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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A ESPIRITUALIDADE LITÚRGICA CARMELITANA (3ª Parte)

Frei James Boyce, O.Carm.

Espiritualidade Litúrgica Carmelitana Medieval

Introdução
Uma discussão sobre a espiritualidade litúrgica carmelitana medieval responde a pergunta: “O que os carmelitas medievais consideraram importante em sua herança e como a celebraram liturgicamente?” O objetivo deste capítulo é discutir os aspectos principais da herança carmelitana, o modo com que os carmelitas medievais a viam e examinar como eles a celebravam liturgicamente. Estes elementos são:

1)      A herança da Terra Santa
2)      A devoção à Maria
3)      Novos santos acrescentados à liturgia, refletindo sua inserção no Ocidente.

São significativos também os aspectos litúrgicos ausentes, pelo menos, dos manuscritos medievais até o século XV.[i]  Eles incluem festas carmelitanas próprias, cuja existência antes do Concílio de Trento não se pode provar: as liturgias para Santo Elias e Santo Eliseu, que começaram a ser celebradas apenas no período Tridentino; e um ofício padronizado para a festa de Nossa Senhora do Monte Carmelo, que não aparece em nenhum manuscrito antes de 1500.

A Herança da Terra Santa
Várias festas litúrgicas proeminentes no Rito do Santo Sepulcro continuaram no rito carmelitano e se distinguiram de outras observâncias litúrgicas:

a)      A Celebração da Ressurreição, celebrada no último Domingo do ano litúrgico;
b)      As festas dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó, celebrada em 06 de outubro;
c)      A festa da Transfiguração, celebrada em 06 de agosto;
d)     Santa Maria Madalena;
e)      A tradição Petrina e Paulina.

A Celebração da Ressurreição
A própria raison d’etre para o Rito do Santo Sepulcro era o túmulo do Senhor, do qual recebeu seu nome. Dificilmente podemos imaginar o esforço que deve ter sido para os cruzados atingirem o local verdadeiro onde acreditavam que o Senhor tinha sido sepultado. Dentro do contexto da Terra Santa, o local deste túmulo era a meta para todos os peregrinos, desde o tempo de Constantino até o período medieval e servia como a única razão para Jerusalém ser o principal local de peregrinação.[ii]  A festa da Celebração da Ressurreição revive assim, mais uma vez, o evento único, intimamente vinculado com o próprio local sagrado e que, como nos lembra São Paulo, define nossa própria salvação: “se Cristo não ressuscitou, a fé que vocês têm é ilusória” (1Cor 15,17).[iii]  Enquanto a própria Páscoa é central para todo rito litúrgico, a celebração da ressurreição é uma festa distinta, restrita a costumes relacionados com a Terra Santa. Esta festa praticamente herdava da festa da Páscoa todos os seus cantos e orações, mas ela era uma celebração que, feita imediatamente antes do início do Advento, mostrava-se como a culminação de todo o Ano Litúrgico. Teologicamente isto significa uma segunda celebração da experiência da Páscoa. Ela também ocorre em novembro, um tempo quando a Igreja universal, incluindo este Rito, celebra as festas de Todos os Santos e de Todas as Almas, aqueles que na fé se foram antes de nós. Portanto, a Celebração da Ressurreição reforça o significado dos efeitos da ressurreição na humanidade num tempo quando a igreja celebra a morte. Isto tem um impulso teológico positivo e uma reafirmação de esperança em meio à aflição.
Toda Eucaristia por definição celebra a morte e a ressurreição do Senhor. Através da Eucaristia diária, prescrita aos primeiros eremitas no Monte Carmelo e, subseqüentemente, observada através da Ordem, o mistério Pascal era um fenômeno constante para os carmelitas. Pela festa da Celebração da Ressurreição o que era celebrado em um único dia, agora prolonga-se em uma estrutura mais ampla, por todo o ano litúrgico. A localização da festa, no último domingo do ano litúrgico, prolongava consideravelmente o evento em seu aspecto litúrgico. Enquanto a época da Páscoa termina em Pentecostes, seu reforço pouco antes do Advento tinha o efeito de mantê-la em primeiro lugar na mente até o começo do próximo ciclo principal, aquele do nascimento do Senhor começando com o primeiro Domingo do Advento. Tal visão do ano litúrgico é peculiar ao Rito do Santo Sepulcro e nas observâncias que derivam dele e é explicado por sua estrita associação com o túmulo do próprio Senhor.

A Festa dos Patriarcas Abraão, Isaac e Jacó
A celebração de personagens do Antigo Testamento como uma festa, igual aos personagens do Novo Testamento, é certamente notável. Ela mostra que os patriarcas foram aceitos como santos na liturgia, apesar da convicção da ressurreição e da designação associada de santidade não serem necessariamente uma parte da vida espiritual deles como judeus observantes. O fato de Nosso Senhor ter se referido aos patriarcas como presentes no reino (Lc 13,28) e citado a referência a Deus de Êxodo 3,15: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó” (Mc 12,26; também cf. Mt 22,31-32 e Lc 20,37-38), usando deliberadamente o tempo presente como uma prova para os saduceus de que há uma ressurreição, legitimaria a festa que os venerava como santos. Mas tal festa é, sem dúvida, digna de nota.
A festa dos patriarcas fornecia um elo entre os carmelitas e a própria Terra Santa, da mesma maneira que o Rito do Santo Sepulcro. Os carmelitas veneravam os heróis do Antigo Testamento, pessoas que foram especialmente escolhidos por Deus e a quem Deus se revelou de um modo único e pessoal. A versão carmelitana desta festa é muito mais completa do que a sua versão complementar do Santo Sepulcro (pelo menos nas fontes existentes), geralmente restrita à uma única oração, ainda que em sua versão carmelitana a festa seja particular.[iv]
A compilação dos textos para este ofício é particularmente interessante: os responsórios vêm de textos que são específicos aos profetas enquanto que as antífonas são mais gerais. Os responsórios, tirados do domingo antes da Quaresma (conhecida na liturgia medieval como “Domingo da Qüinquagésima” porque caía cinqüenta dias antes da Páscoa), se inspiram nas passagens do Antigo Testamento que os menciona pelos nomes. As antífonas são tiradas da comunhão de vários santos e também do próprio da festa de Todos os Santos. Os textos se referem repetidamente a santos ou a homens santos em geral, mas afirma claramente a santidade dos patriarcas. Ainda que esta referência seja feita presumivelmente, em respeito à estima deles dentro do contexto do Antigo Testamento, também pode ser encarada como alguma forma política, já que nenhum deles foi oficialmente reconhecido como um santo pela Igreja. A natureza incomum desta festa provavelmente encorajou os carmelitas a enfatizarem a santidade deles impondo uma festa ao rito católico.
A veneração dos patriarcas como homens santos no ritual carmelitano é significativa, já que a busca pela santidade é uma parte intensa da vocação carmelitana. Por isso, eles escolhem os patriarcas não apenas para enfatizar a santidade destes heróis do Antigo Testamento, mas para assumirem também a santidade deles. Assim, a festa lembra, no seu primeiro impulso, a sermos pessoas de oração acima de qualquer coisa. A ausência de um fundador específico permitiu aos carmelitas adotar exemplos de santidade onde quer que se encontrem.

