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sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Finados: a sabedoria de fazer-se presente diante da morte

“Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus...” (Mt 5,12)

O artigo é de Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o evangelho segundo Mateus 5,1-12, correspondente à quinta-feira, dia 2 de novembro, Comemoração dos fiéis defuntos.
No dia de Finados, fazemos memória e nos unimos a todas aquelas pessoas cujos rostos estão gravados em nossa mente e coração, pois foram presenças que nos sustentaram, nos confortaram, nos animaram e nos impulsionaram. E podemos expressar a confiança profunda de que a vida é conduzida secretamente a um Porto de Amor definitivo, e todo pranto, impotência e fragilidade serão abraçados e sanados n’Ele.
Há tanto que agradecer a estas pessoas que, como silencioso fermento, fizeram história com Deus no interior de nossa pobre humanidade. Foram presenças inspiradoras que melhoraram uma parte do mundo e nossa gratidão as acompanha. Ditosos eles e elas, e ditosos também nós porque, na comunhão com aqueles(as) que já vivem a páscoa definitiva, somos movidos a seguir seus passos pelo caminho da vida, para sermos dispensadores humildes de felicidade, compaixão, mansidão, famintos e sedentos de justiça, de paz.
Com a morte começa a vida para sempre, no coração do Deus amor. E se a morte é capaz de nos privar do dom da vida, o “amor tem poder para nos devolvê-la”, nos afirma o bispo Balduino de Cantebery.
Ao falar da morte sempre nos sentimos impotentes, pois ela nos ultrapassa. Sabemos de sua existência, mas muitas vezes nos dá medo. E o medo da morte impede viver adequadamente o presente. Mais grave ainda, o medo da morte pode chegar a nos travar profundamente e alimentar uma angústia a ponto de impedir-nos de viver a vida com sentido, qualidade e prazer.
Nossa sociedade tende a negar a morte, afastando-a dos nossos ambientes cotidianos, tornando-a invisível; procuramos negá-la, escondê-la, dissimulá-la; preferimos não falar dela e, mesmo quando falamos desta realidade última, a ela nos referimos com temor e tremor. O pânico e a negação são nosso pão de cada dia: a compulsão por manter-nos – ou ao menos parecer-nos – jovem, o culto à saúde e à vitalidade, a incapacidade de aceitar a fragilidade e a finitude de nossa natureza humana, deixam transparecer o medo de nos deparar com a morte.
A morte nos golpeia em dimensões muito sensíveis e frágeis de nossa experiência humana; ela desnuda e des-vela a precariedade de nossa existência. Com nada chegamos ao mundo e sem nada partiremos dele. E a realidade é que sem aceitação da morte continuamos presos à onipotência infantil que nos faz fantasiar de seres imortais.
E, no entanto, a morte está aí, na volta da esquina; por ser algo seguro e certo, a morte é realidade freqüente de distância, mistério e silêncio; ela nos faz cruzar o umbral do desconhecido, do qual é impossível dar um passo atrás; ficamos paralisados frente ao desconhecido e ao irreversível. A morte põe fim ao nosso estado de caminhantes neste mundo, tempo no qual fomos nos amadurecendo e crescendo.
A experiência cristã, por outro lado, nos revela o caminho de uma morte preparada ao longo da vida, porque a entende em relação com a vida e a vida em relação com a morte. Vida sem morte é irresponsável. Tira a seriedade da vida, que lhe é dada pela morte.
Na verdade, a morte nunca fala sobre si mesma. Ela sempre nos fala sobre aquilo que estamos fazendo com a própria vida: as perdas, os sonhos não realizados, os riscos que não enfrentamos por medo...
É de todos conhecido o refrão: “A morte menos temida dá mais vida”.
