Total de visualizações de página

Seguidores

terça-feira, 2 de abril de 2013

Perdoar ajuda a se conectar com emoções positivas


 Por Lilian Graziano 

 
"O perdão é um dos exercícios que se faz em busca de emoções mais positivas" Às 11h30 da noite, depois de todas as luzes apagadas, todos na cama: o vizinho bate à porta. Em tom belicoso, diz que o gato daquela casa fez cocô em seu jardim.

Não contente com a atitude compreensiva do morador, que já pensava em providências, ele diz que tem fotos do gato. E manda que, no sereno, o morador vá limpar seu jardim. Esse não concorda com a agressividade do vizinho, mas não diz: conta até 10, sabe que está errado - naquele condomínio os gatos não podem passear pelas casas. E vai limpar o jardim, mesmo achando grosseira a abordagem.

Não pensou o vizinho que isso seria desnecessário: bastava que informasse o problema (e não às 11 da noite) e tudo poderia ser resolvido para que não acontecesse mais. E ainda restavam as medidas civilizadas: informar o condomínio para que as multas fossem aplicadas, sem desgastes entre vizinhos.

Mas o morador limpa tudo e se desculpa, várias vezes. Tanto que o vizinho fica sem graça. Afinal de contas, ele estava armado: calcanhares duros, atitude pensada para acordar todos naquela casa, voz empostada... ah, e tinha as fotos do gato, seja lá o que fosse fazer com isso. Tudo levava a crer que ele queria só briga.

Quantas não são as situações assim, em que nos munimos e nos preparamos para verdadeiras guerras, quando os motivos são tão bobos quanto um cocô no jardim? Trata-se de um estresse que muitas vezes nada acrescenta ao outro, nem a si. Às vezes porque o outro nem liga, não vê importância no que se reivindica.

Também não são as atitudes impositivas, violentas que mudarão o comportamento ou o modo de pensar do indivíduo a quem se dirige toda a munição. É fato que a agressividade dissolve a validade de qualquer argumento.

Para evitar o comportamento bélico no cotidiano, é preciso economizar no armamento e esbanjar compreensão. Uma discussão pautada no entendimento mútuo das posições é, em qualquer caso, o melhor caminho. Oponentes só existem de fato no xadrez, nos jogos desportivos - e, mesmo assim, com honras de cavalheiros, regras para os embates; nem mesmo a política ou a religião revelam opositores: o que se busca, muitas vezes, são ideais comuns, como a sobrevivência e Deus.

Não à toa, a generosidade é uma das forças pessoais descritas pela Psicologia Positiva (veja aqui), assim como o amor. E o perdão é um dos exercícios que se faz em busca de emoções mais positivas. Por que não aplicá-los nas pequenas coisas do dia a dia?

Na situação entre o morador e o vizinho, tudo parece ter sido exercitado, ainda que em descompasso: o primeiro foi gentil, quando podia ter sido extremamente grosseiro - generoso à medida que compreendeu a chateação do vizinho diante da regra infringida. O segundo, perdoou - ao ver o morador consternado, relevou, desarmou-se. E por que não se evitou, então, o estresse da primeira impressão, do chamado tarde da noite e da coerção para limpar o jardim?

Precisamos nos preparar para a convivência pacífica e entender que primeiro vem os argumentos, a compreensão e os instrumentos civilizatórios, como as leis e o voto para resolver os impasses. E depois vem todo o resto, sempre como atitude desesperada para defender uma posição ou um ponto de vista. E usando a máxima do profeta José Datrino (ou profeta Gentileza ou José Agradecido), um talvez sábio andarilho que passou pelo Rio de Janeiro e por outras cidades brasileiras, a filosofar sobre o comportamento humano: GENTILEZA GERA GENTILEZA. E assim caminhará a humanidade, rumo a atitudes mais generosas, nas pequenas coisas e, como consequência, nos grandes feitos, rumo à paz mundial.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

É a política, Francisco!

