à Verdade.

6. Amor à Castidade e Obediência. Vividas na fé, esperança e caridade.

 

F. C. - Porque se envolveu na luta contra os castelhanos?

F. F. R. - Para Nuno é muito claro que Portugal tem que ser independente de Castela e nas Cortes de Coimbra manifesta as suas razões:

1.  Pela morte de D. Fernando, deveria suceder-lhe a sua esposa D. Leonor. No entanto, isto não poderia ser porque, estando D. Leonor amantizada com o Conde Andeiro, era escândalo à moral pública.

2.  Na linha da sucessão estaria a sua filha D. Brites casada com D. João de Castela. Também neste caso, havia impedimento, porque Castela seguia o Papa Cismático de Avignon e Portugal deixaria de ser a nação fidelíssima a Roma.

3.  Então seria D. João, Mestre de Avis, filho de D. Pedro que recolhia melhores condições.

Portugal encontrava-se num estado de crise e indefinição relativamente à sucessão dinástica. Os nobres, por causa da sua palavra, estavam da parte de Castela. D. Nuno vai contra a tendência geral porque põe acima da palavra por Castela, a moral e a fidelidade à Igreja.

F. C. - A quem atribuía ele as Vitórias alcançadas?

F.F. R. - A Deus e a Nossa Senhora, pois ele afirmava que ‘todo o vencimento vem de Deus e não dos homens”. Dom Nuno antes de cada batalha visitava o santuário Mariano mais próximo e depois voltava para agradecer o bom resultado. Aquando de Atoleiros, vai em peregrinação de pés descalços ao santuário de Assumar, aquando de Aljubarrota vai a Seiça. Procurava andar na presença de Deus. Comungava sempre que era permitido. Comungava os’dias em que era permitido, ou seja, pelo Natal, Páscoa, Pentecostes e Assunção. Assistia a duas Missas por dia e três aos domingos, mesmo durante as batalhas. Levava também os seus homens de armas a viver uma vida cristã como o atesta o cronista dos Carmelitas, Frei José Pereira Santana, quando nos testemunha: “no dia 14 de Agosto de 1385, no dia da batalha de Aljubarrota, todos os homens do exercito português estavam em jejum e quase todos confessados e comungados’.

F. C. - Como era o seu comportamento nas Batalhas?

F. F. R. -  O seu pensamento era a independência da nação portuguesa e não a destruição ou a morte do exército contrário. Ele nunca fez guerra, só defendia. Nunca se vislumbrou nele o sentido da vingança. Que mortandade não seria se em Aljubarrota quando o exército castelhano se pôs em fuga ele incitasse o exército Português à perseguição?! Ou quando em Valverde começa a debandada castelhana, ele entrasse em perseguição?! Antes pelo contrário recebeu e deu terras aos castelhanos que quiseram ficar cá.

F. C. - Como tratava o seu exército e os adversários?

F. F. R. - Com muito respeito, pois para ele todo o homem é irmão e merece respeito e consideração. Muitas das suas riquezas foram divididas pelos seus companheiros de armas. Quanto aos adversários, portugueses e castelhanos, respeitava-os do mesmo modo. Num ano de fome, manda abrir os seus celeiros e distribuiu pelas populações de cá e de Castela as suas provisões. Era exigente com os seus homens de armas e não deixava que se entregassem a exageros para com os vencidos ou os seus haveres, punindo severamente os abusos.

F. C. - Qual a herança que nos deixou?

F. F. R. -  Deixou-nos sem dúvida, o testemunho da sua vida de homem íntegro, amante do Homem e da nação portuguesa e o dom da sua vida por todos, colocando Deus acima de todos os interesses. Deixou-nos um testemunho de uma vida e consagrada a Deus, uma vida de virtudes e uma grande devoção a Nossa Senhora. Um testemunho a toda a prova de que a nossa nação é merecedora duma vida de luta pelos ideais do bem.

Deixou a herança duma nação independente para seguir o seu rumo.

F. C. - Quais as virtudes e devoções mais arreigadas no Beato Nuno?

F. F. R.   - Esta pergunta pode-se responder cintando o Cronista Carmelita, Frei José Pereira Santana, mas como é demasiado longo, apoiar-me-ei nele dizendo que as suas devoções mais arreigadas eram a Eucaristia e a veneração a Nossa Senhora. Integrado no seu tempo, comungava as quatro vezes possíveis - Natal, Páscoa, Pentecostes e Assunção da Virgem. Tal era a veneração pela Eucaristia que participava em duas Missas diariamente mesmo nas batalhas e aos domingo três. Depois de religioso, na sua capela privativa passava muitas horas e noites na Adoração do Santíssimo Sacramento, e em atos de penitência. Quanto à devoção a Nossa Senhora, citemos o referido cronista // na presença da soberana imagem Maria Senhora Nossa, com o título da Assunção, derramava copiosas lágrimas: e com elas, melhor o que com as vozes, lhe expunha as suas súplicas, nas ocasiões que para si ou para os seus patrocinados lhe pedia favores”.