A Festa da Transfiguração
A Festa da Transfiguração, que revive uma experiência única na vida de Nosso Senhor, bem como seu relacionamento com alguns discípulos escolhidos, foi identificada pela tradição numa localização específica da Terra Santa: o Monte Tabor.[v]  A associação óbvia da festa com este local da Terra Santa justificou sua inclusão, numa data bem antiga, na liturgia do Santo Sepulcro e, posteriormente, no Rito carmelitano. No entanto, sua celebração não está absolutamente restrita ao Santo Sepulcro e à tradição carmelitana. De fato, o monge cluniacense Pedro, o Venerável, é reconhecido como o escritor de um ofício para a Transfiguração.[vi]  Alguns dos textos do rito carmelitano são semelhantes à versão de Pedro, mas existem discrepâncias claras entre os dois ofícios. Todas as orações e cantos para esta festa são tirados do próprio relato das Escrituras, que serve como modelo para a vida contemplativa e ajusta-se adequadamente ao ideal carmelitano. Pedro, Tiago e João foram escolhidos pelo Senhor para acompanhá-lo até o monte onde, através da contemplação, sua compreensão do Senhor e o seu significado crescem imensuravelmente. Entrando neste relacionamento privilegiado com o Senhor, eles não apenas o vêem transfigurado, mas a própria fé deles também é transformada.
A festa da Transfiguração serve de inspiração para todo carmelita que busca a transformação pela oração. A intimidade dos discípulos com o Senhor serve como um modelo para todos que buscam um relacionamento com Jesus através da vida de oração. Como Pedro, Tiago e João, cada carmelita foi escolhido por Deus para caminhar com o Senhor buscando uma consciência mais profunda de Deus e de si mesmo. A ascensão do Monte Carmelo, como aquela do Monte Tabor, leva os participantes à presença de Deus, numa união mais profunda com o Senhor.

Santa Maria Madalena
A festa de Santa Maria Madalena se destaca na liturgia carmelitana medieval, fazendo parte de um amplo conjunto que enfatiza todo o Mistério Pascal. Sendo a primeira testemunha da ressurreição, Maria Madalena goza de grande importância na vida da Igreja, incluindo a liturgia. A organização carmelitana da festa foi diretamente recebida do ritual do Santo Sepulcro. A observância da Terra Santa, por sua vez, baseava-se numa tradição francesa, o que também explica a proeminência de Santa Maria Madalena, já que o mosteiro beneditino francês de Vezelay foi de muita influência na propagação de seu culto.[vii]  Por extensão, qualquer liturgia associada a do Santo Sepulcro também venerava Maria Madalena com grande solenidade. A liturgia carmelitana seguiu a tradição do Santo Sepulcro com fidelidade tal, que até herdou a típica confusão na qual Maria estava envolvida. Assim, um dos responsórios, Optimam partem, refere-se à Maria, que ao contrário de sua irmã Marta, escolheu a melhor parte, isto é, a contemplação. A confusão entre Maria de Betânia e Maria Madalena na liturgia carmelitana refletiu a confusão geral, bíblica e medieval, sobre ela.[viii]  Por outro lado, esta antífona permitiu aos carmelitas darem expressão ao valor da vida contemplativa que eles abraçaram dentro de um contexto litúrgico. Desse modo, a idéia de que “ela escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” reforçou, para o carmelita medieval, o valor duradouro da vocação contemplativa que escolheram.
O papel teológico central de Maria Madalena como anunciadora da ressurreição também estabeleceu o relacionamento entre ela e o evento da Páscoa, fato de grande importância na vida de cada cristão e, particularmente, celebrado dentro da liturgia carmelitana. A história de sua ida ao túmulo com perfumes e aromas, para ungir o corpo do Senhor, recontada na palavra e cantada no ofício de Santa Maria Madalena, servia para os carmelitas como outra lembrança do poder permanente do evento da Páscoa. Esta história também lembrava ao carmelita que seu objetivo na vida, como o de Maria Madalena, era servir às necessidades do Senhor e, por extensão, às da Igreja. Assim, a vida de Maria Madalena serviu como um excelente exemplo para o carmelita medieval de como combinar eficazmente a contemplação e os estilos de vida ativa dentro de uma única vocação.
Maria Madalena, como a pecadora arrependida, também serve de modelo para o carmelita que, através da vida de oração e de penitência, busca a transformação para a santidade. A busca contemplativa de Deus é afastar-se das tentações mundanas para viver na presença de Deus. Assim como a Regra detalhou a armadura espiritual a ser usada enquanto o carmelita combate o fogo do mal, o exemplo de Maria Madalena, passando do pecado à santidade também serve como um modelo eficaz para o carmelita cuja vida é de conversão contínua.

A Tradição Petrina e Paulina

Nunca é demais ressaltar o significado dos santos Pedro e Paulo na vida litúrgica da Igreja Cristã. O primado de São Pedro, aquele que foi encarregado de presidir a Igreja pelo próprio Senhor, sempre foi de grande significado litúrgico. A conversão de São Paulo, de um vigoroso perseguidor dos cristãos a um apóstolo entusiasmado, espalhando a mensagem cristã por muitos lugares do mundo antigo, foi provavelmente o evento mais importante na vida da Igreja primitiva. Os carmelitas, a exemplo do rito do Santo Sepulcro, celebravam as festas da Conversão de Paulo, da Cátedra de São Pedro, dos santos Pedro e Paulo e a Celebração de São Paulo. Além disso, nas festas carmelitanas Petrinas e Paulinas a ordem das partes, especialmente para o ofício, divergia consideravelmente de outras tradições e seguiam fielmente o rito do Santo Sepulcro.
A importância de festas em memória dos santos Pedro e Paulo na liturgia carmelitana servia de recordação das vidas heróicas daqueles dois importantes líderes, assim como o estabelecimento da Ordem na vida da Igreja. Quando se incorporaram nas estruturas da Igreja, os carmelitas floresceram como uma Ordem e a autoridade eclesiástica, sugerida pela festa da Cátedra de São Pedro, foi algo que eles acolheram com alegria. O exemplo corajoso e o zelo pelo Evangelho, exemplificados de formas diferentes por Pedro e Paulo, serviam de modelo para os carmelitas, especialmente quando eles adotaram a estrutura mendicante.