Superar o medo da morte é um processo longo, complexo, mas para o cristão constitui uma experiência religiosa muito profunda, que o desafia a aprofundar na consciência de si mesmo e em sua capacidade de confiar em Deus. Vencer o medo da morte é reconhecer que a vida sempre é um dom, não o resultado de nosso esforço; e que, por isso mesmo, o essencial não é encontrar um caminho para alcançar a imortalidade, mas aprender a “morrer em Cristo”.
Não é a morte aquela que deve dar sentido à nossa vida, mas ao contrário, só aprendendo a viver é que se aprende a morrer. Mesmo que nos restasse apenas um segundo de vida, faríamos muito mal em pensar na morte. Seria muito mais positivo viver plenamente esse segundo.
A fé cristã não é masoquista ou sádica quando nos ensina a bem morrer. Assim nos dá maior responsabilidade para com a própria vida. O teólogo Soren Kierkegaard afirma que “só a fé proporciona ao ser humano o valor e a audácia necessárias para olhar a morte de frente”. Sem medos, sabendo que o Deus da vida, acolhe com amor e ternura, àqueles(as) que são “aspirados(as)” para dentro de suas entranhas misericordiosas.
O diretor japonês Akira Kurosawa retrata, de maneira original, questão da morte, em seu filme Ikiru, uma obra-prima de 1952. Trata-se da história de Watanabe, um humilde burocrata japonês que descobre ter câncer de estômago e apenas mais alguns meses de vida. O câncer serve de experiência reveladora para este homem, que antes tinha vivido uma vida tão limitada e atrofiada que seus próprios funcionários o apelidaram de “a múmia”.
Depois de descobrir o diagnóstico, ele falta ao trabalho pela primeira vez em 30 anos, retira uma grande quantia de dinheiro de sua conta-corrente e tenta voltar à vida em vibrantes boates japonesas.
No meio desse ambiente devasso, ele encontra inesperadamente uma ex-funcionária que havia pedido demissão de seu escritório porque o emprego era tedioso demais: ela queria viver.
Fascinado por sua vitalidade e energia, ele a segue e implora para que ela o ensine como viver. Ela lhe disse apenas que odiava seu antigo trabalho porque se tratava de uma burocracia sem sentido.
No novo emprego, em que faz bonecas numa fábrica de brinquedos, ela se sente inspirada e motivada a viver a partir da idéia de poder levar felicidade a muitas crianças.
Quando o burocrata revela a ela seu câncer e a proximidade da morte, ela fica horrorizada e corre para longe, emitindo apenas uma única mensagem por sobre os ombros: “Faça alguma coisa”.
Watanabe retorna, transformado, ao seu trabalho, recusa-se a ser engessado pelo ritual burocrático, quebra todas as regras e dedica o restante da vida à construção de um parque infantil, que seria aproveitado por muitas crianças, durante muitos anos. Na última cena, Watanabe, próximo da morte, está sentado em um balanço no parque. Apesar da nevasca, ele está sereno e se aproxima da morte com uma tranquilidade impressionante.
De fato, aqueles que que vivem com mais intensidade são os que deixam a segurança da margem e se dedicam apaixonadamente à missão de comunicar vida aos outros.
Por isso, para os cristãos, a morte sempre se refere à Vida e à vida; à Vida com maiúscula, junto a Deus e para sempre (que chamamos Vida Eterna), e a vida de todos os dias, na qual somos chamados a ser testemunhas do amor de Deus a todos os homens e mulheres deste mundo; uma vida de serviço, de compromisso, de entrega generosa para construir um mundo melhor; uma vida com sentido, para que, quando cruzar o umbral da porta desta vida, de verdade encontremos plenamente o que tanto buscávamos: o amor, a paz e o rosto bondoso de um Deus que é Amor.
A vida se expande quando compartilhada e se atrofia quando permanece no isolamento e na comodidade. E a morte é o instante da expansão plena para aquele que soube dar um sentido inspirador à sua existência. Podemos afirmar, então, com muita propriedade, que todos morremos para o interior da Vida.

