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quinta-feira, 2 de julho de 2015

FIRMES NA ESPERANÇA.

*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, In Memoriam.
(Camocim de São Félix, PE. 11 de janeiro-20011)

A esperança é uma das três virtudes teologais. São chamadas teologais porque indicam explicitamente e diretamente a relação com Deus. O que não quer dizer que essas virtudes teologais não tenham raízes antropológicas. Com a palavra esperança indicamos a atitude e a atividade nossa do esperar. Frequentemente, porém, com a palavra esperança nos referimos ao fundamento da nossa esperança nas promessas de Deus ou à pessoa de Jesus, ao objeto ou ao conteúdo da nossa esperança como salvação.
 A esperança, como as duas outras virtudes teologais, é ao mesmo temo dom de Deus e fruto da nossa ação. A perspectiva da nossa ação já aparece no próprio enunciado do tema: firmes na esperança. Através das diversas épocas a literatura teológica e espiritual da Igreja apresentam várias interpretações e perspectivas da esperança.

A esperança na Escritura
Podemos dizer que o tema da esperança é o elemento dinâmico de toda a Sagrada Escritura. Povo de Deus é um título que é penhor de esperança, o que vale também para o mundo e a humanidade como tais porque foram criados por Deus. Neste plano atinge também o indivíduo de acordo com a sua relação, geralmente vocacional, com Deus. É compreensível que o tema da esperança aparece em situações negativas que atingem a vida do povo ou de pessoas individuais mesmo por culpa própria. É o que aparece constantemente nas narrações da história do povo de Israel. Nestes contextos a observância das leis de Deus da parte do povo ou das pessoas entram na própria configuração da esperança cujo horizonte promissor só Deus pode abrir.
No Novo Testamento na presença e pregação de Jesus fazem respirar a esperança: o Reino de Deus está próximo, “Deus não é um Deus de mortos mas de vivos. Ouvindo isso as multidões se extasiavam com seu ensinamento” (Mt 22, 32-33).
As cartas de São Paulo falam muito claro da esperança nas suas várias dimensões: a esperança é obra do Espirito (Gl 5,5) a esperança permeia toda a criação, esperando se libertada da escravidão da corrupção; ela está gemendo como que em dores de parto; também nós que temos as primícias do Espirito gememos em nosso íntimo, esperando a condição filial, a redenção do nosso corpo (Rm 8, 18-26).

A esperança na literatura patrística
Na literatura patrística dos primeiros séculos os textos não podiam deixar de refletir as perseguições quando falam da esperança. As cartas de Inácio de Antioquia sublinham a esperança para suportar a perseguição, mas falam principalmente da celebração da Eucaristia e a harmonia da comunidade em que esta esperança deve se manifestar. Justino na sua Primeira Apologia também se refere ao culto da comunidade mas igualmente à observância da lei numa vida cívica responsável, conduzida com serenidade e sem ressentimentos apesar das calúnias e das perseguições para manifestar e reforçar a esperança dos cristãos. Origines já dá maior importância à contemplação e à renúncia como expressões específicas da esperança enquanto outros insistem na compreensão adequada do plano de Deus.
No entanto, esses primeiros séculos oferecem também outras perspectivas para falar da esperança. Clemente de Roma, e a Didaqué acentuam a espera da Parusia, da volta triunfal de Cristo, da ressurreição dos mortos e do julgamento universal como incentivadores da esperança. Para acentuar a responsabilidade do cristão na prática da esperança, houve várias reações contra o gnosticismo, como da parte de Ireneu. O gnosticismo considerava a salvação como fuga do corpo., do mundo, da história humana, da responsabilidade familiar e social. Esta fuga das responsabilidades facilmente atingiria a vida em comunidade, como espaço em que a esperança é fortalecida e alimentada. Além disto havia também a prática dos visionários que pretendiam indicar concretamente o futuro último ou a Parusia em termos de tempo e espaço. Prática que pode satisfazer a uma curiosidade ociosa, mas esvazia a esperança que se reduziria a uma atitude de especulação e de passividade. Embora Origenes não seguisse essa tendência, ele defendia uma restauração final da história, tão total que a condenação não podia ser eterna e definitiva. Esta tese foi condenada pela Igreja, porque na perspectiva que ela abre parece anular a seriedade da redenção e relativiza o papel atribuída à liberdade na caminhada da esperança.
Com a paz de Constantino o cristianismo encontrou um lugar protegido na cidade secular. Isto não podia deixar de repercutir na teologia e na prática da esperança, Como harmonizar a virtude da esperança, que supõe um que de “desafio” nas situações que lhe parecem contrárias. A esperança parece encaixar-se agora na observância eclesial e na obediência cívica, sem deixar de estimular uma atitude de espera de Cristo que é considerado imperador na realidade histórica já identificada como império cristão. Nas basílicas da época sempre aparece o Cristo que tudo governa (Pantocrator) nos mosaicos da abside. Não que a situação concreta existente esgotava o horizonte da esperança cristã. Uma ulterior redenção da sociedade humana era por assim dizer transferida para um fim longínquo mas improviso. Assim a esperança era ligada mais às expectativas do indivíduo em relação à vida depois da morte. Isto fez com que a esperança perdesse a sua dinâmica na existência humana, concentrando-se mais no cumprimento fiel dos deveres dentro da ordem estabelecida. Uma esperança sem dinâmica e de certa maneira sem entrega “aventureira” ao mistério insondável de Deus, não podia deixar de repercutir na maneira de ler e de interpretar corretamente a linguagem bíblica. Era mais um esforço de interpretar e decifrar o quanto já estava determinado.