A devoção mariana
Desde o começo da Ordem os carmelitas dedicaram-se à Virgem Maria. A tradição diz que o oratório no Monte Carmelo foi dedicado em honra a Maria,[ix]  e que a identificação dos carmelitas como “Irmãos da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo” foi adotada já em 1252.[x]  Os carmelitas observaram as festas marianas comuns à toda a Igreja: a Purificação em 02 de fevereiro, a Anunciação em 25 de março, Nossa Senhora das Neves em 05 de agosto, a Assunção em 15 de agosto, a Natividade em 08 de setembro e a Concepção da Virgem em 08 de dezembro. O Capítulo Geral de Frankfurt em 1393 acrescentou duas novas festas: a Visitação em 02 de julho e a Apresentação de Maria em 21 de novembro.
As cinco antífonas para as primeiras Vésperas em todas as festas marianas são as mesmas na liturgia carmelitana e coincidem exatamente com suas correspondentes na liturgia do Santo Sepulcro. Até a música é a mesma em todas as ocasiões, de modo que eles foram muito cuidadosos em preservar intacto este aspecto de sua herança da Terra Santa. Esta associação das antífonas marianas preservou o elo entre os carmelitas espalhados por todo mundo e a observância original no Monte Carmelo, se é que os carmelitas realizaram conscientemente este feito. As antífonas são as seguintes:
Hec est regina virginum que genuit regem velud rosa decora virgo dei genitrix per quam reperimus deum et hominem alma virgo intercede pro nobis omnibus.
Eis a rainha das virgem que gerou o rei; verdadeiramente uma bela rosa, a virgem mãe de Deus, através de quem nos aproximamos de Deus e do homem; ó virgem bela intercede por nós.
Te decus virgineum virgo dei genitrix maria te solem inter omnes virgines castissimam ex oramus ut pro salute nostra apud dominum intercedere digneris.
Tu és o esplendor das virgens ó virgem Maria, mãe de Deus; somente tu dentre todas as virgens sois a mais casta; assim, rezamos para que tu possas dignar-te a interceder por nossa salvação diante do Senhor.
Sub tuum presidium confugimus dei genitrix nostras deprecationes ne despicias in necessitatibus sed a periculis libera nos semper virgo benedicta.
Sob vosso trono nos reunimos ó mãe de Deus; não ignoreis nossas súplicas em tempos difíceis, mas livrai-nos sempre do mal ó bem-aventurada virgem.

Sancta Maria succurre miseris iuva pusillanimes refove flebiles ora pro populo interveni pro clero intercede pro devoto femino sexu.
Santa Maria socorrei os pobres, ajudai os fracos, consolai os tristes, rogai pelo povo, protegei o clero, interceda por todas as mulheres.
Beata Dei genitrix maria virgo perpetua templum domini sacrarium spiritus sancti tu sola sine exemplo placuisti domino ihesu christo ora pro populo interveni pro clero intercede pro devoto femino sexu.
Bem-aventurada mãe de Deus, Maria, sempre virgem, templo do Senhor, receptáculo do Espírito Santo, somente vós sem exemplo fostes agradável ao Senhor Jesus Cristo; orai pelo povo, intervenha pelo clero, interceda por todas as mulheres.
Todas estas antífonas têm como tema comum Maria como intercessora, o que era parte integral da devoção mariana carmelitana. Pela postura do suplicante, pequeno e humilde, que não quer nada mais além de ser agradável a Deus, o carmelita implora o favor da intercessão de Maria. Ela, como o receptáculo do sagrado (“templo do Senhor e receptáculo do Espírito Santo”), oferece a razão para venerá-la. A idéia de Maria como aquela que nos protege do perigo, predominante na terceira antífona, encoraja o carmelita a nela confiar. Isto é especialmente tocante quando consideramos que na Terra Santa a segurança na prática da fé não era dada como certa e que os últimos frades no Monte Carmelo foram mortos em 1291. O uso das mesmas partes para todas as festas marianas deu um senso de consistência e de unidade à devoção litúrgica carmelitana à Maria e manteve uma ligação permanente com a primeira experiência que eles tiveram no Monte Carmelo. A festa da Concepção da Virgem é importante para a liturgia carmelitana já que os carmelitas, junto com os franciscanos, fizeram uma ativa campanha para sua aceitação pela Igreja.[xi]  Para os carmelitas a festa representava uma extensão de sua já forte devoção mariana. Os cantos foram tirados da festa da Natividade de Maria em vez de serem composições novas, incluindo as antífonas padrões das primeiras Vésperas. Assim, eles foram capazes de acrescentar uma nova festa ao seu repertório, ajustada ao modelo de sua devoção mariana, sem interferir com suas obrigações para com a observância do Santo Sepulcro. A festa foi adotada na liturgia em 1306,[xii]  pouco antes da promulgação da Rubrica de Siberta que, posteriormente, consagrou seu uso por todo o período medieval.
Nestas festas marianas, onde orações e cantos padrões foram adaptados para a festa individual, a ordem das partes dentro de cada festa dá a celebração seu caráter especial. Deste modo, a liturgia carmelitana tinha uma ordem peculiar de cantos para cada festa, mas os cantos e as próprias orações eram tradicionais. A devoção carmelitana a Maria os impelia a adotar um grande número de festas marianas e a celebrá-las num estilo uniforme.
A festa da Visitação incluía um ofício, parcialmente rimado, que era comum no ocidente e entrou na liturgia carmelitana no Capítulo de Frankfurt em 1393.[xiii]  A festa só havia sido promulgada no ocidente pelo papa Bonifácio IX, em sua bula Superni benignitas conditoris e desde o princípio era observada em 02 de julho.[xiv]  Depois que o dominicano Raymond de Capua escreveu o ofício rimado para a festa,[xv]  os carmelitas seguiram o ofício apresentado pelo papa em sua bula. Os textos para a festa da Visitação derivam do relato de Lucas, incluindo partes do Magnificat adaptadas para o uso no ofício. Além do aspecto da devoção mariana, a festa da Visitação era particularmente importante para os carmelitas, já que ela celebra a visita de Maria a sua prima Isabel e a mútua alegria que elas tiveram pela ação de Deus em suas vidas. O(A) religioso(a) carmelitano(a) acolhe a ação de Deus em sua vida através da vida comunitária. Assim como Maria e Isabel ganharam novo discernimento sobre o mistério do plano de Deus em suas vidas através do diálogo, assim, também, o carmelita cresce na consciência da presença de Deus através da oração pessoal e da vivência comunitária.
A festa da Apresentação da Virgem foi introduzida no Ocidente pelo cruzado Philippe de Mezieres, chanceler do ducado de Chipre, que escreveu um ofício para ela. Este ofício foi primeiramente apresentado na igreja franciscana em Avignon em 21 de novembro de 1372, na presença da corte papal.[xvi]  Os carmelitas o aceitaram em sua liturgia em 1393.[xvii]  A festa é interessante, já que Philippe de Mezieres era um amigo pessoal do carmelita São Pedro Thomas e até escreveu a primeira biografia completa deste santo carmelitano.[xviii]  No entanto, apesar desta amizade, o ofício que Philippe compôs não era usado na liturgia carmelitana.[xix]
Os textos para a festa, em vez de se referirem à apresentação de Maria no Templo, baseado no Evangelho apócrifo de Tiago, fazem uma reflexão sobre a experiência da apresentação com abundantes referências a Maria relacionadas ao Carmelo. Embora nenhuma referência no manuscrito indica que tenha sido um carmelita quem compôs os textos, eles são tão específicos que podemos quase certamente chegar a esta conclusão. A maior parte da música foi adaptada de outros ofícios, principalmente o de São Tomás de Cantuária. Provavelmente por causa da popularidade do culto e da alta estima devotada a seu compositor, Bento de Peterborough.[xx]  O grande número de festas marianas na liturgia carmelitana assegurava que a presença dela fosse invocada num esquema sistemático. A devoção popular da Missa da Bem-aventurada Virgem no sábado manteve presente, dentro de uma rotina semanal, tudo o que era celebrado nas muitas festas ao longo do ano.
Ao considerarmos o conjunto das festas marianas na liturgia carmelitana, percebemos que a veneração da santa mãe de Deus era uma parte integral da vida de fé e da experiência do culto que eles tinham. As várias festas simplesmente deram expressão contínua à profunda devoção que os carmelitas tinham por Maria e ao compromisso deles em viver como discípulos de Jesus Cristo. Os carmelitas aceitaram todas as festas marianas regulares aprovadas pela Igreja e as tornaram suas. Eles viam Maria como uma intercessora diante de Deus, como o esplendor do Carmelo, a epitomia de virtude e aquela cuja santidade e fidelidade eles buscavam imitar em sua própria jornada humana.

