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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Dom Helder Câmara: "O Santo Rebelde". (1ª Parte).

CARMELITAS: NOSSA MISSÃO HOJE

                                   
     Após anos de debates e discussão dentro da Ordem, chegamos enfim, nas nossas Constituições, a uma concordância sobre o Carisma Carmelitano. Leiam especialmente a primeira parte que descreve muito bem quem somos nós. Os Carmelitas transformaram-se em frades mendicantes, conservando contudo as peculiaridades do seu carisma inicial (10). Somos chamados a viver uma vida no obséquio de Jesus Cristo, comprometendo-nos com a busca do rosto do Deus Vivo (a dimensão contemplativa da vida), na fraternidade e no serviço (diaconia) no meio do povo (14). Como Carmelitas a nossa inserção no apostolado faz parte integrante do nosso carisma (91). Temos de realizar a nossa missão no meio do povo, antes de tudo com a riqueza da nossa vida contemplativa, enquanto a nossa ação profética pode adotar muitas modalidades (92). Fiéis ao patrimônio espiritual da Ordem, orientemos o nosso trabalho, por mais variado que seja, a favorecer a busca de Deus e a vida de oração (95). Na Igreja local tratamos de contribuir com nosso carisma no trabalho da evangelização, despertando a sensibilidade pela dimensão contemplativa da vida, pela fraternidade e pelos compromissos concretos em prol da justiça (97). Estamos dispostos a desenvolver as várias formas de apostolado desejadas pela Igreja, por exemplo, o apostolado paroquial, o serviço aos fiéis dentro das igrejas, a formação da juventude nas escolas e outras instituições, a pregação de exercícios espirituais, os estudos, a direção espiritual, o ensino sobre os problemas do espírito e outras iniciativas (98). A missão "ad Gentes" - isto é, a proclamação do Evangelho a quem ainda não o conhece - é uma das atividades fundamentais da Igreja, porque a Igreja por sua própria natureza é missionária (105). A Ordem tem que estar também comprometida, por conseguinte, neste grande trabalho, seguindo o nosso carisma.

     O que fazemos deve brotar daquilo que somos. Somos mais fiéis a Deus quando somos fiéis ao nosso carisma. Lembrem-se da distinção entre trabalhar para Deus e fazer o trabalho de Deus. Trabalhamos para Deus de muitas maneiras e os nossos trabalhos apostólicos podem ser muito dignos de louvor, porém... são todos os nossos trabalhos segundo a mente e o coração de Deus? Fazer o trabalho de Deus significa fazer o que Deus realmente nos está pedindo. Um carisma é um dom de Deus feito a nós e este dom deve ser usado para o bem dos outros. Por conseguinte fazemos o trabalho de Deus quando somos fiéis a nossa vocação de carmelitas. O nosso trabalho apostólico pode tomar vários aspectos. Não existe apenas um único tipo de trabalho Carmelita. Na Ordem temos muitas paróquias, escolas, santuários, centros de exercícios espirituais; trabalhamos com a juventude, com os pobres, de variadas maneiras. Pretendemos corresponder às necessidades da Igreja e do mundo, lendo os sinais dos tempos.

     Na base de todo este maravilhoso apostolado que os Carmelitas exercem pelo mundo está o sentido fundamental da nossa vida que, como ficou bem claro pelas Constituições acima citadas, está relacionado com o aspecto contemplativo do nosso carisma. Isto não quer  dizer  que todos nós devemos voltar a ser eremitas - esta é uma legítima expressão de vida Carmelitana - e sim que devemos ser contemplativos no meio de todas as diferentes atividades, em que estejamos comprometidos. Portanto devemos ser contemplativos em nossas paróquias e escolas e em toda parte, para onde nos dirija o nosso trabalho. A nossa atividade profética e apostólica emergirá espontaneamente da nossa vida contemplativa. Claro que não podemos tornar-nos contemplativos sem a oração, embora não se possa julgar a vida contemplativa pelo tamanho do tempo que dedicamos à oração. Ser contemplativo é penetrar num processo onde Deus nos purifica e transforma os nossos corações interiormente para fazer-nos como Deus. Este processo exige o nosso consentimento à ação de Deus em nossas vidas e um reconhecimento de que Deus trabalha amiúde de maneiras muito humanas. A nossa tradição espiritual fala deste processo no qual Deus transforma em puro amor o nosso egoísmo. As nossas emoções, o que sentimos dentro de nós, sobretudo diante das contradições e desilusões, mostrar-nos-ão quais são os nossos valores verdadeiros. Deus usará de todos os acontecimentos do dia-a-dia para revelar-nos o que na realidade está dentro de nós. Este é um processo muito doloroso, e será então muito mais fácil deixar de lado a oração e submergir-se em trabalhar para Deus, ao mesmo tempo olvidando-se, possivelmente, de fazer o trabalho de Deus.

     Não há nenhuma dicotomia entre o aspecto contemplativo e o aspecto profético ou ativo da nossa vida. Fluem um do outro e entre si. O que acontece conosco, o que vemos e ouvimos, quando estamos envolvidos em nosso trabalho apostólico, deve afetar a nossa oração. E a nossa oração afetará certamente a nossa maneira de trabalhar. Se a nossa oração for autêntica, - certamente o será - se for um encontro pessoal com quem sabemos que nos ama, transformar-nos-á de pessoas que trabalham para Deus em pessoas que fazem o trabalho de Deus. Começaremos a olhar para as pessoas e as situações, não meramente com os nossos olhares humanos, limitados, mas através dos olhos divinos. Assim já os nossos julgamentos não serão condicionados por considerações humanas, mas as nossas mentes e corações serão amoldados à vontade de Deus. Isto há de transformar a nossa maneira de estar no mundo e toda a nossa atividade apostólica. Compreenderemos que devemos plantar ou regar o jardim, mas é Deus quem dá o crescimento. Não teremos talvez muito êxito. Reflitam sobre o exemplo de Jesus, a quem nos empenhamos em seguir. Se o Senhor foi tratado assim, como podem os servos esperar algo diferente?

     Somos membros de uma fraternidade internacional, que sempre teve a sua parte no trabalho missionário da Igreja. Quero inflamar o zelo missionário dentro da Ordem. Os Carmelitas foram a outros países a fim de pregar o Evangelho, mas também propagar os nossos valores carmelitanos, que pensamos terem algo importante para dizer ao povo. Em vista disto fomos estabelecendo a Ordem em muitos países do mundo. Ao longo dos séculos teve o trabalho missionário que adaptar-se às transformações sucedidas na Igreja e no mundo e terá que fazê-lo novamente de acordo com as circunstâncias e os tempos. Devido à falta de vocações nas Províncias mais antigas, não é possível no momento enviar muitos elementos a uma nova região. Queremos estabelecer o Carmelo numa região com vocações locais e permitir-lhes ser independentes, quando for possível. Em geral os problemas que tem a Província-Mãe não são normalmente iguais aos que preocupam um território missionário ou Comissariado.

