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sábado, 2 de novembro de 2013

Cemitérios se adaptam à laicização da morte

As cinzas humanas estão lá, espalhadas ao pé das árvores. A poucos passos da entrada do cemitério intermunicipal de Joncherolles (Seine-Saint-Denis), na França, perto do crematório, que recebendo 1.200 corpos por ano, o "Jardim da Recordação" tem uma atmosfera de tranquilidade. A reportagem é de Frédérique Mounier, publicada no jornal La Croix, 29-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Desejado em todos os municípios de mais de 2.000 habitantes pela lei de 19 de dezembro de 2008, relativa à cremação, já como parte preponderante das exéquias, o "Jardim da Recordação" de Joncherolles conheceu uma evolução interessante. Mathieu Legrand, seu conservador, a explica: "Teoricamente, as cinzas devem ser derramadas no 'poço das cinzas'".

O poço, fechado por uma plataforma de pedras, é cercado por um memorial composto por placas nominativas que lembram a identidade dos falecidos. Mas eis que "as árvores se tornaram sepulturas. É um modo diferente de viver o luto", constata o conservador. Como explica Annie Paggetti, diretora do crematório, "a cremação não significa nem o desaparecimento do vínculo, nem do lugar". Ela não acredita na "privatização das cinzas", muitas vezes denunciada.

O cemitério de Joncherolles, com seus 25 hectares, com 14 mil lugares, pulmão verde prensado entre as oficinas de conserto ferroviário, armazéns e uma zona industrial, é uma vitrine as mudanças ignoradas por muitos da paisagem funerária francesa. Estando situado no departamento 93 (Seine-Saint Denis), a primeira religião dos "seus" defuntos é o Islã. E das 9.000 sepulturas não muçulmanos e não judias, 7.500 não apresentam nenhum sinal religioso.

O cálculo foi realizada por Patricia Duchesne, responsável pela capelania do cemitério, única na França. O seu escritório, sóbrio e sem símbolos religiosos, fica ao lado do de Annie Paggetti. A sua constatação: "Realizamos 300 cerimônias religiosas por ano. Ou seja, 25% do total. Para as pessoas que vêm aqui, as palavras 'paróquia', 'padre', 'sacramento' não têm nenhum sentido. Muitas vezes, estão abatidos, destruídos, feridos. Elas nos dizem: 'Ajudem-me apesar de tudo, salvem-me embora eu não creia'. Nesse sentido, estamos aqui como a Igreja fora da Igreja, como missionários às margens".

Evidentemente, ela acha muito importante o convite do Papa Francisco de ir às periferias. Para essa leiga encarregada por Dom Pascal Delannoy, bispo de Saint-Denis, "estamos no extremo limite da diminuição do cristianismo na França". Por isso, paradoxalmente, ela vê a sua capelania como "uma porta de entrada na Igreja".

Do outro lado da França, o arquiteto Marc Barani, prêmio nacional de arquitetura de 2013, se apaixonou pelos cemitérios: "Eu poderia construí-los por toda a vida!", diz ele hoje. Por quê? Porque, retornando de um ano no Nepal, ele renovou em 1992 o cemitério de Roquebrune-Cap Martin (Alpes-Maritimes), justamente onde está enterrado o seu grande "colega" Le Corbusier.

Impressionado pela continuidade oriental entre a morte e a vida, o arquiteto lamenta, no Ocidente, "a dificuldade de se estabelecer em um tempo longo", "a aceleração do tempo ligada à negação da morte, que se tornou inominável" e "o abandono da arte funerária".

Ele constata a "substituição do princípio da imortalidade da alma pelo nosso próprio princípio de imortalidade: com o cancelamento das concessões perpétuas, passamos da 'última morada' para o 'último hotel'". Ele nota que "a desagregação das famílias não favorece a unidade de tempo e de lugar". E vê na explosão da cremação "um modo de matar a morte mais rapidamente, simplesmente porque a decomposição dos corpos dá medo".

 

Ainda em 2002, o sociólogo Jean-Hugues Dechaux tinha entrevisto o "processo de intimização" do funeral: "A morte, desritualizada, diz respeito cada vez mais à subjetividade de cada um. Ela não encontra outro modo para se expressar socialmente do que a partir da experiência íntima. Daí deriva a regressão dos ritos antigos, que afiliam e celebram uma passagem, regulando socialmente uma expressão da dor".

O padre Jean-Marie Humeau, pároco de Taverny (Val-d'Oise), responsável diocesano da pastoral dos funerais, não compartilha essa severidade. Certamente, de acordo com a doutrina da Igreja, que, depois do Concílio Vaticano II, não condena mais a cremação, mas não a favorece, ele explica: "Destruir o corpo que foi o templo do Espírito com um ato voluntário não é a mesma coisa que pô-lo na terra, continuando assim a obra da criação". No entanto, constatando que em Essonne "os funerais civis já são 50%", ele continua: "Quando a Igreja propõe, a proposta é acolhida".

Ele vê nisso duas condições: "Tudo depende da iniciativa deixada aos leigos formados e responsáveis pela pastoral dos funerais", que hoje são cerca de uma centena em cada diocese. E, acima de tudo, da presença da Igreja nos crematórios, sabendo que alguns bispos e alguns responsáveis desses locais de incineração manifestam uma oposição real a tal presença.

Em Joncherolles, Mathieu Legrand, não está preocupado: "Os cemitérios não vão desaparecer. Eles vão se transformar, vão se adaptar à demanda de cremação, às cerimônias civis, tornando-se mais 'paisagísticos'". Uma constatação compartilhada pela sua "capelã", Patricia Duchesne, que já constata essa transformação.

Os profissionais do ato fúnebre, atentos à evolução desse que também é um mercado, além disso, não estão isentos de sentido espiritual. Prova disso é a qualidade formal das "salas de apresentação", das "salas de entrega da urna" ou das "salas conviviais" (abertas às famílias durante a cremação) oferecidas às famílias, aos parentes e amigos dos falecidos no cemitério de Joncherolles. A equipe dos gestores enfatiza a "acolhida vivida como cuidado", observa Annie Paggetti. Discursos, projeção de fotos e vídeos, e música já pontuam as cerimônias civis, que são as mais numerosas.

Daí deriva a insistência do padre Humeau: "Muitas vezes, essas lembranças se voltaram ao passado. Quando nos pedem uma celebração católica, nós propomos às famílias que façam essas lembranças no início do rito, porque ele tem o objetivo de abrir para o futuro".