Novos santos acrescentados à liturgia carmelitana
Os novos santos acrescentados à liturgia carmelitana durante o período medieval refletem seu vínculo com a Terra Santa, assim como sua adaptação à vida na sociedade ocidental.

Santa Ana
A festa de Santa Ana, mãe da Virgem Maria, foi um destes acréscimos posteriores à liturgia e é uma extensão lógica da devoção carmelitana à Maria. Os textos e a música são de um ofício rimado[xxi]  que não é próprio da liturgia carmelitana. A presença de Santa Ana na Terra Santa, assim como seu importante relacionamento com Maria e Jesus, serviram de justificação para que adotassem esta festa na liturgia. A festa se relaciona intimamente com a da Apresentação, já que Ana e Joaquim foram os pais que levaram Maria ao templo. Esta festa também está ligada a das Três Marias, que obviamente não seria possível sem sua contribuição. Como Santa Ana era uma parte integrante da vida de Maria, ela aparece como uma parte integrante da liturgia carmelitana.
Ana e seu esposo Joaquim representam para o carmelita os fiéis que confiaram em Deus e em quem Deus realiza grandes coisas. Apesar de sua idade avançada, Ana recebeu o privilégio de gerar a mãe do Redentor. Contudo, como uma anciã que pode conceber, ela é semelhante à prima de Maria, Isabel, assim como a Ana e a outras mulheres santas do Antigo Testamento. Para o carmelita, bem como para Santa Ana, a fidelidade silenciosa aos caminhos de Deus pode gerar muitos frutos espirituais.

As Três Marias
A festa das Três Marias, muito popular em Provença, entrou na liturgia carmelitana no Capítulo Geral de Lion em 1342.[xxii]  A festa das Três Marias está intimamente ligada à de Santa Ana, já que ela é tradicionalmente a mãe das três: da mãe de Jesus, por Joaquim e de uma segunda Maria, por Cléofas. Esta gerou outra Maria que, por sua vez, casou-se com Alfeu e gerou São Tiago Menor, São Simão, São Judas e São José, o Justo. Após a morte de Cléofas, Ana casou-se com Salomas e gerou uma terceira Maria, que foi mãe de São Tiago Maior e de São João Evangelista. Esta festa baseia-se na lenda onde Lázaro, Maria Madalena e seus companheiros foram deixados à deriva, num barco sem remos, que foi milagrosamente transportado para o sul da França, aportando perto da vila conhecida hoje como Saintes-Maries-de-la-Mer. De lá, a devoção às Três Marias espalhou-se rapidamente, assim como o culto a Santa Maria Madalena propagou-se a partir da abadia beneditina de Vezelay.[xxiii]
A festa não apenas trata dos personagens que viveram na Terra Santa, mas ela também diz respeito a um carmelita em especial, Jean de Venette, que escreveu esta Crônica das Três Marias em 1357.[xxiv]  Jean de Venette tornou-se prior do Carmelo de Paris em 1339 e, mais tarde, foi provincial da França. Como tal, esteve inegavelmente presente no Capítulo Geral de Lion que adotou a festa em 1342. Seu interesse pessoal é evidente nesta devoção e ele possivelmente influenciou os carmelitas a aceitarem tal festa em sua liturgia. A festa foi acrescentada ao complemento das festas marianas, celebrada em 25 de maio. Ela também demonstra a influência de uma devoção local numa área muito mais ampla: embora a festa das Três Maria estivesse restrita ao sul da França e a regiões da Itália,[xxv]  uma vez aceita na liturgia carmelitana ela gozou de observância universal dentro da Ordem.
A festa das Três Marias está relacionada ao evento da Páscoa, já que as mulheres santas descobriram o túmulo vazio do Senhor ressuscitado. Ela está intimamente ligada à festa de Santa Maria Madalena que as acompanhou ao túmulo e é muitas vezes confundida com estas Marias. Esta festa celebra aqueles que descobriram a ressurreição e ajudaram a anunciar aos outros o evento da Páscoa. Ela também enfatiza a devoção delas a Jesus cujo corpo elas foram ungir. Os carmelitas homenagearam as irmãs de Maria em sua liturgia como aquelas que seguem as pegadas do Senhor. A fidelidade à pessoa de Jesus determinou o curso de suas vidas e determina também a vida de cada carmelita.

Reflexões sobre a liturgia carmelitana
Os manuscritos medievais que examinamos geralmente são anteriores a 1450. Eles não preservam um ofício e uma Missa próprios nem para Elias nem para Eliseu, o que é surpreendente. Embora o ofício e a Missa para estes santos tenham sido estabelecidos antes do Concílio de Trento, se tal observância ocorreu ou não no período medieval permanece uma questão aberta. Evidentemente, se foi observado, nenhum texto uniforme ou música sobreviveu a este período.
A liturgia carmelitana medieval permaneceu intimamente ligada ao ritual do Santo Sepulcro, seguindo-o detalhadamente na maior parte do ano. O mistério Pascal, incluindo as festas da Celebração da Ressurreição, de Santa Maria Madalena e das Três Marias, permaneceu central na sua observância. Os cantos e as orações usadas para a liturgia formal foram claramente definidos pela Rubrica de Sibert de Beka, mas considerável liberdade foi permitida quando se tratou do detalhe musical. Os santos relacionados com a própria Terra Santa tiveram algum destaque na liturgia, tanto aqueles com celebrações relativamente pequenas como aqueles que gozavam de uma observância bem desenvolvida, como a festa dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó.
A devoção à Maria permaneceu destacada na observância litúrgica carmelitana medieval, caracterizando-o especialmente pelas antífonas das Vésperas nas quais o frade implorava pela intercessão da Virgem Maria. O número de festas marianas especiais era suficiente para assegurar uma devoção  periódica  a Maria, dentro de um esquema regular, enquanto as orações e as celebrações da Bem-aventurada Virgem asseguravam sua veneração   durante a semana. Assim, o carmelita permanecia fiel a seu  título de  “irmão  da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo” e modelava diretamente sua vida na vida da mãe de Deus.
A forte devoção aos santos Pedro e Paulo pode ter sido parte da incorporação dos carmelitas na tradição mendicante da Igreja ou pode vir de sua busca por um modelo diante da aprovação oficial de Elias e de Eliseu. No entanto, as festas principais destes dois santos proeminentes foram claramente celebradas com grande solenidade dentro da tradição carmelitana e os detalhes da observância dos carmelitas associou-os à tradição do Santo Sepulcro em vez de a qualquer outra na Europa ocidental. A devoção carmelitana aos Santos Pedro e Paulo também caracterizou a lealdade que tinham pela Igreja. Este é um reconhecimento de que o papel distinto dos carmelitas como eremitas e mendicantes foi exercido dentro de um contexto da Igreja ao qual permaneceram comprometidos. Como modelos, Pedro e Paulo simbolizam as dimensões administrativas e carismáticas da Igreja, nas quais os carmelitas participam.
(Veja na 4ª Parte: Os Carmelitas e o Concílio de Trento)