Para meditar na oração

A certeza de nossa fé em Cristo morto e ressuscitado nos ajuda a tirar do coração os medos, os impulsos auto-referentes na busca de segurança e imortalidade, para encontrar uma paz profunda que nos permita fazer de nossa vida uma oferenda gratuita em favor da vida de outros.

Como você se situa diante da morte: medo? serenidade? certeza de poder mergulhar numa Vida maior?... Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

sábado, 2 de novembro de 2013

*Lidar com a morte, manipulando nossos mecanismos de memória

Familiares de quem morreu costumam crer em algum tipo de transcendência, e que a pessoa continua existindo em algum lugar. Por isso, cultivam a individualidade de quem se foi, assinala Fábio Augusto Steyer

Por: Márcia Junges

De acordo com o historiador e jornalista Fábio Augusto Steyer, “as relações do homem com a morte (ou as atitudes humanas diante dela) presentes nos cemitérios das cidades gaúchas Santo Antônio da Patrulha e Caraá, podem ser observadas e analisadas a partir dos epitáfios, objetos colocados nos túmulos, arquitetura tumular, estatuária, disposição espacial dos cemitérios, entre muitas outras coisas”. Ele destaca que, em larga medida, existe uma postura de negar a morte “como fim último da existência, a partir da necessidade de crença em algum tipo de transcendência”. Acontece, também, “a afirmação da individualidade do morto. As pessoas querem acreditar que o morto continua existindo em algum lugar, depois da morte, e mantendo a mesma individualidade que tinha na terra”. As afirmações fazem parte da entrevista exclusiva concedida por Steyer à IHU On-Line, por e-mail.

Steyer é graduado em Jornalismo, Letras e História, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Pela mesma instituição, é especialista em Produção Cinematográfica e mestre em História. Em seu doutorado em Letras, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), defendeu a tese A estrada perdida de Telmo Vergara. De sua produção bibliográfica, citamos: Cinema, imprensa e sociedade em Porto Alegre - 1896-1930 (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001) e Ser disperso (Porto Alegre: WS Editor, 2003). Na obra Cemitérios do Rio Grande do Sul: arte, sociedade, ideologia (2. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008), organizada por Harry Rodrigues Bellomo, colaborou com o capítulo “Manifestações antropológicas da morte em alguns cemitérios do Rio Grande do Sul”.

IHU On-Line - Quais são as representações e manifestações antropológicas da morte que você detectou com sua pesquisa em cemitérios gaúchos?

Fábio Steyer - As manifestações são as mais variadas, e muitas diferenças e semelhanças podem ser encontradas nas diferentes regiões do estado. Para sua análise, se deve levar em conta principalmente as características culturais de cada região, que envolvem questões de imigração (alemã, italiana, polonesa etc.), religiosas, entre outras. De qualquer forma, as relações do homem com a morte (ou as atitudes humanas diante dela) presentes nos cemitérios podem ser observadas e analisadas a partir dos epitáfios, objetos colocados nos túmulos, arquitetura tumular, estatuária, disposição espacial dos cemitérios, entre muitas outras coisas.

HU On-Line – O que as inscrições tumulares revelam sobre as concepções de morte do homem contemporâneo?