Outras virtudes vividas na sua vida foram a obediência, a castidade, a humildade, a caridade e a penitência. Toda a sua vida era impregnada pela oração,faltando mesmo com o descanso ao corpo para aproveitar da maior parte da noite orando mental e vocalmente.

F. C. - Como viveu a caridade e desprendimento?

F. F. R. - A caridade esteve sempre presente na sua vida particularmente no partilhar tudo o que possuía. O seu desprendimento dos bens foi até ao extremo distribuindo tudo pelos pobres e pelos seus colegas de armas e pelas comunidades e igrejas que construiu. Quando entrou no Convento levava apenas a roupa vestida. Realizou bem em si o que aprendeu de Cristo, que sendo rico se fez pobre, assumindo a condição de servo’: ele que era senhor de mais de metade de Portugal.

F. C. - Depreende-se daqui o que foi a sua vida como religioso?

F. F. R. - Sim. Como religioso, foi um homem de oração intensa. Exercitou a atenção e o respeito a todos. Foi exemplar na sua vida cristã e social. Amava intensamente a nação portuguesa, à qual tributava uma extraordinária fidelidade. Notório o seu zelo pela expansão missionária do Reino de Deus. Incomparável distribuidor de esmolas pelos pobres à porta do Convento e pelas suas casas a quem assistia na pobreza e na doença.

F. C. - Ouvi dizer que foi o fundador do Laicado Carmelita?

F. F. R. - Ele não se preocupava só material e espiritual de todos. Fez uma confraria do Escapulário do Carmo, a quem pertenceram o Rei D. João I e V. Duarte e a maioria dos seus companheiros de armas. O objetivo desta confraria era trabalhar pelo bem das almas, a começar pelas suas. Esta confraria, passados perto de cem anos, passará a ser a primeira Ordem Terceira, que dá origem a outras, Ordens Terceiras e se expande por quase todas as cidades, principalmente no sul. Por isso, é com razão considerado o fundador da espiritualidade dos leigos na Ordem Carmelita.

F. C. - Quando foi que o povo o considerou Santo?

F. F. R. - já durante a sua vida, os pobres lhe chamavam ‘Santo’ e quando os sinos do Carmo anunciaram a morte de Dom Nuno, ouviu-se em Lisboa o grito ‘morreu o Santo’ ou dimorreu o santinho’. Seis anos depois da sua morte, já D. Duarte pede ao superior dos Beneditinos em Florença para pedir ao Papa a organização da sua canonização. D. João IV, em 1641, volta a insistir sobre o mesmo projeto em Roma. Os milagres começaram a aparecer logo depois da sua morte. O povo rezava-lhe e já o cronista Carmelita, Frei José Pereira Santana tem um longo capítulo de milagres obtidos pela sua intercessão. Quando se fez o processo de culto continuado a partir da sua morte, não foi difícil prová-lo.

Papa Bento XV, como decreto “Clementissímus Deus” de 23 de janeiro de 1918, reconheceu esse culto. Pio XII também o reconheceu, tanto o que desejava canonizar por Decreto. Em 1940 propõem-no como modelo de todas as tropas mesmo em batalha.

Para o povo ele já é o Beato Nuno ou o Santo Condestável e com este título é atualmente o Padroeiro de duas Paróquias, uma em Lisboa e outra em Bragança.

F. C. - Quais os passos dados a preparar a sua Canonização?

F. F. R. -  Desde o “rescrito” de Pio XII em que manda tratar-se do processo normal. De 1941 até 1947 trabalhou-se na organização do mesmo que de repente se interrompeu.’Na celebração do 6’ centenário do seu nascimento um novo impulso se deu com a visita das relíquias a todas as paróquias. No entanto, esta iniciativa foi interrompida pelo estalar da guerra no Ultramar Português. Em 2001 foi retomada a Causa da Canonização que agora chega ao fim com êxito. Os passos propriamente dados foram a organização dos Processos sobre as virtudes, incluindo os estudos históricos e o do milagre. Realizados estes e enviados para a Roma e lá estudados, o Santo Padre em 3 de julho de 2008 assinou os decretos finais, ou seja, o reconhecimento das virtudes heróicas e a veracidade do milagre. Agora, no passado dia 21 de Fevereiro o Santo Padre anunciou a cerimônia da Canonização para o dia 26 de Abril de 2009 na Praça de São Pedro.

F. C. - Acha oportuna esta data e esta ocasião para a Canonização?

F. F. R. - Acho muito oportuna, pois é sinal de esperança para o momento de crise que estamos a viver. Quando ele vivia, Portugal passou em 1383-85 a maior crise de sucessão dinástica e de valores nacionais. Nesse contexto, aparece D. Nuno apontando soluções de fidelidade a Deus, à Igreja e à moral, Quando é beatificado em 1918, o mundo está a sair da Primeira Guerra Mundial. Portugal tem de consolidar a República que, anos antes, tinha começado: Nossa Senhora em Fátima tinha pedido oração, penitência e conversão para merecermos a paz e proteção de Deus. Hoje a Canonização do Beato Nuno de Santa Maria é novamente um apelo à seriedade de vida humana, cristã e social, regida pelos valores do Evangelho.