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domingo, 29 de outubro de 2017

Para além do Halloween: bruxas, demônios, processos e condenações

Num período em que as crianças se vestem de bruxas para o Halloween, somos lembrados de que houve um momento em que as bruxas eram perseguidas e executadas pela sociedade. Para um olhar sobre este período horrível da história europeia, entrevistei o Pe. David Collins, professor jesuíta de história da Universidade de Georgetown. A entrevista é de Thomas Reese, jesuíta, jornalista, publicada por Religion News Service, 25-10-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis a entrevista.

Por que se interessou em bruxas?
Acabei me interessando em bruxas porque tinha interesse em magia de um modo geral. Os historiadores estudam magia medieval por causa da luz que ela lança sobre a maneira como as pessoas da Idade Média achavam que o mundo natural funcionava e como poderiam usar, subordinar e tirar vantagem das forças naturais no mundo criado.
Escrevi minha tese sobre os santos. Os milagres formam uma grande parte desta história, e os teólogos medievais, juntamente de figuras eclesiásticas, muito se interessavam em desvendar a diferença entre milagres e magia. Em alguns casos, era até mesmo difícil distinguir entre pessoas a que haviam ocorrido milagres e aquelas que haviam praticado magia. Se os milagres eram provas de santidade e a magia era o produto da mágica, como ter, na prática, um modo confiável para distinguir santos de feiticeiros?
Após muita pesquisa sobre os santos, desejei misturar as coisas e me voltei aos feiticeiros e às bruxas, sobre os quais trabalho atualmente.

O que é uma bruxa?
Não há uma definição clara. Depende muito da cultura e do período histórico analisado. Na Idade Média, raramente era algo que a pessoa atribuía a si mesma; em geral, era uma característica que outras pessoas acusavam alguém de ter.
O que as pessoas têm em mente, hoje, é uma mulher velha a pilotar uma vassoura, usando um chapéu pontudo e que pratica o mau. É também alguém que foi assombrado e perseguido com um fervor irracional no passado.
caça às bruxas histórica que as pessoas pensam em geral não é medieval; ela é um pouco mais recente. Quando pensamos nas bruxas que foram queimadas ou condenadas, estamos falando de algo que surge no século XV e que dura até o fim do século XVIII.
Nesse período, definia-se bruxa como alguém que fez um pacto com o diabo. O pacto era normalmente selado com o intercurso sexual, e as bruxas formavam uma comunidade de malfeitoras, reunindo-se regularmente nos assim-chamados “sabbats”. Os pactos eram o que tornava a maldade delas tão poderosa.
Sempre houve a noção da mulher que faz coisas más ou pessoas que usam da magia para prejudicar outros indivíduos. O negócio de um pacto com o diabo é singular, característico da história ocidental, em oposição ao resto do mundo. E o pacto estava no centro das preocupações sociais que motivaram as perseguições do início do período moderno (1400-1800).
É algo que surge no fim da Idade Média e começa a ser perseguido com vigor no meio do século XV. As primeiras grandes condenações são do começo do século XV e os últimos datam da década de 1770, aproximadamente.

Isto é como os opositores descreviam as bruxas. As bruxas, elas pensavam que estavam fazendo um pacto com o diabo?
Há duas escolas de pensamento nesta questão. Uma sustenta que a crença em bruxaria foi inventada por grupos que a acusavam, tendo em vista a consecução de seus próprios objetivos. A outra escola de pensamento sustenta que as pessoas acusadas acreditavam, genuinamente, em bruxaria.
Está claro que os processos por bruxaria nasceram de jogos de poder de forças religiosas e seculares que queriam ganhar um maior controle sobre as comunidades religiosas e civis. Mas, hoje, temos também inúmeros exemplos de pessoas que se confessavam perante as acusações, conforme definido. Nem todos estes casos podem ser explicados por tortura, muito embora a possibilidade de tortura sempre esteve presente.

De onde vem a ideia de um pacto com o diabo?
Na verdade, a ideia começa por volta de 1200, entre os literatos, pessoas instruídas, no momento em que cogitaram aprender sobre magia e feitiçaria. Pensemos no Fausto: um pacto com o diabo para obter um conhecimento oculto e para manipular o mundo natural como a alquimia.
Temos manuais de necromancia, que claramente foram produzidos pessoas letradas ligadas à Igreja, em fins do século XIV, início do século XV. Eles invocam os espíritos dos mortos para conseguir a ajuda deles na feitura das coisas. Os manuais de necromancia, na estrutura dos rituais e das cerimônias, são imagens espelhadas de exorcismos. “Se podemos expulsar demônios, talvez possamos invocá-los”.