31º Domingo do Tempo Comum- Dia de todos os Santos. Do nudista à anoréxica. Santos para todos os gostos

Os santos? Há alguns que são muito populares e incrivelmente próximos à vida cotidiana das pessoas graças à devoção. Entretanto, entre os 20.000 nomes da “Bibliotheca Sanctorum” aparecem muitíssimos um tanto estranhos. Para não dizer “anômalos”. Precisamente, “Os Santos anômalos” é o título do novo livro que acaba de ser publicado pela editora EdB, que descreve as “formas raras de vida cristã”. Trata-se da obra póstuma de um dos grandes escritores da hagiografia, o monge beneditino belga Reginald Gregoire, que faleceu no ano passado. A reportagem é de Giorgio Bernardelli, publicada no sítio Vatican Insider, 01-11-2013. A tradução é do Cepat.
Depois de muitas publicações dedicadas às figuras dos santos, o padre Gregoire quis reunir numa espécie de lista de todos aqueles santos que são, por uma ou outra razão, ao menos problemáticos. Algumas vezes, há muitas dúvidas do ponto de vista histórico. Nas narrações de suas vidas se encontram ecos das vidas de outros santos. Nesta lista de Gregoire, não faltam figuras que são um tanto “anômalas” do ponto de vista da ideia que geralmente temos sobre a santidade.
Passando pelas páginas deste livro, descobrimos, por exemplo, que a Serapione (monge do século IV) lhe diziam “o Sindonita”, alcunha que hoje em dia corresponderia a nossa palavra “nudista”; efetivamente, como sinal de pobreza absoluta, Serapione usava somente uma “síndone”, ou seja, uma camisa de linho. David de Tessalônica, também do século IV, pertence à categoria dos santos dendritos, ou seja, os que passaram a maior parte de suas vidas entre os galhos de uma árvore como penitência. Isto sem falar do caso (mais difundido do que normalmente se acredita) das santas “travestidas”: mulheres que viveram durante anos sob uma falsa identidade para fugir da violência ou por outros motivos. Particularmente, estranha é a história de “Paola a barbuda”, santa venerada em Ávila. De acordo com uma lenda do século XIV, para fugir das más intenções de um jovem que a perseguia, teria se refugiado numa capela e, após invocar a ajuda divina, teria conseguido fugir de seu perseguidor graças a uma cerrada barba, acompanhada de bigodes.
Se esta lenda pode provocar risos, há outras que suscitam questões mais sérias. Como a história da virgem Lidvina, mística holandesa do século XIV, que era completamente anoréxica. Sua biografia, escreve o padre Gregoire, é um documento interessante para a história da medicina. E também aparecem algumas figuras cujas histórias descrevem essa tênue e perigosa fronteira entre o suicídio e o martírio, problema que se advertia desde a antiguidade, pois no ano de 852 um Concílio precisou expressar claramente que não se podia procurar o martírio voluntariamente (proibição que a doutrina da Igreja sempre afirmou).
E também aparece o interessante caso dos santos chamados “cefalóforos”, ou seja, portadores da própria cabeça. O padre Gregoire reuniu 80 histórias de mártires cujas cabeças teriam sobrevivido em relação ao resto do corpo. Uma história claramente inverossímil, mas que responde a uma tradição teológica segundo a qual a profissão de fé tinha que vencer, de alguma maneira, perante a morte violenta do martírio.
Outro capítulo do livro dos santos “apesar de”, aqueles que foram reconhecidos como modelos de vida cristã apesar de terem sido protagonistas de histórias não tão lineares. Por exemplo, os casos dos fundadores de ordens religiosas que acabaram nas mãos do Santo Ofício, como Giuseppe Calasanzio. Contudo, também há outros santos que foram seguidores dos anti-papas, como o dominicano do século XV, Vincenzo Ferrer.
Trata-se de um livro que recorda que a santidade é um fenômeno muito mais complexo do que parece. E que na história da Igreja não faltaram casos de influências emotivas decoradas com auréolas um pouco apressadamente. Tudo isso, explica em suas conclusões o padre Gregoire, não deve provocar uma desmistificação do conjunto, mas, sim, para que a efervescência da devoção popular ajude a fazer surgir, entre o povo cristão, cada vez mais santos de verdade.

COISAS DE FRANCISCO: O menino no trono de Francisco

O vovô Francisco falava do seu modo afável de sempre, e o menino saltitava ao seu redor, como se estivesse no jardim de casa. Como se o avô estivesse podando uma cerca em uma tarde ensolarada qualquer de outono, deixando que o netinho se movesse livremente com a promessa de não se afastar muito. Ele poderia muito bem lhe dizer: "Cuidado que você vai cair", como diz um idoso um pouco ansioso a uma criança irrequieta. A reportagem é de Paolo Di Stefano, publicada no jornal Corriere della Sera, 29-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Isolado do contexto, podia ser um retrato íntimo, de família, mas estávamos na Praça de São Pedro, durante uma homilia, a despeito de milhares e milhares de fiéis incrédulos. Um quadro terno e cômico ao mesmo tempo, porque o avô não era ninguém menos do que o papa, e o menino tinha escapado da multidão para ficar lá em cima, ao lado do vovô que lhe acariciava a cabeça, voltando ocasionalmente a abraçá-lo para um apelo irresistível de afeto e daquela cumplicidade que só os avós conseguem ter com os netos.

Esse papa sabe dar naturalidade a palavras e a gestos que até recentemente pareciam impensáveis. Tudo de uma simplicidade desarmante, como o primeiro "boa noite" do dia 13 de março. Como as caretas sorridentes e confidenciais com o pequeno. Como aquela agitação do menino "impertinente", que, com a sua camisa amarela de mangas longas demais, ia se sentar por um instante no trono pontifício. Talvez alheio a tudo, talvez bem consciente daqueles poucos minutos de celebridade, enquanto o vovô Francisco continuava falando tranquilo ao oceano da Praça de São Pedro, sem prestar muita atenção ao moleque que agora já estava ao seu lado mexendo com uma mão nas pregas do hábito branco.

Era o encontro das famílias, mas já tínhamos visto muitas crianças em torno do vovô Francisco. Em julho, no Rio de Janeiro, ele abraçou Nathan, um garoto de nove anos que escapou da multidão para alcançar o papa, que, para cumprimentá-lo, pediu que o motorista parasse o carro. Em setembro, ele quis telefonar para Federico, de seis anos, que de Chivasso tinha lhe enviado um desenho de flores coloridas. Em Assis, outro abraço com uma criança que tinha se jogado no seu colo sacudindo uma bandeira. Não um abraço qualquer, mas um apertão pleno, forte, reconfortante e, depois, a caminhada acima nas escadas, de mãos dadas.
Certamente, não foi um avô que disse "Deixai vir a mim as crianças", mas não importa.
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

POR QUE TER MEDO DA MORTE?