     Gostaria de falar agora um pouquinho sobre a situação da Ordem ao longo do mundo. Na Europa não há tantas vocações como no passado, há contudo, novamente, pequenos sinais de vida. A minha Província própria tem sido abençoada com um bom número de vocações durante os últimos anos. A Irlanda continua recebendo algumas vocações num clima bastante difícil para a Igreja. O pequeno grupo na França tem dois com votos simples e um noviço. A Espanha, como sabeis, tem quatro Províncias e, mesmo que não haja muitíssimas vocações, estamos recebendo ainda um ou dois candidatos. O Comissariado Geral de Portugal, embora pequeno, está florescendo. As duas Províncias da Alemanha têm no momento muito poucas vocações, porém na Holanda há sinais de renovado interesse pela vida religiosa. A Polônia continua recebendo cada ano algumas vocações e tem uma comunidade na Ucrânia. Espero que um dia possamos fazer uma fundação na Rússia. Na República Checa temos um pequeno e florescente grupo de frades que passaram por muitos anos de perseguição. A Itália tem duas Províncias e um pequeno Comissariado Geral e todos têm vocações. Na Província Italiana existe um plano de fazer uma fundação na Romênia e em vista disto há vários jovens professos e postulantes deste país preparando-se na Itália. A maioria das vocações na Província Italiana vêm da Romênia. Malta tem uma Província florescente e também está recebendo vocações.

     A Ordem está bem estabelecida há muitos anos nos Estados Unidos, em duas Províncias. A Província PCM (do Puríssimo Coração de Maria) tem uma missão no Peru, onde há algumas vocações. A Província tem ainda uma comunidade no México com esperança de vocações. A outra Província de Santo Elias de Nova York espera fazer logo uma fundação em Trinidad e Tobago. Temos também uma boa representação em Porto Rico e na República de São Domingos, com um Comissariado da Província Árago-Valentina e vários Mosteiros florescentes de Monjas Carmelitas. Na Venezuela há dois Comissariados Provinciais: os dois têm vocações. Na Argentina há um pequeno grupo e ali novamente surgem vocações. No mês de janeiro recebi na Bolívia os primeiros votos de dois jovens que terminaram o seu noviciado no Brasil, onde temos duas Províncias e um Comissariado da Província da Alemanha do Alto Reno. Na Colômbia existe um pequeno grupo de Carmelitas, que está apresentando agora alguns sinais de crescimento.

     Há frades jovens da África em algumas Províncias da Europa, nas várias fases de formação na Ordem. Um de Burquina Fasso já é sacerdote e há vários estudantes do mesmo país na Espanha. Três da Tanzânia estão estudando em Nápoles, e três do Quênia, em Barcelona. Da parte do Conselho Geral há grande esperança de que nos próximos anos se possa fazer fundações nestes países. Existem aproximadamente trinta Monjas Carmelitas do Quênia na Espanha: esperam fazer logo uma fundação na sua pátria. Além destas esperanças, temos também uma presença estabelecida no Zimbábue e na República Democrática do Congo. A Província Irlandesa, há cinqüenta anos, estabeleceu uma fundação no Zimbábue, mas após muitos anos sem vocações nativas há muitas no momento. Parece haver grande esperança para o Carmelo no Zimbábue. A Província Romana (hoje Italiana), há 25 anos, fez uma fundação no Zaire, como se chamava então, tem agora um Comissariado florescente e a maioria dos cargos de responsabilidade são agora sustentados pelas vocações nativas. Têm um bom número de vocações e atualmente estão pensando na possibilidade da abertura de uma missão em outras partes da África. Esperamos fazer uma fundação muito em breve em Moçambique. O primeiro Carmelita, faz vários meses, foi enviado da sua Província de Pernambuco no Brasil e está hospedado com os Carmelitas, no Zimbábue, enquanto se prepara para a fundação. O segundo religioso da mesma Província foi ordenado sacerdote em Moçambique no mês de abril.

     A Ásia é onde se dá o maior crescimento na Ordem. A Indonésia é uma Província grande com mais de 200 religiosos e mais de 50 noviços. Além disto há um total de aproximadamente 150 no período de formação inicial. Na Indonésia temos dois bispos e a Província enviou dois dos seus membros para ajudarem nas Filipinas. A Austrália é uma Província pequena e por vários anos não houve ali vocações, mas os confrades estão trabalhando e orando pelas vocações. As Filipinas devem tornar-se um Comissariado Geral até o ano de 2000. Atualmente fazem parte da Província da Holanda e ainda lá estão trabalhando mais ou menos 10 holandeses, mas a maioria dos cargos de responsabilidade estão nas mãos de filipinos. Há um bom número de novas vocações e há grandes esperanças para o futuro. Faz aproximadamente 25 anos partiram os primeiros estudantes da Índia para a Alemanha a fim de iniciarem o seu Postulado na Ordem. Existe agora um Comissariado Provincial florescente da Província da Alemanha do Alto Reno, que conta com mais de 50 membros professos (34 de votos solenes). Surgem cada ano novas vocações na Índia. No momento todos os membros do Comissariado são do Rito Siro-Malabar.

     Possivelmente tendes ouvido falar que esperamos fazer uma fundação no Vietnã. Por conta do governo comunista não é possível aos estrangeiros permanecerem no Vietnã além de 3 ou, no máximo, 6 meses. Não obstante, graças ao bom trabalho do "Donum Dei", existem aproximadamente 25 candidatos para a Ordem e aqueles que fizeram reunião com estes jovens acreditam que são excelentes candidatos. A Província de Santo Elias de Nova York, a pedido do Conselho Geral, aceitou a responsabilidade sobre este projeto com a ajuda das Províncias e Comissariados da região asiática. O plano é que os candidatos que se estão preparando vão aos Estados Unidos para começarem um Postulado formal de um ano, seguido do noviciado, e então, após a primeira profissão retornam ao Vietnã.
Neste entretempo está-se organizando uma equipe internacional de formadores. Os membros deste grupo serão os que irão para o Vietnã a fim de ficarem com os candidatos e professos por três ou seis meses cada um: formularão um programa integrado de formação, que assegurará aos que estão no período de formação inicial receber o melhor treinamento possível permitido pelas circunstâncias. Não é ideal e tem os seus riscos, mas provavelmente Província nenhuma ter-se-ia estabelecido, se os Carmelitas no passado não tivessem arriscado. Quem sabe alguns dentre vós estejam sentindo um pouco de receio pelo futuro, mas sede valentes, porque o Senhor está conosco. Se caminharmos com fé, Deus pode levar-nos por caminhos estranhos, mas não nos abandonará nunca.

     Temos 72 mosteiros de Monjas Carmelitas ao redor do mundo e 15 Congregações afiliadas, e também aproximadamente 30.000 pessoas do laicato que fizeram algum tipo de compromisso público de viver os valores da nossa espiritualidade. Há vários grupos, que no momento estão pedindo uma afiliação à Ordem.

     Contemplando a Família Carmelitana ao longo do mundo, existe claramente muita vida e esperança. Existem, sem dúvida, alguns problemas, mas as coisas boas pesam muito mais do que as outras. Quando visito as nossas comunidades, fico orgulhoso de ser Carmelita ao ver quantos bons trabalhos estamos fazendo. Dou ênfase à dimensão contemplativa do nosso carisma e à vida de comunidade, porque, na minha opinião, entre nós não são estas dimensões tão fortes como a dimensão pastoral.

     A nossa missão como Carmelitas hoje comprometer-nos-á em muitos e diferentes trabalhos. Como Ordem, temos feito uma opção pelos pobres que implica intentar "escutar e ler a realidade desde o ponto de vista do pobre" (113). O nosso trabalho pastoral não pode ser simplesmente assistência social, mas ao mesmo tempo, como nos recordam as nossas Constituições, "vivemos num mundo cheio de injustiças e ansiedades. É obrigação nossa ajudar a descobrir as causas, tornar-nos solidários com os sofrimentos dos marginalizados, participar da sua luta pela justiça e pela paz, trabalhar pela sua libertação integral, ajudando-os a realizar o seu desejo de uma vida digna" (111).