“O caminho dos fatos ditará a direção que o novo pontificado vai seguir: se entrará em uma disputa pela conservação do povo em sua generalidade abstrata, consolidando os postulados conservadores da Igreja, ou se modificará seus fundamentos, apontando, a partir da ruptura do protocolo, para a parte que corresponde à Igreja, respondendo às necessidades religiosas das minorias e produzindo novas condições de governabilidade”. A análise é de Diego Ezequiel Litvinoff, em artigo publicado no jornal Página/12, 28-03-2013. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Uma vez superada a euforia e a emoção da posse, o Papa Francisco deverá administrar o Vaticano. Embora por suas características este governo se diferencie de seus pares europeus, suas situações de crise são similares. E não se trata unicamente de problemas econômicos, mas do que eles manifestam: uma verdadeira crise de governabilidade.
Em seu último livro editado na Argentina, Opus Dei. Arqueologia do ofício, Giorgio Agamben [a sair no Brasil na segunda quinzena de abril] assinala que a forma moderna de governo ocidental encontrou seu paradigma no esquema desenvolvido a partir da institucionalização da Igreja. A necessidade de formar um corpo permanente de sacerdotes se chocava com o caráter de comunidade carismática da Igreja primitiva, fundada sobre os princípios cristãos entendidos como acontecimentos. Para resolver esse dilema, os Padres da Igreja – remetendo-se a um marco conceitual que tem suas raízes em práticas públicas gregas e reflexões filosóficas estoicas – definiram a função sacerdotal com a palavra officium. Este termo indica uma tarefa que só se cumpre ao realizar os atos que lhe competem enquanto instrumento da economia divina, o que significa que “o sacerdote é aquele ente cujo ser é imediatamente uma tarefa e um serviço, isto é, uma liturgia” (p. 136).
A importância que Agamben outorga a este conceito está em que este funda, na história ocidental, uma nova ontologia. Diferenciando-se das ações definidas na Antiguidade, o officium refere-se a uma tarefa cujo único conteúdo é sua efetualidade, dado que o importante já não é “como é preciso ser para obrar”, mas que, pelo contrário, o que se coloca em jogo é “como é preciso obrar para ser”.
É essa ontologia que a modernidade tomou como paradigma e que funda a situação de governo que lhe é própria, constituindo-se assim o modelo de conduta de toda a instituição moderna, que “trata de distinguir o indivíduo da função que exerce, de modo a assegurar a validade dos atos que cumpre em nome da instituição” (p. 42). Mas é essa mesma ontologia, que chega à sua máxima expressão durante o neoliberalismo, que, segundo Agamben, está perdendo seu poder. Não é casual, então, que a crise de governo encontre na Igreja um de seus epicentros.
O novo Papa provém de um continente que deu respostas inovadoras a esta crise de governabilidade. Com líderes que se envolveram pessoalmente em sua atividade, revalorizando a político como reitora da economia, dando relevância à palavra e conteúdo aos gestos e deixando literalmente sua vida nela, a América Latina redefiniu a ontologia efetual. O poder político já não se concebe nestas terras como uma função que representa um país em sua totalidade. Intrincada em uma complexa luta de interesses, a política assume sua condição de parte, produzindo um espaço que deixa de ser o vazio a partir do qual se administra os recursos, para cumular-se de uma parcialidade. O sujeito que o ocupa deixa de ser um instrumento e coloca sua assinatura nele. Se o preço que paga por isso é ser um homem comum em circunstâncias excepcionais, esse homem comum, com nome e sobrenome, pode assumir a representação do povo, do qual nunca deixou de fazer parte, e que, longe de assumir uma totalidade abstrata, se define fracionando-se, a partir das diversas minorias.
Sendo uma das partes do conflito de poder na Argentina, não obstante, Bergoglio encontrou no discurso impessoal do acordo e na necessidade do diálogo uma arma para fazer valer os interesses de seu setor. À frente do Estado do Vaticano, diálogo e acordo solicitarão os que cometerem os crimes mais atrozes. Nesse mesmo sentido se pode entender a humildade e o culto à pobreza, que, sendo tão antigos quanto a religião, se assemelham àquilo que Angela Merkel propõe à Europa. Outros sinais, no entanto, permitem vislumbrar uma mudança, como o longo encontro que teve com Cristina e sua referência à América Latina como a Pátria Grande.
Quando Francisco, ao tomar posse, rompeu o protocolo e se aproximou de seus fiéis, não apenas transmitiu um sinal simbólico. Colocou em crise uma função que é 100% protocolar. O caminho dos fatos ditará a direção que o novo pontificado vai seguir: se entrará em uma disputa pela conservação do povo em sua generalidade abstrata, consolidando os postulados conservadores da Igreja, ou se modificará seus fundamentos, apontando, a partir da ruptura do protocolo, para a parte que corresponde à Igreja, respondendo às necessidades religiosas das minorias e produzindo novas condições de governabilidade.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.b

A festa da Páscoa é a festa mais importante da Liturgia Católica

† Orani João Tempesta, O. Cist.. Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

A solene celebração da Ressureição do Senhor Jesus Cristo – Páscoa – está para o ano litúrgico da mesma forma que o domingo para a semana. É a festa mais importante da Liturgia Católica. Por isso também se diz que cada domingo é uma celebração pascal.

O Missal Romano nos educa perfeitamente na celebração do mistério pascal em suas normas universais sobre o ano litúrgico: “O Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do Senhor começa com a missa vespertina na Ceia do Senhor, tem seu centro na Vigília Pascal e encerra-se com as Vésperas do domingo da Ressurreição”.

Voltemos um pouco ao passado para compreender a Liturgia Pascal. A Ásia Menor celebrava a Páscoa no dia 14 de Nisan, já as Igrejas que seguiam a tradição romana celebravam a Páscoa no domingo seguinte a esta data. As duas primeiras homilias da Páscoa remontam do século II. A primeira é de Melitão de Sardes (entre os anos de 165 e 185), porém não se tem a autoria da segunda. Na homilia de Melitão, dividida em três partes, há no centro a reflexão de que a Páscoa judaica já não é fato, pois a verdadeira Páscoa é apresentada na vitória de Jesus sobre o pecado e a morte. Ali se dá a síntese da história da salvação de toda humanidade, desde a criação até a parusia.

Buscando compreender o termo Páscoa, façamos um olhar atento à herança da cultura da época. A palavra Pascoa é uma transliteração do aramaico “paschá”, no hebraico “pesah”, e do grego “pasjein”. O Antigo Testamento apresenta o termo 49 vezes, indicando o rito da lua cheia da primavera em 34 vezes, e em 15 vezes cita o “cordeiro imolado”.

O termo Páscoa lembra a passagem dos judeus pelo Mar Vermelho e o deserto até a entrada na terra prometida. Para os cristãos, esta “passagem” testemunha o movimento da humanidade que migra do pecado à graça da salvação que se dá pela paixão, morte e ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo.

A Liturgia Católica apresenta uma riqueza de ritos neste período em preparação à Páscoa. Desde a Quaresma, Domingo de Ramos até culminar na celebração da Vigília Pascal, que apresenta quatro momentos importantes: celebração da luz, liturgia da palavra, celebração batismal ou renovação das promessas batismais e a celebração eucarística.

Porém, a Páscoa é prorrogada durante a oitava e continua sendo festejada por um período litúrgico chamado de Tempo Pascal, que vai até o Domingo da Ascensão e culmina com a solenidade do dia de Pentecostes, a descida do Espírito Santo sobre a comunidade dos Apóstolos, e hoje estendida a todos nós. Assim, pelo batismo somos os continuadores da presença do Cristo ressuscitado. Depois, a Páscoa é sempre recordada em cada domingo do calendário litúrgico.