Frei Petrônio de Miranda, Frade Carmelita. E-mail: missaodomgabriel@bol.com.br
 
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Se sou justo e humano
Por que ter medo da morte?
Se vivo sem medo de ser feliz
Por que ter medo da morte?
Se sou alegre e fraterno
Por que ter medo da morte?
Se abro as portas para os pobres
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?
 
Se não firo ninguém com palavras ou atos
Por que ter medo da morte?
Se procuro sempre fazer o bem 
Por que ter medo da morte?
Se mostro a todos os valores cristãos
Por que ter medo da morte?
Se penso bem antes de tomar uma decisão
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?
 
Se luto para que todos sejam amados
Por que ter medo da morte?
Se sujo as mãos para a construção de um novo dia
Por que ter medo da morte?
Se amo o meu trabalho e agradeço por tudo que tenho
Por que ter medo da morte?
Se encontro paz e harmonia no meu lar
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?
   
Se gosto de caminhar e trilhar novos caminhos
Por que ter medo da morte?
Se uso a minha inteligência para gerar vida
Por que ter medo da morte?
Se conscientizo a todos dos seus direitos e deveres
Por que ter medo da morte?
Se gosto de silenciar e escutar grito da natureza
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?
 
Se encontro forças para sair das noites escuras da vida
Por que ter medo da morte?
Se acredito que após uma tempestade vem o brilho do sol 
Por que ter medo da morte?
Se sei contemplar o brilho das estrelas mesmo na escuridão
Por que ter medo da morte?
Se procuro construir portas quando todos me sufocam
Por que ter medo da morte?
Se gosto de remar mesmo contra a maré
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Frei Cláudio van Balen, mestre e amigo.

Frei Gilvander Luís Moreira, O.Carm.

 "Frei Cláudio tem uma história de compromisso com a luta pelos direitos humanos durante a ditadura militar-civil-empresarial, pois, junto com outros frades, colocou a Igreja do Carmo como uma trincheira que oxigenava a luta contra a ditadura. Por isso teve que responder Inquérito militar. Com essa história, frei Cláudio sempre compreendeu minha luta ao lado dos movimentos sociais populares, pois sabe que hoje uma ditadura econômica paira sobre a maioria do povo", escreve em artigo Gilvander Luís Moreira, frei e padre da Ordem dos carmelitas, assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT, assessor do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI, assessor do Serviço de Animação Bíblica - SAB e da Via Campesina em Minas Gerais.

Eis o artigo.

Pelo frei Cláudio van Balen nutro uma eterna gratidão e o considero um dos meus mestres. Tive a alegria e a responsabilidade de morar na mesma comunidade junto com frei Cláudio e ao lado dele trabalhar na pastoral daIgreja do Carmo, de Belo Horizonte, MG, durante dez anos, de junho de 2000 a junho de 2010.

Durante o meu mestrado em exegese Bíblica em Roma, Itália, fui muito apoiado, através de cartas e etc, por muita gente do CEBI , da CPT , das CEBs e do MST de Minas Gerais, pois antes de ir para Roma eu tinha trabalhado na assessoria do CEBI, CPT, CEBs e MST de Minas. Por isso eu sentia-me com a missão de continuar a missão em Minas. Perguntei ao frei Cláudio se eu poderia fazer parte da Comunidade do Carmo, após voltar de Roma. Ele, prontamente, disse que sim. Fui vigário na Igreja do Carmo por 7,5 anos, auxiliando frei Cláudio na condução de uma evangelização emancipatória na comunidade do Carmo, ao mesmo tempo em que assessorava as CEBs, CPT, CEBIe o MST em Minas Gerais. Isso implicava que eu tinha que viajar muito e ficar boa parte do meu tempo fora da Igreja do Carmo. Frei Cláudio sempre se mostrou compreensivo diante de minhas “ausências”. Aliás, sempre me apoiou e sempre me incentivou a continuar apoiando a luta dos pobres que buscam seus direitos de forma organizada. Inclusive me disse algumas vezes: “Se eu tivesse a sua idade – 30 anos mais jovem -, eu estaria como você colocando fogo no mundo”.

Frei Cláudio tem uma história de compromisso com a luta pelos direitos humanos durante a ditadura militar-civil-empresarial, pois, junto com outros frades, colocou a Igreja do Carmo como uma trincheira que oxigenava a luta contra a ditadura. Por isso teve que responder Inquérito militar. Com essa história, frei Cláudio sempre compreendeu minha luta ao lado dos movimentos sociais populares, pois sabe que hoje uma ditadura econômica paira sobre a maioria do povo.

Com frei Cláudio, os momentos de almoço, de reuniões, de palestras, de correção de textos e conversas informais eram sempre momentos de formação teológica na linha libertadora. Eu sempre pedia ao frei Cláudio e ao saudosoEliseu Lopes – grande biblista do CEBI – para corrigirem os meus textos. Com alegria eu acatava quase todas as sugestões de melhorias nos meus textos. E frei Cláudio humildemente sempre pedia que eu corrigisse os seus textos e aceitava quando eu sugeria mudar algumas palavrinhas, em uma troca mútua de conhecimentos e experiências.

Durante 10 anos eu celebrei a missa na Comunidade da Vila Acaba Mundo, comunidade da Igreja do Carmo, aos domingos, às 09:00h da manhã. Eu voltava e fazia questão de chegar a tempo de assistir a homilia do frei Cláudio na missa das 11:00h. Quanto aprendizado! Frei Cláudio, assim como o profeta Oséias, nos estimula sempre a fazermos autocrítica e não nos acomodar no jeito de pensar e agir tradicionalmente Frei Cláudio é um exímio crítico do poder religioso. Hoje, na sociedade capitalista – individualista, consumista e mercantilizadora de tudo – para as igrejas e pessoas religiosas criticarem os podres da política e da economia é menos difícil, mas criticar o poder religioso e os funcionários do templo é muito complicado, é mexer em um vespeiro. Mas frei Cláudio, destemidamente, ajuda-nos a desmascarar as opressões veladas, sutis e, muitas vezes, disfarçadas de propostas religiosas que aparentemente se dizem humanizadoras, mas são na prática moralistas, doutrinadoras, proselitistas e domesticadoras, infantilizando pessoas. Por isso vejo muitas semelhanças entre frei Cláudio e Oséias, o profeta das relações de amor e da anti-idolatria religiosa. Em ambos vejo uma profecia que vai do miúdo da vida para o macro, do cotidiano para as questões globais, mas revelando a interdependência e o entrelaçamento das várias dimensões da vida humana e social. O profeta Oséias e frei Cláudio denunciam o poder opressor localizado nas grandes instituições, mas também desvenda a microfísica do poder: todas as relações interpessoais (sociais, etc) são permeadas de relações de poder. O poder não está localizado somente nas grandes instituições, mas está presente nas micro-relações. Estão permeadas de poder as relações homem-mulher, adulto-criança, professora-estudante, governante-governados, branco-negro, sadio-doente...