Além de um desejo de dominar um conhecimento oculto, havia um elemento financeiro impulsionando esta “pesquisa”. Estas pessoas faziam por dinheiro. Quem não iria querer ver os seus tesouros aumentados com o recém-criado lingote de outro do alquimista? E todos os tipos de pessoas poderosas se interessavam em horóscopos – príncipes, papas, todos eles. De que outra forma elas saberiam os dias propícios para assinar contratos, fazer tratados, casar as filhas, etc.?
Por volta de 1400, a preocupação com a ajuda do diabo para chegar a fontes mais profundas de conhecimento místico, conhecimento esotérico, se funde com a magia popular praticada nas aldeias, vilarejos.
Parte da tragédia social é que é mínimo o número de processos e execuções contra essas figuras da elite. Existe um certo tipo de pessoa que acaba comprimida entre uma fixação bizarra com o poder do diabo no mundo vindo de cima, e a amargura e o preconceito que vêm debaixo. No final das contas, as bruxas acabam comprimidas entre os dois.

A magia em si era vista como má?
Historicamente, surgiu a ideia de forças ocultas que podem ser usadas para fins bons. O teólogo escolástico dos séculos XV e XVI diria: “Se você estiver manipulando os poderes do mundo natural de um modo que é natural e para fins bons, então, de fato, não é magia”. Estas forças ocultas nos objetos materiais estão aí para se tirarem a vantagem mais completa delas.
A poção do amor constitui um caso de estudo interessante nas escolas. “Podemos usar a poção do amor contra o parceiro que não está apaixonado por nós?” Há dois problemas para os alunos debaterem. Um tem a ver com a licitude da produção da substância e se esta é natural. A outra tem a ver com o livre arbítrio. “O uso da poção do amor está privando o outro de sua liberdade, apesar da infelicidade que é o parceiro não estar mais apaixonado?”
Mas há outros que diriam que a poção do amor é uma coisa boa porque o casamento pode, às vezes, ser difícil. As brasas esfriam-se, e seria bom elas se reacenderem.

Que tipo de prova era usada num processo por bruxaria?
Temos aí algo bastante arbitrário. Lembremos da cena do filme “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado” com o pato. Não gosto de usar arte popular contemporânea para explicar coisas em história, mas acho que essa cena capta o problema.
Acreditava-se que havia pessoas que eram bruxas e que fizeram pactos com o diabo, e criam que elas causavam um mal verdadeiro. Se um conselho municipal ou os consultores do arcebispo recebessem um conjunto coerente de problemas lançados em seu colo e ele começasse a associá-los, poderia pensar: “Bem, podem ser bruxas”.
Em seguida, diria: “Por que não ter um processo?” Então se começa a caminhar numa dada direção, está-se à procura de certa coisa, e esta é encontrada.
O primeiro livro realmente importante contra os processos por bruxaria é “Cautio Criminalis”, de Friedrich Spee, publicado em 1631. Spee é um jesuíta e confessor de bruxas que haviam sido condenadas. Ele escreveu um tratado que defendia parar a realização destes processos com base em que não havia um padrão adequado de provas. Ele não questionava a existência ou não uma tal coisa chamada bruxas.
O guia mais famoso para estes processos, muito embora não o mais comumente usado na época, é “Malleus Maleficarum” (O martelo das bruxas), de Heinrich Kramer, que escreveu a obra na década de 1480 depois de não conseguir obter as condenações de um conjunto particular de processos em Innsbruck. Cerca de um terço é um longo discurso misógino, ideias tiradas da Antiguidade e trazidas para o momento contemporâneo; um outro terço fala sobre como encontrar uma bruxa; e o outro terço fala a respeito dos procedimentos, como realizar um julgamento.