Fábio Steyer - A postura predominante é de negação da morte como fim último da existência, a partir da necessidade de crença em algum tipo de transcendência (especialmente a religião cristã, com seus preceitos) e da afirmação da individualidade do morto. As pessoas querem acreditar que o morto continua existindo em algum lugar, depois da morte, e mantendo a mesma individualidade que tinha na terra. Como já disse Edgar Morin,  existe uma necessidade antropológica da parte do homem em acreditar que a morte não é o fim de tudo. Mesmo que não exista consenso sobre seu real significado. Dessa forma, vemos inscrições que supervalorizam a biografia do morto, destacando apenas suas qualidades, e nunca seus defeitos, além de aspectos marcantes de sua vida, como a profissão, por exemplo. Você nunca vai encontrar uma inscrição que diga que fulano traía a mulher, batia nos filhos. Mas sempre que foi bom marido, pai zeloso. Além disso, os epitáfios normalmente têm a função antropológica de “tranqüilizar” a família, dizendo que o morto está bem, em algum lugar da eternidade. É muito comum um tipo de epitáfio em primeira pessoa, como se o próprio morto estivesse falando com a família e a tranqüilizando. Também há epitáfios em que a família se dirige ao morto, como que estabelecendo algum tipo de “comunicação” com ele. Faz parte dessa nossa necessidade antropológica para lidar com a morte, manipulando nossos mecanismos de memória.

IHU On-Line – Como essas inscrições tumulares se relacionam com a preservação da memória do falecido?

 Fábio Steyer - Remeto à questão anterior. É a supervalorização da biografia do morto. Se é jogador de futebol, isso aparece no epitáfio. Se foi advogado, já vimos a placa do escritório de advocacia colocada no mausoléu. Se teve morte trágica, faz-se questão de colocar isso no epitáfio. E assim se preserva a memória do morto, aquilo em que ele se destacou durante a vida. E, como já destaquei, há aquela questão de manipular os mecanismos de memória, colocando no epitáfio (e não apenas ele exerce essa função, mas o túmulo como um todo, com os objetos colocados) apenas aquilo que se quer lembrar na hora do culto ao morto, geralmente apenas as coisas boas.

IHU On-Line – Quais são as diferenças entre os túmulos de crianças de Santo Antônio da Patrulha, no Rio Grande do Sul, e os de adultos?  Há peculiaridades entre as formas de marcar a memória do falecido se ele é adulto ou criança?

 Fábio Steyer - Faz tempo que visitei os cemitérios de Santo Antônio e hoje muita coisa deve estar diferente. Contudo, de um modo geral, sem dúvida há diferenças marcantes. Algo muito comum não só no estado, mas por todo o país, são as fotos de crianças mortas colocadas nos túmulos. É algo tétrico, mas normalmente são recém-nascidos que não haviam tirado nenhuma foto. Então se tira uma foto da criança no caixão, ou mesmo tenta se disfarçar a foto, como se ela estivesse ainda viva, mas analisando bem se vê que já está morta. Há também os túmulos das crianças “sem nome”, também recém-nascidos que são enterrados nos jazigos da família. Então, aparece lá: “um membro da família”. E também há o caso do “nome que não vingou”. No caso, a mulher tem problemas para engravidar, e perde vários bebês. Então, encontramos uma série de túmulos, um ao lado do outro, com o mesmo nome, todos de bebês recém-nascidos. A família dá a todos o mesmo nome, pois foi o nome que “não vingou”. Fora isso, tem aquela coisa que até hoje me impressiona bastante de colocar os brinquedos das crianças nos túmulos, ou até mesmo chocolates (na época de Páscoa, como encontramos certa vez em Gramado e Canela), tratando a criança como se ela estivesse viva.

IHU On-Line – Nesse sentido, como a morte é interpretada por determinadas culturas, como, por exemplo, a gaúcha?

Fábio Steyer - Seja numa concepção cristã mais tradicional ou mais frouxa, temos essa necessidade antropológica de negar a morte e crer em algum tipo de transcendência, mantendo a individualidade do morto. Isso é a base de tudo. O afrouxamento de que falo diz respeito a um certo desligamento dos valores cristãos mais tradicionais. Assim, quanto mais recentes os túmulos, mais comum é vermos menos epitáfios com textos bíblicos ou referências aos preceitos cristãos, e mais epitáfios que valorizam a individualidade do morto, a sua biografia, ou formas mais individuais de ligação com o lado religioso e espiritual. Além disso, os símbolos cristãos (estátuas de santos e anjos, símbolos como a palma, a pomba e tantos outros) têm seu significado original esvaziado, sendo para as famílias muito mais apenas adornos para os túmulos do que símbolos ligados ao cristianismo e sua visão de vida e morte.