A esperança na teologia medieval
A teologia na Idade Média dedicou bastante atenção ao tema da esperança. Apoiavam-se os teólogos principalmente nos escritos de santo Agostinho. Este não via muita prospectiva na sociedade humana e na civilização na história e vê a vida cristã como contracorrente. Isto apesar do império romano que se identificava com o cristianismo. Agostinho considera a Cidade de Deus que se realizará plenamente no fim dos tempos e que de alguma maneira é antecipada na Igreja. A esperança, porém, se centraliza essencialmente num futuro celeste transcendente. Na Idade Média essa visão, talvez um tanto pessimista, bate num novo otimismo em relação às possibilidades do mundo provocado pela coroação de Carlos Magno realizada pelo Papa em Roma no ano 800. Acontecimento que dá consciência ao povo cristão de que Deus governa a história. Mesmo assim as expectativas populares pelo menos em certos períodos da Idade Média se concentram mais no medo do que na esperança. O fim do mundo é descrito em termos apocalípticos, desastres cósmicos e  um julgamento que inspira medo. O que explica que na literatura e na arte plástica o purgatório e o inferno aparecem com maior frequência que o paraíso.
Todas essas preocupações populares indicam que na teologia medieval as relações entre Deus e os seres humanos eram vistas mais em perspectivas jurídicas. Olhava-se para a situação provisória da alma que depois da morte do corpo passava no purgatório ou era já condenada ao fogo do inferno. O que se esperava era a visão beatífica completada pela ressurreição do corpo no fim do mundo.
Tomás de Aquino fala mais da esperança na Summa Theologiae. Ele mostra que o objetivo da vida humana consiste na felicidade de ver a Deus. Fala da esperança com segunda virtude teologal. Dá várias definições descritivas do termo virtude que ele vê como uma disposição para agir bem. A esperança é uma disposição que abraça como seu objeto um bem futuro que consiste na vida eterna ou o gozo de Deus. Assim chega a definir a esperança como uma caminhada para a caridade.
Para Tomás a prática da esperança está ligada também às bem-aventuranças e aos dons do Espírito. Entre esses dons o temor de Deus ocupa um lugar importante porque admite a possibilidade da perda ou da separação o que faz com que uma criança se agarre ao pai. Ao mesmo tempo Tomás relaciona a virtude da esperança com a bem-aventurança dos pobres de espírito que consiste numa confiança total em Deus e na renúncia às coisas da terra. Tomás considera dois tipos de pecado contra a esperança: o desespero e a presunção. Podem levar a pessoa a abandonar todo o projeto da vida cristã.
Com os franciscanos espirituais no século XIII surge uma nova corrente de teologia e de espiritualidade, embora iniciada no século anterior por Joaquim de Fiori. A sua esperança se movia em direção a um novo milênio na direção divina da história. Trata-se da terceira era do Espírito Santo que sucedia à era do Pai (no Antigo Testamento) e à era do Filho (no Novo Testamento). Deveria ser uma era gloriosa da Igreja, de santos, principalmente de religiosos vivendo numa perfeita consagração. A prática da esperança como caminhada para essa era do Espírito Santo era a observância rigorosa da pobreza de que Francisco de Assis tinha dado o exemplo. Não podemos negar que nesta corrente encontram-se naquela época pessoas de profunda espiritualidade e de oração. No entanto, a unilateralidade em definir a vocação cristã na história, fez com que essa visão encontrou fortes oposições inclusive dentro da própria Ordem Franciscana.
Outra corrente de pensamento em relação à esperança, alimentava uma preponderância do temor no posicionamento frente ao futuro. Desta corrente a arte e a literatura da época oferecem exemplos bem claros. Basta pensar inclusive em certos textos presentes nas celebrações litúrgicas como o Dies Irae na missa dos defuntos, na devoção mariana, e, de modo especial, no afã de ganhar indulgências. Aparece bem claro que naquela época o ponto de referência seja para o temor como para a esperança era sempre aquilo que aconteceria ao indivíduo depois da morte, fora da história e do mundo da experiência de cada dia.

