Total de visualizações de página

Seguidores

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Padre Cícero

Padre Cícero
*Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.

Uma carta do Secretário de Estado de Sua Santidade, o Cardeal Pietro Parolin, datada de 20 de outubro de 2015 e dada a conhecer no dia 13 de dezembro do mesmo ano, data da abertura das portas santas da misericórdia nas catedrais do mundo, reconhecendo as virtudes e bem que o Padre Cícero fez ao povo de Deus no Nordeste foi amplamente divulgada no final do ano passado.
Nosso “Padim Ciço” é assim chamado pelo povo que o admira e diz que é porque, após a proibição de celebrar os sacramentos, ele foi chamado a ser padrinho de batismo de muitas crianças. É com essa expressão carinhosa e confiante que muitos de nossos irmãos, nordestinos ou não, se dirigem ao Padre Cícero Romão Batista (1844-1934). Ele é o sacerdote sobre o qual a mídia, no final do ano passado, tem voltado a atenção, especialmente com manchetes que intentavam passar a mensagem de que a Igreja o tinha reabilitado. Como estamos nos aproximando do dia 2 de fevereiro, data que marca a história da região com a grande procissão de nossa Senhora das Candeias, em respeito ao povo e à verdade sempre é importante aprofundar um pouco mais essa questão.
Padre Cícero nasceu no dia 24 de março de 1844, em uma casa humilde da Rua Grande, hoje Miguel Limaverde, em Crato (CE), cidade localizada no Sopé da Chapada do Araripe, como segundo filho do casal de agricultores Joaquim Romão Batista e Joaquina Vicência Romana. Conta-se que, criado por duas de suas irmãs, Mariquinha e Angélica, sempre quis ser padre e já aos doze anos, depois de ler a vida de São Francisco de Sales, fez, piedosamente, voto de castidade.
Ingressou no seminário da Prainha, em Fortaleza, com 21 anos de idade e aos 26 foi ordenado sacerdote, atuando um pouco na própria cidade de Crato, mas durante 60 anos morou e atuou em Juazeiro do Norte, povoado vizinho à sua terra natal. Aí exerceu um imenso bem à população, segundo as diretrizes pastorais de seu tempo, com o incentivo de missões populares, novenas, terços públicos, procissões e celebração da Missa com frequência.
Aqui é preciso lembrar que era comum a celebração da Eucaristia apenas aos domingos durante o dia. Nelas, na maioria das vezes, as comunhões eram raras. A Missa durante a noite, salvo a de Natal (chamada de “Missa do Galo”), só foi possível com a reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), assim como a comunhão frequente passou a ser estimulada, inclusive às crianças devidamente preparadas, pelo Papa São Pio X (1903-1914), por quem o Papa Francisco tem grande devoção. Desde que era arcebispo de Buenos Aires promovia, anualmente, um encontro com os (as) catequistas no dia 21 de agosto, memória do santo, que faleceu, em odor de santidade, depois de grandes trabalhos em favor do Povo de Deus. Dessas formações de Bergoglio, resultou o livro Anunciar o Evangelho (Campinas: Ecclesiae, 2013).
Voltando, porém, ao Padre Cícero, vê-se que ele foi fiel ao espírito de certa recusa à obediência às ideias portuguesas em si, frutos do chamado Regime de Padroado, no qual Igreja e Estado se achavam ligados para aderir às regras de Roma, ou seja, havia nele plena fidelidade ao Santo Padre, o Papa, e ao Bispo diocesano em comunhão com o Papa, alicerces da unidade a ser mantida na Igreja sob pena de esfacelamento da face humana do Corpo místico de Cristo prolongado na história (cf. 1Cor 12,12-21; Cl 1,24).
O Pe. Comblin, sacerdote belga que muito atuou no Nordeste na época de Dom Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife (PE), escreveu que o Padre Cícero “dedicou-se a corrigir os vícios e os abusos morais”. Proibiu as danças, conseguiu que os homens parassem de beber. Obrigou as prostitutas a confessar seus pecados. Em pouco tempo, Juazeiro tornou-se um modelo de ordem e de virtudes. Padre Cícero era no Juazeiro o equivalente ao Santo Cura D’Ars. (Padre Cícero de Juazeiro. S. Paulo: Paulinas, 1991, apud Henrique Cristiano José de Matos. Caminhando pela história da Igreja. Belo Horizonte: O Lutador, 1993, vol. 3, p. 172).
No entanto, na passagem do Império à República (1889), com grande mudança no cenário político-religioso, o zeloso sacerdote não deixou de entrar em um ritmo de fala um tanto “apocalíptica” (com anúncios de catástrofes eminentes para o mundo). Dizia que com a nova forma de governo brasileiro o fim do mundo estaria próximo. Daí, sempre insistir com seus fiéis sobre o Juízo Final e a necessidade de se confessarem a fim de estarem puros na volta do Senhor e, consequentemente, escaparem dos castigos de Deus para a humanidade pecadora que, segundo suas pregações, não tardariam vir demonstrando a força de Deus.
No entanto, Padre Cícero ficou mais conhecido por todo o Brasil, especialmente a partir do ano de 1889, quando se deram os chamados “milagres da hóstia”. Trata-se do seguinte: Maria de Araujo (1860-1914), conhecida como “Beata”, solteira de 29 anos e costureira de prestígio, foi comungar e viu a hóstia verter sangue, conforme ela mesma narrou ante as autoridades eclesiásticas, no inquérito instaurado para apurar os fatos. Disse Maria que, no dia 6 de março de 1889, “pela primeira vez, fui tomada de um rapto extático, resultando na transformação da hóstia em sangue, tanto que além do que não sorvi, parte caiu na toalha e parte no chão” (Maria do Carmo P. Forti. Maria de Araujo, a beata de Juazeiro. S. Paulo: Paulinas, 1991, apud Matos, obra citada, p. 173).
O fato, tido, então, por milagroso, se repetiu diversas vezes, ocasionando muitas peregrinações do povo a Juazeiro e certo espanto no meio do clero, pouco afeito a esse tipo de fenômeno que precisa ser sempre muito bem investigado. A Igreja é prudente e não afoita na análise de assuntos como esse. Nos meios populares, no entanto, surgiu uma possível explicação para as ocorrências: ante a grande maldade do mundo, dentre as quais se destacou a proclamação da República no Brasil, Nosso Senhor tinha decidido derramar o Seu sangue uma segunda vez para redimir novamente a humanidade. Outros, mais atentos às pregações apocalípticas do zeloso sacerdote, defendiam que o sangue saído da hóstia na boca da jovem Maria era sinal claro do Juízo Final muito próximo. (Cf. Matos, obra e página citadas).