HU On-Line - Alguns estudiosos afirmam que o homem contemporâneo posterga e nega a morte ao recorrer a expedientes que o mantém sempre jovem. Há uma fuga da morte em nossos tempos?

Fábio Steyer - Vou citar mais um exemplo que evidencia isso. É muito comum que pessoas que morrem bastante idosas coloquem no túmulo fotografias de quando eram bem mais jovens. Sem dúvida, isso é a negação da morte.

Cemitérios se adaptam à laicização da morte

As cinzas humanas estão lá, espalhadas ao pé das árvores. A poucos passos da entrada do cemitério intermunicipal de Joncherolles (Seine-Saint-Denis), na França, perto do crematório, que recebendo 1.200 corpos por ano, o "Jardim da Recordação" tem uma atmosfera de tranquilidade. A reportagem é de Frédérique Mounier, publicada no jornal La Croix, 29-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Desejado em todos os municípios de mais de 2.000 habitantes pela lei de 19 de dezembro de 2008, relativa à cremação, já como parte preponderante das exéquias, o "Jardim da Recordação" de Joncherolles conheceu uma evolução interessante. Mathieu Legrand, seu conservador, a explica: "Teoricamente, as cinzas devem ser derramadas no 'poço das cinzas'".

O poço, fechado por uma plataforma de pedras, é cercado por um memorial composto por placas nominativas que lembram a identidade dos falecidos. Mas eis que "as árvores se tornaram sepulturas. É um modo diferente de viver o luto", constata o conservador. Como explica Annie Paggetti, diretora do crematório, "a cremação não significa nem o desaparecimento do vínculo, nem do lugar". Ela não acredita na "privatização das cinzas", muitas vezes denunciada.

O cemitério de Joncherolles, com seus 25 hectares, com 14 mil lugares, pulmão verde prensado entre as oficinas de conserto ferroviário, armazéns e uma zona industrial, é uma vitrine as mudanças ignoradas por muitos da paisagem funerária francesa. Estando situado no departamento 93 (Seine-Saint Denis), a primeira religião dos "seus" defuntos é o Islã. E das 9.000 sepulturas não muçulmanos e não judias, 7.500 não apresentam nenhum sinal religioso.

O cálculo foi realizada por Patricia Duchesne, responsável pela capelania do cemitério, única na França. O seu escritório, sóbrio e sem símbolos religiosos, fica ao lado do de Annie Paggetti. A sua constatação: "Realizamos 300 cerimônias religiosas por ano. Ou seja, 25% do total. Para as pessoas que vêm aqui, as palavras 'paróquia', 'padre', 'sacramento' não têm nenhum sentido. Muitas vezes, estão abatidos, destruídos, feridos. Elas nos dizem: 'Ajudem-me apesar de tudo, salvem-me embora eu não creia'. Nesse sentido, estamos aqui como a Igreja fora da Igreja, como missionários às margens".

Evidentemente, ela acha muito importante o convite do Papa Francisco de ir às periferias. Para essa leiga encarregada por Dom Pascal Delannoy, bispo de Saint-Denis, "estamos no extremo limite da diminuição do cristianismo na França". Por isso, paradoxalmente, ela vê a sua capelania como "uma porta de entrada na Igreja".

Do outro lado da França, o arquiteto Marc Barani, prêmio nacional de arquitetura de 2013, se apaixonou pelos cemitérios: "Eu poderia construí-los por toda a vida!", diz ele hoje. Por quê? Porque, retornando de um ano no Nepal, ele renovou em 1992 o cemitério de Roquebrune-Cap Martin (Alpes-Maritimes), justamente onde está enterrado o seu grande "colega" Le Corbusier.