[i]  Por exemplo, as fontes musicais mais recentes do século XV são os códices carmelitanos de Mainz, datados de 1430 e 1432 respectivamente; cf. Boyce (1984, 1986 e 1987).
[ii]  Richard, NCE; Baldi, NCE.
[iii]  Todas as traduções são da Bíblia Edição Pastoral (Paulus).
[iv]  Por exemplo, um antigo breviário do Santo Sepulcro e depois adaptado para o uso carmelitano (Paris, BN lat 10478) tem um arranjo muito mais simples da festa do que o rito carmelitano plenamente desenvolvido.
[v]  Guyot, NCE, Horvath, NCE.
[vi]  Este ofício está preservado no manuscrito Paris, BN lat. 17716; cf. Leclercq (1946), p. 17.
[vii]  Saxer (1975) fez um estudo profundo e altamente valioso sobre o culto a Santa Maria Madalena.
[viii]  Haskins (1993) discute a confusão sobre Maria Madalena nas Escrituras assim como a compreensão dela no período medieval.
[ix]  Smet (1988), Vol. I, p. 8.
[x]  Smet (1988), Vol. I, p. 8.
[xi]  Cf. Bouman (1958), Forcadell (1954) e Van Dijk (1954) para uma discussão sobre esta festa.
[xii]  Forcadell (1954), 184.
[xiii]  Wessels (1912), Vol. I, pp. 109-110.
[xiv]  Pfaff (1970), p. 40.
[xv]  Bonniwell (1945), pp. 231-32.
[xvi]  Os textos da apresentação original foram publicados em Coleman (1981). Os dois manuscritos originais estão hoje em Paria, BN lat. 17330 e 14454. Discuto as variantes entre estas duas versões em Boyce (1993).
[xvii]  No Capítulo Geral de Frankfurt; cf. Wessels (1912), Vol. I, pp. 109-110.
[xviii]  Smet (1954).
[xix]  Discuto as diversas celebrações da festa nos manuscritos litúrgicos carmelitanos em Boyce (1991).
[xx]  M. J. Hamilton, NCE: o ofício de São Tomás provou ser popular para adaptação a outros ofícios. Edwards (1990) mostrou o relacionamento íntimo entre o ofício de São Tomás de Canterbury e o de São David de Wales.
[xxi]  Um ofício rimado é aquele que contém textos poéticos cujas linhas seguem um esquema rimado e cuja música é original e normalmente bem elaborada.
[xxii]  Zimmerman (1907), Vol. I, p. 141.
[xxiii]  Cf. Driscoll (1973 e 1975), Boyce (1989).
[xxiv] Driscoll (1975); Coville (1949).
[xxv]  A devoção a Santa Maria Salomé na Itália baseava-se em Veroli; cf. minha edição deste ofício de Boyce (1988b).

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

FREI PETRÔNIO O Pensamento do dia (Quinta, 21) - Vídeo Dailymotion

FREI PETRÔNIO O Pensamento do dia (Quinta, 21) - Vídeo Dailymotion

FREI PETRÔNIO: O Pensamento do dia. (Quinta, 21).

A ESPIRITUALIDADE LITÚRGICA CARMELITANA (2ª Parte)

Frei James Boyce, O.Carm.

A Espiritualidade litúrgica dos primeiros carmelitas

Oração individual e comunitária
Um aspecto singular da antiga liturgia carmelitana é que, enquanto a missa era celebrada em comum, a recitação do Ofício Divino era deixada ao eremita (indivíduo) como parte de sua contínua vida de oração diária. Assim, no que diz respeito aos salmos, a oração dos eremitas era individual em vez de comunitária, não sendo portanto, litúrgica no sentido próprio do termo. Como resultado, o que quer que fosse expresso comunitariamente deveria ser feito em relação à Missa, em vez do Ofício. As preocupações litúrgicas modernas, buscando expressar o espírito da comunidade que celebra, pode ou não ter sido conscientemente operante dentro da primeira comunidade de eremitas no Monte Carmelo. As antigas celebrações deles buscavam a integração das regras da Igreja oficial ao estilo de vida de um eremita assim como eles a compreendiam.

A Regra e a observância litúrgica no Monte Carmelo
A Regra dada aos primeiros eremitas por Alberto, patriarca de Jerusalém, entre os anos 1206-14[i]  mostra uma abundância de referências bíblicas que revelam nela um entusiasmo pela vida espiritual. A armadura de Cristo que deveria ser vestida para as batalhas espirituais, parte da vida diária do eremita, dava um sentido de prontidão ao modo de vida que eles adotaram e estabeleceu o ritmo para as observâncias específicas que caracterizariam sua vida.


A Regra e o modo de vida eremítico
A Regra destina-se claramente a pessoas que vivem uma vida de eremita. Não apenas na recitação pessoal dos salmos, mas também na aridez do lugar e na vida solitária dos primeiros carmelitas. Como a Regra nos fala alguma coisa sobre a observância litúrgica no Monte Carmelo, podemos presumir muito sobre a vida comunitária deles. Os primeiros carmelitas faziam parte de uma ampla tradição de vida eremítica na área do Monte Carmelo.[ii]  A rotina da vida de oração do eremita, esclarecida na regra que pediram e receberam do patriarca local, era parte desta ampla tradição na qual os carmelitas se inseriram. A sacralidade da área, santificada pela presença do profeta Elias e de seus seguidores,[iii]  não poderia ser descrita adequadamente em palavras. Apesar disso, fazia parte de sua experiência de oração.
Apesar de a Regra prescrever que a Missa diária fosse celebrada comunitariamente, nada de específico estava indicado quanto ao modo de sua apresentação. Na verdade, a prescrição de uma Missa diária para um grupo de eremitas era incomum. Ela nos diz que pelo menos um dos primeiros carmelitas era ordenado, já que não há menção sobre trazer um celebrante de fora da comunidade. Isso também indica que atribuíam grande importância à celebração Eucarística. Podemos seguramente presumir que os primeiros carmelitas seguiram o ritual do Santo Sepulcro no que diz respeito ao ano litúrgico e aos detalhes da observância diária.
Quanto ao Ofício Divino, a regra de Alberto indica apenas que os salmos devem ser recitados por aqueles que sabem ler e que uma quantidade de Pai Nossos deve ser rezada por aqueles que não sabem.[iv]  Esta era uma prática usada também por outras Ordens durante este período.[v]  A influência do uso da liturgia local na recitação dos salmos era mínima, já que não prevaleceu nenhuma tradição do ofício para os carmelitas neste tempo.