Ora, parece que o Padre Cícero via, apoiado no parecer de um médico e de um farmacêutico local, um verdadeiro milagre na hóstia sangrante, mas o Bispo, à luz do parecer de uma comissão específica por ele nomeada, notou apenas um fenômeno incomum, mas não milagroso. Mais: ambas as lições extraídas do fenômeno foram (e são) exageradas e errôneas. Com efeito, o sacrifício de Cristo na Cruz é único e supera todos os demais sacrifícios (cf. Hb 10,10), de modo a não se poder afirmar que o Senhor voltou a derramar seu sangue pela humanidade, como se tivesse de fazer uma reedição de sua aliança nova e eterna (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 613-614). Sobre o juízo final sabemos que ocorrerá, como professamos no Credo, mas não temos, por escolha divina, como prever com certeza exata o dia e a hora da segunda vinda de Cristo em poder e glória (cf. Mt 24,36).
Pois bem, foi essa interpretação popular, mas errônea dos fenômenos – que alguns afirmavam ser apoiada pelo Padre Cícero – uma das causadoras das reservas de Dom Joaquim José Vieira (1883-1912), Bispo do Ceará, a respeito do famoso sacerdote. Suspeitando de heresia (negação de verdades de fé) e temendo um cisma (rompimento com a Igreja em sua estrutura hierárquica), o Prelado proibiu o padre de atender Confissões, pregar e orientar os fiéis. Em 1886, Padre Cícero foi suspenso de poder celebrar Missas e, mesmo tendo recorrido à Santa Sé, indo, inclusive, pessoalmente a Roma, jamais teve a alegria de poder voltar a exercer o ministério sacerdotal. Contudo – isso é importante –, segundo as notícias, ele nunca teria sido excomungado.
Além disso, outra acusação que se fez contra “Padim Ciço” foi a de ser, na opção política, um apoiador do comunismo. Ele, porém, rebatia a acusação dizendo que “o comunismo foi fundado pelo demônio”. E acrescentava: “Lúcifer é o seu chefe e a disseminação de sua doutrina é a guerra do diabo contra Deus. Conheço o comunismo e sei que é diabólico. É a continuação da guerra dos anjos maus contra o Criador e seus filhos”. (Autorizada pelo Vaticano a reconciliação de Padre Cícero com a Igreja, ACI Digital, 14/12/15, online).
O fato é que em meio a tudo isso, o povo nunca deixou de procurar o padre. Ele se tornou, na verdade, o grande Patriarca do Nordeste e vivia dando conselhos, resolvendo conflitos de várias naturezas, dando remédios certos para muitas doenças e até ajudando na escolha de matrimônios (tinha fama de “casamenteiro”).
Preocupava-se também com os mais pobres, especialmente os trabalhadores e as crianças. A essas estimulava a aprenderem algum bom ofício da época a fim de se tornarem, no campo financeiro, independentes e poderem ajudar a seus pais. A partir de 1911, Padre Cícero, já afastado das atividades sacerdotais, entrou na política, muito mais forçado pelas circunstâncias do que motivado por gosto pessoal. Chegou a ser o primeiro prefeito de Juazeiro, emancipado naquele ano, e vice-governador do Ceará por dois mandatos. Em 1914, juntando-se a vários coronéis locais, foi contra a intervenção do Governo Federal no Estado.
Padre Cícero faleceu em 20 de julho de 1934, com 90 anos de idade, em paz com a Igreja que tanto amou, tendo em seu sepultamento aproximadamente 60.000 pessoas, que logo passaram também a peregrinar a Juazeiro a fim de rezar a Deus por meio do “Padim Ciço”. Fizeram, com isso, que aquela cidade se tornasse a “cidade santa” a receber, segundo dados do site oficial do Governo do Estado do Ceará (www.juazeiro.ce.gov.br) cerca de 2,5 milhões de pessoas por ano.
Tudo isso motivou a Diocese de Crato, por meio de seu Bispo Diocesano, Sua Excelência Dom Fernando Panico, a pedir que a Santa Sé estudasse o caso do Padre Cícero. Agora, o Papa Francisco, por meio do Eminentíssimo Senhor Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado da Santa Sé, enviou uma Carta na qual aponta o lado benemérito de todo o apostolado que se realiza em torno da figura do sacerdote a favor do Povo de Deus. É esse ato que a imprensa chamou de reabilitação do Padre Cícero com a Igreja, embora, como dito, ele nunca teria sido excomungado. Ao contrário, bons historiadores garantem que ele morreu firme na fé católica. (Cf. Matos. Obra citada, p. 174).
Fazemos, pois, votos de que a questão, já estudada há tempos, chegue a bom termo com a graça de Deus, pois Ele, dentro de seus santos e sábios desígnios, nunca deixa de atender ao seu povo sedento de santos pastores e dignos ministros, a fim de que estes possam, nas dificuldades do dia a dia, batalhar em demanda da Jerusalém celeste. Certamente a notícia traz alegria não só aos irmãos nordestinos, mas a todos os brasileiros que amamos nosso País e queremos ver o seu autêntico progresso, livre de todas as mazelas e corrupções nos vários âmbitos em que elas se encontrem.
Aqui no Rio de Janeiro a presença nordestina é grande e a influência do Padre Cicero se faz sentir com muita clareza, principalmente na “feira de São Cristóvão”, que concentra as tradições nordestinas e sente-se o carinho do povo pelo seu “padim ciço”.
Sem dúvida que um belo sinal de trabalho evangelizador é a tradição nordestina do Padre Cícero, e a Igreja reconheceu essa missão. Algumas questões da vida do padre ainda estão envoltas em estudos de questões controversas, porém é inegável a necessidade de evangelização.
Que no próximo dia 2 de fevereiro, festa de Nossa Senhora das Candeias, no evento criado por ele, as pessoas possam encontrar a luz que é Cristo, que ilumina a todo homem que vem a este mundo. Fonte: http://br.radiovaticana.va

*Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A comunicação não excomunga. Cinco pontos da mensagem do Papa Francisco para o 50º Dia Mundial das Comunicações.

O "poder da comunicação" é a "proximidade". A proximidade desencadeia uma tensão bipolar de aproximação e de afastamento e, em seu interior, apresenta uma oposição qualitativa: aproximar-se bem e aproximar-se mal. Essa é a tarefa daqueles que hoje estão comprometidos na comunicação. A opinião é do jesuíta italiano Antonio Spadaro, diretor da revista La Civiltà Cattolica, em artigo publicado no seu blog Cyberteologia, 23-01-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.
Com a sua Mensagem para o 50º Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Papa Francisco quis conectar o tema da "Comunicação" ao da "Misericórdia". A aproximação não é óbvia. O que significa comunicar de maneira misericordiosa? Como se faz para comunicar a misericórdia?
Assinalo em seguida cinco pontos a meu ver centrais na mensagem do papa.

1) A comunicação é "credível" se é "confiável"
O pressuposto de base dessa mensagem é que tudo o que fazemos é comunicação. O amor é comunicação: quando é amor verdadeiro, não pode se isolar. Se fosse isolado, seria uma forma espiritualista de egoísmo. Portanto, justamente no modo em que tentamos viver com todo o nosso ser o que estamos comunicando, contribuiremos para restituir credibilidade à comunicação humana. Esse é o sentido do início da mensagem. A comunicação é "credível" não só se objetivamente corresponde à verdade, mas se é "confiável", isto é, expressão de uma relação de confiança, de um compromisso do comunicador de viver bem a sua relação com quem ouve ou com quem participa do evento comunicativo.

2) A comunicação da Igreja não é "exclusiva"
Francisco começa logo a falar da comunicação eclesial. E diz que ela deve ser inclusiva, de Mãe, capaz de "tocar os corações das pessoas e sustentá-las no caminho". Devemos comunicar como filhos de Deus com outros filhos de Deus, sem distinção de credo, ideia, visão de mundo. Portanto, devemos parar o processo de degradação das palavras, o nominalismo da nossa cultura. As pessoas estão cansadas de palavras sem peso próprio, que não se fazem carne, que, na nossa pregação, fazem com que Cristo não se manifesta mais como pessoa, mas como ideia, conceito, teoria doutrinal abstrata. Restitua-se à palavra – especialmente a da pregação – a sua "centelha" que a torna viva e que dá calor e odor humano às palavras da fé.

3) A comunicação não excomunga
"A comunicação tem o poder de criar pontes, de favorecer o encontro e a inclusão, enriquecendo assim a sociedade", escreve o papa. E "as palavras podem construir pontes entre as pessoas, as famílias, os grupos sociais, os povos". Até mesmo quando "deve condenar com firmeza o mal, procura não romper jamais a relação e a comunicação". A comunicação, justamente por estimular a criatividade, sempre deve criar pontes, favorecer a acessibilidade, enriquecer a sociedade. Devemos nos alegrar com o poder de palavras e ações escolhidas com cuidado para superar as incompreensões, curar as recordações e construir paz e harmonia. As palavras constroem pontes, são "pontífices" entre as pessoas. E isso em toda a parte: tanto no ambiente físico quanto no digital. Palavras e ações devem nos ajudar a fugir do círculo vicioso da condenação e da vingança que continua enjaulando os indivíduos, as pessoas e as nações, e que, depois, se exprime com mensagens de ódio.
A palavra do cristão, em particular, deve tender à comunhão e, portanto, livrar-se da atitude de "excomunhão". Recordamos que "a memória das mútuas sentenças de excomunhão, junto com as palavras ofensivas e as reprimendas infundadas por muitos séculos, representou um obstáculo à reaproximação", mesmo entre os cristãos. "A lógica do antagonismo, da desconfiança e da hostilidade, simbolizada pelas excomunhões recíprocas", deve ser "substituída pela lógica do amor e da fraternidade", escrevera o Papa Francisco na sua Mensagem à Sua Santidade Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico, para a festa de Santo André, em 2015.
Para não romper a comunhão, é importante saber ouvir, isto é, "ser capaz de compartilhar perguntas e dúvidas, de percorrer um caminho lado a lado, de se livrar de qualquer presunção de onipotência e colocar humildemente as próprias habilidades e os próprios dons a serviço do bem comum".

4) A misericórdia é política
"Gostaria, portanto, de convidar todas as pessoas de boa vontade a redescobrirem o poder da misericórdia de curar as relações dilaceradas e de restaurar a paz e a harmonia", escreve o Papa Francisco, salientando que "isso também vale para as relações entre os povos". Assim, "é desejável que também a linguagem da política e da diplomacia se deixe inspirar pela misericórdia, que nunca dá nada por perdido" Esse é o sentido da "diplomacia da misericórdia" para Francisco: não considerar jamais nada por perdido na relação entre povos e nações. Para isso deve servir a comunicação política, portanto.
O papa convida aqueles que estão presos em velhas hostilidades a tomarem o caminho da misericórdia; a reconhecer as próprias responsabilidades; e a pedir perdão e mostrar misericórdia para com aqueles que lhe fizeram mal. Vamos além da distinção entre "vítimas" e "carrascos".
Mas também devemos superar outra lógica: a que contrapõe "vencedores" e "vencidos". Vivemos em um mundo onde estamos acostumados a ter que provar o quanto valemos, a ter que conquistar o respeito e a admiração dos outros. Muitas vezes, tal reconhecimento é reservado para aqueles que alcançaram o sucesso através do bem estar, do poder e da fama. Como resultado, podemos notar um fosso crescente entre aqueles que são vistos como vencedores e aqueles que são julgados como perdedores. Na sociedade, as pessoas competem para impor o seu próprio valor e dignidade, e quem está no topo quer manter os outros embaixo. Tal visão enfraquece a dignidade das pessoas e, em particular, tem como resultado que aqueles que fracassaram ou que são julgados como não à altura das expectativas são marginalizados e rejeitados. O nosso modo de comunicar, portanto, nunca deve expressar o orgulho soberbo do triunfo sobre um inimigo, nem humilhar aqueles que são descartados, que são considerados "perdedores" e são abandonados. A misericórdia pode ajudar a mitigar as adversidades da vida e oferecer calor para aqueles que só conheceram a frieza do juízo. Um homem pode olhar para outro homem de cima para baixo apenas para ajudá-lo a se levantar.
Por fim – lemos – "o estilo da nossa comunicação capaz de superar a lógica que separa nitidamente os pecadores dos justos. Podemos e devemos julgar situações de pecado – violência, corrupção, exploração, etc. –, mas não podemos julgar as pessoas, porque só Deus pode ler profundamente no coração delas". De fato, "palavras e gestos duros ou moralistas correm o risco de alienar ainda mais aqueles que queríamos levar à conversão e à liberdade, reforçando o seu sentido de negação e defesa".