     Entender a realidade sob a perspectiva dos "anawin" não é fácil. Uma transformação deve ter lugar em nossas vidas. Esta transformação não é provocada pelo nosso próprio poder, mas somente por uma experiência do poderoso amor de Deus que, como as nossas Constituições nos proclamam, "esvazia-nos das nossas limitadas e imperfeitas maneiras humanas de pensar, de amar e de agir, e as substitui por outras divinas" (17). Por conseguinte, se levamos a cabo a missão que Deus nos dá hoje, devemos procurar ser sempre mais fiéis ao nosso carisma carmelita, para que não somente trabalhemos por Deus, mas façamos segundo a verdade o trabalho de Deus, que é fazer a sua vontade.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O Diálogo solitário com Deus como oração da Igreja

Santa Edith Stein (Teresa Benedita da Cruz)
Traduzido por José Alberto Pedra
           
        A vida de oração de Jesus pode ser a chave para compreendermos a oração da Igreja. Vimos que Cristo participou nas cerimônias públicas e prescritas do seu povo, isto é, participou daquilo que usualmente denominamos de "liturgia."Ele estabeleceu a mais íntima relação entre esta liturgia e a oferta de sua própria pessoa e, também, pela primeira vez deu-lhe o pleno e verdadeiro significado, que é a ação de graça da criação para o seu Criador. Foi assim que ele fez a liturgia da Antiga Aliança realizar-se na Nova Aliança.
           Mas Jesus não participou somente das cerimônias públicas e prescritas. Talvez, com mais freqüência que estas, os evangelhos nos falam de sua oração solitária no silêncio da noite, no alto das montanhas, no deserto, distante dos homens. Quarenta dias e quarenta noites em oração precederam a vida pública de Jesus. Antes de escolher e enviar seus doze apóstolos, Ele retirou-se para rezar na solidão das montanhas. Com sua oração no monte das oliveiras se preparou para sua subida ao Calvário. O pedido que fez ao seu Pai, nesta hora que foi a mais difícil de sua vida, nos é contada em poucas palavras. Palavras que foram dadas a nós, como estrelas-guia, para nos orientar quando vivemos nosso calvário pessoal: "Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita!" Como relâmpago, estas palavras iluminaram por um instante, para nós, a vida espiritual mais íntima de Jesus, o insondável mistério de sua existência como Deus homem e seu diálogo com o Pai. Este diálogo foi, certamente, contínuo e durante toda a sua vida.
          Cristo rezava interiormente não somente quando se afastava da multidão, mas também quando estava entre seu povo. E, uma vez, ele nos permitiu olhar longa e profundamente este diálogo secreto. Foi pouco antes da hora do Monte das Oliveiras; na despedida: ao final da última ceia com seus discípulos que foi, como já vimos, a hora do nascimento da Igreja. "Tendo amado os seus... amou-os até o fim." Ele sabia que esta era a última vez que estariam juntos, e procurou dar-lhes tudo o que era possível dar naquele momento.
           Ele teve que se conter para não dizer mais. Certamente sabia que eles não conseguiriam compreender mais nada, na verdade, eles sequer podiam entender o pouco que já haviam recebido até aquele momento. Era necessário que o Espírito da Verdade viesse abrir seus olhos para tudo o que estava acontecendo.
            Depois de ter dito e feito tudo o que podia dizer e fazer, ele ergueu seus olhos para céu e falou para ao Pai diante deles. Nós chamamos estas palavras de "Oração Sacerdotal" de Jesus. Esta conversação solitária com Deus também tem antecedente na Antiga Aliança. Uma vez por ano, no maior e mais santo dos dias, o dia da Reconciliação, o Sumo Sacerdote entrava no Santo do Santos para, diante da face do Senhor, orar "em favor de si mesmo, em favor da sua casa e em favor de toda assembleia de Israel" Aspergia o trono da graça com o sangue de um novilho e de um carneiro anteriormente imolado e, deste modo, absolvia a ele mesmo e sua casa "das impurezas dos filhos de Israel e das rebeldias deles, isto é, de todos os seus pecados. "Ninguém podia estar na tenda (i.e., no lugar santo que se estendia diante do Santo dos Santos) quando o Sumo Sacerdote ficava na presença de Deus, neste temível e sublime lugar, neste local onde ninguém, exceto ele, ingressava e somente naquela hora. Além disso, tinha que queimar incenso para que "a nuvem perfumada recobrisse o propiciatório ... para que ele não morresse."Aquele encontro solitário se realizava no segredo mais profundo.
          O Dia de Reconciliação é, no Antigo Testamento, a figura da sexta-feira santa. O carneiro imolado pelos pecados do povo representa o Cordeiro imaculado de Deus ( como o representa, também, aquele outro, que era enviado ao deserto, após ter sido escolhido pela sorte, para carregar os pecados do povo). E Sumo Sacerdote, da descendência de Aarão, simbolizava o Sumo e Eterno Sacerdote. Na última ceia Cristo previu sua morte como sacrifício e pronunciou a Oração Sacerdotal. Ele não tinha necessidade de oferecer sacrifício para si, pois Ele não tinha pecados. Ele não tinha que esperar a hora prescrita pela Lei e tampouco entrar no Santo dos Santos do templo. Ele está, sempre e em todos lugares, diante da face de Deus; sua alma é o Santo dos Santos, não somente como a morada de Deus, pois a Ele está unida de modo essencial e indissoluvelmente. Ele não tinha que se esconder de Deus por trás de uma nuvem protetora de incenso. Ele contempla, diretamente, a face do Eterno e não tem nada a temer. A visão do Pai não o mataria. E ele desvela o mistério do reino do Supremo Sacerdote. Todos que a ele pertencem podem entender como Ele falou ao Pai no Santo dos Santos do Seu coração; Todos que a Ele pertencem podem ter a mesma experiência, quando aprenderem falar ao Pai em seus próprio coração.
         A oração sacerdotal de Jesus desvela o segredo da vida interior: unidade íntima das pessoas divinas e habitação de Deus na alma. Foi, nestas secretas profundezas - no mistério do silêncio - , que a obra da Redenção foi preparada e se realizou. E é desse modo que continuará até que todos estejam reunidos, no final dos tempos. A Redenção foi decidida no silêncio eterno da vida divina. No segredo da silenciosa morada de Nazaré o poder do Espírito Santo cobriu, com sua sombra, a jovem virgem que orava na solidão e operou a Encarnação do Redentor. Reunida em torno da Virgem, orando silenciosamente, a igreja nascente esperou ardentemente a nova efusão do Espírito que lhe havia sido prometido para a vivificar, para lhe dar luz interior e tornar fecunda sua ação. Na noite de trevas que Deus pos em seus olhos, Saulo esperou, orando na solidão, a resposta de Deus para sua pergunta, "Senhor, o que queres que eu faça?". Foi também, na prece solitária que Pedro se preparou para sua missão junto aos gentios. Assim, através dos séculos, os acontecimentos visíveis da história - aqueles que renovam a face da terra - são preparados, sempre, no diálogo silencioso que as almas consagradas.
            Os limites deste ensaio me impedem de transcrever integralmente a oração sacerdotal de Jesus. Devo pedir ao leitor que a leia no Evangelho de São João, cap. 17 a Deus mantêm com o seu Senhor. A Virgem, que guardou em seu coração toda palavra que Deus lhe enviou, é o exemplo das pessoas que escutam e nas quais a oração sacerdotal de Jesus revive. E aquelas que, como ela, se entregam totalmente, esquecendo-se delas mesmas na imitação da vida e paixão de Cristo, são as escolhidas, preferencialmente, por Deus como instrumentos de suas grandes obras na igreja: uma Santa Brígida, uma Catarina de Sena, por exemplo.
             Quando St. Teresa, a enérgica reformadora de sua Ordem, na época da grande apostasia, quis ajudar a igreja, viu a renovação da autêntica vida interior como o meio para tal fim. Teresa estava muito transtornada pelas notícias do alastramento da apostasia:"... e, como se pudesse ou valesse alguma coisa, chorava com o Senhor, suplicando-lhe para remediar tanto mal. Parecia-me que mil vidas daria eu para salvação de uma só alma das muitas que ali se perdiam.. Sendo mulher e ruim, senti-me incapaz de trabalhar como desejava para a glória de Deus. Tendo o Senhor tantos inimigos e tão poucos amigos, toda a minha ânsia era, e ainda é, que ao menos estes fossem bons. Determinei-me então a fazer este pouquinho a meu alcance, que é seguir os conselhos evangélicos com toda a perfeição possível e procurar que estas poucas irmãs aqui enclausuradas fizessem o mesmo. Confiava na grande bondade de Deus.... E, ocupadas todas em oração pelos defensores da Igreja, pregadores e letrados que a sustentam, ajudaríamos, no que estivesse a nosso alcance, a este meu Senhor, tão atribulado por aqueles a quem fizera tanto bem. Até parece que esses traidores pretendem crucificá-lo de novo..... Ó minhas Irmãs em Cristo! Ajudai-me a suplicar isto ao Senhor, já que para este fim vos reuniu aqui. Esta é a vossa vocação." A Teresa parecia necessário fazer: "...como em tempo de guerra, quando o inimigo invade uma região. O soberano, em apuros, se recolhe a uma cidade, que fortifica muito bem. Dali sai para atacar os adversários. Os da cidadela são gente tão escolhida que podem mais, eles sozinhos, que muitos soldados, se estes são covardes. Desta maneira muitas vezes conseguem a vitória..... Mas para que vos digo isto? Para que entendais, minhas irmãs, o que havemos de pedir a Deus. É que neste pequeno castelo, já guarnecido de bons cristãos, nenhum se bandeie para os adversários. Que os comandantes deste castelo ou cidade, isto é, os pregadores e teólogos, se tornem ilustres no caminho do Senhor. Na maior parte eles pertencem às ordens religiosas, suplicai para que avancem na perfeição própria de sua vocação, .... Cf. Caminho de perfeição. Cap. 1
               Eles são obrigados a viver entre os homens, a tratar com eles, a estar em palácios, e ainda algumas vezes a conformar-se exteriormente com as exigências dos mundanos..... E julgais, minhas filhas, que é preciso pouca virtude para tratar assim com o mundo, e viver no mundo, e se envolver em negócios do mundo, ... e, não obstante, ser no íntimo estranhos ao mundo...; em uma palavra: não ser homens, mas, anjos? Com efeito, se assim não fossem, nem merecem o nome de comandantes, nem permita o Senhor que saiam de suas celas. Fariam mais mal do que bem. Não é tempo agora de se verem imperfeições nos que devem ensinar.... Não é com o mundo que eles têm que negociar? Estejam certos: o mundo nada lhes perdoa, nem deixa de perceber as menores imperfeições. De muitas obras boas, os mundanos não farão caso e talvez nem as tenham nesta conta.
            Mas faltas ou imperfeições, não há dúvida, nada escapa! Causa-me espanto: quem lhes ensina a perfeição? Não para praticá-la - parece-lhes que disto não têm obrigação e muitos fazem se guardam sofrivelmente os mandamentos - senão para tudo condenar e, por vezes, considerar comodismo o que é virtude. Não penseis, por conseguinte, que seja mister pouco favor de Deus para esses soldados ....precisam de grandíssimo auxílio.
             Peço-vos, por amor de Deus, rogai a Sua Majestade que nos atenda. Eu, embora indigna, peço-o a sua majestade, pois é para sua glória e bem de sua Igreja que estão dirigidos meus desejos.... Se vossas orações e desejos, disciplinas e jejuns não se empregarem no que deixei indicado, ficai certas de que não realizais nem cumpris o fim para o qual o Senhor vos reuniu aqui".
           O que levou esta religiosa, que consagrou à oração décadas de sua vida na cela de um mosteiro, ao desejo apaixonado de fazer algo para a igreja e à lucidez para discernir as necessidades e demandas do seu tempo? Precisamente o fato de que ela vivia em oração e deixou que o Senhor a conduzisse, mais e mais profundamente, em seu "castelo interior" até que encontrasse àquela morada escura onde ele poderia lhe dizer, "que já era tempo de tomar como seus os interesses divinos. Por sua vez, ele cuidaria dos interesses dela.". Foi por isso que ela não pode fazer outra coisa senão "arder de zelo pelo Senhor, o Deus dos exércitos" (zelo zelatus sum pro Domino Deo Exercituum) (palavras de nosso Pai Santo, Elias, que estão presentes como divisas, no brasão de nossa Ordem). O Caminho de perfeição - Essas duas citações são lidas, por nós, todos os anos no mês de setembro. Castelo interior ou Moradas - 7,2,1