O Ritual do Santo Sepulcro
O rito local do Reino Latino deriva seu nome da igreja em Jerusalém onde se acreditava ser o local do túmulo do Senhor.[vi]  A descoberta do possível túmulo de Nosso Senhor iguala-se a outras descobertas tão antigas quanto a da Cruz Verdadeira por Santa Helena, no século quarto. O primeiro santuário cristão foi assim objeto de constantes batalhas para possuí-lo e gozava de um prestígio inigualável na Cristandade. Devemos lembrar que Luís IX construiu a Santa Capela de Paris para guardar as relíquias da Coroa de Espinhos.[vii]  Isto nos dá uma idéia do significado para a cristandade medieval dos artefatos relacionados ao Senhor. A Igreja do Santo Sepulcro precisa ser vista dentro deste contexto para avaliarmos seu significado litúrgico. O próprio ritual é uma adaptação de ritos franceses, pois foram os cruzados franceses que se estabeleceram inicialmente na Terra Santa. São ritos com forte influência agostiniana, já que os cônegos da igreja adotaram a regra de Santo Agostinho em 1114.[viii]  Uma característica litúrgica deste rito é a festa da Celebração da Ressurreição, celebrada no último Domingo do ano litúrgico.[ix]  Uma série de festas particulares, relacionadas a personagens e eventos da Terra Santa incluindo, por exemplo, a entrada de Noé na arca, também caracterizavam esta liturgia.[x]  Algumas destas festas continuaram na liturgia carmelitana.
Enquanto os carmelitas viveram no Monte Carmelo, a celebração do Rito do Santo Sepulcro era simplesmente o costume da região e, portanto, não era extraordinário. No entanto, a preservação deste rito, ou de aspectos dele, uma vez que os carmelitas não moravam mais na Palestina, distinguia-os de seus vizinhos na Europa ocidental.

A mendicância da Ordem
O longo e árduo processo para obter a aprovação oficial para a Ordem foi bem documentado.[xi]  Já que o Quarto Concílio Lateranense de 1215 proibiu a proliferação de regras ou de modos de vida,[xii]  os carmelitas tiveram que provar que se estabeleceram antes do Concílio e, por isso, deveriam ser considerados isentos. Esta condição foi reconhecida por Honório III em 30 de janeiro de 1226 nos seguintes termos:

Para que vós e vossos sucessores, até onde forem capazes com a ajuda de Deus, possam observar no futuro a regra de vida regular escrita pelo falecido Patriarca de Jerusalém, que dizeis terem recebido humildemente antes do Concílio Geral, a impomos sobre vós para a remissão de vossos pecados.[xiii]

Vários outros documentos papais reconheceram os carmelitas como uma Ordem religiosa, preparando o caminho para a carta apostólica Quae Honorem Conditoris de Inocêncio IV em 01 de outubro de 1247, que continha o texto atenuado da regra.[xiv]  As migrações do Monte Carmelo para o ocidente começaram por volta de 1238,[xv]  de modo que a regra revisada de Inocêncio era dirigida agora para uma comunidade internacional de carmelitas e não mais para um pequeno grupo de eremitas vivendo num determinado lugar. Uma das principais distinções com a Regra de Inocêncio está nos nn. 12-13, que diz respeito à recitação dos salmos. Enquanto a Regra de Alberto prescreveu que
Os que conhecem as letras e sabem ler os salmos, devem recitá-los, nas várias horas, conforme estabeleceram os Santos Padres e segundo o costume aprovado da Igreja...[xvi]
A versão de Inocêncio diz
Os que sabem dizer as horas canônicas com os clérigos devem recitá-las conforme estabeleceram os Santos Padres e segundo o costume aprovado da Igreja.[xvii]
A recitação das horas canônicas é normalmente um costume do clero e a injunção aqui é que os carmelitas, que não são clérigos mas sabem como recitar as horas canônicas, deveriam unir-se ao clero para recitá-las como a Igreja pede. Não há referência na Regra de Alberto a qualquer carmelita ordenado, apesar de alguns já terem recebido as ordens. No processo de aprovação pela Santa Sé, os carmelitas assumiram o modo de vida mendicante, incluindo a recitação do ofício em comum, pelo menos por aqueles que estavam aptos a fazê-lo. O oposto ao que era realizado em particular no Monte Carmelo.
Por um lado, esta revisão da Regra por Inocêncio significa que os ideais eremíticos estavam diminuindo diante das novas circunstâncias e pela necessidade de harmonizar com as estruturas eclesiásticas estabelecidas. Por outro lado, a recitação do ofício em comum significava agora que os carmelitas podiam dar expressão litúrgica à sua identidade religiosa de um modo que era impossível anteriormente.

A rápida expansão da Ordem
Junto com a mudança de identidade, passando de uma Ordem eremítica para uma mendicante, veio a mudança na localização, passando de uma pequena área do Reino Latino para um grupo mais amplo vivendo tanto no Reino Latino (pelo menos até 1291), como em muitas partes da Europa ocidental. As Constituições do Capítulo Geral de Londres de 1281 registra a Terra Santa como a primeira de dez províncias formando agora a Ordem. As outras eram Sicília, Inglaterra, Provença, Toscana, Lombardia, França, Alemanha, Aquitânia e Espanha.[xviii]  Esta experiência de internacionalidade era apenas uma expansão geográfica, mas afetou toda a auto-compreensão da Ordem.