5) A rede constrói cidadania
Se a comunicação tem uma relevância política, ela também tem um peso cada vez mais forte no fato de nos sentirmos cidadãos, na construção da cidadania. Reconhecendo a rede como lugar para uma "comunicação plenamente humana", o papa afirma que, "em rede, também se constrói uma verdadeira cidadania. O acesso às redes digitais implica uma responsabilidade pelo outro, que não vemos mas é real, tem a sua dignidade que deve ser respeitada. A rede pode ser bem utilizada para fazer crescer uma sociedade sadia e aberta à partilha".
O "poder da comunicação" é a "proximidade". A proximidade desencadeia uma tensão bipolar de aproximação e de afastamento e, em seu interior, apresenta uma oposição qualitativa: aproximar-se bem e aproximar-se mal. Essa é a tarefa daqueles que hoje estão comprometidos na comunicação: "Em um mundo dividido, fragmentado, polarizado, comunicar com misericórdia significa contribuir para a boa, livre e solidária proximidade entre os filhos de Deus e irmãos em humanidade".


FREI REINALDO PARAÍSO: Votos Solenes-01

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Perto de novo do altar: Uma reflexão sobre o Padre Cícero.

Lira Neto, jornalista

"Resta saber se a fé visceral e insubmissa de seus verdadeiros devotos se deixará cooptar pela assepsia de um perdão oficial" escreve Lira Neto, jornalista e autor de Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão (Companhia das Letras), que também escreveu a biografia de Getúlio Vargas, em artigo publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo, 20-12-2015.

Eis o artigo.
A cena não poderia ser mais significativa: no último domingo, 13 de dezembro, uma pintura a óleo retratando o padre Cícero Romão Batista, em moldura dourada, adentrou a catedral de Nossa Senhora da Penha, na cidade cearense do Crato. A imagem do sacerdote, punido como rebelde em 1898 pelo Santo Ofício, foi conduzida até próximo ao altar principal, por um grupo de seis sacerdotes católicos paramentados.
No púlpito, ao microfone, falando para um templo lotado, o bispo D. Fernando Panico – italiano designado peloVaticano com a missão expressa de pavimentar o caminho para a reabilitação de Padre Cícero – observou: “Ele entrará como romeiro; seu lugar não será ainda o altar, mas ele ficará no meio do povo, invocando e cantando conosco a misericórdia do Pai”.
Ouviu-se o clamor dos aplausos. Muitos ali presentes, de olhos marejados, esticaram o braço para tocar a imagem ou, ajoelhados, fizeram o sinal da cruz. Enquanto isso, fogos de artifício estouraram lá fora. “Viva o Padim Ciço!”, exclamou o bispo. “Viva!”, respondeu o coro de centenas de vozes.
Para os cerca de 2,5 milhões de romeiros que todos os anos acorrem à cidade de Juazeiro do Norte – a chamadaMeca Nordestina –, o episódio representa a correção de uma injustiça histórica. Até então, a imagem de Padre Cíceroestava banida dos templos católicos.
Acusado de professar falsos milagres, classificado como um embusteiro incentivador de fanatismos, Cícero foi alvo de um inquérito eclesiástico que o levou a se defender pessoalmente perante o tribunal do Santo Ofício, em Roma. Confrontado pelos inquisidores, protestou inocência. Foi, porém, condenado.
Ficou proibido de rezar missas e de ministrar sacramentos. Viu-se obrigado a manter eterno silêncio sobre o maior de todos os presumidos milagres de que foi protagonista: a transformação da hóstia em sangue, quando dada em comunhão a uma beata, Maria de Araújo, mulher simples do povo, negra, pobre e analfabeta. Uma mística que dizia falar diretamente com anjos, santos, a Virgem, Jesus e com o próprio Deus, sem a mediação das instituições clericais.
As autoridades religiosas da época não aceitaram a tese de que um milagre eucarístico – como tantos outros chancelados pelo Vaticano ao redor do mundo e particularmente na Europa – pudesse ter ocorrido no interior doCeará. “Jesus Cristo não iria deixar os campos europeus para fazer milagres nos sertões do Brasil”, teria dito o padre francês Pierre-Auguste Chevalier, reitor do seminário da Prainha, em Fortaleza, onde Cícero foi ordenado.
Uma comissão formada por um teólogo e um doutor em direito canônico ficou encarregada de desmascarar a suposta farsa. Após um mês de trabalho, os dois religiosos escreveram um relatório detalhado, com mais de quatrocentas páginas, no qual afirmavam que, para seu espanto, teriam testemunhado a transmutação da hóstia em sangue.
Ambos foram destituídos dos respectivos cargos e o processo seguiu sob o comando de um cura de aldeia, que disse não ter presenciado nada de sobrenatural durante uma nova investigação, de apenas três dias.
Padre Cícero, apesar de castigado, jamais largou a batina. Continuou a fazer seus sermões da janela de casa, reunindo multidões, pregando a bem-aventurança do binômio fé-e-trabalho, incentivando a criação de pequenas manufaturas que deram origem ao desenvolvimento do lugar.
De conselheiro religioso, converteu-se em condutor político. Dono de uma popularidade sem precedentes na história nordestina, estabeleceu alianças estratégicas com as elites agrárias e se tornou um líder respeitado tanto pelos sertanejos mais humildes quanto pelos temidos e poderosos coronéis.
Trabalhou pela emancipação de Juazeiro e foi nomeado seu primeiro prefeito. Articulado com o governo federal, abençoou os jagunços, agricultores, beatos e cangaceiros que pegaram em armas para depor as autoridades regionais, numa luta que ao final o levaria ao cargo de vice-governador do Ceará.
A pequena Juazeiro, que antes se resumia a um povoado de pouco mais de trinta casas, cresceu em torno das romarias e do nome de Padre Cícero. A cidade se transformou em um pujante centro comercial varejista e hoje abriga um vigoroso polo universitário.
Em 2001, o cardeal Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – desde 1967 o nome pelo qual passou a ser designado o Santo Ofício –, enviou uma carta reservada à Nunciatura Apostólica do Brasil. O futuro Bento XVI sugeria a reabertura dos arquivos históricos sobre Padre Cícero. Como pano de fundo, a contínua sangria de fiéis no seio da Igreja Católica, proporcional ao avanço das igrejas neopentecostais no Brasil. “Padre Cícero é um ANTIVÍRUShttp://cdncache-a.akamaihd.net/items/it/img/arrow-10x10.png contra os evangélicos”, chegou a dizer D. Fernando Panico numa entrevista ao New York Times.