Com frei Cláudio aprendi muitas perspectivas teológicas que inspiram minha atuação ao lado dos pobres na luta pelos seus sagrados direitos. Aprendi, por exemplo, que nenhum dualismo é cristão e evangélico. O divino está no humano. A luz e a força divina permeiam e perpassam todos e tudo. O profano é o que existe de mais sagrado. Muitas orações transferem para Deus responsabilidades que são nossas. Que a eucaristia não é prêmio para os puros, mas é alimento espiritual para todos e que ninguém tem o direito de excluir ninguém da eucaristia. A primeira eucaristia foi um jantar e certamente Jesus de Nazaré não excluiu nenhum dos que estavam na caminhada. Jesus veio para todos a partir dos pecadores e dos doentes. Logo, todos devem se sentir convidados de honra para participar da mesa da eucaristia. É terrorismo religioso excluir alguém da eucaristia por questões morais, por ser divorciado/a, desquitado/a, homossexual etc.

Mas, após 7,5 anos sendo auxiliar do frei Cláudio, a pedido dele por se sentir cansado, com menos força física e também para que ele tivesse mais liberdade para “fazer o que mais gosta”: escrever de forma teológica para contribuir no processo de humanização das pessoas, eu aceitei assumir a coordenação da Igreja do Carmo, tornei-me pároco, o que fiz durante 2,5 anos. Diminuí muito minhas viagens e me dediquei à coordenação do trabalho pastoral da Igreja do Carmo. Aprendi muito, sofri muito e, sem querer, fui ocasião de sofrimento para muitas pessoas e motivo de alegria para outras. Experimentei o desafio que é aliar lutas por solidariedade, por promoção humana, com lutas por justiça. Alguns amigos/as de frei Cláudio não compreenderam a nossa opção de tentar unir as perspectivas do profeta Oséias, o que frei Cláudio faz com muita destreza e sabedoria, com a perspectiva do profeta Amós: luta por justiça social, o que eu tento fazer caminhando ao lado dos pobres que lutam de forma organizada por terra, moradia digna, direitos sociais etc. Assim, saí da Igreja do Carmo, mas sendo sempre grato ao frei Cláudio e o reconhecendo como um dos meus mestres, bem como, diga-se de passagem, também sou grato a muitas pessoas da Comunidade da Igreja do Carmo.

Frei Cláudio, que beleza você celebrando 80 anos de vida e de muitas lutas! Obrigado por tudo o que você me ensinou e tem ensinado a tanta gente.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Opinião: 'Black bloc' visa chamar atenção de um Estado ausente

*ESTHER SOLANO E RAFAEL ALCADIPANI

 O "black bloc" acontece nas ruas. Esta afirmação aparentemente elementar nos motivou a sair de nossos cômodos ambientes universitários e ir para a rua buscar compreender este complexo fenômeno social que tantos desafios institucionais e tanta estupefação têm ocasionado na sociedade.

Nossa rotina de pesquisa consiste em acompanhar muito de perto as manifestações, observar, perguntar, conversar com pessoas que utilizam a tática "black bloc", policiais e membros da imprensa.

Das conversas que tivemos, e das observações que realizamos, ficou claro que para estes jovens a violência simbólica funciona como uma forma de se expressar socialmente, um elemento provocador que tem o intuito de captar a atenção de um Estado percebido como totalmente ausente.

O uso da violência simbólica também serve, na versão deles, para induzir a sociedade a refletir sobre a necessidade de uma mudança sistêmica: "protesto pacifico não adianta nada, só com violência que o governo enxerga nossa revolta", "a intenção é transgredir, incomodar, deixar visibilidade, chamar para um debate".

A ação direita se faz contra símbolos de um sistema político-corporativo que eles reconhecem como perverso.

Os jovens que utilizam a tática "black bloc" dizem usar uma violência teatral que chama a atenção para o que eles caracterizam como o verdadeiro vandalismo. Tal vandalismo seria uma ordem das coisas que engole o cidadão numa tirania continua.

Exemplos de frases que retratam isso são: "a causa do 'black bloc' agir é o descaso público. As pessoas estão sendo torturadas psicologicamente pelo cotidiano", "não somos vândalos, vândalo é o Estado que deixa as pessoas horas esperando na fila do SUS".

 

SUJEITOS POLÍTICOS

Estes jovens com os quais viemos conversando em São Paulo estão na faixa etária entre 17 e 25 anos.

São de classe média baixa, a maioria trabalha, alguns formados ou se formando em universidades particulares, embora já dialogamos também com alguns alunos da USP.

Alguns acumulam leituras teóricas sobre anarquismo. A maioria deles consegue formular, refletir e dialogar fluidamente sobre a precariedade do Estado e da situação atual do Brasil. Pensam-se como sujeitos políticos com uma mensagem de melhoria do país.

Todavia, eles não formam uma organização homogênea. Já presenciamos discussões, durante as manifestações, entre aqueles que são a favor de uma violência mais focada, estritamente simbólica, e aqueles que defendem uma ação mais pesada.

Notamos divergências entre aqueles que são contra agredir policiais porque, na sua reflexão, o inimigo central é o Estado, e aqueles de cujas falas destila-se uma raiva profunda contra a corporação policial. Uma frase que explica isso foi dita uma vez por um jovem para quem "nem todo o mundo pensa igual embora se vista igual".

 

FETICHE MIDIÁTICO

Um dos aspectos que surge como central na nossa pesquisa é o papel da mídia neste fenômeno. É muito simbólico ver a enorme quantidade de jornalistas que aparecem nas ruas sempre que a tática é utilizada.

 

"Black bloc" virou um fetiche, uma construção midiática. Notamos isso ao perceber o quanto os órgãos de imprensa estão falando e escrevendo sobre o "black bloc".

Enquanto isso, pouco se fala a respeito das taxa de homicídios nas periferias ou o número de mortes no trânsito. Tais violências se naturalizaram no cotidiano brasileiro. O "black bloc" desmascarou esta lógica dual de tratar a violência.

Talvez o fenômeno mais preocupante até agora seja a polarização entre a Polícia Militar e os defensores da tática.

O Estado, guardião da propriedade pública e privada, guardião da ordem, emprega uma ação policial cada vez mais dura e um aparato legal cada vez mais criminalizador.

A consequência pode ser o aumento da presença da tática "black bloc" nas ruas, num efeito de reação. Como eles nos dizem: "Quanto mais repressão, mais revolta".

Uma parte dos jovens com quem conversamos já foi detida durante as manifestações. Cabe agora saber se eles continuarão saindo às ruas mesmo com a ameaça de voltar para a delegacia, desta vez como reincidentes. E mesmo com a ameaça da lei de associação criminosa.