A esperança na teologia e na espiritualidade moderna
No âmbito católico a teologia de Tomás de Aquino sobre a esperança permaneceu praticamente como fundamento do pensamento da escolástica no âmbito do ensino e da prática da vida espiritual. No século XVI apareceram discussões bem claras introduzidas por Lutero e outros. Não sem influência da própria vida interior movida por dúvidas e angústias, Martinho Luther e seus sequazes tendiam a reconhecer no cristão um papel mais passivo em relação à graça. O conteúdo da esperança foi colocado em discussão também por Calvino que acentuavam a universalidade da vontade salvífica de Deus. Surgiram na mesma época outros agrupamentos religiosos (os anabatistas) que colocavam a esperança em discussão um pouco como já no século XIII tinham feito os franciscanos espirituais. Apregoavam a necessidade de um estilo de vida completamente novo como expressão da esperança cristã, baseada no batismo só de adultos porque só no adulto as virtudes da fé, esperança e caridade podiam tornar-se operantes imediatamente. Mais tarde surgem outras discussões em torno da esperança: os quietistas defendiam a passividade, a renúncia à iniciativa pessoal na vida espiritual e até o abandono de todo interesse pela própria salvação.
Surge assim a individualização da esperança acentuada também pelo Iluminismo. Devemos dizer que a individualização da vida espiritual caracterizava também, até tempos recentes, os retiros e missões populares dirigidos tradicionalmente por Redentoristas e Capuchinhos. E quem sabe através dos catecismos que desde crianças nos indicavam a direção em que devíamos caminhar. Catecismos cujos conteúdos se transmitia através de perguntas e respostas: Porque vivemos nesta terra? Para servir a Deus e chegar assim no céu.
Nos textos teológicos antes do Vaticano II a doutrina sobre a esperança segue o pensamento de Tomás de Aquino mas se dedica pouco espaço a ela. O objeto da esperança é Deus, a visão de Deus e todas as ajudas intermediárias para alcançar tal visão; mas aparecem outros objetos da esperança embora taxados de secundários: a ressurreição do corpo e a própria felicidade para si e para os outros, mas sempre vistos em vista de um escopo além deste mundo. Estamos ainda longe de um interesse direto pela transformação redentora da sociedade humana na história.  Esta tendência é caraterística dos livros de espiritualidade publicados na primeira metade do século passado: Garrigou Lagrange, O.P., Joseph de Guibert, S.J. e Tanquerey. Mas o último já põe no seu Compendio de vida espiritual  acentos em outras dimensões, insistindo assim não só no dom gratuito de Deus mas também na total responsabilidade da liberdade humana.
Chegando aos anos da metade do século XX percebemos no ensino e em textos de espiritualidade um esforço para dar à virtude da esperança uma maior atenção e mostrar nela o horizonte comunitário que desperta a nossa atividade no mundo em que vivemos. Há um recurso maior à Sagrada Escritura do Novo Testamento para penetrar no núcleo central da pregação de Jesus. Assim tornou-se mais clara a promessa de Jesus feita aos seus discípulos que o reino de Deus estava próximo. Chega-se assim a descobrir que o reino de Deus não é só uma realidade do além deste mundo, mas também uma plena redenção da criação de Deus, principalmente da sociedade humana. O que leva a novos horizonte na interpretação dos profetas do Antigo Testamento que se torna uma fonte para a interpretação da pregação do próprio Jesus. Entra assim mais claramente a justiça social com fazendo parte do objeto da esperança. De acordo com o lugar que pessoas e grupos cristãos ocupam na sociedade são descobertos os vários níveis da vida individual e social que na ótica da esperança cristã pedem um trabalho de transformação das relações humanas e das estruturas da sociedade.