A entrada da imagem de Padre Cícero na catedral do Crato deve ser entendida como um passo decisivo para sua completa reabilitação – e, quem sabe, para sua posterior beatificação e canonização. Resta saber se o “perdão” oficial tem algum significado para os verdadeiros devotos de Padre Cícero. Uma fé visceral, que sempre se caracterizou pelo seu caráter insubmisso, se deixará cooptar pela assepsia do rito oficial? Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

NATAL DO SENHOR: Homilia do Frei Petrônio.

Edith Stein e o segredo do Natal: Uma reflexão natalina da filósofa judia que se converteu ao cristianismo e morreu mártir

No recolhimento da abadia beneditina de Beuron, em 1932, três anos antes de entrar no carmelo, Edith Stein escreveu uma riquíssima meditação teológica sobre o Natal. O texto, pronunciado numa conferência da Associação de Acadêmicos Católicos de Ludwigshafen, na Renânia-Palatinado, Alemanha, foi publicado pela primeira vez em 1950, em Colônia.
Filósofa, judia, ateia, convertida, religiosa e mártir, essa mulher especial começa a meditação não com uma citação erudita, como quem se esforçasse por captar as atenções, e sim com uma reflexão que surpreende pela simplicidade; pela simplicidade de quem tem o olhar inclusivo da fenomenologia. Edith Stein destaca que o fascínio do Natal atinge a todos, mesmo os que pertencem a outras religiões e os não crentes, para quem a antiga história do Menino de Belém não diz nada.
Nas semanas anteriores ao dia de Natal, "uma cálida corrente de amor inunda toda a terra", porque "todos preparam a festa e tentam irradiar um raio de alegria". É sempre apreciável o gesto de procurar e dar alegria, de preparar e de preparar-se para uma festa: são gestos estruturalmente humanos. Para o cristão, porém, especialmente para os cristãos católicos, a estrela que leva até a manjedoura é diferente. O coração de quem vive com a Igreja, desde o repicar do Rorate Coeli até os cantos do Advento, começa a bater em uníssono com a sagrada liturgia que emoldura um momento único: o tempo de uma espera que é também ardente nostalgia. Uma espera-nostalgia que cresce durante o Advento e encontra satisfação somente quando os sinos da Missa do Galo anunciam que "o Verbo se fez carne". Com este anúncio, vemo-nos sempre diante do fascínio do Menino na manjedoura, que estende as mãos e parece já dizer, sorrindo, o que mais tarde os seus lábios de Mestre repetirão até o último suspiro na cruz: "Segue-me".
Atenção: a Luz da estrela e o encanto do Menino na manjedoura duram um piscar de olhos. "À luz descida do céu, opõe-se, ainda mais escura, a noite do pecado". Diante do Menino, ao mesmo tempo, os espíritos se dividem em "contra" e "a favor". Diante do "segue-me", quem não é por Ele é contra Ele. Não por acaso, no dia depois do Natal, enquanto ainda ecoam os sons festivos dos sinos da noite e das festivas liturgias natalinas, a Igreja se desveste do branco de festa e se reveste do vermelho do sangue, e, no quarto dia, já usa o roxo do luto para recordar o primeiro mártir, Estêvão, e as crianças inocentes que foram mortas por Herodes. O que isto significa? Onde foi parar o encanto do Menino na manjedoura? Onde está o bem-aventurado silêncio da noite santa?
O mistério da noite de Natal, escreve Edith Stein, carrega uma verdade grave e séria que o encanto da manjedoura não deve encobrir aos nossos olhos: "O mistério da encarnação e o mistério do mal estão intimamente unidos". A alegria do Menino e das figuras luminosas que se ajoelham em torno da manjedoura, das crianças inocentes, dos pastores esperançosos, dos reis humildes, dos mártires, dos discípulos, dos homens de boa vontade que seguem o chamado do Senhor, essa alegria, enfim, caminha de mãos dadas com a constatação de que nem todos os homens são de boa vontade; de que a paz não alcança "os filhos das trevas"; de que, para esses, o Príncipe da Paz "traz a espada"; de que, para esses, Ele é a "pedra de tropeço" que os derruba. Aquele Menino divide e separa, porque, enquanto o contemplamos, Ele nos impõe uma escolha: "Segue- me". Ele a impõe a nós também, hoje, e nos coloca diante da decisão entre a luz e a escuridão. As mãos do Menino "dão e exigem ao mesmo tempo".
Se colocarmos as nossas mãos nas do Menino Deus e respondermos "sim" ao seu "Segue-me", o que recebemos?
"Oh, maravilhoso intercâmbio! O Criador da humanidade nos dá, assumindo um corpo, a sua divindade!". Aqui reside a grandeza do mistério da Encarnação: quem escolhe a luz, quem fica do lado do Menino, "abre caminho para que a sua vida divina se derrame sobre nós" e traz "de forma invisível o Reino de Deus dentro de si". O Natal é o começo da aventura de deixar a graça "permear de vida divina toda a vida humana". Por que Deus se fez homem? Deus se tornou um filho do homem para que os homens se tornem filhos de Deus. Escreve Edith Stein: "Um de nós tinha rasgado o vínculo da filiação divina; um de nós tinha que reatá-lo e pagar pelo pecado. Mas nenhum descendente da antiga progênie, doente e bastarda, tinha condições de fazê-lo. Era preciso enxertar-lhe um ramo novo, saudável e nobre". Estas palavras de Edith Stein evocam, por analogia óbvia, uma passagem do "Cur Deus Homo", de Santo Anselmo, que contém a mesma lógica da redenção: "a restauração da natureza humana não teria acontecido se o homem não tivesse pagado a Deus o que lhe devia pelo pecado. Mas a dívida era tão grande que a satisfação, de obrigação apenas do homem, mas possível somente a Deus, precisava ser dada por um homem-Deus" (CDH 2,6).

Edith Stein tinha aprendido, na escola dos professores do Carmelo, Teresa de Ávila e João da Cruz em particular, que a graça se desenvolve em nós como uma semente que nos transforma, deixando-nos participar da própria vida de Deus. Por esta razão, a meditação seguinte insiste nos sinais fundamentais de uma vida humana unida a Deus.
Fonte: Por Claudia Mancini, em Libertà e Persona

VÍDEO SELF-25: Evangelho do Dia. (24 de dezembro-2015).

domingo, 20 de dezembro de 2015

VÍDEO SELF-21: Evangelho do Dia. (20 de dezembro-2015).

HOMILIAS DO FREI PETRÔNIO: 4º Domingo do Advento.

4º DOMINGO DO ADVENTO: A Festa das Grávidas.