O desenvolvimento da liturgia carmelitana medieval
Virtualmente todos os manuscritos litúrgicos carmelitanos referem-se ao Rito do Santo Sepulcro. O que foi simplesmente assumido no próprio Monte Carmelo agora tinha que ser definido e explicado, já que este rito não era conhecido fora do Reino Latino. Isto deve ter dado aos carmelitas europeus uma sensação de estarem separados das outras ordens, já que sua liturgia combinava tanto influências orientais quanto ocidentais. Apesar de o próprio rito do Santo Sepulcro basear-se em ritos franceses, alguns de seus acréscimos e festas singulares o distinguia das tradições litúrgicas ocidentais. O simples fato dos carmelitas estarem intimamente associados a este rito separava-os de seus contemporâneos.
Desde a revisão da Regra por Inocêncio, entre 1247 até 1291, quando os últimos carmelitas foram forçados a abandonar a Terra Santa,[xix]  havia a mesma observância litúrgica, tanto no Reino Latino quanto na Europa ocidental. Este vínculo unindo os carmelitas na Terra Santa a seus irmãos na Europa ocidental continuou por aproximadamente meio século.
Ainda que pouco se saiba sobre a liturgia da Ordem durante o importante século XIII, novas evidências sugerem que o Rito Carmelitano desenvolveu-se muito a partir daquele do Santo Sepulcro.[xx]  E como o ritual carmelitano tomou emprestado muito material da tradição dominicana,[xxi] seu desenvolvimento foi uniforme. Desta forma, a ordem das orações, dos salmos, das antífonas e de outros elementos da liturgia foi mantida intacta para toda a Ordem, de modo que o frade no Monte Carmelo dizia as mesmas orações, e do mesmo modo, que seu companheiro europeu.

As Rubricas de Sibert de Beka
Com a publicação em 1312, pelo Capítulo Geral de Londres, das Rubricas compiladas pelo frade carmelitano Sibert de Beka[xxii]  surgiu uma liturgia carmelitana padronizada que durou toda a Idade Média. As rubricas estabeleceram o texto inicial de cada oração, antífona, responsório, salmo e leitura a serem usados em cada hora do ofício e em cada Missa diária. Assim, ele estabeleceu uma uniformidade litúrgica absoluta para toda a Ordem.[xxiii]




[i]  Isto é, algum tempo durante o patriarcado de Alberto, que tornou-se patriarca em 1206 e foi morto em 1214; cf. Clarke e Edwards (1973), pp. 12-13.
[ii]  Assim, Friedman (1979) usa a título Eremitas Latinos para distingui-los dos eremitas de outras tradições que, em certa época, habitaram o local com o propósito de oração e solidão.
[iii]  A presença de Elias no Monte Carmelo foi o que atraiu os eremitas ao local para imitá-lo, de acordo com Jacques de Vitry; Clarke e Edwards (1973), p. 12.
[iv]  No Capítulo 9; cf. Clarke e Edwards (1973), pp. 82-83.
[v]  Por exemplo, os cistercienses também prescreveram a recitação do Pai Nosso no lugar dos salmos; cf. Lekai (1953), p. 231.
[vi]  Para um estudo da história da Igreja do Santo Sepulcro, cf. Couasnon (1974).
[vii]  A Sainte Chapelle foi construída para guardar a relíquia da Santa Cruz em 1248; cf. Mead, NCE.
[viii]  Buchtal (1957), p. xxx.
[ix]  Esta festa é descrita em detalhes em Zimmerman (1910), pp. 37-39.
[x]  Cf. Buchtal (1957) para as festas no rito do Santo Sepulcro e Zimmerman (1910) para uma comparação de tais festas com o rito carmelitano
[xi]  Cf. Cicconnetti (1973) e Clarke e Edwards (1973).
[xii]  Este decreto Ne nimia religionum está publicado no Conciliorum Oecumenicorum Decreta (1962), p. 218.
[xiii]  Clarke e Edwards (1973), p. 19.
[xiv]  A versão desta carta dos Arquivos do Vaticano, Reg. Vat., no. 21, folhas 465v-466 foi publicada em Laurent (1948), 5-16.
[xv]  Clarke e Edwards (1973, p. 21) citam 1238 como o começo desta migração para o Ocidente, baseados na evidência do dominicano do século XIII, Vincent de Beauvais; Keith Egan cita o franciscano Thomas de Eccleston, que afirma que Richard De Grey de Codnor trouxe os carmelitas para a Inglaterra quanto voltava de sua cruzada em 1242; cf. Egan (1972), 78.
[xvi]  Clarke e Edwards (1973), p. 83.
[xvii]  Clarke e Edwards (1973), p. 83.
[xviii]  Saggi, (1950), 244.
[xix]  Smet (1975), Vol. I, p. 30.
[xx]  Isto anteriormente foi suposto mas não documentado por uma comparação detalhada entre os breviários do Santo Sepulcro e dos carmelitas. Um manuscrito (do Abade Victor Leroquais em seu catálogo de breviários de manuscritos nas bibliotecas francesas) que pode ter pertencido aos templários pode, de fato, ser um único elo, ou um entre vários elos, entre a liturgia do Santo Sepulcro e a liturgia dos carmelitas. Meu artigo, A Busca pelo antigo Breviário Carmelitano: Um Manuscrito Templário Relido, na Revista de Musicologia tratará desta questão em detalhes.
[xxi]  Bonniwell (1945) discute a influência litúrgica dominicana sobre os carmelitas; isto não é uma surpresa, ao considerarmos que entre aqueles encarregados de revisar a Regra Carmelitana incluía os dominicanos.
[xxii]  Sibert de Beka nasceu entre 1260 e 1270. Entrou para o Carmelo de Colônia em 1280. Ele foi prior desta casa e, mais tarde, provincial da Baixa Alemanha e mestre dos alunos de Paris. Morreu provavelmente em 29 de dezembro de 1332 em Colônia e está sepultado na igreja carmelitana desta cidade. Cf. Xiberta (1931), pp. 142ss.
[xxiii]  A edição crítica do Ordinário de Sibert é encontrada em Zimmerman (1910).

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

FREI PETRÔNIO: O Pensamento do dia. (Quinta, 20).

A ESPIRITUALIDADE LITÚRGICA CARMELITANA (1ª Parte)

Frei James Boyce, O.Carm.

Introdução

A riqueza da tradição litúrgica carmelitana está estritamente ligada à interessante história da própria Ordem. O objetivo deste livreto é discutir a singularidade da liturgia carmelitana, examinar suas festas significativas ao longo da história da Ordem e sugerir como a liturgia carmelitana contemporânea poderia ser mais fiel à sua tradição histórica.

Esquema do livreto
A tradição litúrgica carmelitana divide-se convenientemente em quatro seções principais:

1-A atividade litúrgica dos primeiros eremitas no Monte Carmelo;
2-A liturgia medieval dos carmelitas como mendicantes, do começo do século XIV ao Concílio de Trento;
3-A liturgia Tridentina do século XVI até o século XX;
4-A liturgia carmelitana moderna como uma resposta ao Vaticano II.
Ainda que algumas pessoas afirmem que um ou outro período aponta para um seguimento mais verdadeiro do carisma carmelitano, este livreto espera mostrar que os quatro períodos demonstram um esforço genuíno para expressar a identidade carmelitana num estilo litúrgico apropriado.

A relação entre liturgia e espiritualidade
Muito já se discutiu sobre a interação entre liturgia e espiritualidade[i] bem como as distinções entre as diversas abordagens que ordens religiosas deram à sua própria definição de liturgia. Liturgia diz respeito à oração pública da comunidade orante e não à oração particular de seus membros.[ii] Mas, ao mesmo tempo, as festas celebradas por uma determinada comunidade orante revelam os valores partilhados e os modelos que abraçaram, de modo que a liturgia também revela a vida espiritual dos participantes. No caso dos carmelitas, o desenvolvimento de sua tradição litúrgica permitiu que eles venerassem seus exemplos de vida e honrassem os membros que alcançaram a santidade.