A pergunta essencial que cabe, como sociedade, é por que estes jovens, que desprezam a rigidez hierárquica partidária, que não se sentem representados pelo atual modelo político e econômico, enxergam a violência como única possibilidade de expressão?

*ESTHER SOLANO é professora de relações internacionais da Unifesp. RAFAEL ALCADIPANI é professor de estudos organizacionais da FGV-EASP

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 444. A Imprensa e o Black Bloc.

sábado, 26 de outubro de 2013

A PALAVRA, Nº 442. 30º Domingo do Tempo Comum. Ano- C.

O Papa Francisco estaria trazendo o relativismo à Igreja?


Apesar de muitas más interpretações, as pessoas que realmente se dedicam à missão entendem muito bem o Papa Francisco

 As últimas declarações do Papa Francisco foram qualificadas de "modernistas" e recebidas com "desorientação" por alguns setores conservadores, mas esta é uma questão de estilo que não tem por que gerar dúvidas sobre a infalibilidade do Papa.

Algumas pessoas ou grupos católicos manifestaram sua desorientação sobre alguns enfoques que o Papa apresenta sobre aspectos do magistério da Igreja. Há quem pense que o Papa vai "minar" a situação da Igreja, "em uma época em que ela já se encontra marginalizada pela cultura, cada vez mais laica". Outros acham que o Papa é uma pessoa notável, mas talvez imprudente.

O superior da Fraternidade de São Pio X, Dom Bernard Fellay, comentou que Francisco "é um verdadeiro modernista"; disse que "a situação da Igreja é um verdadeiro desastre, e o Papa atual está piorando dez mil vezes esta situação".

"Se o atual Papa continuar como começou – afirmou Fellay –, ele dividirá a Igreja. Está explodindo tudo." O líder lefebvrista também disse que "Deus é muito maior que nós e muito maior que o trabalho destes ministros imperfeitos", e acrescentou que é preciso segui-los "quando dizem a verdade", não quando "oferecem lixo".

Vale a pena refletir sobre este fenômeno provocado pelo estilo direto e próximo que o Papa Francisco está expressando em seu pontificado.

Cada papa tem o seu estilo, e o de Francisco está demonstrando que toca as pessoas e as interpela. É evidente que os papas são diferentes, assim como as formas de viver a fé. A Igreja teve recentemente um Papa evangelizador, João Paulo II; outro teólogo, que foi Bento XVI; e agora tem um Papa missionário, com um forte conteúdo profético. E os profetas costumam ser incômodos.

Em uma coluna de opinião do "El País", Anastasio Gil, diretor das Pontifícias Obras Missionárias (POM) na Espanha, observou um fato revelador: "A chave do Papa Francisco radica no método missionário do primeiro anúncio. Daí que, como podemos testemunhar na sede das POM, o entusiasmo com o qual os missionários estão vivendo este momento da Igreja não tem a ver com o Papa, mas com eles mesmos".

Segundo o representante das POM, o Papa Francisco "está conferindo ao papado a forma missionária de entender e de praticar o Evangelho na história".

Ele explica: "O conceito de missão do Bispo de Roma procede da sua experiência em situações de extremos antropológicos, da sua compreensão da relação entre o Evangelho e os pobres, da sua proposta radical de um cristianismo que olha para cada homem e para cada mulher sem preconceitos, ao mesmo tempo em que fica em silêncio para ouvir as batidas do seu coração".

"É um silêncio que não pergunta, só escuta e acompanha, já que a distância entre cada coração e o Evangelho, entre cada coração e a possibilidade de encontro com Jesus de Nazaré já não é medida com conceitos e com palavras, mas com a experiência", completa.

Anastasio Gil comenta que "nós, que fazemos missões, entendemos bem o Papa", já que o espírito missionário não coloca a norma acima de tudo: atende-se as pessoas, sejam elas quem forem, sem julgá-las, sem questioná-las. Só depois desse processo é que se extrai um resultado.

Os "progressistas" sempre discordaram dos papas que não lhes agradavam, por considerá-los conservadores demais. Esta atitude significou, em geral, romper a comunhão com o Papa e com a Igreja.

Agora este fenômeno ocorre no outro extremo: as pessoas ou grupos que se declaram partidários da ortodoxia católica podem cair em uma contradição muito grande se romperem sua comunhão com o Papa.

O cristão não escolhe o Papa porque gosta mais ou menos do seu estilo; sua figura vai muito além disso, apesar dos erros que, como ser humano, ele possa cometer. A infalibilidade é dogma.

Este fenômeno – mínimo, por enquanto – não deixa de revelar a evidência de que a cultura da desvinculação e a mentalidade relativista, que situam a subjetividade acima de tudo, são contaminações que afetam tudo e todos, também a Igreja e os cristãos. A principal proteção contra este risco é ter uma consciência suficientemente sólida para não se afastar dos fundamentos.

Cabe recordar o precedente do Papa Leão XIII, tradicionalmente incompreendido pelos seus contemporâneos. Na Espanha, por exemplo, chegaram a rezar Missas pelas sua conversão. Mas ele finalmente entrou para a história como um grande e visionário Sucessor de Pedro, que deixou uma grande herança para o cristianismo.

As reservas com relação a Leão XIII tiveram a ver com sua encíclica "Rerum novarum", primeira encíclica social da Igreja Católica, que não foi compreendida naquela época. Foi promulgada em 15 de maio de 1891 e versava sobre as condições da classe trabalhadora.

Nela, o Papa deixava claro o seu apoio ao direito trabalhista de formar uniões ou sindicatos, mas também reafirmava seu apoio ao direito à propriedade privada. Além disso, discutia sobre as relações entre o governo, as empresas, os trabalhadores e a Igreja, propondo uma organização socioeconômica que mais tarde seria chamada de corporativismo.

Foi toda uma mudança de perspectiva, em pleno desenvolvimento da Revolução Industrial. Uma mudança que fez de Leão XVIII um papa incompreendido. Cabe esperar que Francisco possa ser profeta (e Papa) em sua terra.
Fonte: http://www.aleteia.org

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

30º Domingo do Tempo Comum: A espiritualidade do último lugar

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz. Bispo Diocesano de Campos (RJ)

 
Dize-me como rezas e te direi quem eres. Neste Domingo somos convidados a luz da oração autêntica do publicano examinar a forma e a prática de nossa oração. Não raro nos colocamos diante de Deus como se fosse um Prefeito para atender nossas reivindicações ou pior reconhecer nossas virtudes e planilha de serviços.
Outras vezes recorremos ao subterfúgio de mostrar-nos mais cumpridores que os outros e por tanto como o fariseu da parábola, merecedores dos favores e dos milagres de Deus. A oração é antes que nada relacionamento gratuito e espontâneo com o Pai dos Céus, brota de um coração grato e reconhecedor das faltas, erros, imperfeições que temos e também na confiança plena na misericórdia divina. Devemos apresentar-nos como pecadores, réus confessos, filhos pródigos necessitados do perdão e da compaixão do nosso Deus.