Há autores que neste sentido marcaram os estudos da teologia: Jurgen Moltmann, teólogo alemão luterano com seu livro Teologia da esperança que se confronta com a perda de esperança na dimensão política e prática devido às conseqüências da segunda Guerra mundial. Esta quase impotência teológica contrastava com a projeção de um futuro sociopolítico de pensadores marxistas daquela época. O próprio Moltmann e outros teólogos foram influenciados pela filosofia marxista de Ernst Bloch que no seu livro O princípio da esperança não hesita recorrer seja às fontes bíblicas como marxistas para analisar a dinâmica humana social na história. Daí houve um trabalho para reformular o pensamento da doutrina cristã pondo o acento da história da salvação no futuro ainda não realizado, na redenção da comunidade humana e do mundo. Os mais conhecidos teólogos dessa reformulação são além de Moltmann Wolfhart Pannenberg, Johan Baptist Metz com sua “teologia política”. Essa mudança de acento no que diz respeito à esperança, foi sem dúvida facilitada pela influência bastante difusa de Karl Rahner cujos estudos eram marcados por uma análise profunda dos princípios interpretativos que devem reexaminar as afirmações escatológicas, isto é as afirmações que expressam o conteúdo da esperança cristã. Para Rahner, estes princípios derivam da análise existencial da experiência humana, dos seus limites e das suas possibilidades e expressões simbólicas.
Um outro tipo de reflexão teológica que também acentuava uma propriedade mais ativa, comunitária e terrestre da esperança cristã foi desenvolvido pelo paleontólogo jesuíta Pierre Teilhard de Chardin. Apesar da proibição eclesiástica de publicar os seus escritos durante a sua vida, as suas obras, publicadas depois da sua morte, tiveram uma influência bastante vasta. A espiritualidade de Teilhard valorizava o modo em que todo o progresso científico e técnico era integrado no plano de Deus para a história humana e no fim dos tempos na criação em Cristo. Isto unia as esperanças e tentativas humanas em relação ao mundo com a esperança religiosa fundada na fé em Cristo. Seria um caminho para fazer voltar os cientistas e o homem moderno a uma visão de esperança religiosa considerada individualista e totalmente cortada da realidade do mundo. As críticas dirigidas à visão teológica de Teilhard insistem que ela não leva em consideração o pecado presente no mundo cujos efeitos se revelam no campo social: as injustiças, as opressões e diversas situações de sofrimento.
Podemos dizer que as teologias que surgiram depois da II Guerra mundial preparam o terreno para a Teologia de Libertação na América Latina. Não preciso insistir nas contribuições de Gustavo Gutierrez, Juan Luis Segundo, Leonardo Boff e outros. Todos nós sabemos da desconfiança de determinados setores da vida eclesial em relação a estes nomes e aos livros por eles publicados. O que não nos dispensa de reconhecer a validade dos horizontes por eles abertos embora possam surgir dúvidas em relação à autenticidade dos objetos mediadores da esperança.
As teologias que surgiram na segunda metade do século XX não deixam de encontrar uma certa convergência com os documentos (Lumen Gentium e Gaudium et Spes) do Concílio Vaticano II. Também o Vaticano II chamou a atenção dos cristãos para a seriedade do seu empenho na construção de uma sociedade feita de paz, de justiça social e de um adequado bem-estar material para todos os povos e nações. Confesso que a Conferência dos Bispos da América Latina realizada em Medellín (1968) foi para mim pessoalmente uma porta que se abriu para a esperança cristã. A esperança nasce quando a prática cristã pode contar com uma visão antropológica contemporânea que permita a criação de estratégias pastorais adequadas. Todos nós nos lembramos do método de Paulo Freire centrado no desenvolvimento da consciência plena e crítica e de uma responsabilidade no crescimento humano para a maturidade. Faz-se um trabalho de conscientização para que possam ser atores da história e autores de sue próprio destino, ao invés de meros objetos de exploração. Todo processo de transformação traz interrogações e questionamentos. Quando entram na história freqüentemente sofrem uma grande decepção: chegaram tarde demais e nunca poderão ser os donos da história. Também existe o problema da cultura de cada povo. Alguém já observou: “A adoção de vantagens a curto prazo é um cavalo de Tróia que traz consigo a destruição inevitável das estruturas tradicionais. Por outra parte, o isolamento não é resposta nem a maior parte das tradições são capazes de responder por si mesmas às necessidades do homem contemporâneo” (Panikkar, A intuición cosmoteándrica, p. 146, n.43). Sabemos que o perigo de todos os movimentos populares é que facilmente podem abrir espaço a clichês superficiais, atitudes extremas e reações unilaterais (ibidem, p.166).