A Literatura Católica é muito rica e vasta, com conteúdos que ajudam os fiéis a compreender essa solenidade, como por exemplo, podemos ver alguns itens apresentados no Catecismo da Igreja Católica: “O mistério Pascal no tempo da Igreja, O mistério Pascal nos Sacramentos da Igreja, A celebração sacramental do Mistério Pascal”. Além disso, outros documentos do magistério da Igreja intensificam a reflexão do mistério pascal.

O mistério pascal, conforme o Novo Testamento, mostra o Reino de Deus oculto às massas, mas revelado aos eleitos. Nos escritos de São Paulo Apóstolo, refletimos a salvação que Deus oferece à humanidade de todos os tempos, realizada em Cristo e confiada seguidamente aos apóstolos e a toda Igreja para que se tornem discípulos missionários no anúncio desta realidade salvífica a todos os fiéis.

Acontece uma dinamicidade entre três elementos muito importantes no Mistério Pascal: a) situação de morte, b) a vida que brota da morte, c) a intervenção especial de Deus. Assim, a vida que brota da morte cria a consciência de uma nova criação. Do mesmo modo que fomos criados, fomos redimidos, portanto, “recriados”, saindo dos pecados provocados pelos apetites desenfreados.

Devemos, porém, nos voltar para o mistério salvífico entre Deus e a humanidade, que se dá na doação da vida de Jesus pela humanidade. A primeira aliança foi a libertação do povo israelita da opressão do Egito. A nova e eterna aliança é tirar a humanidade do peso do pecado, libertando-a definitivamente do mal.

Depois de dois milênios, continuamos todos inseridos no mistério da Páscoa – a ressurreição – que já nos é presenteada pelo nosso Batismo e vivência fiel aos sacramentos. Nestes dias, vimos pelos meios de comunicação as diferentes manifestações da Paixão por todo o Brasil. Tivemos celebrações litúrgicas, momentos devocionais populares e manifestações culturais. A época é tão importante que todos manifestam a seu modo um pouco de sua realidade e esperança. Cada lugar fez de acordo com sua tradição e costume. Aqui no Rio de Janeiro também procuramos valorizar a importância da arte. Meus agradecimentos a tantos que celebraram liturgicamente estes momentos profundos e as belas manifestações populares. Parabéns, também, a todos os artistas e músicos que se apresentaram tanto nos Arcos da Lapa como em tantas paróquias e comunidades de nossa Arquidiocese.

Somos chamados a viver a Páscoa e viver como discípulos missionários de Cristo, hoje testemunhando sua Ressurreição! Que esta Páscoa nos renove na caminhada por um mundo de paz e fraternidade, preparando-nos para sermos uma Igreja viva e ressuscitada, quando em julho receberemos os irmãos jovens de todos os continentes para ouvir o nosso querido Papa Francisco que estará conosco.

A Páscoa continua sendo celebrada durante a oitava, como também no tempo pascal e em toda a liturgia da Igreja. Caríssimos, desejo-lhes uma FELIZ E SANTA PÁSCOA!

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

terça-feira, 26 de março de 2013

As religiosas e Francisco

             Elas são as "irmãs" norte-americanas que aderem à Leadership Conference of Women Religious, a associação que reúne 57 mil religiosas, ou 80% das irmãs católicas dos EUA. "Eu tenho uma grande esperança no novo pontífice", confessa Nancy Silvester, irmã do Imaculado Coração de Maria, observando que há "sinais positivos, como a sua atenção pelos pobres e a sua compaixão". Sinais de que ele pode ser "um papa mais empático". A nota é de Giacomo Galeazzi, publicada no blog Oltretevere, 22-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Elas foram postas "sob observação" por parte de algumas comissões do Vaticano por causa da sua abertura sobre questões como o aborto e a homossexualidade. E elas estão na mira da Congregação para a Doutrina da Fé desde 2009 por causa de "excessivo compromisso com questões de justiça social" que as teria afastado de dogmas considerados cruciais pela Igreja de Roma.

Agora, as irmãs norte-americanas esperam que o Papa Francisco, o primeiro pontífice jesuíta, seja portador de um novo rumo também para elas. O próprio arcebispo de Nova York, o cardeal Timothy Dolan, defendeu que o Papa Francisco trará um "novo frescor" para abordar aqueles pontos delicados que muitas vezes viu as irmãs norte-americanas e o Vaticano em posições contrastantes.

Mas "é muito cedo para dizer se ele usará uma mão mais leve" com relação à conferência das irmãs dos EUA. "Eu penso – acrescentou Dolan – que a mensagem do pontífice será: não tenham medo, falemos abertamente, estejamos todos no mesmo caminho juntos e que possamos aprender uns com os outros".

O fato é que o Vaticano lançou uma profunda reforma da Leadership Conference of Women Religious depois de ter decretado que as irmãs haviam tomado posições em desacordo com a Igreja sobre questões como a homossexualidade, o celibato. E promovendo "visões feministas radicais incompatíveis com o catolicismo".

O arcebispo de Seattle, Peter Sartain, e outros dois prelados norte-americanos estão reescrevendo o estatuto da Conferência, de modo a assegurar que o grupo siga fielmente as indicações da Igreja de Roma.

Permanece firme, porém, o protesto das irmãs, que defendem que o Vaticano "chegou a conclusões equivocadas com base em acusações não comprovadas". Quem expressa um otimismo cauteloso com relação a um novo curso é agora a Ir. Simone Campbell, diretora do Network, um grupo de irmãs norte-americanas que lutam particularmente pela justiça social: "É um momento de expectativa sobre o que o Papa Francisco irá fazer. Certamente, um pontífice que conhece a vida nas ordens religiosas como ele pode fazer uma grande diferença".