Quando o cônego Havelin na Igreja de Mont Martre em Paris, discorria como Jesus para salvar-nos tinha assumido por inteiro a figura do servo que opta pelo último lugar para resgatar-nos, um jovem arrogante e por certo insuportável chamado Charles de Foucauld, sentiu que seu coração tinha um estremecimento e o sufocava. Mais tarde converteu-se devido ao impacto desta pregação que tinha desnudado a sua alma.

O irmão Charles de Foucauld se tornou eremita, foi viver no deserto entre os tuaregs sendo considerado justo e benigno pelos muçulmanos, morrendo assassinado. Mahatma Ghandi o profeta da não violência e da firmeza da verdade afirmava: "Devo reduzir-me a zero. Enquanto um homem não se considera espontaneamente o último, não há para ele salvação". Ou ainda São Francisco de Sales: "Só se sobe quando se desce".

Num tempo que a visibilidade e o marketing vendem tudo, é importante não perder a alma, recordando sempre que a humildade é o chão de todas as virtudes e o caminho mais seguro para o Reino. Que Nossa Senhora do Rosário mestra da oração simples, humilde e autêntica, nos ensine a não caírmos nas armadilhas da auto suficiência na oração mas entregar confiantes nosso coração ao Pai Clemente e Misericordioso. Deus seja louvado!

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O homem que colocou o Papa na rede

O espanhol Gustavo Entrala, 43, não se considera um bom católico, mas isso não impediu que sua agência 101 fosse contratada pelo Vaticano. Sua equipe é responsável pela entrada do primeiro papa, Bento XVI, nas redes sociais. Hoje, o Twitter do papa Francisco (@pontifex) contabiliza cerca de dez milhões de seguidores. Entrala, que visitou o Brasil para encontros e palestras, falou à coluna sobre o seu trabalho. A entrevista é da coluna de Mônica Bergamo e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 21-10-2013.
Eis a entrevista.
Como você entrou em contato com o Vaticano?
Vi uma carta publicada por Bento XVI, em que ele dizia que algumas crises da igreja poderiam ter sido evitadas se eles aumentassem a comunicação pela internet. Escrevi oferecendo nossos serviços, mas não achei que alguém fosse ler. Quando Federico Lombardi (diretor de imprensa do Vaticano) me ligou, pensei que fosse brincadeira. Apresentamos um plano de comunicação e eles gostaram.
Você conheceu os dois últimos papas, Bento XVI e também o papa Francisco. Como eles lidam com a tecnologia?
Nesse ponto são iguais: muito pouco tecnológicos. Bento XVI nunca tinha visto um iPad na época em que criamos o aplicativo The Pope app. Coloquei fotos dele adolescente, com os irmãos e os pais. Ele ficou maravilhado. Francisco também não sabia muita coisa. Um bispo auxiliar de Buenos Aires fez até uma piada na época e disse que a última tecnologia que o papa havia usado era uma máquina Olivetti. Insistimos e deu certo.
O papa cria os tuítes da conta?
Francisco escreve mais ou menos 50% do conteúdo. O resto é da equipe, que posta frases ditas por ele. O papa entende muito bem o processo e a finalidade das redes sociais, que é alcançar as pessoas. Ele é naturalmente aberto, diferente do Bento, que, apesar de ser afetuoso no trato pessoal, ficava mais retraído ao se comunicar com multidões.
O atual papa é bem mais pop.
Na época de Bento XVI, o Twitter papal tinha cerca de três milhões de seguidores. Hoje, tem dez milhões. A palavra que mais acompanha tuítes sobre o atual papa em inglês e espanhol é "cool" e "mola", o equivalente a legal.
Qual é a estratégia usada?
Vejo a igreja católica como uma marca. Uma marca tem que emocionar. Nós nos apoiamos no carinho que as pessoas sentem pelo papa. Apesar de crises como a questão da pedofilia e a opinião sobre os homossexuais, ainda não existe ninguém tão querido quanto o papa. Nós trabalhamos com isso. As pessoas estão encantadas em poder falar com o Vaticano pelo Facebook.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 432. A Morte e a Riqueza.

BASÍLICA DO CARMO/SP: Ordem Terceira.

sábado, 19 de outubro de 2013

29º Domingo do Tempo Comum: A oração, a justiça e a missão

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz. Bispo de Campos (RJ)

 

Neste Domingo nos deparamos com o ensinamento que o Mestre Divino ministra no Evangelho de São Lucas. Na parábola do juiz iníquo são nos apresentadas no exemplo da viúva injustiçada as características da oração que chega ao Pai: perseverante, confiante, grito de justiça, humilde e voltada para o Reino. Neste ano da fé é importante salientar que a oração é a respiração da alma, nossa energia espiritual, fonte de inspirações, e comunhão com Deus.

Por isso Jesus levanta a pergunta: "e o Filho do Homem encontrará fé, quando Ele voltar?" A fé não é um pressuposto precisa ser irrigada diariamente com oração e entrega, oração que leve a conversão e mudanças de vida, pois se ela não transforma as grandes decisões e rumos do nosso projeto ela é mais um desabafo sentimental ou subjetivo que verdadeiro encontro com Deus. Por outra parte a oração autenticamente cristã nos conduz a pratica da justiça e a missão. A Bíblia que é um genuíno manual de espiritualidade e oração, não apresenta nenhum caso de pessoa que Deus tenha chamado e comunicado sua santa vontade que não tenha se tornado instrumento e mediador de uma missão em relação ao seu povo.

A oração muda o nosso olhar, amplia a nossa visão, nos faz enxergar a miséria, o sofrimento, a injustiça em rostos bem concretos e próximos, e nos faz agir com o coração, a mente e as mãos, iluminando nossos pés na caminhada. A experiência orante vai até as raízes mais profundas do ser alcançando e tocando a nossa interioridade, curando e libertando de feridas, mágoas, ressentimentos e machucados, que nos tiram a alegria e paixão de viver, roubando-nos a esperança, a paz e a serenidade que brota da certeza da fé na nossa filiação divina.

Finalmente, lembrando o tema deste mês missionário: juventude e missão, nossa oração deve ser tornar jovial, isto é, sincera, espontânea, filial, consciente e amorosa. O que agrada a Deus é a ternura, inocência e transparência dos pequeninos que dialogam com Ele a partir da vida, das fragilidades e das limitações próprias da nossa condição humana. Que sejamos missionários da oração, e orantes na missão como Maria Santíssima. Deus seja louvado!