PROBLEMAS CONTEMPORÂNEOS EM RELAÇÃO À ESPERANÇA
A espiritualidade cristã contemporânea se confronta ainda com o desafio de duas tentações: o desespero e a presunção. Ninguém pode negar a existência desses dois fatores na sociedade hodierna: um vazio ou desespero a respeito do sentido, do objetivo e da satisfação definitiva da existência humana. Basta analisar o uso de drogas, os suicídios, as violências, os acidentes de estrada, a crescente necessidade de ajuda psiquiátrica, um cansaço generalizado nos jovens... Precisamos de pastorais que levam em consideração esse contexto sem futuro transcendente, sem descoberta do dom e convite de Deus. Penso que já temos aqui no Brasil uma riqueza de iniciativas que abrem horizontes: atuação dos leigos, o cultivo de comunidades cristãs e outras. Mas não é só o desespero mas também a presunção que constitui hoje uma forte tentação. Basta pensar nas filosofias e estratégias que promovem o egocentrismo e o egoísmo baseados no bem estar, no individualismo, a idéia de que a liberdade sexual conduz à felicidade humana. Essas concepções vão transformar-se em novas fontes de desespero e presunção. Não podemos negar que hoje o conteúdo da esperança é algo muito frágil nas relações humanas. Existe também uma mentalidade bastante difusa que vê o sofrimento que em tantas maneiras se torna presente, é um mal inevitável. No fundo é uma visão que tende a justificar os que têm vantagens e privilégios.
A fé tem outra visão, visão centrada no Reino de Deus que pode levar a uma renúncia de privilégios. É um caminho que leva à paz. O desafio para a espiritualidade cristã e a estratégia pastoral para o nosso tempo é descobrir em profundidade as dimensões pessoais e comunitárias da virtude teologal da esperança. O que deve levar-nos como carmelitas e como Província, firmes na esperança, a uma liberdade situada em nível profundo para poder buscar e acolher o Reino de Deus que vem entre nós.
*Dom Frei Vital Wilderink, O Carm, foi vítima de um acidente de automóvel quando retornava para o Eremitério, “Fonte de Elias”, no alto do Rio das Pedras, nas montanhas de Lídice, distrito do município de Rio Claro, no estado do Rio de Janeiro. O acidente ocorreu no dia 11 de junho de 2014. O sepultamento foi na cidade de Itaguaí/RJ, no dia 12, na Catedral de São Francisco Xavier, Diocese esta onde ele foi o primeiro Bispo.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