 

sábado, 23 de março de 2013

Vida despedaçada.


Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita da Ordem do Carmo, estudante de Jornalismo da Fapcom- Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação. Convento do Carmo, São Paulo. 23 de março-2012.  

Vida? Que vida? No morro não se nasce, não tem passos, não tem laços, não tem braços. No morro tem fracasso, tem um grito, um suspiro, um lamento, um olhar e um destino já marcado, traçado, crucificado, condenado, amarrado e deletado.

No morro do Alemão ele nasceu. Era um dia de chuva. Os raios e trovões o acolheram naquela tarde quente. Sua mãe, Teresa Joaquina da Silva, vítima de um estupro com o traficante Pedrão da Pedra Lascada Quente, foi mais uma vítima das estatísticas violenta contra a mulher.   

Mulheres? No morro não tem mulheres. Lá tem objetos do prazer. Cobaia para traficar, bumbum para alegrar, cabelos para enfeitar, sorriso para enganar e carne para saborear. 

A família de Teresa era da Igreja do Apocalipse Ardente. Não importava se foi estupro ou não, para eles a criança tinha que nascer. Aborto era coisa do diabo e pecado mortal.

Pecado mortal? No morro não tem pecado. Todos querem sobreviver, lutar, ganhar a vida, cantar, ultrapassar os conceitos e pré-conceitos. Falar com Deus com o baseado na mão e dar glórias a Jesus com um tiro de escopeta. 

Mesmo assim, aquela aflita mãe tentou várias vezes matar o filho. Todas em vão. Foram nove meses gerando uma criança que seria vítima do destino ensanguentado e da falta de sorte. Destino por seguir os passos do pai e falta de sorte por a sua infância roubada.

Destino? Que destino! Destino se faz na raça, na luta e labuta, no tiro e no grito, no agito e na raça.
No dia treze de janeiro de 2013 nascia Pedrinho. Sua cor negra já trazia a marca da discriminação. Os seus olhos pareciam assustados, suas mãos inquietas eram com se já estivessem pedindo socorro.

Socorro? No morro não tem socorro, tem sorte, tem luta, labuta, corrida contra o tempo a morte e a sorte. Sim meu velho, no morro se vive o céu de manhã, o purgatório à tarde e o inferno à noite.

Por alguns anos aquela criança foi à alegria da casa. Teresona, nome de guerra da mãe, voltou a se encontrar com o traficante Pedrão. Entre a violência doméstica, o choro e a miséria, o menino crescia e convivia em um mundo cão.

Mundo cão? Cão é o dia cinzento, escuro e frio. Sim, frio nos becos, rua e vielas marcadas pelas balas berdidas, os sonhos partidos e as vidas cruzadas.

Aos oito anos Pedrinho desceu o morro. Mas para onde ele foi? Para a escola? Para o Parque de Diversões?  Não, não... Ele foi apresentado ao tráfico por seu pai. Religiosamente todos os dias às 13 horas, horário de pico na Praia do Leblon, lá estava o menino entre os carros, transeuntes e os turistas vendendo drogas, pedindo dinheiro e, muitas vezes, fazendo pequenos furtos.

Pai? Que pai? No mundo das drogas não se ama, não se perdoa, não se conversa, não se confia. Lá se troca, se vende, se mata, se consome e se despedaça.

Ao voltar para casa era recebido com gritos e a saudação das grandes mãos de sua mãe. Eram gritos de alegria? Sua mãe o abraçava? Não, não... Drogada e bêbada, aquela infeliz mulher xingava o filho e com as suas mãos batia no seu rosto e nas costas como se estivesse se vingando do estupro do seu pai. A cena se repetiu ao longo de cinco anos. Por sua vez, Pedrinho crescia cresceu revoltado e prometia a si mesmo que um dia daria um fim naquele inferno familiar.

Inferno? Inferno é ser negro, discriminado, favelado, sem ter nome, estatus social, uma família para amparar, uma mãe carinhosa para conversar e irmãos para brincar.

Finalmente naquela tarde, após roubar um turista na Lagoa, seguindo os mesmos passos do pai, Pedrinho comprou um arma. Ao subir o morro estuprou uma mulher. A pobre jovem gritava, pedia socorro e como se estivesse voltado no tempo o menino viu nos olhos da vítima a sua própria mãe sendo violentada por seu pai. Passado e presente se encontraram naquela paranoia psicológica. O então adolescente, nos seus 17 anos não suportou a tal angustia e perturbação mental, pega o revolver calibre 38 de fabricação do exército e tira a sua própria vida.

Vida? Que vida? Foram 17 anos de morte. Sonhos despedaçados, alegria roubada, infância perdida, família falida e adolescência repartida. Sim meu caro leitor, céu e inferno, fogo e frio, destino e sorte. Tudo, tudo tinha parado no tempo e no espaço com aquele tiro fatal. Pedro da Pedra Lascada Quente- o pai ou Pedrinho- o filho?. Não sei, só sei que as vidas se cruzaram, o temo parou, o  morro sangrou e  Teresa Joaquina da Silva- a mãe, até hoje nunca mais sonhou.