Impressionado pela continuidade oriental entre a morte e a vida, o arquiteto lamenta, no Ocidente, "a dificuldade de se estabelecer em um tempo longo", "a aceleração do tempo ligada à negação da morte, que se tornou inominável" e "o abandono da arte funerária".

Ele constata a "substituição do princípio da imortalidade da alma pelo nosso próprio princípio de imortalidade: com o cancelamento das concessões perpétuas, passamos da 'última morada' para o 'último hotel'". Ele nota que "a desagregação das famílias não favorece a unidade de tempo e de lugar". E vê na explosão da cremação "um modo de matar a morte mais rapidamente, simplesmente porque a decomposição dos corpos dá medo".

 

Ainda em 2002, o sociólogo Jean-Hugues Dechaux tinha entrevisto o "processo de intimização" do funeral: "A morte, desritualizada, diz respeito cada vez mais à subjetividade de cada um. Ela não encontra outro modo para se expressar socialmente do que a partir da experiência íntima. Daí deriva a regressão dos ritos antigos, que afiliam e celebram uma passagem, regulando socialmente uma expressão da dor".

O padre Jean-Marie Humeau, pároco de Taverny (Val-d'Oise), responsável diocesano da pastoral dos funerais, não compartilha essa severidade. Certamente, de acordo com a doutrina da Igreja, que, depois do Concílio Vaticano II, não condena mais a cremação, mas não a favorece, ele explica: "Destruir o corpo que foi o templo do Espírito com um ato voluntário não é a mesma coisa que pô-lo na terra, continuando assim a obra da criação". No entanto, constatando que em Essonne "os funerais civis já são 50%", ele continua: "Quando a Igreja propõe, a proposta é acolhida".

Ele vê nisso duas condições: "Tudo depende da iniciativa deixada aos leigos formados e responsáveis pela pastoral dos funerais", que hoje são cerca de uma centena em cada diocese. E, acima de tudo, da presença da Igreja nos crematórios, sabendo que alguns bispos e alguns responsáveis desses locais de incineração manifestam uma oposição real a tal presença.

Em Joncherolles, Mathieu Legrand, não está preocupado: "Os cemitérios não vão desaparecer. Eles vão se transformar, vão se adaptar à demanda de cremação, às cerimônias civis, tornando-se mais 'paisagísticos'". Uma constatação compartilhada pela sua "capelã", Patricia Duchesne, que já constata essa transformação.

Os profissionais do ato fúnebre, atentos à evolução desse que também é um mercado, além disso, não estão isentos de sentido espiritual. Prova disso é a qualidade formal das "salas de apresentação", das "salas de entrega da urna" ou das "salas conviviais" (abertas às famílias durante a cremação) oferecidas às famílias, aos parentes e amigos dos falecidos no cemitério de Joncherolles. A equipe dos gestores enfatiza a "acolhida vivida como cuidado", observa Annie Paggetti. Discursos, projeção de fotos e vídeos, e música já pontuam as cerimônias civis, que são as mais numerosas.

Daí deriva a insistência do padre Humeau: "Muitas vezes, essas lembranças se voltaram ao passado. Quando nos pedem uma celebração católica, nós propomos às famílias que façam essas lembranças no início do rito, porque ele tem o objetivo de abrir para o futuro".

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

POR QUE TER MEDO DA MORTE?

Frei Petrônio de Miranda, Frade Carmelita. E-mail: missaodomgabriel@bol.com.br
 
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Se sou justo e humano
Por que ter medo da morte?
Se vivo sem medo de ser feliz
Por que ter medo da morte?
Se sou alegre e fraterno
Por que ter medo da morte?
Se abro as portas para os pobres
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?
 
Se não firo ninguém com palavras ou atos
Por que ter medo da morte?
Se procuro sempre fazer o bem 
Por que ter medo da morte?
Se mostro a todos os valores cristãos
Por que ter medo da morte?
Se penso bem antes de tomar uma decisão
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?
 