Quantas bruxas foram executadas?
De 1450 até 1750 foram provavelmente 100 mil julgamentos, no máximo. Na década de 1970, o número estimado estava em torno de 9 milhões, mas hoje ficamos entre 100 mil e 70 mil julgamentos. Grande parte deles foram processos civis, e não eclesiásticos. Houve de 30 mil a 50 mil execuções nesse período de 300 anos. Pesquisas recentes sustentam números menores ainda.
É importante também perceber que não houve um número constante, coerente de processos entre os anos de 1450 e 1750. Os casos irrompem em lugares particulares e em épocas particulares. Os julgamentos continuam por alguns anos e então desaparecem. Ou duram por um ano e então, de repente, 50 anos mais tarde desaparece de novo.
Há um alto índice de execuções, mas há um índice ainda mais alto de condenações. Houve mais condenações do que execuções. Havia a possibilidade de penalidades alternativas à execução. Assim, se a pessoa renunciasse o pacto com o demônio, se as provas não fossem suficientes para uma condenação plena por bruxaria, havia penalidades menores.

O que fazia irromper estes processos?
Uma vez que a ideia da elite de magia e a ideia popular de bruxaria se juntaram, o ator principal para o surgimento dos processos em geral tende a ser a pessoa proeminente de uma pequena localidade. Muitas vezes, o que parece ter acontecido é que coisas ruins ocorriam e alguém precisava ser culpado.
Na ausência de alguma explicação, a magia maléfica servia para estes propósitos: pôr a culpa de qualquer coisa que precisa ser explicada em alguém que, por alguma outra razão, estava socialmente separada, era odiada ou, simplesmente, era alguém sem confiança dentro da comunidade.
Há problemas que, por muito tempo, perduraram. E, de repente, num momento apetece: “Ah, a solução para estes problemas duradouros é começar uma caça às bruxas”.

Que impacto a Reforma teve sobre os processos?
Quando começa a Reforma há um declive, há uma pausa. As pessoas estão distraídas. Mas, por volta das décadas de 1550 e 1560, o número de processos e execuções aumenta de novo, especialmente na Alemanha. Um total de 70% dos processos e execuções aconteceu na Alemanha. Algo entre 90 e 95% das pessoas executadas por bruxariafalavam um dialeto alemão.
Além disso, após a Reforma, são os tribunais seculares que processam as bruxas. E é aí quando as coisas se tornam realmente brutais. No período entre 1560 e 1660, que é quando as acusações mais brutais se encontram, são os tribunais seculares, com o incentivo das autoridades eclesiásticas, que os realizam.
Parece também haver uma pequena associação com uma preocupação religiosa de reformar a sociedade cristã. As figuras eclesiásticas que se preocupavam com os pactos com o diabo estão também falando sobre a reforma da Igreja. Elas estão olhando para a cristandade e dizendo: “Estamos trabalhando nisso há 1.500 e ainda não temos o Reino de Deus. Por que isso? É porque muitíssimas pessoas estão fazendo pactos com o diabo”.

Por que havia mais processos por bruxaria na Alemanha do que em outras partes da Europa?
Imaginemos a importância dos atores locais em conseguir com que alguém fosse julgado por bruxaria. Se tivermos um sistema jurídico altamente centralizado, ele força camadas múltiplas de revisões. Na França, por exemplo, temos um número pequeno de execuções, e eles malogram logo em seguida. Depois de um entusiasmo inicial, este número estanca. Por quê? Por causa do sistema jurídico.
Na França, um judiciário centralizado em Paris assume o papel-chave de supervisionar os processos. Um pequeno vilarejo perto de Toulouse poderia condenar 20 bruxas de uma vez só, mas estas condenações iam para Paris, e muitas delas que aí chegavam eram anuladas.
O que não temos no Sacro Império Romano? Não temos um governo central forte. Temos o imperador, mas temos estes principados, mais de 300 deles, cada qual sendo o responsável pelo seu próprio sistema de justiça. Exatamente estas camadas de supervisão é que faltam, e isso uma das razões pelas quais os processos duraram todo aquele tempo na Alemanha.
Qual o sistema jurídico mais centralizado da Europa nos séculos XV, XVI e XVII? A inquisição. Portanto, em lugares onde as inquisições organizadas – a romana e a espanhola – eram as mais fortes, quase não temos julgamentos por bruxaria. Na Espanha e na Irlanda, não temos quase nenhum. Na Itália, pouquíssimos. De novo, onde temos os sistemas jurídicos menos centralizados, vemos mais e mais casos [de processos].