Histórico encontro entre Papa Francisco e Bento XVI: "Somos irmãos"


Castel Gandolfo (RV) - O Papa Francisco encontrou-se neste sábado, 23, pela primeira vez com seu predecessor, o Papa emérito, Bento XVI, em Castel Gandolfo, nas proximidades de Roma. Ao meio-dia Francisco se dirigiu de helicóptero à pequena cidade para o encontro com o Papa emérito onde almoçaram juntos num fato sem precedentes na história da Igreja.
Após um voo de 20 minutos o Papa Francisco aterrissou no heliporto das Vilas Pontifícias de Castel Gandolfo, acolhido pelo Papa emérito Bento XVI. Presentes também o Bispo de Albano, Dom Marcello Semeraro e Saverio Petrillo, Diretor das Vilas Pontifícias e Dom Georg Gänswein. Papa Francisco e Bento XVI utilizaram o mesmo automóvel para chegar até a Residência Pontifícia.
Segundo o Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Padre Federico Lombardi, o helicóptero papal aterrissou às 12h15, hora de Roma. O Santo Padre estava acompanhado pelo Substituto da Secretaria de Estado, Dom Becciu, por Mons. Sapienza e por Mons. Alfred Xuereb.
Apenas o Papa tocou terra, Bento XVI se aproximou dele e houve um abraço belíssimo entre os dois, disse Pe. Lombardi. Na Residência Apostólica os dois protagonistas deste histórico encontro foram até o apartamento e imediatamente à capela para um momento de oração.
Na capela, o Papa emérito ofereceu o lugar de honra a Papa Francisco, mas esse disse: “Somos irmãos”, e pediu que se ajoelhassem juntos no mesmo banco, contou Pe. Lombardi. Após um breve momento de oração, se dirigiram para a Biblioteca privada, e por volta das 12h30, teve início o encontro reservado que durou cerca de 45 minutos.
Padre Lombardi destacou ainda que o Papa emérito estava vestindo uma simples batina branca, sem faixa e sem capa; ao invés Papa Francisco usou uma batina branca com faixa e capa.
Presentes ainda no almoço os dois secretários, portanto, Dom Georg e Mons. Xuereb.
Padre Lombardi referiu também que Papa Francisco presenteou Bento XVI com um ícone de Nossa Senhora da Humildade. O Santo Padre explicou a Bento XVI que “esta Nossa Senhora é a da Humildade, e eu pensei no senhor e quis dar-lhe um presente pelos muitos exemplos de humildade que nos deu durante o seu Pontificado”, destacou Papa Francisco.
Desde o dia 28 de fevereiro, Bento XVI reside neste local, onde acompanhou a eleição do Cardeal Bergoglio como Sumo Pontífice, e aguarda o fim das reformas no mosteiro Mater Ecclesiae dentro do Vaticano.
Papa Francisco, nos seus discursos, tem manifestado palavras de afeto a Bento XVI, chamando-o, seguidamente de “meu Predecessor, o querido e venerado Papa Bento XVI”.
Já na sua primeira aparição no balcão central da Basílica de São Pedro disse “Rezemos pelo nosso Bispo emérito Bento XVI. Rezemos todos juntos por ele, para que o Senhor o abençoe e a Virgem Maria o proteja”. Após o almoço Papa Francisco retornou ao Vaticano. (SP)

terça-feira, 12 de março de 2013

Essência da Teologia da Libertação foi defendida por Bento XVI. Entrevista com Clodovis Boff

Em maio de 1986, os irmãos Clodovis e Leonardo Boff publicaram uma carta aberta ao cardeal Joseph Ratzinger. O artigo analisava a instrução "Libertatis Conscientia", em que o futuro papa Bento XVI visava corrigir os supostos desvios da Teologia da Libertação na América Latina. Os religiosos brasileiros desaprovavam, com uma ponta de ironia e uma boa dose de audácia, a "linguagem com 30 anos de atraso" no texto.
Em 2007, o irmão mais novo de Leonardo Boff voltou à carga. Mas, dessa vez, o alvo foi a própria Teologia da Libertação - movimento do qual ele foi um dos principais teóricos e que defende a justiça social como compromisso cristão. Ele censurou a instrumentalização da fé pela política e enfureceu velhos colegas ao sugerir que teria sido melhor levar a sério a crítica de Ratzinger.
Em entrevista por telefone, frei Clodovis diz que Bento XVI defendeu o "projeto essencial" da Teologia da Libertação, mas o critica por superdimensionar a força do secularismo no mundo.
 
A entrevista é de Alexandre Gonçalves e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 11-03-2013.
 
Eis a entrevista.
 
Bento XVI foi o grande inimigo da Teologia da Libertação?
 
Isso é uma caricatura. Nos dois documentos que publicou, Ratzinger defendeu o projeto essencial da Teologia da Libertação: compromisso com os pobres como consequência da fé. Ao mesmo tempo, critica a influência marxista. Aliás, é uma das coisas que eu também critico. No documento de 1986, ele aponta a primazia da libertação espiritual, perene, sobre a libertação social, que é histórica. As correntes hegemônicas da Teologia da Libertação preferiram não entender essa distinção. Isso fez com que, muitas vezes, a teologia degenerasse em ideologia.
 
E os processos inquisitoriais contra alguns teólogos?
 
Ele exprimia a essência da igreja, que não pode entrar em negociações quando se trata do núcleo da fé. A igreja não é como a sociedade civil, onde as pessoas podem falar o que bem entendem. Nós estamos vinculados a uma fé. Se alguém professa algo diferente dessa fé, está se autoexcluindo da igreja. Na prática, a igreja não expulsa ninguém. Só declara que alguém se excluiu do corpo dos fiéis porque começou a professar uma fé diferente.
 
Não há margem para a caridade cristã?
 
O amor é lúcido, corrige quando julga necessário. Jon Sobrino diz: "A teologia nasce do pobre". Roma simplesmente responde: "Não, a fé nasce em Cristo e não pode nascer de outro jeito". Assino embaixo.
 
Quando o sr. se tornou crítico à Teologia da Libertação?
 
Desde o início, sempre fui claro sobre a importância de colocar Cristo como o fundamento de toda a teologia. No discurso hegemônico da Teologia da Libertação, no entanto, eu notava que essa fé em Cristo só aparecia em segundo plano. Mas eu reagia de forma condescendente: "Com o tempo, isso vai se acertar". Não se acertou.
 