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 224: O twitter do Papa.


OLHAR DE EMPRESÁRIO: Vai chover?

Antonio Ermírio de Moraes
Empresário- 90.000 empregados
Revista Exame
            Se você ainda não sabe qual é a sua verdadeira vocação, imagine a seguinte cena:
            Você está olhando pela janela, não há nada de especial no céu, somente algumas nuvens aqui e ali.  Aí chega alguém que também não tem nada para fazer e pergunta: "-   Será que vai chover hoje?"
            Se você responder "com certeza"... a sua área é Vendas.
            O pessoal de Vendas é o único que sempre tem certeza de tudo.
            Se a resposta for "sei lá, estou pensando em outra coisa"... então a sua area é Marketing.
            O pessoal de Marketing está sempre pensando no que os outros não estão pensando.
            Se você responder "sim, há uma boa probabilidade" ... você é da área de  Engenharia.
            O pessoal da Engenharia está sempre disposto a transformar o universo em números.
            Se a resposta for "depende"... você nasceu para Recursos Humanos.
            Uma área em que qualquer fato sempre estará na dependência de outros fatos.
            Se você responder "ah, a meteorologia diz que não" . você é da área de Contabilidade.
            O pessoal d a Contabilidade sempre confia mais nos dados no que nos próprios olhos.
            Se a resposta for "sei lá, mas por via das dúvidas eu trouxe um guarda-chuvas" ... então seu lugar é na área Financeira que deve estar sempre bem preparada para qualquer virada de tempo.

                  Agora, se você responder "não sei"... há uma boa chance que você tenha uma carreira de sucesso e acabe chegando a diretoria da empresa. De cada 100 pessoas, só uma tem a coragem de responder "não sei" quando não sabe. Os outros 99 sempre acham que precisa m ter uma resposta pronta, seja ela qual for, para qualquer situação.
        "Não sei" é sempre uma resposta que economiza o tempo de todo mundo, e pré-dispõe os envolvidos a conseguir dados mais concretos antes de tomar uma decisão.
            Parece simples, mas responder "não sei" é uma das coisas mais difíceis de se aprender na vida corporativa.
            Por quê?
            Eu sinceramente "não sei".

domingo, 16 de dezembro de 2012

OBSIDADE E VIDA RELIGIOSA.


OBSIDADE E VIDA RELIGIOSA. Você já viu estes vídeos? Não! Acesse aqui. Clique.
http://www.videolog.tv/video.php?id=791996.
http://www.videolog.tv/video.php?id=822391

 

OLHAR A NOSSA HISTÓRIA: Arquivar a Própria Vida

Philippe Artières
Ttradução, Dora Rocha.