Que lição os julgamentos por bruxaria nos deixam para os dias de hoje?
As tendências humanas que levam a elite e outras pessoas a conspirar para processar e perseguir nos primórdios da era moderna estão ainda entre nós, hoje. A nossa criatividade em fazer bodes expiatórios – em inventar ideologias para explicar coisas que a razão e a experiência real não dão conta; em expressar as nossas frustrações nos limites das nossas realizações com violência; em justificar esta violência com o apelo à raison d’etat [razão de Estado] e à pureza da crença – desconhece fronteiras.

Curiosamente, foi a burocracia que deu início a esta calamidade particular, e a burocracia que o encerrou. A atenção à irracionalidade humana e a prática de duvidar de si próprio, especialmente quando se trata das formas como nós restringimos, punimos e acusamos os outros, são, com certeza, desafios recorrentes desde a caça às bruxas. Mas, então, não temos muita coisa no século passado que dê a entender que iremos, em algum momento, aprender esta lição. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

segunda-feira, 20 de abril de 2015

'Os demônios do Demônio', por Eduardo Galeano

Muçulmanos, judeus, mulheres, homossexuais, índios, negros, estrangeiros e pobres: em ensaio de 2005, Eduardo Galeano discorre sobre as diferentes faces do Demônio, descritas pela antítese de cada um desses 'anjos do mal'. O artigo foi publicado por Le Monde Diplomatique e republicado por Le Monde Diplomatique Montevidéu, 13-04-2015.

O Demônio é mulçumano
A experiência prova que a ameaça do inferno é sempre mais eficaz que a promessa do Céu.

Benditos sejam os inimigos.
Dante já sabia que Maomé era terrorista. Por alguma razão o colocou em um dos círculos do inferno, condenado à pena de prisão perpétua. “O vi partido”, celebrou o poeta em A Divina Comédia , “desde a barba até a parte inferior do ventre...”. Mais de um Papa já tinham comprovado que as hordas muçulmanas, que atormentavam a Cristandade, não eram formadas por seres de carne e osso, eram um grande exército de demônios que aumentava quanto mais sofria com os golpes das lanças, das espadas e dos arcabuzes.
Hoje em dia, os mísseis fabricam muito mais inimigos que os inimigos das entranhas. Porém, que seria de Deus, afinal de contas, sem inimigos? O medo impera, as guerras existem para desbaratar o medo. A experiência prova que a ameaça do inferno é sempre mais eficaz que a promessa do Céu. Benditos sejam os inimigos. Na Idade Média, cada vez que o trono tremia, por bancarrota ou fúria popular, os reis cristãos denunciavam o perigo muçulmano, desatavam o pânico, lançavam uma nova Cruzada, o santo remédio. Agora, há pouco tempo, George W. Bush foi reeleito presidente do planeta graças o oportuno aparecimento de Bin Laden, o grande Satã do reino, que as vésperas das eleições anunciou, pela televisão, que ia comer todas as crianças.
Lá pelo ano de 1564, o especialista em demonologia Johann Wier teria contado os demônios que estavam trabalhando na terra, a tempo integral, a favor da perdição das almas cristãs. Eram sete milhões quatrocentos e nove mil cento e vinte sete, que agiam divididos em setenta e nove legiões.
Muita água fervente passou, depois daquele censo, debaixo das pontes do inferno. Quantos são, hoje em dia, os enviados do reino das trevas? As artes do teatro dificultam as contas. Estes falsos continuam usando turbantes, para ocultar seus cornos, e longas túnicas tampam os rabos do dragão, suas asas de morcego e a bomba que carregam debaixo do braço.

O Demônio é judeu
A colossal carnificina organizada por Hitler culminou uma longa história de perseguição e humilhação.
Hitler não inventou nada. Há mil anos, os judeus são os imperdoáveis assassinos de Jesus e os culpados de todas as culpas. Como? Jesus era judeu? E judeus eram também os doze apóstolos e os quatro evangelistas? O que você disse? Não pode ser. As verdades reveladas estão além das dúvidas e não exigem mais evidências do que a própria existência. As coisas são como se diz que são, e se diz porque se sabe: nas sinagogas o Demônio dá aulas, e os judeus desde há muito se dedicam a profanar hóstias e a envenenar águas bentas. Por causa deles aconteceram bancarrotas econômicas, crises financeiras e derrotas dos militares; são eles que trouxeram a febre amarela e a peste negra e todas as outras pestes.
A Inglaterra os expulsou, nenhum escapou, no ano de 1290, porém isso não impediu Chaucer, Marlowe e Shakespeare, que nunca tinham visto um judeu, fossem obedientes à caricatura tradicional e reproduzissem personagens judeus segundo o modelo satânico de parasita sanguessuga e o avaro usurário. Acusados de servir ao Maligno, estes malditos andaram durante séculos de expulsão em expulsão e de matança em matança. Depois da Inglaterra foram sucessivamente expulsos da França, Áustria, Espanha, Portugal e de numerosas cidades suíças, alemães e italianos. Os reis católicos Izabel e Fernando expulsaram os judeus e também os muçulmanos porque sujavam o sangue. Os judeus haviam vivido na Espanha durante treze séculos. Levaram com eles as chaves de suas casas. Há quem as guardem ainda. Nunca mais voltaram.
A colossal carnificina organizada por Hitler culminou uma longa história de perseguição e humilhação. A caça aos judeus tem sido sempre um esporte europeu. Agora, os palestinos, que jamais a praticaram, pagam a culpa.