"Não é a fé que confere um sentido sobrenatural ou divino à luta. É o inverso que ocorre: esse sentido objetivo e intrínseco confere à fé sua força." Ainda acredita nisso?
 
Eu abjuro essa frase boba. Foi minha fase rahneriana. Karl Rahner estava fascinado pelos avanços e valores do mundo moderno e, ao mesmo tempo, via que a modernidade se secularizava cada vez mais.
 
Rahner não podia aceitar a condenação de um mundo que amava e concebeu a teoria do "cristianismo anônimo": qualquer pessoa que lute pela justiça já é um cristão, mesmo sem acreditar explicitamente em Cristo. Os teólogos da libertação costumam cultivar a mesma admiração ingênua pela modernidade.
 
O "cristianismo anônimo" constituía uma ótima desculpa para, deixando de lado Cristo, a oração, os sacramentos e a missão, se dedicar à transformação das estruturas sociais. Com o tempo, vi que ele é insustentável por não ter bases suficientes no Evangelho, na grande tradição e no magistério da igreja.
 
Quando o sr. rompeu com o pensamento de Rahner?
 
Nos anos 70, o cardeal d. Eugênio Sales retirou minha licença para lecionar teologia na PUC do Rio. O teólogo que assessorava o cardeal, d. Karl Joseph Romer, veio conversar comigo: "Clodovis, acho que nisso você está equivocado. Não basta fazer o bem para ser cristão. A confissão da fé é essencial". Ele estava certo.
 
Assumi postura mais crítica e vi que, com o rahnerismo, a igreja se tornava absolutamente irrelevante. E não só ela: o próprio Cristo. Deus não precisaria se revelar em Jesus se quisesse simplesmente salvar o homem pela ética e pelo compromisso social.
 
Bento XVI sepultou os avanços do Concílio Vaticano II?
 
Quem afirma isso acredita que o Concílio Vaticano II criou uma nova igreja e rompeu com 2.000 anos de cristianismo. É um equívoco. O papa João XXIII foi bem claro ao afirmar que o objetivo era, preservando a substância da fé, reapresentá-la sob roupagens mais oportunas para o homem contemporâneo.
 
Bento XVI garantiu a fidelidade ao concílio. Ao mesmo tempo, combateu tentativas de secularizar a igreja, porque uma igreja secularizada é irrelevante para a história e para os homens. Torna-se mais um partido, uma ONG.
 
Mas e a reabilitação da missa em latim? E a tentativa de reabilitação dos tradicionalistas que rejeitaram o Vaticano II?
 
Não podemos esquecer que a condição imposta aos tradicionalistas era exatamente que aceitassem o Vaticano II. O catolicismo é, por natureza, inclusivo. Há espaço para quem gosta de latim, para quem não gosta, para todas as tendências políticas e sociais, desde que não se contraponham à fé da igreja.
 
Quem se opõe a essa abertura manifesta um espírito anticatólico. Vários grupos considerados progressistas caíram nesse sectarismo.
 
Esses grupos não foram exceção. Bento 16 sofreu dura oposição em todo o pontificado.
 
A maioria das críticas internas a ele partiu de setores da igreja que se deixaram colonizar pelo espírito da modernidade hegemônica e que não admitem mais a centralidade de Deus na vida. Erigem a opinião pessoal como critério último de verdade e gostariam de decidir os artigos da fé na base do plebiscito.
Tais críticas só expressam a penetração do secularismo moderno nos espaços institucionais da igreja.
 
Como descreveria a relação de Bento XVI com a modernidade?
 
É possível identificar um certo pessimismo na sua reflexão. Ele não está só. Há um rio de literatura sobre a crise da modernidade, que remete até mesmo a autores como Nietzsche e Freud. O que ele tem de diferente? Propõe uma saída: a abertura ao transcendente.
 
Ainda assim, há pessimismo?.
 
Há algo que ele precisaria corrigir: Bento XVI leva a sério demais o secularismo moderno. É uma tendência dos cristãos europeus. Eles esquecem que o secularismo é uma cultura de minorias. São poderosas, hegemônicas, mas ainda assim minorias.
 
A religião é a opção de 85% da humanidade. Os ateus não passam de 2,5%. Com os agnósticos, não chegam a 15%. Minoria culturalmente importante, sem dúvida: domina o microfone e a caneta, a mídia e a academia. Mas está perdendo o gás. Há um reavivamento do interesse pela espiritualidade entre os jovens.
 
Que outras críticas o sr. faria a Bento XVI?
 
Ele preferiria resolver problemas teológicos a se debruçar sobre questões administrativas na Cúria. E isso gerou diversos constrangimentos no seu pontificado. Ele também não tem o carisma de um João Paulo II. De certa forma, era o esperado em um intelectual como ele.
 
Não está na hora de a igreja ficar mais próxima da realidade dos fiéis?
 
Bento XVI não resolveu um problema que se arrasta desde o Concílio Vaticano II: a necessidade de se criarem canais para a cúpula escutar e dialogar com as bases.
 
Os padres nas paróquias muitas vezes ficam prensados entre a letra fria que vem da cúpula e o cotidiano sofrido dos fiéis, que pode envolver dramas como aborto ou divórcio. Note que não sugiro mudanças no ensinamento da igreja. Mas acho que seria mais fácil para as pessoas viverem a doutrina católica se houvesse processos que facilitassem esse diálogo.
 
Como vê o futuro da igreja?
 
A modernidade não tem mais nada a dizer ao homem pós-moderno. Quais as ideologias que movem o mundo? Marxismo? Socialismo? Liberalismo? Neoliberalismo? Todas perderam credibilidade. Quem tem algo a dizer? As religiões e, sobretudo no Ocidente, a Igreja Católica.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Teu nome é Mulher...