Imaginemos por um instante um lugar onde tivéssemos conservado todos os arquivos das nossas vidas, um local onde estivessem reunidos os rascunhos, os antetextos das nossas existências. Encontraríamos aí passagens de avião, tíquetes de metrô, listas de tarefas, notas de lavanderia, contracheques; encontraríamos também velhas fotos amarelecidas. No meio da confusão, descobriríamos cartas correspondências administrativas e cartas apaixonadas dirigidas à bem-amada, misturadas com cartões postais escritos num canto de mesa longe de casa ou ainda com aquele telegrama urgente anunciando um nascimento. Entre a papelada, faríamos achados: poderia acontecer de esbarrarmos com nosso diário da adolescência ou ainda com algumas páginas manuscritas intituladas “Minhas lembranças de infância”.
Esse lugar, podemos apenas imaginá-lo, pois se, como observava G. Perec, “existem poucos acontecimentos que não deixam ao menos um vestígio escrito”. Se Quase tudo, em algum momento, passa por um pedaço de papel, um folha de bloco, uma página de agenda, ou não importa que outro suporte ocasional sobre o qual vem se inscrever, numa velocidade variável e segundo técnicas diferentes, de acordo com o lugar, a hora, o humor, um dos diversos elementos que compõem a vida de todo dia”,1 não conservamos senão uma parte ínfima de todos esses vestígios. Por quê? Primeiro, porque a perda é induzida por certas práticas (a correspondência, por exemplo, é por natureza uma escrita perdida).
Depois, porque dessa vida de todo dia, retemos apenas alguns elementos (um diário íntimo, por exemplo, é por definição uma seleção e não é jamais. Enfim, porque fazemos triagens nos nossos papéis: guardamos alguns, jogamos fora outros; damos arrumações quando nos mudamos, antes de sairmos de férias. E quando não o fazemos, outros se encarregam de limpar as gavetas por nós. Essas triagens são guiadas por intenções sucessivas e às vezes contraditórias. Como observa mais uma vez Perec, “o problema das classificações é que elas não duram; mal acabo de impor uma ordem e essa ordem já está caduca. [...] O resultado de tudo isso são categorias realmente estranhas: por exemplo, uma pasta cheia de papéis diversos na qual está escrito ‘A classificar’; ou então uma gaveta com a etiqueta ‘Urgente 1’ sem coisa alguma dentro (na gaveta ‘Urgente 2’ há fotos antigas, na ‘Urgente 3’, cadernos novos). Resumindo”, conclui Perec, “eu me viro.”2 Passamos assim o tempo a arquivar nossas vidas: arrumamos, desarrumamos, reclassificamos.
Por meio dessas práticas minúsculas, construímos uma imagem, para nós mesmos e às vezes para os outros. Analisar esse “virar-se” é “interrogar o que parece ter deixado para sempre de nos espantar. Nós vivemos, decerto, respiramos, decerto; andamos, abrimos portas, descemos escadas, nos sentamos à mesa para comer, nos deitamos na cama para dormir. Como? Onde? Por quê?”  Refletir sobre esse “virar-se” é em suma falar de uma coisa comum, perseguir esse infra-ordinário, desentocá-lo, dar-lhe sentido e talvez entender um pouco melhor quem somos nós.
Mas é também, segundo Michel de Certeau, analisar uma arte de fazer. Ou seja,
“dentre os procedimentos populares (minúsculos e cotidianos) que brincam com os mecanismos da disciplina e se conformam a eles apenas para superá-los, quais ‘maneiras de fazer’ formam a contrapartida, do lado dos consumidores (ou ‘dominados’?), dos procedimentos mudos que organizam a ordenação sociopolítica.”4 Estudar a constituição pessoal de arquivos de vida é nesse sentido “exumar as formas sub-reptícias que assume a criatividade dispersa, tática e manipuladora dos grupos ou dos indivíduos presos doravante nas malhas da vigilância. A rede de uma antidisciplina”.
Pois, por que arquivamos nossas vidas? Para responder a uma injunção social. Temos assim que manter nossas vidas bem organizadas, pôr o preto no branco, sem mentir, sem pular páginas nem deixar lacunas. O anormal é o sem-papéis. O indivíduo perigoso é o homem que escapa ao controle gráfico. Arquivamos portanto, nossas vidas, primeiro, em resposta ao mandamento “arquivarás tua vida” e o farás por meio de práticas múltiplas: manterás cuidadosamente e cotidianamente o teu diário, onde toda noite examinarás o teu dia; conservarás preciosamente alguns papéis colocando-os de lado numa pasta, numa gaveta, num cofre: esses papéis são a tua identidade; enfim, redigirás a tua autobiografia, passarás a tua vida a limpo, dirás a verdade. Mas não arquivamos nossas vidas, não pomos nossas vidas em conserva de qualquer maneira; não guardamos todas as maçãs da nossa cesta pessoal; fazemos um acordo com a realidade, manipulamos a existência: omitimos, rasuramos, riscamos, sublinhamos, colocamos em exergo certas passagens. Num diário íntimo, registramos apenas alguns acontecimentos, omitimos outros; às vezes, quando relemos nosso diário, acrescentamos coisas ou corrigimos aquela primeira versão.
Na correspondência que recebemos, jogamos algumas cartas diretamente no lixo, outras são conservadas durante um certo tempo, outras enfim são guardadas; com o passar do tempo, muitas vezes fazemos uma nova triagem. O mesmo acontece com as nossas próprias cartas: guardamos cópia de algumas, seja em razão do seu conteúdo, seja em razão do seu destinatário. Numa autobiografia, a prática mais acabada desse arquivamento, não só escolhemos alguns acontecimentos, como os ordenamos numa narrativa; a escolha e a classificação dos acontecimentos determinam o sentido que desejamos dar às nossas vidas.
Dessas práticas de arquivamento do eu se destaca o que poderíamos chamar uma
intenção autobiográfica. Em outras palavras, o caráter normativo e o processo de objetivação e de sujeição que poderiam aparecer a princípio, cedem na verdade o lugar a um movimento de subjetivação. Escrever um diário, guardar papéis, assim como escrever uma autobiografia, são práticas que participam mais daquilo que Foucault chamava a preocupação com o eu. Arquivar a própria vida é se pôr no espelho, é contrapor à imagem social a imagem íntima de si próprio, e nesse sentido o arquivamento do eu é uma prática de construção de si mesmo e de resistência.