O Papa Francisco reconcilia o Padre Cícero com a Igreja católica

Durante o último fim de semana aconteceram mundo afora as celebrações de abertura da Porta Santa nas diferentes dioceses e prelazias católicas, nas quais se poderão ganhar as indulgências do Ano Jubilar da Misericórdia. Momentos de emoção se repetiram em diferentes lugares, mas poucos devem ter sido iguais aos da catedral de Nossa Senhora da Penha de Crato, onde, coincidindo com esta celebração, o bispo diocesano, dom Fernando Panico, anunciou que o Papa Francisco reconciliou com a Igreja católica o Padre Cícero Romão Batista, falecido em 1934 estando suspenso das ordens. A reportagem é de Luis Miguel Mondino e publicada por Religión Digital, 14-12-2015. A tradução é de André Langer.
O anúncio do bispo se deu após a entrada no templo da catedral da imagem do Padre Cícero, o que provocou o alvoroço de todos os presentes, reação que se viu repetida posteriormente, como mostram numerosas notícias em diferentes meios de comunicação e nas redes sociais.
Em uma mensagem assinada pelo cardeal Parolin, secretário de Estado do Vaticano, e que recolhe o expresso desejo do Papa Francisco, enviada a dom Panico, reconhece-se que “a memória do Padre Cícero Romão Batista mantém, no conjunto de boa parte do catolicismo deste país, e, dessa forma, valoriza-a desde um ponto de vista eminentemente pastoral e religioso, como um possível instrumento de evangelização popular”.
Após tantos anos de distanciamento entre a Igreja católica e o santo do povo nordestino, o texto mostra que “sempre é possível, com a distância do tempo e a evolução das diferentes circunstâncias, reavaliar e apreciar as várias dimensões que marcaram a ação do Padre Cícero como padre, e, deixando de lado os pontos mais controversos, evidenciar aspectos positivos de sua vida e figura, tal como é percebida atualmente pelos fiéis”.
A carta assinala que “é inegável que o Padre Cícero Romão Batista, ao longo de sua existência, viveu uma fé simples, em sintonia com o seu povo e, por isso mesmo, desde o início, foi compreendido e amado por este mesmo povo”, chegando a afirmar que “é necessário, neste contexto, dirigir a nossa atenção ao Senhor e agradecer-lhe por todo o bem que Ele suscitou por meio do Padre Cícero”.
O Papa Francisco, como reconhece o bispo de Crato, apresenta o Padre Cícero como “exemplo de padre em uma Igreja em saída”. Para os tempos atuais e a nova Evangelização a data de 13 de dezembro ficará marcada na história de Juazeiro do Norte, a cidade que cresceu sob o influxo do Padre Cícero e que agora, como assinalava o vigário de pastoral da Diocese de Crato, Pe. Vileci Vidal, “é terra de romaria reconhecida pelo Papa Francisco”.
O que aconteceu com o Padre Cícero coloca de manifesto a importância da Igreja Povo, de tantos devotos que continuamente pediam em suas orações a reconciliação do Padre Cícero por parte da Igreja. Foi mais de um século de confrontos entre os defensores e os acusadores do padre mais famoso do Nordeste brasileiro. Este momento constitui um novo passo em um caminho que muitos em Juazeiro do Norte esperam que desemboque na canonização doPadre Cícero, que a Igreja católica reconheça oficialmente o que para muitos nordestinos é um fato, a santidade do Padim Ciço.
Vale como exemplo o que me dizia a mulher que me acolheu em sua casa em Juazeiro do Norte no últimoIntereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, realizado no ano passado: “sonho em ver um dia a Igreja doPadre Cícero construída”. Hoje, dona Vanda, assim como muitos brasileiros nordestinos, deve estar feliz, pois vê que seu sonho está um pouco mais próximo. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

sábado, 19 de dezembro de 2015

4º DOMINGO DO ADVENTO: Luzia, Maria e Isabel.

“Nunca fui condenado pela Congregação para a Doutrina da Fé”. Entrevista com Gustavo Gutiérrez

Muitas coisas foram escritas sobre Gustavo Gutiérrez, nem sempre verdadeiras, como ele mesmo constata nesta entrevista, fruto de uma conversa em que ele mostra o significado da Teologia da Libertação, da qual sempre foi considerado o fundador, em sua vida.
Ele não pretende cair no absolutismo e reconhece como esta teologia foi se refazendo, abrindo-se a novas temáticas e realidades e como deve enfrentar desafios. Em suas palavras deixa entrever sua liberdade de pensamento, fruto de seu profundo conhecimento e trabalho teológico, estando consciente de que nem todo mundo vai estar de acordo com sua proposta, o que, por outro lado, não representa para ele nenhuma dor de cabeça. A entrevista é de Luis Miguel Modino e publicada por Religión Digital, 14-12-2015. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Como a Teologia da Libertação marcou a sua vida?
Ela nasceu da minha vida, naturalmente, e eu mesmo quis ser fiel e também crítico, pois a teologia sempre precisa ser refeita e não se trata de aplicá-la como Palavra de Deus. Creio que me proporcionou argumentos, pistas, me deu horizontes, mas nunca a considerei como a última palavra, e me deu também contato com pessoas de uma base enriquecedora.

Você pensa que os pobres continuam a ser uma categoria teológica na reflexão atual?
Não os pobres, e sim a situação de marginalização que vivem, que é contrária à vontade de Deus, e isso o faz teológico. Alguns se empenham em dizer que a Teologia da Libertação é coisa do passado. Sabe, a primeira vez que disseram isso foi um mês após a publicação do livro. E no ano seguinte diziam, já morreu. Ou seja, isso não me atinge.

No recente Congresso Continental de Teologia realizado em Belo Horizonte, o contato e o interesse dos jovens para conversar com Gustavo Gutiérrez foi uma coisa muito comentada entre os presentes. É esse um sinal de esperança em relação a essa vigência da Teologia da Libertação?
Claro. No entanto, eu penso que as teologias não nasceram para serem eternas. Se é isso o que querem dizer, eu concordo, mas morrer quer dizer que já contribuiu e que a religião mudou e que veremos outras coisas. Eu, até os 40 anos, não falei de Teologia da Libertação, mas isso não quer dizer que não fosse um cristão que buscava ser cristão e um padre que buscava ser padre. Pude ser cristão antes da Teologia da Libertação e posso sê-lo depois dela, minha vida não está aí.
A Teologia da Libertação me fez mudar, me diz muito. Eu penso que se mantém por tudo o que disse antes, e não apenas isso, mas que avança, não é mais a mesma, pois vai entrando em outros temas, já que nem todos os temas que atualmente são trabalhados na Teologia da Libertação estiveram presentes no começo. É um processo, pois a teologia sempre deve ser tomada com muita flexibilidade. São coisas importantes, mas a teologia não é sinônimo de doutrina cristã, simplesmente é uma maneira de tratar sobre ela.