Homenagem ao dia Internacional da Mulher

Frei Petrônio de Miranda, Padre Carmelita da Ordem do Carmo, estudante de jornalismo da Fapcom- Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação, São Paulo. www.twitter.com/freipetronio, www.facebook.com/freipetronio2, www.olharjornalistico.com.br

 

 Se tens esposo ou és mãe solteira?
 
Não importa. Teu nome é mulher
 
És médica ou aidética?
 
Não importa. Teu nome é mulher
 
Se a tua mesa é farta ou come do nosso lixo?
 
Não importa.
 
Zilda Arns e Joana D`arc
 
Também foram mulheres.
 
Se tens casa ou mora embaixo do viaduto?  
Não importa. Teu nome é mulher
És política ou presidiária?
Não importa. Teu nome é mulher
Se tens cansaço e sofre discriminação?
Não importa.
Maria Quitéria de Jesus e Anita Garibaldi
Também foram mulheres.
 
Se os teus olhos derramam lagrimas de solidão?
Não importa. Teu nome é mulher
És advogada ou secretária do lar?  
Não importa. Teu nome é mulher.
Se vendes o corpo para sobreviver?
Não importa.
Maria, Mãe de Jesus e Teresa de Calcutá
Também foram mulheres!
 
Se tens coragem ou medo?
Não importa. Teu nome é mulher
És negra e Latino- Americana?
Não importa. Teu nome é mulher
Se sois santa ou pecadora?
Não importa.
Simone de Beauvoir e Rosa de Luxemburgo
Também foram mulheres.
 
 
Se as tuas mãos estão calejadas?
Não importa. Teu nome é mulher
És católica, evangélica, espírita ou ateia?
Não importa. Teu nome é mulher
Se sois lésbica ou travesti?
Não importa.  Indira Gandhi e Olga Benário
Também foram mulheres.
 
Sim, tudo você pode, você faz é você é.
Teu nome é MULHER!.
Parabéns pelo Dia Internacional da Mulher.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Entrevista com Dom Odilo Pedro Scherer.

 “Renúncia foi aula de eclesiologia”. Dom Odilo.
 
Para arcebispo de São Paulo, Bento 16 será lembrado como um dos grandes papas teólogos.
Especial para O SÃO PAULO
 
Por e-mail, diretamente de Roma, o cardeal dom Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano de São Paulo, falou com exclusividade sobre suas percepções a respeito dos quase oito anos do pontificado de Bento 16. Dom Odilo, que participará pela primeira vez de um Conclave, também orientou os católicos sobre como viver este tempo tão importante para a vida da Igreja. Veja a íntegra:
 
O SÃO PAULO – O que significou o pontificado de Bento 16 para a Igreja e quais foram suas principais contribuições?
 
Dom Odilo Pedro Scherer – Bento 16 deixa um legado importante para a Igreja e será certamente recordado na história da Igreja como um dos grandes papas teólogos; tanto pelo que escreveu e falou quando já era Sumo Pontífice, quanto pelo que escreveu antes disso. Será recordado também pelo seu esforço em ajudar a Igreja a voltar-se para a essência de sua fé e de sua missão. Mostram isso suas encíclicas sobre a esperança e a caridade, as Exortações Apostólicas sobre a Eucaristia e a Palavra de Deus. Mas será recordado, também, por ter estimulado o clero a buscar a autenticidade na vivência de sua vocação e toda a Igreja, na revalorização de sua fé e no esforço renovado para transmiti-la aos outros. Enfim, a própria renúncia é um gesto que ajudará a Igreja a voltar-se mais para o essencial de sua vida e missão, a partir de um renovado encontro com sua própria razão de ser e existir; um professor de teologia, em Roma, observou: a renúncia foi sua última aula de eclesiologia...
 
O SÃO PAULO – E o que significou a atuação de Bento 16 para a humanidade?
 
Dom Odilo Scherer – Isso ainda será melhor avaliado com o passar do tempo. De toda forma, continuando a tradição de seus predecessores, Bento 16 manifestou-se sobre todos os assuntos e fatos relevantes deste momento da vida e da história humanas. Sua contribuição para a cultura, a filosofia, a busca da verdade e do bem são extraordinárias; como teólogo e humanista tem largos horizontes e teve sua palavra geralmente acolhida com respeito e consideração; estimulou o mundo a pensar e a ir além das superficialidades de uma cultura consumista e imediatista. Sua encíclica social – Caritas in veritate – é uma contribuição importante para o discernimento sério sobre as questões que atualmente afligem a humanidade. Estimulou muito, também, o diálogo entre as religiões e as culturas. Teve sempre a preocupação da justiça, da paz e da solidariedade entre os povos.
 
O SÃO PAULO – Como os católicos devem encarar as críticas e este clima de “denuncismo” que se instaurou na mídia após o anúncio de que o papa iria renunciar?
 
Dom Odilo Scherer – Com muita serenidade e discernimento. É um fato interessante que, de um momento a outro, todos começaram de novo a falar da Igreja, mesmo sem conhecer bem as questões abordadas. Muita matéria produzida foi sensacionalista ou simplesmente marcada pelo preconceito contra a Igreja, sem o interesse de conhecer ou comunicar a verdade. É sempre importante tentar saber de qual púlpito vem o sermão e perguntar se merecem crédito certas afirmações bombásticas, de efeito retórico (ex. “guerra civil no Vaticano”...), que não se sustentam em fatos, mas em suposições e conjecturas que visam jogar no descrédito a Igreja perante o mundo e perante seus próprios fieis. É preciso lembrar que cada um deverá prestar contas a Deus pelas afirmações mentirosas e injuriosas ditas contra o próximo ou também a Igreja. Recomendo que não se dê crédito fácil a certas caricaturas que se fazem da Igreja; quem conhece a Igreja e vive dentro dela sofre com o desprezo à Igreja. Infelizmente, as palavras do próprio Papa, proferidas no anúncio do dia 11 de fevereiro sobre sua renúncia, foram deixadas de lado, como sendo não-verdadeiras, para dar largas a todo tipo de suspeitas, especulações e conjecturas sobre os “reais motivos” da renúncia. Alguém nas condições e na autoridade do Papa deveria merecer mais crédito e respeito.
 