Escolhi também simbolicamente os arquivos pessoais de um criminoso para insistir nos objetivos individuais de uma tal prática. O arquivamento do eu não é uma prática neutra; é muitas vezes a única ocasião de um indivíduo se fazer ver tal como ele se vê e tal como ele desejaria ser visto.
Arquivar a própria vida, é simbolicamente preparar o próprio processo: reunir as peças necessárias para a própria defesa, organizá-las para refutar a representação que os outros têm de nós. Arquivar a própria vida é desafiar a ordem das coisas: a justiça dos homens assim como o trabalho do tempo.
Por outro lado, o caso desse criminoso oferece, graças aos documentos que foram
conservados, a possibilidade de mostrar que o arquivamento do eu é uma prática plural e incessante. No seu último ano de vida, Nouguier multiplica e modifica de fato as iniciativas: ele escreve um diário e redige várias autobiografias. Pois não arquivamos nossas vidas de uma vez por todas. Incessantemente, até o último momento, nossos arquivos estão sendo refeitos. Nossa intenções mudam em função de fatores pessoais mas também externos. Os arquivos de Nouguier são nesse sentido um palimpsesto. São arquivos sucessivos e de vártios tipos, cada um com funções diversas. O interesse do caso de Nouguier está em que a sua prisão teve como consequência a acumulação e a conservação das suas diferentes maneiras de arquivar a sua vida. O caso de Nouguier permite portanto, apreender a história completa da relação que ele mantém com os seus papéis e restituir o discurso que ele emite sobre a sua prática e notadamente as dificuldades que ele encontra.
Com essa escolha de uma prática de arquivamento do eu primeiro espontânea e depois sob encomenda, eu quis insitir também no papel central do destinatário e das condições de produção do arquivo. Uma parte dos arquivos pessoais do prisioneiro era dirigida ao professor Lacassagne. Sempre arquivamos as nossas vidas em função de um futuro leitor autorizado ou não (nós mesmos, nossa família, nossos amigos ou ainda nossos colegas). Prática íntima, o arquivamento do eu muitas vezes tem uma função pública. Pois arquivar a própria vida é definitivamente uma maneira de publicar a própria vida, é escrever o livro da própria vida que sobreviverá ao tempo e à morte.
Eu quis mostrar, por fim, que a constituição pelo indivíduo de arquivos pessoais, longe de restringir e de circunscrever, é formidavelmente produtiva. Enquanto alguns poderiam crer que essa prática participa de um processo de sujeição, ela provoca na realidade um processo notável de subjetivação. Pois, finalmente, a fim de arquivar a sua vida, Nouguier inventa uma forma profundamente original, constrói para si mesmo uma identidade a partir e em torno das representações que eram feitas dele. Forçado arquivar a sua vida, ele imaginou um discurso híbrido que resiste à interpretação. Em suma, um dispositivo de resistência.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O SANTO DO CARMELO: São José

Resenhas e meditações de Dom Frei Gabriel Paulino Bueno Couto O.Carm.
Tradução por Frei Pedro Caxito O.Carm. In Memorian

            À São José "devem afeiçoar-se de maneira especial as pessoas de oração, porque não sei como se pode pensar na Rainha dos Anjos e nos grandes trabalhos que teve de sofrer com o Menino Jesus, sem agradecer a São José que serviu de tanta ajuda para os dois", assim falava a grande Santa do Carmelo, Santa Teresa de Jesus (V. Autobiografia  VI nº8). Com estas palavras Santa Teresa não exprime somente uma convicção sua pessoal, mas de todo o Carmelo, em cuja escola aprendeu a venerar o puríssimo Esposo de Maria.
            A Ordem do Carmo, na verdade, que  nasceu  do amor à oração amor do qual vive e cresce até agora - e que deve aos cuidados maternais da Rainha dos Anjos a sua existência na Igreja de Deus, não podia deixar de associar com a devoção a Nossa Senhora a mais afetuosa devoção a São José, Seu puríssimo Esposo: "O Carmelo teve-O sempre numa veneração cheia de carinho, e com muita solenidade não cessou de celebrar a sua festa", já escrevia, no longínquo ano de 1479, o carmelita Arnoldo Bóstio (V. Speculum Carmelitanum  nº1109).
            Atribui-se à Ordem, que transmigrou do Oriente para o Ocidente, o mérito de ter dado ao culto de São José, na Igreja Ocidental, o esplendor particular de que hoje se reveste, como escreve Bento XIV: "É sentença comum entre os eruditos que foram os Carmelitas que trouxeram do Oriente para o Ocidente o costume louvável de honrar São José com soleníssimo culto, acompanhados depois neste ponto pelas Famílias Religiosas de São Domingos e São Francisco" (De Servorum Dei beatificatione et Beatorum canonizatione L.IV  p.II  c.XX). Para isto deve ter contribuído não pouco o belíssimo ofício que, até o ano de 1585, se cantava no dia 19 de março no coro dos carmelitas, com antífonas, responsórios, etc. especiais, em versos rimados.
            Não é, portanto, para se maravilhar se Santa Teresa, que viveu plenamente as mais belas tradições do Carmelo, tenha concebido também uma particular devoção ao humilde esposo da Virgem Santíssima e, em troca, dele tenha recebido provas singularíssimas de afeto paternal. Hoje é clássica a página que a Santa Carmelita escreveu a respeito da devoção a São José na sua Autobiografia (cap. VI n.6-8). Fala da própria experiência quando aí afirma: "As almas que a Ele se recomendam são ajudadas de um modo todo especial"; "não me lembro até hoje de ter-Lhe implorado alguma graça sem logo tê-la alcançado"; "há já vários anos que no dia da sua festa eu Lhe peço uma graça especial: Ele sempre me atendeu". Mas não foi ela somente que chegou a fazer esta constatação; muitas outras pessoas que, seguindo o seu conselho, se recomendaram a São José, confessaram o mesmo: "Isto, por outra parte, também reconheceram por experiência outras pessoas que, seguindo o meu conselho, se recomendaram ao seu patrocínio, e são muitas as almas que há pouco se tornaram suas devotas por haverem experimentado esta verdade". O Santo tudo consegue - diz Santa Teresa - e a sua proteção se demonstra eficaz em todas as nossas necessidades: "É coisa que verdadeiramente causa maravilha recordar os grandes favores que o Senhor me fez e os perigos, tanto da alma como do corpo, dos quais me livrou por intercessão deste Santo". A razão é que o Senhor quer continuar a fazer a vontade dele no céu assim como submeteu-se a ele na terra: "O Senhor quer fazer entender com isto que da maneira como era submisso a ele na terra, onde como pai e guarda podia dar-lhe ordens, hoje igualmente faz no céu quando ele lhe faz os seus pedidos". Virtudes, espírito de oração, todas são graças que este glorioso Santo concede à alma "que Lhe seja sinceramente devota e que pratique em sua honra alguma particular devoção" e que nos caminhos da vida interior a Ele se confie como a seu Mestre: "Quem, além disso, não tivesse alguém com o qual pudesse aprender a fazer oração, tome por mestre este Santo glorioso, e não se enganará". E com ardorosas palavras insiste: "Rogo, por amor de Deus, que experimente quem não acredita em mim e por experiência verá de que vantagem seja recomendar-se a este glorioso Patriarca e ser devotos dele".
            Enquanto a Santa carmelita de Ávila no-lo demonstra glorioso nos prodígios que operava, uma outra Santa do Carmelo, Santa Maria Madalena de' Pazzi, nos faz contemplá-lo na sua glória no céu. Arrebatada em êxtase, a Santa do Carmelo de Florença prorrompe nesta exclamação: "Oh! Quanto o glorioso São José participa da paixão de Jesus pelos serviços que lhe prestou na Sua Humanidade!"
            O culto que o Santo recebe no Carmelo, na Igreja toda, nada subtrai ao culto à Nossa Senhora, pelo contrário, o faz ressaltar mais intensamente, assim como no céu "a pureza de José se põe lado a lado com a pureza de Maria e assim naquele transbordamento de esplendor que um transmite ao outro, parece, por assim dizer, que a pureza de José faça a pureza da Virgem aparecer muito mais esplêndida e gloriosa".
            Chefe da Sagrada Família, São José era todo carinho para Jesus e Maria quando ainda vivia na terra; agora no céu "está José no meio de  Jesus  e  Maria  como uma estrela  brilhante" e - continua a Santa no êxtase - "concede uma proteção especial às almas que militam sob o estandarte de Maria".
            Debaixo do estandarte de Maria se milita no Carmelo! Quem aí combate não sucumbirá: sobre ele vela o Santo do Carmelo! Conquistará a vitória sustentado e defendido pelo seu braço todo- poderoso!