Nessa Teologia da Libertação, qual é a autoridade teológica dos pobres?
Digamos que é um desafio. Eu não falaria de autoridade, pois é uma palavra estranha, como se alguém manda algo. O importante é descobrir a importância de que estejam presentes, que nos fazem ver que não podemos nos contentar com o que existe e que temos que sentir que continuamos sendo desafiados, e digo isso como pessoa de Igreja, não como algo relativo à minha individualidade.

Por onde deve caminhar e quais são os desafios que a Teologia da Libertação precisa enfrentar hoje?
Esta é uma questão mais ampla e em que neste momento estou trabalhando. Tudo o que faz referência ao mundo da modernidade e da pós-modernidade, embora não leve tão a sério a pós-modernidade, continua mantendo um desafio, o da ciência, o da liberdade... como coisas que estão aí.
Um segundo desafio é o da própria pobreza, pois a forma como vemos a pobreza hoje em dia, inclusive na Teologia da Libertação, não é exatamente a mesma que há 40 anos. As ciências sociais e outras ciências foram esclarecendo coisas e fazendo ver outras, que mostram que o processo continua.
Outro desafio é o da teologia da religião, que também é chamado de diálogo inter-religioso. Mas o diálogo é fácil, basta ser educado. O problema teológico é a teologia, o que significa esta pluralidade de religiões que existe há muito tempo, mas que é um tema, teologicamente, novo.

Até que ponto se pode dizer que o Papa Francisco simpatiza com a Teologia da Libertação?
Sou incapaz de colocar o Papa, um pastor como ele, entre as grades de uma teologia. O que digo quando me fazem essa pergunta é que ele é o frescor do Evangelho. Se ele gosta de uma teologia ou de outra, não tenho problema com isso.

Você teve problemas com a Congregação para a Doutrina da Fé e agora o prefeito dessa Congregação é alguém que se diz seu amigo, o cardeal Müller.
Vou esclarecer isto. Tive problemas, mas eram problemas que vinham do Peru, e que quando a coisa chegou lá não encontraram matéria. A prova é que não tive processo, o que tive foi um diálogo. A diferença, que eu não conhecia, mas que então aprendi, está em que o processo se dá quando há suspeitas de que há coisa que vão contra a ortodoxia, e o diálogo, que foi o que eu tive, que há afirmações que não se compreendem bem, o que é muito subjetivo, pois sempre haverá alguém que não entende bem alguma afirmação.
Quando me dizem que fui condenado, rio um pouco, pois nunca fui condenado pela Congregação para a Doutrina da Fé. Todos os livros que escrevi seguem sendo publicados. Foi apenas um diálogo no qual não encontraram nada. Há uma carta da Congregação para a Doutrina da Fé na qual se diz que o diálogo com o Pe. Gustavo Gutiérrez terminou de maneira satisfatória.

E com o cardeal Müller?
Geraldo Müller é um amigo, muito bom amigo. Esteve no Peru e, junto com outros professores alemães, trabalhamos sobre a Teologia da Libertação. Depois ele decidiu fazer algo prático de ajuda aos pobres no Peru e foi ensinar teologia no seminário de Cuzco, onde a população é indígena. Foi durante 15 anos seguidos e conhece muito bem aTeologia da Libertação, como provam os dois livros que escrevemos juntos, o segundo com o prólogo do Papa Francisco. Repito que é muito bom amigo e bom conhecedor da Teologia da Libertação, com a qual simpatizou quando era muito discutida entre os setores da mídia, pois na Congregação a Doutrina da Fé nunca houve problemas.
Certa vez, fez uma conferência na Universidade Católica de Lima, muito aplaudida e cujo texto está publicado, na qual explicava como ele mudou com relação à Teologia da Libertação. Além de amigo, foi defensor, sobretudo quando havia reticências que não tinham nenhuma consistência, mas quando se fala mal, todos repetem. Na mídia, nem todos, complicam muito, porque falam de condenação constantemente, e ela nunca existiu.
Se tivesse sido condenado, me teriam proibido de continuar escrevendo e nunca houve um livro, de todos os livros que escrevi, de que se tenha dito que não pode ser vendido, que não está autorizado. Não estar de acordo não é uma condenação, e se alguém não está de acordo, bom, o que vamos fazer! Sempre houve isso dentro da mensagem cristã. Eu também não concordo com muitas teologias muito boas, das quais não gosto, e mesmo que eu não seja ninguém, isso acontece com qualquer um.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Irmão, quem és tu? Novo documento vaticano ilumina a vida dos irmãos religiosos