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

COMUNIDADE CAPIM: Festa de São Cosme e São Damião.


Festa de N. Senhora Aparecida: Chegada dos zabumbeiros.

29º Domingo do Tempo Comum: A viúva que enfrenta o juiz: Impaciência e persistência como modelo de fé e oração (Lucas 18,1-8)

Odja Barros.
A parábola da viúva persistente de Lucas 18,1-8 é material exclusivo do Evangelho de Lucas. Não se encontra nos outros Evangelhos e tem por tema principal a persistência na oração aqui entendida e vinculada à ação. A mulher viúva é tomada como exemplo da oração que agrada a Deus. Sua ação incansável e obstinada em busca da justiça e do direito é o exemplo maior de fé e oração esperada por Deus. Essa parábola na maioria das vezes é superficialmente interpretada limitando a força da parábola apenas à persistência na oração. Ignora-se que, para além da persistência na oração, a parábola traz uma mensagem forte de luta incessante, persistente e impaciente pela justiça. Luta que uma pobre viúva enfrenta diante de um insensível juiz. Ela o enfrenta com uma atitude obstinada e até agressiva em busca de justiça.
O que nos conta a Parábola?
A parábola apresenta certa cidade onde havia um juiz que não temia a Deus e nem se importava com as pessoas. Na mesma cidade, havia também uma viúva que se dirigia continuamente a ele dizendo: "Faze-me justiça contra meu adversário!" (18,2-3).  O juiz está bem descrito: Ele é um juiz que não teme a Deus e nem se importa com as pessoas. E sobre a viúva? O que é dito? Não é apresentada qualquer informação sobre ela, não se sabe sequer qual era a causa que aflige o direito dessa mulher. Sabe-se apenas que ela está sendo prejudicada nos seus direitos por causa de alguém denominado de "adversário" e que por isso procura o juiz a quem se dirige de forma contínua e persistente travando uma luta obstinada e incansável pela justiça.
 "Faça-me justiça contra meu adversário"
Essas são as únicas palavras da viúva na parábola. Nestas palavras está inscrita a história dessa viúva e a história de tantas outras mulheres e grupos oprimidos em busca e em espera pela justiça em sua época.
Desprovido de temor a Deus e interesse pelas pessoas, o juiz não parece se importar pela situação daquela mulher. A pobre viúva sem dinheiro ou poder tem a seu favor apenas o recurso da intimidação e da persistência. A ação da viúva é expressa como uma ação contínua e ameaçadora que atinge o juiz onde ele poderia ser atingido: na preocupação egoísta do seu próprio conforto.
Aborrecer e importunar até que me faça justiça
Essa foi a estratégia de luta dessa mulher. Ela vinha todos os dias diante do juiz e o importunava e o aborrecia. O termo grego que aparece em 18,5 é "hypopiadzein" significa uma bofetada em baixo dos olhos que deixa uma marca roxa característica que denuncia em público a agressão sofrida. O uso do termo na parábola não quer dizer que isso tenha acontecido, mas que o juiz temia que isso pudesse acontecer o que lhe causaria muito constrangimento público. Por isso, ele é coagido pela ação ativa e insistente e ameaçadora da viúva a agir em favor dela.  Naquela mulher obstinada, o insensível magistrado encontrou adversário à sua altura. Ele podia ter sido assaltado por persistência obstinada antes, mas nenhuma que se igualasse aos apelos infindáveis e insistentes desta mulher. Ele lhe fez justiça, não porque fosse justo ou mesmo compassivo, mas porque percebeu que não conheceria um momento de paz até que atendesse aquela mulher.
A vida das mulheres viúvas e o sistema injusto
As viúvas e os órfãos sempre eram no mundo antigo, do ponto de vista estrutural, as primeiras vítimas das injustiças e alvos de descaso e de tentativas de fraude e exploração. Desde o Antigo Testamento Deus aparece intervindo em defesa dos grupos que sofrem essa injustiça estrutural. A viúva da parábola de Lucas 18,1-8 chama a nossa atenção pela sua persistência na luta pelos seus direitos. Ela se fundamenta no direito divino. A atitude dessa mulher é do começo ao fim destacada como referência de quem se deve aprender. Diante da violência do sistema injusto é preciso resistir com firmeza e intrepidez.
Segundo Ivoni Richter, a situação de vida e o atuar desta viúva não é um caso isolado na antiguidade. Com seu exemplo, a parábola condensa a experiência de muitas viúvas, as quais, conforme a tradição veterotestamentária, tantas vezes está exposta à injustiça, à não realização dos seus direitos. A parábola de Jesus assume positivamente a experiência desta viúva que luta por seus direitos. E os conquista. Com isto, a parábola quer estimular e animar as pessoas crentes à oração ativa e continua em meio ao sofrimento da vida. Portanto, a parábola reflete a situação de vida das viúvas que muitas vezes tiveram que levantar-se e impor-se para garantir seus direitos.
A esperança escatológica e a justiça de Deus
Os versos 6 a 8 inserem a parábola no contexto da esperança escatológica e aligam com o tema da vinda do filho do homem de Lucas 17,20-37. Neste sentido, justiça, juízo, graça e perseverança são temas que se unem na parábola. O estabelecer da justiça de Deus está vinculado à vinda do filho do homem que virá para fazer justiça aos pobres e oprimidos que se confrontam com situações cotidianas de direitos negados. Mas, a justiça de Deus é motivada pelo seu amor e sua misericórdia e não pela preocupação consigo mesmo como no caso do juiz injusto da parábola. É nesse contexto que Lucas insere a parábola da viúva persistente, advertindo para não desanimarmos na luta ativa para fazer presente a justiça de Deus.  
A impaciência e persistência da mulher como modelo de fé e oração
A parábola encerra com a pergunta problematizante: "Quando o filho do homem vier, encontrará fé na terra"? O exemplo da viúva persistente fica claramente apresentado como modelo a ser seguido pela comunidade de discípulos e discípulas. A advertência de Jesus é quanto à espera ativa e persistente pelo reinado de Deus. A fé aqui referida é sinônimo da postura e ação da viúva em que, na situação de injustiça na qual parecia haver total ausência de Deus, ela se implica de maneira insistente e incansável.  Portanto, manter a fé significa não desanimar, não desistir e perseverar em busca incessante da realização da ação salvadora e libertadora de Deus, comprometendo-se com seu projeto de justiça, principalmente para os grupos mais excluídos e oprimidos para quem Ele,  justo juiz,  dirige sua misericórdia.
O exemplo trazido nessa parábola nos convida a viver uma fé não fatalista e não conformista, mas uma fé e oração ativa, combativa e persistente comprometida e implicada com a luta pelos direitos das pessoas mais excluídas. A pergunta continua pertinente: Será que quando o filho do homem vier, encontrará fé como a dessa mulher? Que a herança e exemplo dessa parábola nos ajudem a manter uma fé ativa e operante em meio ao mundo de estruturas injustas.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Padre é roubado por mulher que se confessou com ele no interior de SP