FREI JOSÉ APARECIDO: Missa de Ordenação Presbiteral. (Final)


Imagens da Ordenação Presbiteral do Frei José Aparecido, Padre Carmelita da Ordem do Carmo.  Munhoz-MG, 07 de fevereiro-1998  (Último vídeol). Convento do Carmo, São Paulo, SP. 13 de dezembro-2011. DIVULGAÇÃO: Blog: http://mensagensdofreipetroniodemiranda.blogspot.com; www.olharjornalistico.com.br; www.facebook.com/olharjornalistico; www.facebook.com/freipetronio2; www.flickr.com/photos/avozdoscarmelitas; www.youtube.com/olharjornalistico; www.videolog.tv/freipetronio; www.youtube.com/carmo160; www.twitter.com/freipetronio; www.youtube.com/petros637; www.myspace.com/olharjornalistico; www.mais.uol.com.br/olharjornalistico; www.youtube.com/PetrosAntonio

FREI JOSÉ APARECIDO: Missa de Ordenação Presbiteral. (2ª Parte)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

FREI JOSÉ APARECIDO: Missa de Ordenação Presbiteral. (1ª Parte)

Os Terésios em Pernambuco no séc. XVII (Carmelitas Descalços).

Texto livre sobre história da Ordem
Intitulado: SOB AS ASAS DO VENTO,  de Frei Cardoso, OCD.
Hoje trazemos para o boletim textos e indicações recolhidos na Web sobre a presença conflituosa, difícil dos nossos frades em Pernambuco e na Bahia no séc. XVII. A dificuldade se deu pela peculiar situação eclesiástica da época colonial somada ao pulular dos movimentos pela independência da colônial. O texto a seguir  revela como os frades pegaram carona num conflito que teve como centro os oratorianos do Recife.
Num artigo escrito por Evaldo Cabral, o autor chama a atenção do leitor para o papel representado pelas ordens religiosas no Brasil colonial, com relação ao aparecimento dos sentimentos nativistas. Como um estudo de caso das relações de nativismo e religião, é examinada a história do cisma que aconteceu em Pernambuco, no final do século XVII, entre os padres do Oratório de São Filipe Néri (chamados de os Néris). O exame da disputa é feito em seus próprios termos, mas também à luz das crescentes tensões políticas, sociais e econômicas entre os proprietários de engenhos de açúcar e os meios comerciais do Recife. O autor conclui mostrando que ambos os lados do conflito oratoriano eram apoiados tanto pelos nobres de Olinda quanto pelos comerciantes do Recife. Neste conflito foram envolvidos os descalços. Trazemos as partes do texto que trazem referência aos Terésios.
A cisão no Oratório de Pernambuco ocorrerá precisamente ao longo de uma linha de clivagem que separará os padres da Madre de Deus e os padres das aldeias, sediados em Santo Amaro.
A questão dos estatutos era "todo o Aquiles em que se debate o ponto", como reconhecerá o representante do bispo de Olinda em Lisboa. A rejeição dos dissidentes prendia-se a não desejarem "estar sujeitos e dependentes do governo da dita Congregação", isto é, do Oratório lusitano, ao que retrucavam os padres da Madre de Deus que a uniformidade da disciplina religiosa não acarretava sujeição, "somente uma união política entre si"...
Na "ojeriza ao apêndice", o historiador dos néris, Ébion de Lima, detectou "um laivo de nativismo se despertando no mundo eclesiástico brasileiro contra as imposições da metrópole".
A resistência de Santo Amaro feria uma nota que ressoava fundo no meio clerical da capitania, sobretudo nas ordens religiosas trabalhadas desde meados do século XVII pelas rivalidades entre professos do Reino e professos do Brasil, mas também na esfera secular, fraturada pela inimizade entre os reinóis e os naturais...
Foram os capuchos, ou franciscanos reformados, e os terésios, ou carmelitas descalços, os principais promotores da agitação. Se estes gozavam de influência reduzida, aqueles pelo contrário, pertenciam à ordem hegemônica na capitania, quer pelo número de seus conventos e pela sua implantação rural, de que as demais religiões careciam, quer pela sua popularidade em todas as camadas sociais. Os guardiões dos conventos franciscanos do Recife e Olinda mostravam-se os mais exaltados de todos, negando-se mesmo, como o prior de Santa Teresa, a comparecerem a uma reunião da Junta das Missões, marcada para discutir a liberdade dos índios do Jaguaribe (Ceará), com a explicação de estarem canonicamente proibidos de falarem com o bispo e com os oratorianos. Desde o recebimento da comissão, os capuchos e os terésios haviam cessado de frequentar o paço episcopal, e uma vez deflagrada a crise, passaram, do alto do púlpito, a desancar D. Francisco, procurando este, segundo dizia, "por todos os caminhos que a maldade costuma descobrir, descompor-me e desacreditar-me com os povos", inclusive exortando os fiéis, a bem da salvação das suas almas, a não freqüentarem as igrejas da diocese, interditas em decorrência da excomunhão do prelado por frei Benedito, único representante legítimo do Papa no bispado, conforme proclamavam. D. Francisco tinha reproches a favor a uns e a outros. Para ele, os descalços, também chamados marianos, não tinham qualquer utilidade em Pernambuco, aonde chegavam "despidos do espírito de Santa Teresa, para procurarem o temporal e para o inquietarem", apreciação que traduzia talvez certa má vontade de seita, pois o bispo era carmelita calçado. Quanto ao guardião do convento franciscano do Recife, frei Cosmo do Espírito Santo, acusava-o de acolher "os clérigos criminosos e suspensos nas ordens, consentindo-lhes que usem delas como se não estivessem excomungados", ademais de praticar "outras coisas mais que me causam grande escândalo".

sábado, 8 de dezembro de 2012

PROFISSÃO SOLENE: Convite.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 217: Dom Jairo e Santo Ambrósio.

2º Domingo do Advento: Preparai o caminho!

 Domingo passado, as leituras nos remetiam ao fim dos tempos: Cristo virá! Hoje e no domingo próximo, levam-nos à nossa vida de cada dia: Cristo vem hoje! Se, de verdade, (pomos) mãos à obra e preparamos o caminho do Senhor, Deus passará pelo coração dos homens.
A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 2º Domingo de Advento (9 de dezembro de 2012). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara, e José J. Lara.