No final da década de 1980, eu brevemente flertei com a ideia de uma vocação religiosa. Em certa etapa de minha vida, pensei que poderia querer me tornar um irmão religioso, em grande parte porque eu não tinha certeza quanto ao sacerdócio.
Conforme qualquer diretor de formação que se preza diria a você, essa foi uma maneira terrivelmente imatura de pensar uma vocação. Não se deve comprometer-se com uma forma de vida simplesmente por causa daquilo que ela não é; é preciso haver algum atrativo positivo, pois, caso contrário, a vocação não irá se sustentar. A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 14-12-2015 . A tradução é de Isaque Gomes Correa.
Conforme ficou constatado mais tarde, encontrar a minha esposa tirou de vez essa tal ideia de minha cabeça, de forma que jamais tive de ponderar qual poderia ser o elemento atrativo para uma vida de irmão religioso. Que pena, porque isso significa que eu nunca realmente ultrapassei o muro do silêncio que, geralmente, circunda aquela que é possivelmente a vocação menos conhecida, e menos apreciada, na Igreja Católica.
Tudo isso me ocorre agora porque, nesta segunda-feira (14 de dezembro), a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica – mais conhecida como “Congregação para os Religiosos” – apresentou um novo documento intitulado “Identidade e Missão do Irmão Religioso na Igreja”.
Como a maioria dos textos vaticanos, este documento vinha há anos sendo produzido e, honestamente, ele não trouxe grandes novidades em termos de notícia. É mais uma meditação espiritual, entre outras coisas refletindo sobre a comunhão da Trindade como o modelo e inspiração para a fraternidade vivida pelos irmãos uns com os outros e com o mundo.
Negligenciar o documento seria vergonhoso, no entanto, porque se há algum grupo dentro do catolicismo que merece o seu lugar ao sol, este com razão é o dos irmãos religiosos.
No mundo todo, existem cerca de 55 mil irmãos na Igreja Católica, um número muito menor do que o de padres (415 mil) e freiras (705 mil), ainda que seja um número comparável ao de diáconos permanentes (42 mil). Nos EUA, há cerca de 4.300 mil irmãos religiosos, bem abaixo dos mais de 12 mil em 1965 (2 mil dos atuais irmão já estão aposentados).
O Ir. Paul Bednarczyk, da Congregação de Santa Cruz, presidente da National Religious Vocation Conference, chama os irmãos de “um dos segredos mais bem guardados da Igreja”. O abade beneditino Jerome Kodell chamou os irmãos de “o grupo mais invisível na Igreja”, alertando que o modo de vida deles está em perigo de desaparecer da consciência pública”.
Em verdade, a maioria dos católicos comuns nos bancos das igrejas só tem um vago conhecimento de que os irmãos religiosos existem. Quando os católicos falam sobre vocações, eles em geral o fazem em termos de “padres e freiras”, deixando de fora os irmãos (e diáconos, a propósito) fora de cogitação.
O discurso oficial católico restringe, às vezes, aos irmãos as oportunidades abertas de liderança, com certeza contribuindo para um clima de negligência.
Por exemplo, em 2002, o Vaticano disse aos capuchinhos nos EUA que eles não poderiam eleger um irmão como o seu Superior Provincial; em 2009, Roma vetou um esforço da congregação Maryknoll em eleger um irmão como o seu Superior americano. Isso aconteceu porque, tecnicamente, os irmãos são leigos, muito embora a maioria dos católicos não os considere como tais, e as regras católicas impedem os leigos de serem superiores.
(O novo documento do Vaticano reconhece este problema, mas não o resolve. O arcebispo espanhol José Rodríguez Carballo, secretário da Congregação para os Religiosos, disse na segunda-feira em coletiva de imprensa que será pedido ao Papa Francisco que crie uma comissão ad hoc de estudos para ponderar a participação dos irmãos no comando local, regional e geral da Igreja.)
Mas, então, o que mesmo é um irmão?
Eis o que você irá mais ou menos encontrar caso procurar pelo termo “irmão” na enciclopédia católica: “Leigos que assumem votos de pobreza, castidade e obediência. Pertencem a comunidades formadas de irmãos apenas, ou de irmãos e padres. Os irmãos religiosos se dedicam ao carisma particular de sua comunidade, expressa em serviço e oração”.
Essa definição é válida, porém não chega até o cerne do tema. O novo documento emitido esta semana aborda-o extensivamente. Porém três breves aspectos apenas são válidos de nota aqui em termos dos motivos por que uma Igreja sem irmãos religiosos seria uma Igreja significativamente empobrecida.
Em primeiro lugar, conforme lhe dirão muitos dos sacerdotes que pertencem às ordens religiosas, o sacerdócio é um aspecto fundamentalmente importante mas, até certo ponto, secundário em suas vidas. Eles consideram como sendo a coisa mais básica o ser um irmão em suas comunidades, por exemplo, as comunidades beneditinas ou franciscanas. Eles dirão que o cerne da identidade deles se dá na qualidade de beneditinos ou franciscanos, e que o sacerdócio é a maneira específica pela qual manifestam tais identidades.
Seja um irmão, um diácono, ou um sacerdote, o que é fundamental para todos os religiosos é que eles vivam a sua vocação como parte de uma família dedicada aos votos que assumem e à missão específica de suas comunidades. Os irmãos fazem isso de uma maneira única, porque não existe sobreposição clerical alguma acima dos seus compromissos nucleares.
Em outras palavras, se os irmãos se forem, um elemento-chave do entendimento católico da vida religiosa se vai com eles.
Em segundo lugar, os irmãos são únicos entre os religiosos, posto que eles não fazem parte da hierarquia da Igreja. Pelo menos em teoria, isso lhes dá mais liberdade para falar e agir, especialmente no compromisso com os ministérios aos mais necessitados.
Ao longo dos séculos, os irmãos religiosos estiveram nas linhas de frente das formas de serviço mais exigentes da Igreja – alimentando os famintos, confortando os doentes, educando os jovens, cuidando dos pobres, e assim por diante. Ainda iremos encontrar irmãos fazendo estas coisas hoje, geralmente com um espírito de total compromisso que os sacerdotes, em parte por causa das outras exigências que possuem, não têm condições de fazer.
Relacionado com o que estamos falando, os irmãos muitas vezes são capazes de ministrar a pessoas de uma maneira diferente: como sendo uma delas, sem quaisquer desvios de autoridade ou poder. Muitos irmãos relatam que as pessoas com quem eles trabalham lhes dizem: “Eu nunca diria isso a um padre, mas me sinto à vontade em dizer para você...”.
(Carballo indiretamente se referiu a este tema ao apresentar o documento na segunda-feira, dizendo que os irmãos testemunham o caráter essencialmente leigo da vida religiosa na Igreja.)
Em terceiro lugar, os irmãos são uma prova do valor da comunidade numa era hiperindividualista. Sem a pompa do sacerdócio, eles dão mostras de que doar a própria vida a uma comunidade religiosa, por si só, é parte fundamental da espiritualidade católica autêntica.
O Rev. John Pavlik, padre capuchinho e diretor executivo da Conferência dos Superiores Maiores, diz que os irmãos são um lembrete de que os católicos não devem ser “operadores independentes”, mas que fazem parte de uma família.
Conforme disse nesta segunda-feira o Cardeal João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Religiosos, em seu cerne a vocação de um irmão é simplesmente a vocação cristã.
Nos EUA, os irmãos católicos vêm se reunindo em um “think tank” (grupo de reflexão) há três anos para fomentar ideias destinadas ajudar em suas vocações. Até o momento eles tiveram oito sessões; com razão, estes religiosos desejam que a publicação do novo documento gere um novo impulso. Há planos para um simpósio nacional na Universidade de Notre Dame, onde irmãos seriam convidados a interagir com as lideranças da Igreja, clérigos e leigos, e a debater o documento.
O Irmão Robert Berger, professor de Estudos Religiosos da Manhattan College, diz que, certa vez, os irmãos foram vistos como homens extraordinários fazendo coisas ordinárias, comuns, posto que havia muitos irmãos por aí e os católicos normalmente colocavam as suas formas de viver sobre um pedestal.
Hoje, segundo ele, a situação está ao contrário; os irmãos são vistos como “homens comuns fazendo um ministério extraordinário”.
Esperamos que o documento desta segunda-feira ajude a garantir que estes “homens comuns” finalmente recebam o reconhecimento que merecem.