Se luto para que todos sejam amados
Por que ter medo da morte?
Se sujo as mãos para a construção de um novo dia
Por que ter medo da morte?
Se amo o meu trabalho e agradeço por tudo que tenho
Por que ter medo da morte?
Se encontro paz e harmonia no meu lar
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?
   
Se gosto de caminhar e trilhar novos caminhos
Por que ter medo da morte?
Se uso a minha inteligência para gerar vida
Por que ter medo da morte?
Se conscientizo a todos dos seus direitos e deveres
Por que ter medo da morte?
Se gosto de silenciar e escutar grito da natureza
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?
 
Se encontro forças para sair das noites escuras da vida
Por que ter medo da morte?
Se acredito que após uma tempestade vem o brilho do sol 
Por que ter medo da morte?
Se sei contemplar o brilho das estrelas mesmo na escuridão
Por que ter medo da morte?
Se procuro construir portas quando todos me sufocam
Por que ter medo da morte?
Se gosto de remar mesmo contra a maré
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

QUE VENHA A IRMÃ MORTE.

Frei Petrônio de Miranda, Frade Carmelita
Jacobina-BA, 26 de outubro de 2007.

 

Quando eu tiver anunciado a esperança

Que venha a irmã morte me levar
Quando eu não tiver ódio no coração
Que venha a irmã morte me levar
Quando eu socorrer os aflitos e oprimidos
Que venha a irmã morte me levar.
Porque com o meu Deus, eternamente, eu quero ficar.



Quando eu tiver levantado o irmão caído
Que venha a irmã morte me levar
Quando eu tiver defendido os jovens drogados 
Que venha a irmã morte me levar
Quando eu tiver gritado contra a discriminação racial 
Que venha a irmã morte me levar
Porque com o meu Deus, eternamente, eu quero ficar.



Quando eu for motivo de unidade na comunidade
Que venha a irmã morte me levar
Quando eu não tiver medo de falar a verdade
Que venha a irmã morte me levar
Quando eu tiver contemplado o pôr do sol
Que venha a irmã morte me levar
Porque com o meu Deus, eternamente, eu quero ficar.


Quando eu tiver reconhecido a importância da minha família
Que venha a irmã morte me levar.
Quando eu souber amar 24 horas, os meus pais
Que venha a irmã morte me levar.
Quando eu valorizar as pequenas coisas do dia-a-dia
Que venha a irmã morte me levar.
Porque com o meu Deus, eternamente, eu quero ficar.


Quando eu não me deixar levar pela riqueza e pelo poder
Que venha a irmã morte me levar.
Quando eu defender a democracia e a participação popular
Que venha a irmã morte me levar
Quando eu não tiver medo de ser condenado como Cristo
Que venha a irmã morte me levar.
Porque com o meu Deus, eternamente, eu quero ficar.

POR QUE MEU DEUS? POR QUÊ?

Frei Petrônio de Miranda, Frade Carmelita
Jacobina-BA, 01 de novembro de 2007.


Por que ferimos o nosso próximo

Levantando falso testemunho
Se amanhã a irmã morte virá nos buscar?
Por que somos injustos e desumanos
Com aqueles que nos pedem uma ajuda
Se amanhã a irmã morte virá nos buscar?
Por que gostamos de promover o ódio e a violência,
Através de atos e palavras em nosso dia-a-dia
Se amanhã a irmã morte virá nos buscar
Por que meu Deus? Por quê?



Por que julgamos e condenamos aqueles que erram
Esquecendo que a nossa janela também é de vidro
Se amanhã a irmã morte virá nos buscar?
Por que não sabemos perdoar em família
Esquecendo que somos filhos do mesmo pai
Se amanhã a irmã morte virá nos buscar?
Por que não somos religiosos e tementes a Deus
Através da Missa Dominical ou da leitura da Bíblia
Se amanhã a irmã morte virá nos buscar?
Por que meu Deus? Por quê?