O Demônio é mulher
“Toda a bruxaria provém da luxúria carnal, que nas mulheres é insaciável”.
O livro Malleus Maleficarum, também chamado O martelo das bruxas, recomenda o mais ímpio exorcismo contra o demônio que tem seios e cabelos compridos.
Dois inquisidores alemães, Heinrich Kramer e Jakob Sprenger, o escreveram, a pedido do Papa Inocêncio VIII, para enfrentar as conspirações demoníacas contra a Cristandade. Foi publicado pela primeira vez em 1486 e até o final do século XVIII foi o fundamento jurídico e teológico dos tribunais da Inquisição em vários países.
Os autores afirmavam que as bruxas, do harém de Satanás, representavam as mulheres em estado natural: “Toda bruxaria provém da luxúria carnal, que nas mulheres é insaciável”. E demonstravam que “esses seres de aspecto belo, cujo contato é fétido e a companhia mortal” encantavam os homens e os atraíam com silvos de serpentes, rabos de escorpião, para aniquilá-los. Os autores advertiam aos incautos: “A mulher é mais amarga que a morte. É uma armadilha. Seu coração, uma rede; e correias, seus braços”.
Esse tratado de criminologia, que enviou milhares de mulheres às fogueiras da Inquisição, aconselhava que todas as suspeitas de bruxaria fossem submetidas à tortura. Se confessassem, mereceriam o fogo. Se não confessassem também, porque só uma bruxa, fortalecida por seu amante, o Demônio, nos conciliábulos das bruxas, poderia resistir a semelhante suplício sem soltar a língua.
O papa Honório III sentenciara que o sacerdócio era coisa de machos: - As mulheres não devem falar. Seus lábios têm o estigma de Eva, que provocou a perdição dos homens.
Oito séculos depois, a Igreja Católica continua negando o púlpito às filhas de Eva.
O mesmo pânico faz com que os mulçumanos fundamentalistas as mutilem o sexo e lhes cubram a cara.
E o alívio pelo perigo conjurado leva os judeus mais ortodoxos a começar o dia sussurrando: “Graças, Senhor, por não me ter feito mulher”.

O Demônio é homossexual
Em nenhum lugar do mundo se levou em conta os muitos homossexuais condenados ao suplício ou a morte pelo delito de sê-lo.
Desde 1446, os homossexuais iam para a fogueira em Portugal. Desde 1497 eram queimados vivos na Espanha. O fogo era o destino merecido pelos filhos do inferno, que surgiam do fogo.
Na América, ao contrário, os conquistadores preferiam jogá-los aos cachorros. Vasco Núnez de Balboa, que entregou muitos deles para a refeição dos cães, acreditava que a homossexualidade era contagiosa. Cinco séculos depois, ouvi o Arcebispo de Montevidéu dizer o mesmo. Quando os conquistadores apontaram no horizonte, só os astecas e os incas, em seus impérios teocráticos, castigavam a homossexualidade com a pena de morte. Os outros americanos a toleravam e em alguns lugares a celebravam, sem proibição ou castigo.
Essa provocação insuportável devia desencadear a cólera divina. Do ponto de vista dos invasores, a varíola, o sarampo e a gripe, pestes desconhecidas que matavam índios como moscas, não vinham da Europa, mas sim do Céu. Assim, Deus castigava a libertinagem dos índios que praticavam a anormalidade com toda a naturalidade.
Nem na Europa, nem na América, nem em nenhum lugar do mundo se levou em conta os muitos homossexuais condenados ao suplício ou a morte pelo delito de sê-lo. Nada sabemos dos longínquos tempos e pouco ou nada sabemos dos tempos de agora.
Na Alemanha nazista, estes “degenerados culpados de aberrante delito contra a natureza” eram obrigados a exibir a estrela amarela. Quantos foram para os campos de concentração? Quantos lá morreram? Dez mil? Cinqüenta mil? Nunca se soube. Ninguém os contou, quase ninguém os mencionou. Tampouco se soube quantos foram os ciganos exterminados.
No dia 18 de setembro de 2002, o governo alemão e os bancos suíços resolveram “retificar a exclusão dos homossexuais entre as vítimas do Holocausto”. Levaram mais de meio século para corrigir essa omissão. A partir dessa data os homossexuais que tinham sobrevivido em Auschwitz e em outros campos, se é que ainda haja algum vivo, puderam reclamar uma indenização.