“Fomos salvos nesta esperança”: Seguindo os passos de Miriam, a irmã de Moisés e Aarão.

Dra Nuria Calduch

1-Introdução

Nosso provérbio, um compêndio de sabedoria popular de incalculável valor para todas as gerações, toca numerosos aspectos e temas da vida humana. Um deles é a esperança. Curiosamente existem vários provérbios sobre a esperança que exalam negatividade, ceticismo, sarcasmo. Alguns exemplos: “A esperança não enche a barriga”, “Quem vive de esperanças acaba morrendo de fome”, “A esperança era verde e um burro a comeu”, “Quem espera, desespera”, e suas variantes: “Quem espera, desespera e esperando se consola”. Felizmente também existem os animadores: “A esperança é a última que morre”, “Enquanto houver vida, haverá esperança”, “Onde menos esperança se tem, dali vem o bem”, “Onde morre uma ilusão, ali nasce uma esperança”, ou de inspiração bíblica como: “Algum dia será Páscoa”, expressão para manifestar o desejo de um futuro melhor¹ e “Ao menos Deus nos fez, que nos fez do nada”, que expressa a esperança de conseguir algo quase impossível ou muito difícil de obter, ou simplesmente desproporcional para nossas possibilidades².
A esperança é inerente ao ser humano. Já diziam os antigos: “A esperança é o único bem comum a todos os homens, os que perderam tudo ainda a possuem” (Tales de Mileto) e repetem os modernos: “Hoje ainda é sempre” (Antonio Machado), “Se ajudo apenas uma pessoa a ter esperança, não terei vivido em vão” (Martin Luther King), “De todas as virtudes a esperança é a mais importante para a vida, porque sem ela, quem se atreveria a iniciar qualquer atividade e levar até o fim qualquer tarefa? Quem teria a coragem de enfrentar o futuro obscuro, incerto e imprevisível?” (Francesco Alberoni).

2- Noções gerais sobre a esperança

A esperança poderia ser definida como um movimento da alma. E como movimento compreende duas dimensões: temporal e relacional. Olhando a partir da dimensão temporal, a esperança é uma tensão em direção ao futuro desejado, incerto, mas considerado como possível (espero que tudo saia bem, espero conseguir me curar deste mal...). Olhando a partir da dimensão relacional a esperança pressupõe confiança no outro (espero em ti, em Deus...). Ao contrário da esperança, o desespero se caracteriza pelo bloqueio do tempo e a solidão.

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¹ N.CALDUCH-BENAGES, Outro gallo de cantara. Refranes, dichos y expresiones de origen bíblico (Aos quatro ventos 20) Bilbao, Desclée de Brouwer 2003,35.

² N.CALDUCH-BENAGES, Otro gallo de cantara, 77.

Outra característica da esperança é o seu vínculo com o sujeito: espero algo para mim, mas também posso esperar para ti, para as pessoas queridas. Minha esperança se converte então em esperança para outra pessoa e inclusive para a comunidade (esperamos para nós, para vós, para eles...).

Uma ultima coisa: esperar não é saber, a esperança se alimenta de “razões” pelas quais vale à pena esperar. Ninguém espera sem uma razão, não se espera “porque sim”³.

3- A esperança bíblica

Contudo, a esperança na Bíblia nunca é genérica: é a espera de um bem que vem de Deus. Misteriosamente unida a fé, a esperança bíblica é uma espera ansiosa, ardente, ativa, que não tem nada a ver com as ansiedades do momento. Na medida em que a confiança em Deus é fé em sua promessa, a fé é também esperança. Esperar então, também significa confiar: confiar em seus dons, no bem, na alegria duradoura, na misericórdia.

O caminho da esperança iniciado com Abraão (Gn 12,1-3) chega ao vértice com Cristo, mas sua realização terá lugar somente na parusía.  Enquanto isso, neste largo caminho, a Bíblia nos apresenta numerosos modelos de esperança: os patriarcas que esperavam na promessa da descendência e da terra, os profetas que esperavam na conversão de Israel, os salmistas que esperavam a libertação de Javé, o justo Jó que esperou contra toda esperança a manifestação de seu Senhor e melhor amigo, o sábio Daniel que anunciou uma mensagem de esperança na situação de perseguição religiosa e opressão política... E tantos outros personagens bíblicos que dia a dia impulsionam nosso caminho em direção a um futuro melhor que, sem sombra de dúvidas, todos sonhamos e desejamos.