Eis o texto.
Referências bíblicas:
1ª leitura: Br 5,1-9
Salmo 125
2ª leitura: Fl 1,4-6.8-11
Evangelho: Lc 3,1-6
João, modelo de transparência
Os dois primeiros capítulos do Evangelho de Lucas contam a infância de Jesus. Formam como que um Evangelho especial. Já este terceiro capítulo inicia um novo relato, comparável ao Evangelho de Marcos. Lucas começa enumerando os potentados que governavam a região e, também, o Império. O contraste é marcante: a palavra de Deus, que faz o universo existir, não se dirige a nenhum destes importantes personagens, mas sim ao filho de Zacarias, de quem sequer se diz ser sacerdote, nem mesmo um dentre tantos, em Israel. Este João que Mateus e Marcos descrevem como um asceta é, de qualquer modo, uma pessoa transparente. Voz que clama no deserto é a voz de Outrem, pois o que é falado por ele é a palavra de Deus. Assim, João desaparece diante d’Aquele que anuncia. Com seu dedo apontado, não atrai os olhares e a atenção de todos para si mesmo, mas para quem (ele) está indicando.
Em nossos desertos de ausência de Deus, podemos encontrar o Cristo através de qualquer desconhecido, seja ele quem for, e não necessariamente através dos que, em nossas sociedades, são pessoas importantes. O Cristo nos alcança através de todos estes de quem nos tornamos o próximo, através d’ "o menor desses pequeninos" de que fala Jesus, em Mateus 25. Deus não economiza a sua Palavra. Ele nos fala sempre, através de todos os nossos irmãos. Assim, João Batista não desapareceu, mas encontra-se revivido em cada um de nós, desde que renunciemos a atrair para nós mesmos o olhar dos outros e orientemos a sua atenção para Aquele que vem; ou seja, desde que, para eles, abramos um futuro.
Atualidade de João Batista
E João, mesmo assim, conserva toda a sua personalidade histórica. O papel que desempenha foi comunicado a muitos homens, sem que neles se desfaça. Encarnada em João está toda a primeira Aliança. João, desta Antiga Aliança, é de qualquer forma o resultado e a recapitulação. Por isso sem dúvida, a respeito dele, os evangelistas citam Isaías. Porém o texto escolhido anuncia o retorno do exílio da Babilônia, mas com imagens que, vindas do Êxodo, referem-se à libertação da servidão no Egito. Será agora, com o Cristo, que irá produzir o verdadeiro retorno do exílio: o Êxodo definitivo.
Outro paradoxo é que este "agora" está no futuro: João anuncia alguém que vem depois de si próprio. Este que vem é que vai dar valor ao nosso presente, conforme vimos no domingo passado. O Cristo nos possui já, enquanto esperamos a sua vinda. Sua vinda é permanente, mas está sempre por se fazer, até que seja “tudo em todos". Daí ser necessário que, de nossa parte, nos mantenhamos sempre abertos, constantemente, sem cessar. Sempre completos, mas nunca satisfeitos; esta é a nossa situação. Podemos estar certos de que, aconteça o que acontecer, por pior que seja, Cristo virá nos alcançar através disto mesmo. De qualquer tipo de madeira(,) Deus faz as suas flechas. Para nos conduzir até a terra prometida, usa tudo quanto a Ele nós mesmos impomos. João Batista está, portanto, sempre atual, uma vez que (nós) estamos sempre aquém de uma nova vinda de Deus. Temos necessidade de que nos seja indicado Quem, com certeza, está no meio de nós, mas que não (o) reconhecemos.
Abrir-nos à alegria
Não gostamos muito de ouvir falar em conversão, penitência, perdão dos pecados. Preferimos as metáforas de Isaías que são menos desagradáveis: preparar o caminho, endireitar as veredas, aterrar os vales... De que se trata? De abrirmo-nos para Deus, deixar que Ele nos crie à sua imagem, deixar sermos gerados. Mas temos medo de ter que mudar. Não gostamos de pontos de interrogação: preferimos ficar sentados no conforto de nossas certezas. Conversão consiste em nos interrogarmos sobre os nossos hábitos, sobre o valor de nossos desejos; consiste em sair de nosso sono para voltar os nossos olhos para Aquele que vem; sempre novo. Só então ficaremos curados de nossas paralisias, ao ouvir o Cristo nos dizer: "Levanta-te e anda". Vem andando até mim, vem me seguir.
O batismo que João propõe, "em remissão dos pecados", significa um novo nascimento, um novo começo de vida; em direção à vida. De fato, o "pecado" não é a princípio transgressão a alguma proibição ou alguma lei, mas é o que se atravessa frente à nossa criação, à nossa verdade. O batismo de João não nos oferece a plenitude da vida nova, mas nos leva a fazer o deserto dentro de nós mesmos: a ‘tabula rasa’ de tudo (o) que nos impede de dar lugar, por inteiro, àquele que vem. Devemos notar que as três leituras nos anunciam a boa nova: temos certamente que superar as nossas ilusões e a vida errante, mas para nos abrirmos à alegria (Baruc 5,9; Filipenses 1,11; Lucas 3,4-6). Depois de atravessar o deserto, a Terra prometida.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A Contemplação na experiência dos grandes místicos.


"Toda contemplação verdadeira nos leva ao encontro com o Cristo pobre, rasgado, cuspido, violentado, ensanguentado e abandonado na zona rural, nos viadutos, nas ruas e nas portas das nossas Igrejas". Frei Petrônio de Miranda (Foto), Padre Carmelita e Jornalista. Convento do Carmo, Lapa, Rio de Janeiro. www.olharjornalistico.com.br

RAFAEL CHECA CURI

            A Igreja vive da contemplação que lhe permite peregrinar na trajetória da história humana, pendente de Deus e de sua palavra. O Espírito Santo ilumina seu roteiro, descobrindo-lhe, cada vez mais profundamente, o mistério de Deus, do homem e do mundo. O próprio Deus não é uma abstração ou, apenas, uma esperança. Sua presença, a de Cristo ressuscitado e glorioso, é uma consoladora experiência. Jesus Cristo vive em seu corpo místico. A comunidade o compreende e o sente. A Igreja experimenta um crescimento gradual, na ordem do conhecimento sapiencial do mistério de Deus, da esperança ativa que a impele a transformar a sociedade humana, da caridade e do amor que faz presente o Senhor no mundo, como pai e como irmão dos homens.
           Esta experiência de que goza a Igreja se concretiza em seus membros, que participam desse dom contemplativo, na medida em que Deus lhos outorga gratuitamente e eles se dispõem a recebê-lo. O Concílio Vaticano II fez-se consciente desta realidade, quando considerou a necessidade de conservar e aumentar no homem as "faculdades da contemplação e da admiração que levam à sabedoria" (G.S. 56). Com isso o homem, "mais livre da escravidão das coisas, pode ser elevado com maior facilidade ao próprio culto e à contemplação do Criador" (G.S. 57).
            Todos nós levamos, ao recebermos o batismo, o germe da contemplação. Nossa inserção em Cristo, como cepas na videira (Jo 15,15), permite-nos viver sua vida de união com o Pai e de docilidade face à ação do Espírito. Essa vida é Vida de fé, de esperança e de caridade. Em São João da Cruz, "contemplar", mais do que grau de oração mística, é vida teologal em exercício, comunicação de Deus transcendente, acolhido em fé e amor. E a vida teologal é patrimônio do cristão e do homem a quem Deus a conceder.
            É claro que, se é vida e dinamismo da pessoa, está sujeita ao imperativo do crescimento gradual. Este crescimento supõe uma meta, a que Deus chama, ainda nesta vida e que, obviamente, amplia indefinidamente na glória. Do mesmo modo, todos os humanos estamos chamados à maturidade da vida, mesmo se alguns morrem na infância, na adolescência ou na juventude.
            A contemplação, Vida de face a face com Deus, passa por essas diversas idades: infância, adolescência, juventude e plena maturidade. Os grandes santos percorreram todas as etapas, ou, melhor dizendo, foram impelidos pela ação de Deus e por seu livre concurso, através de todas elas, até a comunhão plena do amor.
            Esses cristãos são os que chamados místicos, isto é, homens ou mulheres que viveram e experimentaram o mistério de Deus e de suas relações.
      A trajetória desses gigantes do espírito pode sintetizar-se assim: a contemplação cristã é obra do Espírito Santo, este intervém desde a arrancada inicial e prossegue através de cada uma das etapas: sua presença e sua ação, a medida que são mais intensas, potenciam qualitativa e quantitativamente as capacidades de crescimento espiritual da pessoa; esse desenvolver-se identificada ;mais e mais a pessoa com Cristo e abre-a para uma consciência de sua proximidade, de sua presença, de seu amor e de sua ação a partir de um momento querido por Deus, sua experiência começa a ser mais consciente e mais explícita: quando a presença divina e seu amor e influência se fazem mais lúcidos e relevantes, a obra de transformação e de união divino-humana adquirem uma expressão mística.
            Esses grandes místicos que atingiram o ponto mais algo do cimo da comunhão com Deus estão presentes em toda a história cristã.