O Demônio é índio
Os conquistadores cumpriram a missão de devolver a Deus o ouro, a prata e outras várias riquezas que o Demônio havia usurpado.
Os conquistadores descobriram que Satã, quando expulso da Europa, tinha encontrado refúgio na América. Nas ilhas e nas praias do mar do Caribe, beijadas dia e noite por seus lábios flamejantes, habitadas por seres bestiais que andavam nus, tal como o Demônio os havia colocado no mundo, que cultuavam o sol, a terra, as montanhas, os mananciais e outros demônios disfarçados de deuses, que chamavam de jogo ao pecado carnal e o praticavam sem horário nem contrato, que ignoravam os dez mandamentos e os sete sacramentos e os sete pecados capitais, que não conheciam a palavra pecado nem temiam o inferno, que não sabiam ler nem tinham nunca ouvido falar do direito de propriedade, nem de nenhum direito e que, como se tudo isso fosse pouco, tinham o costume de comerem uns aos outros. E crus.
A conquista da América foi uma longa e difícil tarefa de exorcismo. Tão arraigado estava o Demônio nestas terras, que quando parecia que os índios se ajoelhavam devotamente ante a Virgem, estavam na realidade adorando a serpente que ela amassava com o pé; e quando beijavam a Cruz não estavam reconhecendo ao Filho de Deus, mas estavam celebrando o encontro da chuva com a terra.
Os conquistadores cumpriram a missão de devolver a Deus o ouro, a prata e outras várias riquezas que o Demônio havia usurpado. Não foi fácil recuperar o tesouro. Ainda bem que de vez em quando recebiam alguma pequena ajuda de lá de cima. Quando o dono do inferno preparou uma emboscada em um desfiladeiro, para impedir a passagem dos espanhóis em busca da prata de Cerro Rico de Potosi, um arcanjo baixou das alturas e lhe deu uma tremenda surra.

O Demônio é negro
Supunha-se que a leitura da Bíblia podia facilitar a viagem dos africanos do inferno para o paraíso, mas a Europa esqueceu de ensiná-los a ler.
Como a noite, como o pecado, o negro é inimigo da luz e da inocência.
Em seu célebre livro de viagens, Marco Pólo fala dos habitantes de Zanzibar. “Tinham uma boca muito grande, lábios muito grossos e nariz como o de um macaco. Caminhavam nus, totalmente negros e para quem de qualquer outra região que os visse acreditaria que eram demônios”.
Três séculos depois, na Espanha, Lúcifer, pintado de negro, trepado numa carroça em chamas, entrava nos pátios das comédias e nos palcos das feiras. Santa Tereza de Jesus, que viveu para combatê-lo, apesar disso nunca pode entendê-lo. Uma vez ficou ao lado e viu “um negrinho abominável”. Outra vez ela viu que do seu corpo negro saía uma chama vermelha, quando se sentou em cima de seu livro de orações e queimou os textos do ofício religioso.
Uma breve história do intercâmbio entre África e Europa: durante os séculos XVI, XVII e XVIII, a África vendia escravos e comprava fuzis. Trocava trabalho pela violência. Os fuzis punham ordem no caos infernal e a escravidão iniciava o caminho da redenção. Antes de serem marcados com ferro quente, na cara e no peito, todos os negros recebiam uma boa unção de água benta. O batismo espantava o demônio e dava alma a esses corpos vazios. Depois, durante os séculos XIX e XX, a África entregava ouro, diamantes, cobre, marfim, borracha e café e recebia Bíblias. Trocava produtos por palavras. Supunha-se que a leitura da Bíblia podia facilitar a viagem dos africanos do inferno para o paraíso, mas a Europa esqueceu de ensiná-los a ler.