Chegado o momento de ilustrar a esperança bíblica com um personagem concreto, eu escolhi uma mulher. É uma mulher de esperança cuja história é a mais modesta. Não se distingue por suas façanhas, suas batalhas, suas vitórias e nem por sua beleza ou êxitos pessoais. Contudo, apesar de seu anonimato e de sua oportuna e silenciosa intervenção, fez história. E mais, permitiu que outra pessoa, seu irmão menor, fizesse história e se converteu em uma guia representativa de seu povo. Refiro-me a Miriam, a irmã de Moisés e Aarão.

4- Miriam, uma mulher de esperança (Ex 2,1-10)

a)Duas filhas, duas mães

O segundo capítulo do Livro do Êxodo começa com um fino toque de ironia, mas para poder captar bem, devemos retornar ao final do capítulo anterior onde o Faraó da ao povo a seguinte ordem: “Toda criança recém nascida será jogada no Rio, mas as meninas ficarão com vida” (Ex 1,22). Então, as filhas de Israel eram as únicas, segundo ele, que tinham direito à vida. Ato seguido, em Ex 2,1, a história começa com uma destas filhas e mais adiante continua com outra filha, a filha do Faraó.

 

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³ Para toda essa seção, F. MIES, “Speranza”, em R. PENNA-G.PEREGO-G. RAVASI, Temi teologici della Bibbia (Dizionari San Paolo), Cinisello Balsamo (Milano), edição São Paulo, 1327.

Duas filhas que desacatam a máxima autoridade do império e desobedecendo conscientemente a ordem recebida, fazem fracassar redondamente o plano do Faraó. Paremos nestas filhas.

A primeira filha que se menciona na historia é uma filha de Israel. Se trata de uma filha de um levita casada com um homem da família de Levi (Ex 2,1: “Um homem da casa de Levi tomou por mulher uma filha de Levi”). Estamos falando da mãe de Moisés. Ela também é apresentada na narração de forma anônima: como filha de Levi ou como mãe de Moisés. Nós, contudo, graças a Num 26,59, sabemos que se chamava Jocabed (em hebreu, Javé é glória) 4. É notável que tanto a filha de Levi quanto a filha do Faraó resultam ser, cada uma a sua maneira, mães de Moisés. O narrador nos apresenta as duas filhas/mães que, como veremos, se ajudarão mutuamente.

b)A mãe do filho

Nos concentremos na primeira mãe. A mãe de Moisés não fala, só atua. Coloquemos atenção nos verbos- todos ativos- utilizados pelo narrador: conceber, da a luz, ver, esconder. O objetivos desses verbos sempre é o filho. Na verdade, se trata de um relato que se considera tecnicamente um “anúncio do nascimento”, ou seja, um relato onde se anuncia o nascimento de um herói. Neste tipo de relato existe um momento que o pai, o a mãe, dá nome ao filho. Agora vejamos, no nosso caso este elemento é certamente irregular porque o filho recebe o nome muito mais tarde do que o normal e não serão nem seu pai nem sua mãe que o colocarão, e sim a filha do Faraó, sua mãe adotiva. O texto não fala do nome, mas dá uma informação preciosa: a mãe do filho, depois de concebê-lo e dado a luz, “viu que era belo” (em hebreu, tôb). Essa frase nos lembra o relato sacerdotal da criação em Gn 1,1-4ª. “E Deus viu que era bom” é a frase que acompanha a criação de cada elemento do cosmos. Então, tudo o que Deus criou é bom/belo e não pode ser destinado a morte e sim à vida.