Um padre do principal templo católico de Ribeirão Preto (313 km de São Paulo), a catedral de São Sebastião, afirma que teve seu celular furtado por uma mulher que se confessou com ele na última terça-feira (1º), por volta das 17h30.
Carlos Eduardo Tibério, 39, há um ano no sacerdócio, diz que não vai prestar queixa policial contra a suposta ladra. "Eu já havia perdoado seus pecados desde o momento da confissão", disse.
O pároco comprou o aparelho, um iPhone 5, a prazo. Ele já pagou três das 12 parcelas. Tibério diz que não pretende comprar outro celular até saldar a dívida.
O telefone estava sobre o aparador do confessionário quando sumiu. "Eu saí da sala de confissão por um instante e, quando voltei, notei que não estava mais lá."
Segundo ele, a suspeita do furto aparenta ter 40 anos, demonstra ser uma pessoa tranquila e "fala bem".
De acordo com o padre, a mulher pode estar sofrendo por razões financeiras ou espirituais. "Ninguém furta o que não precisa. Não podemos julgá-la porque não sabemos o que ela está passando", declara.
O padre espera que a suspeita se arrependa e devolva o aparelho, que ele comprou com o "suor do trabalho". Para ele, o perdão concedido à suspeita é uma prova de amor ao próximo. "Amar quem faz o bem é fácil. Difícil é amar quem nos faz o mal."
Câmeras
Padre Tibério diz que a catedral de São Sebastião estuda instalar câmeras para coibir os constantes furtos e atos de vandalismo registrados no local. Localizada na região central, o entorno da igreja é frequentado por andarilhos e viciados em drogas. "Já chegaram a defecar sobre o altar", afirma.
O fato de o templo ser tombado, por reunir acervo do pintor Benedito Calixto (1853-1927), é outra razão para o futuro monitoramento por câmeras.
A poucos metros da igreja, existe uma base da Polícia Militar, que opera o sistema Olhos de Águia, um conjunto de câmeras que vigia a região central. Mas o trabalho abrange somente a área externa da catedral.

domingo, 6 de outubro de 2013

27º DOMINGO DO T. COMUM. ANO-C: Bênção das Rosas de Sta. Teresinha.

27º- DOMINGO DO T. C. ANO-C: A Fé de Santa Teresinha.

FREI PETRÔNIO E DOM CONSTANTINO LUERS.

27º DOMINGO DO TEMPO COMUM. ANO-C: Entrega das Rosas

27º- DOMINGO DO T. C. ANO-C: A Fé de São Francisco de Assis.

27º- DOMINGO DO T. C. ANO-C: A Fé de São Francisco de Assis.

Festa de Nossa Senhora Aparecida: Convite.

Mulher homofóbica é deserdada pelo próprio pai em carta emocionante

Após descobrir que a filha havia deserdado o próprio neto, pai de família reagiu de forma impressionante.

 “Querida Christine,

estou decepcionado com você como filha. Você tem razão quando diz que temos uma ‘vergonha na família’, só está errada sobre quem é. Expulsar o Chad de casa apenas porque ele lhe contou que era gay é a verdadeira ‘abominação’ aqui. O que vai ‘contra a naturez’ aqui é uma mãe que deserda seu filho. A única coisa inteligente que eu ouvi você dizer é que ‘não criou seu filho para ser gay’. É claro que você não o criou para isso. Ele já nasceu assim, e não escolheu isso mais do que escolheu ser canhoto. No entanto, você fez a escolha de ser ofensiva, mente pequena e retrógrada. Então, já que estamos falando sobre deserdar filhos, aproveito este momento para dizer adeus à você. Tenho um neto fabuloso (como os gays dizem) para criar agora, e não tenho tempo para uma filha sem coração. Se você encontrar esse coração, ligue para nós. – Papai.”

Essa carta foi divulgada na última segunda-feira, dia 30 de setembro, na página da organização de jovens pró-gay FCKH8 no Facebook, tendo recebido mais de 5 mil compartilhamentos, 11 mil “curtir” e 600 comentários. O porta-voz da FCKH8, Luke Montgomery, conversou com o avô e neto para confirmar a veracidade da carta. "Recebemos e-mails de fãs das nossas camisetas de todas as partes do mundo, e eles querem compartilhar a carta no Facebook e espalhar essa mensagem em nome da nossa causa”, contou Montgomery ao Yahoo. "O adolescente que nos enviou essa carta possui uma de nossas camisetas com a frase: “Alguns caras se casam com outros caras”. Enviaremos ao avô a camiseta: “Heterossexual contra a homofobia”. Simplesmente por ele ter sido um exemplo tão incrível e inspirar muitas pessoas, mesmo que por acidente."

Muitos pais entendem seus filhos e expressam seu amor incondicional de diversas formas, desde escrevendo cartas sinceras até postando atualizações no Facebook, que rapidamente se tornam virais. Em setembro, quando Michelle Conway McClain, de Union, Missouri, descobriu que seu filho havia assumido sua homossexualidade no Facebook, postou uma resposta em seu próprio perfil: "Zach, fiquei surpresa com o post no qual você se assumiu. Gostaria que você soubesse que eu amo você incondicionalmente. Amo você não apenas com minhas palavras, mas com minhas atitudes também. Estou muito orgulhosa. Você é a pessoa mais corajosa que conheço. Vou lutar por você sempre. Sua orientação sexual não o define. Você ainda é o garotinho que conquistou meu coração para sempre. A única coisa que me preocupa é a quantidade de latas de chá e refrigerante vazias no seu quarto. Jogue-as fora antes que fique tudo cheio de formigas. Te amo para sempre, Mamãe."

Em março, um pai que escutou seu filho questionando como revelar sua sexualidade o surpreendeu com este bilhete: "Eu ouvi sua conversa com Mike sobre seus planos de se assumir para mim. A única coisa que preciso é que você ser organize para trazer suco de laranja e pão depois da aula. Nós somos pais assumidos, também. Eu sei que você é gay desde que tinha seis anos, e amo você desde que nasceu. PS: Sua mãe e eu achamos que você e Mike são um casal fofo." A carta também foi postada na página da FCKH8.

Em janeiro deste ano, uma garota de 15 anos chamada Laurel assumiu sua homossexualidade para seus pais ao fazer um bolo com uma mensagem que terminava com a seguinte frase: "A aceitação de vocês seria a cereja do bolo”. Depois, claro, a família comeu o bolo unida.