O Demônio é estrangeiro
O imigrante está disponível para ser acusado como responsável pelo desemprego, a queda do salário, a insegurança pública e outras temíveis desgraças.
O “culpômetro” indica que o imigrante vem roubar-nos o emprego e o “perigosímetro” acende a luz vermelha. Se for pobre, jovem e não for branco, o intruso, que veio de fora, está condenado, a primeira vista, por indigência, inclinação ao tumulto ou por ter aquela pele. De qualquer maneira, se não é pobre, nem jovem, nem escuro, deve ser mal recebido, porque chega disposto a trabalhar o dobro em troca da metade.
O pânico diante da perda do emprego é um dos medos mais poderosos entre todos os medos que nos governam nestes tempos de medo. E o imigrante está sempre disponível para ser acusado como responsável pelo desemprego, a queda do salário, a insegurança pública e outras temíveis desgraças.
Em outros tempos, a Europa distribuía para o mundo soldados, presos e camponeses mortos de fome. Estes protagonistas das aventuras coloniais passaram à história como agentes viajantes de Deus. Era a Civilização lançada nos braços da barbárie.
Agora a viagem se faz na contramão. Os que chegam, ou tentam chegar do sul em direção ao norte, não trazem nenhuma faca entre os dentes nem fuzil no ombro. Vêm de países que foram oprimidos até a última gota de seu sugo e não têm a intenção de conquistar nada além de um trabalho ou trabalhinho. Esses protagonistas das desventuras parecem, muito mais, mensageiros do Demônio. É a barbárie que toma de assalto a Civilização.

O Demônio é pobre
Os bens de poucos sofrem a ameaça dos males de muitos.

Se lambem enquanto você come, espiam enquanto você dorme: os pobres espreitam. Em cada um se esconde um delinqüente, talvez um terrorista. Os bens de poucos sofrem a ameaça dos males de muitos. Nada de novo. Tem sido assim desde quando os donos de tudo não conseguem dormir e os donos de nada não conseguem comer.
Submetidas a um acossamento durante milhares de anos, as ilhas da decência estão encurraladas pelos turbulentos mares da vida desgraçada. Rugem as ondas sucessivas que forçam viver em sobressalto perpétuo. Nas cidades de nosso tempo, imensos cárceres que prendem os prisioneiros ao medo, as fortalezas dizem ser casas e as armaduras simulam ser trajes.
Estado de sítio. Não se distraia, não baixe a guarda, desconfie: você está estatisticamente marcado, mais cedo ou mais tarde terá que sofrer algum assalto, seqüestro, violação ou crime. Nos bairros malditos espreitam, ocultos, remoendo invejas, tragando rancores, os autores de sua próxima desgraça. São vagabundos, pobres diabos, bêbados, drogados, carne de cárcere ou bala, pessoas sem dentes, sem rumo e sem destino.

Ninguém os aplaude, porém os ladrões de galinha fazem o que podem imitando, modestamente, os mestres que ensinam ao mundo as fórmulas do êxito. Ninguém os compreende, porém eles aspiram serem cidadãos exemplares, como esses heróis de nosso tempo que violam a terra, envenenam o ar e a água, estrangulam salários, assassinam empregos e sequestram países. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br

terça-feira, 17 de junho de 2014

O perfil do diabo, o inimigo da sociedade, segundo Francisco.