 O SÃO PAULO- O senhor poderia descrever algum episódio mais pessoal de seus contatos com Bento 16?
 
Dom Odilo Scherer – Lembro da vigília na Jornada Mundial da Juventude em Madrid, em julho de 2011. Veio um temporal muito forte durante a fala do papa; o vento balançava até a estrutura do palco, onde estavam o Papa, os bispos e muitas outras pessoas. Mais de um milhão de jovens estavam à frente do papa, apanhando toda aquela chuva. Os seguranças sugeriram várias vezes que ele se retirasse para um lugar mais seguro, mas Bento 16 quis permanecer ali, com os jovens... No final da celebração, parecia que não queria ir embora, preocupado com os jovens... Aproximou-se deles, de maneira muito paternal, e desejou que, apesar de tudo, eles repousassem ao menos um pouquinho... Na manhã seguinte, já debaixo de muito sol, a primeira coisa que fez foi perguntar aos jovens como tinham passado a noite. Achei isso de uma sensibilidade finíssima, que emocionou e cativou o coração dos jovens.
 
O SÃO PAULO - A partir dos momentos reservados que teve com Bento 16, que características o senhor destacaria dele?
 
Dom Odilo Scherer - Um homem sereno, simples, inteligente, atento ao interlocutor, interessado em ouvir, extremamente gentil e fino no trato com as pessoas. Nunca pude ver nele aquele homem “autoritário” ou “duro”, como algumas vezes foi descrito; isso não corresponde à verdade. Quando visitou o Brasil, em 2007, fiquei perto do Papa durante alguns dias, na sua estadia em São Paulo. Eu lia os títulos na imprensa e me perguntava: de qual papa estão falando? Não era do Papa Bento 16, que eu conheço...
 
O SÃO PAULO - Estamos aguardando a escolha do novo Pontífice. A Igreja está “acéfala” até que o próximo papa seja eleito?
 
Dom Odilo Scherer - Não, a Igreja nunca fica acéfala (“sem cabeça”, ou “sem chefe”) durante o período da vacância, porque o verdadeiro chefe da Igreja é Jesus Cristo glorificado, que nunca abandona o seu corpo, a Igreja. Além disso, durante a sede vacante, o Colégio dos Cardeais responde pela Igreja, segundo as competências que lhe são próprias.
 
 O SÃO PAULO - Quais as características que o novo papa deve ter?
 
Dom Odilo Scherer - O escolhido terá as qualidades que tiver, e não podemos idealizar demais. Nenhum papa é igual a outro. Ele deverá ser dócil às inspirações e à ação do Espírito Santo, inteiramente fiel a Cristo e à própria Igreja. Podemos, humanamente, desejar que seja uma pessoa muito capaz, cheia de virtudes, preparada do ponto de vista intelectual e teológico, homem de grande fé e vigor espiritual, capaz de liderança e de comunicação, segundo as condições do nosso tempo. Mas também neste caso, precisamos ter a consciência de que ninguém nasce papa, mas aprende a desempenhar essa árdua missão enquanto a exerce.
 
 O SÃO PAULO– Quais são os principais desafios que o próximo papa vai encontrar?
 
Dom Odilo Scherer - São os desafios de toda a Igreja, que se manifestam em toda parte: a nova evangelização, a transmissão da fé, a perseverança na fé e a operosidade dos filhos da Igreja para a irradiação da luz e da força viva do Evangelho no mundo... Há os desafios internos da renovação constante da Igreja, para que ela viva no compasso do tempo e da cultura, sem deixar de ser ela mesma; há os desafios externos, representados pela cultura do nosso tempo, muitas vezes fechada ao Evangelho, senão, contrária a ele. Há os desafios da presença pública da Igreja no mundo, no contexto da política, da economia, da educação, das relações sociais e internacionais. De fato, o Evangelho não é um bem privado da Igreja, mas uma “luz” para o mundo, que não deve ser ocultada, mas irradiada. Enfim, o desafios podem ser muitos, mas não devemos esperar que eles sejam enfrentados pelo papa sozinho, nem sempre em primeira pessoa. A missão e a responsabilidade pela Igreja são compartilhadas, com o Papa, por todos os bispos em comunhão com ele. E em cada Igreja local, com os bispos, também os sacerdotes e todos os fiéis assumem essa mesma responsabilidade. A Igreja não depende só do papa.
 
 O SÃO PAULO - Qual deve ser a atitude dos católicos neste tempo de espera para a eleição do novo papa?
 
Dom Odilo Scherer - Antes de tudo, uma serena fé e confiança na Igreja e na ação do Espírito de Cristo, que não abandona a Igreja. Talvez foi essa a mensagem mais insistente de Bento 16 nesses últimos dias de seu Pontificado: não estamos sozinhos; o Senhor não abandona a sua Igreja. Portanto, ninguém desanime, nem se deixe levar pelo pânico. Este é um tempo de espera e de serena esperança. A Igreja não conta apenas com as próprias forças e fragilidades. Ela pode continuar a contar com o seu supremo Pastor, que é o próprio Senhor Jesus.
Fonte: O SÃO PAULO, Jornal da Arquidiocese de São Paulo.