O caráter evolutivo da espiritualidade litúrgica carmelitana
A espiritualidade litúrgica carmelitana evoluiu mais do que a liturgia da maioria das Ordens por duas razões:
Eles não tinham um fundador específico cujas virtudes pudessem ser facilmente imitadas ou que tenha dado opiniões específicas sobre a liturgia;
sua auto-compreensão mudou radicalmente quando abandonaram o estilo de vida eremítico num único local, o Monte Carmelo, tornando-se uma Ordem mendicante internacional.
A velocidade com que esta mudança radical se realizou, uns cinquenta anos desde o recebimento de uma Regra, complicou a compreensão de sua identidade e a maneira de expressá-la liturgicamente.
Os carmelitas são designados pelo seu lugar de origem, em vez de serem identificados pelo fundador. O local do Monte Carmelo, além da tradição de santidade, associados a tantos grupos diferentes que lá viveram, modelou a auto- compreensão carmelitana.[iii]  Os nomes dos membros fundadores nunca foram registrados, exceto B e seus seguidores, a quem a Regra foi endereçada.[iv]  Isto teve o efeito de libertar os carmelitas para formularem e determinarem seu próprio impulso espiritual, em vez de se ajustarem à direção de um fundador. Na ausência de um fundador, cuja memória e desejos precisariam ser honrados depois de sua morte, os carmelitas tiveram a liberdade de se adaptar continuamente às exigências da Igreja oficial, enquanto aprofundavam a consciência de sua identidade litúrgica e espiritual.
Isto justifica a ausência de qualquer festa específica para um fundador canonizado, equivalente a São Domingos ou São Francisco, em sua liturgia medieval. Sua auto-definição foi um processo lento e evolutivo, de modo que as festas especificamente carmelitanas como a dos santos Elias e Eliseu, ou mesmo a de Nossa Senhora do Monte Carmelo demoraram para ser formuladas e, geralmente, não aparecem nos ofícios litúrgicos carmelitanos medievais.
As rápidas mudanças que ocorreram desde o começo da Ordem, quando eles mudaram de um estilo de vida eremítico para o mendicante, estimulou-os a refletir constantemente sobre suas origens, adaptando sua vida litúrgica e espiritual às necessidades de uma Igreja em transformação. Em vez de retornarem a costumes mais antigos, tais como os do Monte Carmelo, os carmelitas tiveram que se adaptar a uma nova situação, preservando neste processo a essência de sua auto- compreensão.



[i]  Madigan (1988) discute esta questão.
[ii]  Livros padronizados sobre liturgia incluem Adam (1985 e 1981), Talley (1986), Vogel (1986), Wegman (1985), Harper (1991) e Jungmann (1959).
[iii]  Friedman (1979) discute os vários grupos que se estabeleceram no Monte Carmelo em diferentes épocas.
[iv]  Clarke e Edwards (1973), p. 12.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

ALGUNS TRAÇOS DA VIDA CRISTÃ QUE SE CONSTITUEM RELEVANTES NA ESPIRITUALIDADE CARMELITANA.


A identidade carmelita de dimensão contemplativa. As atitudes:
1-ZELO ARDENTE
2-APAIXONADO POR DEUS
3-ALEGRIA
4-NECESSIDADE NÃO TEM LEI
5-FRATERNIDADE ACOLHEDORA
6-TRANQÜILIDADE ( DEUS É O FUNDAMENTO DA VIDA )
7-EQUILÍBRIO EM TODOS OS NÍVEIS
8-VIDA ORANTE
9-INQUIETO ( INCONFORMADO COM O QUE AÍ ESTÁ. OBRA INACABADA ... )
10-APOSTOLADO
11-MODELOS ( MARIA, ELIAS, SÃO PAULO, COMUNIDADE PRIMITIVA )
12-DISPONIBILIDADE
13-PALAVRA DE DEUS COMO ALICERCE DA VIDA.
14-SILÊNCIO PROFÉTICO
15-COMUNHÃO COM A IGREJA
16-SIMPLICIDADE NO VIVER E NA LINGUAGEM.

Em seguida fizemos o enxugamento destas atitudes. Cada um escolheu 3 atitudes   constitutivas da  identidade contemplativa carmelita. Sintetizando, as mais votadas foram:
1-ZELO ARDENTE
SEDENTOS JUNTO À FONTE, JESUS, PARA MANTER-SE VIGILANTES, ANIMADOS E ATIVOS COMO: MARIA, ELIAS, SÃO PAULO, COMUNIDADE PRIMITIVA, SANTOS E SANTAS DO CARMELO para não ter medo do novo.

2-PALAVRA DE DEUS COMO ALICERCE DA VIDA
“ FAZER TUDO NA PALAVRA DE DEUS “

3-VIDA ORANTE
VIVER NA PRESENÇA DE DEUS  PARA TER O OLHAR E O CORAÇÃO DE DEUS e ser uma presença libertadora.
OLHAR ALÉM DAS APARÊNCIAS PARA NÃO SE CONFORMAR COM O “ QUE AÍ ESTÁ “. MANTER-SE INQÜIETO para perceber o clamor do povo.
CONSTRUIR O HOMEM E A MULHER NOVOS: OLHOS E CORAÇÃO para sair do conformismo.

4-FRATERNIDADE ACOLHEDORA
ATENTO E PREOCUPADO COM OS OUTROS PARA “ESCUTAR“ OS MAIS EXCLUÍDOS E NECESSITADOS:  UM SER  FRATERNO E SOLIDÁRIO

5-COMUNHÃO COM A IGREJA
“ NO CORAÇÃO DA IGREJA SEREI O AMOR “. 
“ MORRO FILHA DA IGREJA “

Um grande desafio para viver este ideal é sair do despreparo e das limitações através de uma formação que busca clarear e interpretar a organização da vida e dar respostas transformadoras e criativas para que: “ todos tenham vida e vida em abundância “
Tentando, por enquanto, concluir:

CONTEMPLATIVO: aquele, aquela que se exercita na procura de viver na Presença de Deus, cuja Presença é encontrada em toda parte e de modo especial na Palavra e na Eucaristia. Deixar-se tocar por Ele, mantendo-se continuamente em prontidão, atento, inquieto  para chegar a “ escuta-Lo “ na vida quotidiana.
Escutando Deus na vida o carmelita, a carmelita saberá assumir decisões adequadas quer individualmente, quer comunitariamente para tornar a vida mais feliz para todos.
É claro que não se pretendeu esgotar a reflexão.
dada a riqueza da espiritualidade carmelita que é eminentemente eclesial, portanto, muito abrangente, densa. Fica o desafio: continuar a reflexão para irmos completando o quadro de referência da nossa identidade.


JABOTICABAL, SÃO PAULO.
Irmãs dos Mosteiro “Flos Carmeli“

E Frei Victor Kruger, O. Carm.