Artigo de Agostino Paravicini Bagliani
Se a tradição cristã que atribui ao demônio um papel de absoluto perigo para a sociedade é antiquíssima, o modo com que o Papa Francisco fala do demônio é moderno. O demônio não é mais um inimigo genérico da sociedade.
A análise é do historiador italiano Agostino Paravicini Bagliani, professor da Università Vita-Salute San Raffaele, de Milão, ex-scriptor da Biblioteca Apostólica Vaticana e ex-professor da Escola Vaticana de Paleografia, Diplomática e Arquivística. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 13-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.
Há poucos dias, no dia 1º de junho, no seu discurso no Stadio Olimpico, em Roma, o Papa Francisco disse que o diabo "não quer a família, eis por que ele tenta destruí-la". Alguns meses antes (1º de abril), durante a homilia matinal em Santa Marta, o papa se referira ao diabo para reafirmar a sua existência: "O diabo existe. O diabo existe. Mesmo no século XXI".
Já na sua primeira homilia na Capela Sistina, no dia seguinte à sua eleição (13 de março de 2013), diante dos cardeais que o elegeram, Francisco, falando de improviso, lembrou o diabo, afirmando que "quando não se confessa Jesus Cristo se confessa a mundanidade do demônio".
Essa frequentíssima referência ao demônio poderia, à primeira vista, surpreender, não fosse o caso de que todos os papas dessas últimas décadas falaram do demônio. Paulo VI escolheu até o dia 29 junho de 1972, festa de São Pedro, para defender com gravidade que "de alguma fissura parece que entrou a fumaça de Satanás no templo de Deus".
João Paulo II teria até celebrado duas vezes o rito de exorcismo na sua capela privada. Também para o Papa Wojtyla, a existência do demônio era real. Ele o disse no dia 24 maio de 1987, em Monte Sant'Angelo, no lugar em que nasceu o culto do Arcanjo Miguel: "O demônio ainda está vivo e operante no mundo". O mal não é apenas a consequência do pecado original, mas também "o efeito da ação infestadora e obscura de Satanás".
Bento XVI advertiu um dia (26 de agosto de 2012) os fiéis que acorreram a Castel Gandolfo para o Ângelus que a "culpa mais grave de Judas foi a falsidade, que é a marca do diabo".
Leão XIII (1878-1903) formulou até uma oração a São Miguel Arcanjo, para que protegesse os cristãos "nesta ardente batalha contra todas as potências das trevas e a sua malícia espiritual".
Em relação aos seus antecessores, o Papa Francisco, no entanto, usa um estilo diferente para falar do demônio, mais moderno, menos retórico, direto e simples. Poucas palavras bastam. "O diabo existe. O diabo existe. Mesmo no século XXI".
Se a linguagem do Papa Francisco é tão simples, a substância está em perfeita sintonia com a tradição. Para Francisco também, o demônio é uma realidade, aquela "realidade terrível, misteriosa e assustadora", de que falava Paulo VI.
Também para Francisco, o demônio é o principal inimigo da sociedade, a ponto de poder também destruir seus fundamentos, como por exemplo a família. Nesse sentido, a continuidade atravessa os séculos. Já para os primeiros escritores cristãos, o demônio é, por exemplo, o instigador dos sentidos, a tal ponto que se considerava que o demônio fazia com que se perdesse o controle da razão através do riso.

Para descrever os primeiros casos de heresias medievais, o monge Rodolfo Glaber, "o historiador do ano mil", atribui ao demônio um papel de protagonista, graças também ao seu poder de se transformar. A "loucura" do camponês Leutardo de Vertus, que "se livrou da mulher" e quis justificar o divórcio "alegando as prescrições do Evangelho" começou quando "um enorme enxame de abelhas" – metáfora do demônio – entrou no seu corpo.
O culto Vilgardo de Ravenna, que havia lido com paixão os autores clássicos, tornou-se "cada vez mais insensato" por causa de "certos diabos que assumiram o aspecto dos poetas Virgílio, Horácio e Juvenal". Nos grandes momentos de transformação da sociedade medieval, o demônio sempre aparece como o principal inimigo da sociedade.
Ao redor de 1430, quando, na Itália (Roma, Todi) e no norte dos Alpes, aparecem as primeiras caças às bruxas, à frente da suposta seita do "Sabbath" é posto o demônio, a quem bruxas e bruxos rendem homenagem realizando orgias e similares. O trágico fantasma do "Sabbath" das bruxas precisou do demônio para existir e assim funcionou por mais de três séculos na Europa cristã, católica e protestante.
Se a tradição cristã que atribui ao demônio um papel de absoluto perigo para a sociedade é antiquíssima, o modo com que o Papa Francisco fala do demônio é moderno. O demônio não é mais um inimigo genérico da sociedade.
Os temas são aqueles que falam às pessoas, à família, ao dinheiro. Além disso, o papa o faz usando palavras simples, claras e diretas. Com mais eficácia do que os seus antecessores, mas não se separando deles na substância.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Pensamento para este dia 22 de setembro-2011...


“Se tirar o diabo da religião como algumas Igrejas e Movimentos Pentecostais irão sobreviver”? Frei Petrônio de Miranda, Frade Carmelita da Ordem do Carmo.