Por que gostamos de perseguir quem pensa diferente
Seja na política, na religião ou na vida social
Se amanhã a irmã morte virá nos buscar?
Por que não somos capazes de ouvir o grito do pobre
E ficamos acumulando bens que não serão levados no caixão
Se amanhã a irmã morte virá nos buscar?
Por que cruzamos os braços diante dos crucificados da vida
Esquecendo dAquele que morreu na cruz para nos salvar
Se amanhã a irmã morte virá nos buscar?
Por que meu Deus? Por quê?



Por que não lutamos pela natureza que morre em nossa cidade
Se foi o Criador que tudo fez para a nossa felicidade
Se amanhã a irmã morte virá nos buscar?
Por que silenciamos quando todos querem ouvir a nossa voz
Em defesa da família corroída pelo ódio e pela usura
Se amanhã a irmã morte virá nos buscar?
Por que não enfrentamos os problemas diários
E nos entregamos ao álcool, às drogas e à depressão
Se amanhã a irmã morte virá nos buscar?
Por que meu Deus? Por quê? 



Por que não gostamos de ter e ser amigo
Se muitas vezes precisamos de uma mão para nos levantar 
Se amanhã a irmã morte virá nos buscar?
Por que negamos um prato de comida a um pobre
Se não sabemos o que nos espera o dia de amanhã
Se amanhã a irmã morte virá nos buscar?
Por que gostamos de ficar parados no tempo e na história
Esquecendo as capacidades que Deus nos deu
Se amanhã a irmã morte virá nos buscar?  
Por que meu Deus? Por quê? 


Por que achamos normal a prática do aborto
Se a nossa mãe nos presenteou com o dom da vida 
Se amanhã a irmã morte virá nos buscar?
Por que achamos que tudo é normal
Esquecendo os 10 Mandamentos dados a Moisés
Se amanhã a irmã morte virá nos buscar? 
Por que não lutamos contra a corrupção e as injustiças
Se o Profeta João Batista deu a vida em defesa da vida
Se amanhã a irmã morte virá nos buscar?      

POR QUE TER MEDO DA MORTE?

Frei Petrônio de Miranda, Frade Carmelita
Jacobina-BA, 26 de outubro de 2007.

Se sou justo e humano
Por que ter medo da morte?
Se vivo sem medo de ser feliz
Por que ter medo da morte?
Se sou alegre e fraterno
Por que ter medo da morte?
Se abro as portas para os pobres
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?



Se não firo ninguém com palavras ou atos
Por que ter medo da morte?
Se procuro sempre fazer o bem 
Por que ter medo da morte?
Se mostro a todos os valores cristãos
Por que ter medo da morte?
Se penso bem antes de tomar uma decisão
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?



Se luto para que todos sejam amados
Por que ter medo da morte?
Se sujo as mãos para a construção de um novo dia
Por que ter medo da morte?
Se amo o meu trabalho e agradeço por tudo que tenho
Por que ter medo da morte?
Se encontro paz e harmonia no meu lar
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?
   



Se gosto de caminhar e trilhar novos caminhos
Por que ter medo da morte?
Se uso a minha inteligência para gerar vida
Por que ter medo da morte?
Se conscientizo a todos dos seus direitos e deveres
Por que ter medo da morte?
Se gosto de silenciar e escutar grito da natureza
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?




Se encontro forças para sair das noites escuras da vida
Por que ter medo da morte?
Se acredito que após uma tempestade vem o brilho do sol 
Por que ter medo da morte?
Se sei contemplar o brilho das estrelas mesmo na escuridão
Por que ter medo da morte?
Se procuro construir portas quando todos me sufocam
Por que ter medo da morte?
Se gosto de remar mesmo contra a maré
Por que ter medo da morte
Se com Cristo eu irei me encontrar?