A mãe de Moisés, sabendo que esconder o filho podia ser perigoso, reage frenética e apressadamente, demonstrando a grande capacidade de decisão, valor e força interior: pega um cesto de papiro, recobriu-a com betume e peixe e colocou o menino dentro, deixando a cesta na beira do Rio Nilo (Ex 2,3). E extrema precisão e a profundidade com que o narrador descreve essas ações demonstram a grande preocupação da mãe. Ela está bem decidida. Fará tudo que for possível para salvar o filho e o fará sozinha, sem ajuda do marido, de quem não sabemos absolutamente nada.

O Faraó havia dado a ordem para que se jogasse todos os menino no Nilo, e bem observado, a mãe de Moisés obedece fielmente ao Faraó, pois ela põe, não o joga, mas põe seu filho no rio. E faz de tal modo que o rio ao invés de ser um lugar de morte e destruição se torna um lugar de vida e salvação: ironia do narrador (!). Vimos a urgência com que preparou o cesto (em hebreu, tebah). O termo tebah é o mesmo que se utiliza no relato do dilúvio universal para designar a Arca de Noé (Gn 6).

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4 Num 26,59: “ A mulher de Amrão se chamava Jocabed, filha de Levi, que nasceu no Egito. Amrão e ela tiveram Aarão, Moisés e Maria,sua irmã.”

E esta não é a única coincidência. Noé e Moisés, ambos foram salvos das águas. Noé constrói uma arca de enormes medidas e a mãe de Moisés prepara um cesto, que na realidade é uma espécie de arca pequena.

c) A irmã do menino

Assim chegamos a Ex 2,4, um versículo que se encontra em uma situação estratégica na narração: “A irmã do menino se prostrou de joelhos para ver o que passava”5. Inesperadamente, como surgida do nada, aparece a nossa protagonista: outra mulher sem nome, chamada “a irmã do menino”. Até este momento ninguém podia imaginar que o recém nascido tivesse uma irmã. Em nenhum momento se mencionou que ela existia. Sua presença na narração, contudo, é tanto surpreendente como essencial: É precisamente ela que põe relação nos dois temas principais dessas histórias: a da mãe e seu filho e a da princesa e o menino. Com grande habilidade literária o narrador descreve a oposição entre a filha de Levi (a mãe de Moisés) e a filha do Faraó ( também mãe de Moisés): uma hebréia e a outra egípcia, uma escrava e a outra livre, uma de origem comum e a outra de sangue real, uma pobre a outra rica, uma esconde o filho e a outra o encontra, uma permanece em silêncio e a outra fala. A princesa é egípcia, nobre, livre, rica, mas também não tem um nome 6.

Duas mulheres separadas que se encontrarão graças a uma terceira mulher: também filha, mas o narrador a apresenta sempre como “a irmã do  menino” (2x) ou “a jovem” (1x). Se quisermos descobrir o nome dessa menina temos eu esperar um pouco, pois a primeira vez que aparece é no capitulo 15 de nosso livro (Ex 15,20-21). O encontramos também no livro dos Números (12,1-16; 20,1; 26,59), em Deuteronômio (24,9), no primeiro livro das Crônicas (5,29) e no profeta Miquéias (6,4).

Seu nome é Miriam, um nome hebreu de etimologia incerta (em grego, Mariam ou Marian). Os especialistas lançaram cerca de 60 hipóteses sobre o assunto, entre as quais se sobressaem as seguintes: rebelde, amada de Javé, exaltada, elevada. Miriam é uma figura muito admirada na literatura rabínica, onde circulam muitas lendas sobre sua profecia. Uma delas: “Ela esperou com atenção e com paciência na beira do Nilo para ver se cumpria a profecia que ela fizera a seu pai: “Você está destinado a criar um filho que salvará a Israel” (Mekhilta Ex15,20; Dt Rabba 6,14). Assim se explica que Filón de Alexandria tenha atribuído a Miriam o nome simbólico de elpis (termo grego que significa esperança) em sua obra De Somnis (II,142).

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5 O Libro de los Jubileos adiciona um detalhe muito poético ao texto bíblico: “Sua mãe vinha de noite para dar-te o peito e durante o dia Miriam, sua irmã, te protegia dos pássaros” (47,5).

6 A tradição se edificou com vários personagens: Thermuthis (Flavio Josefo), Menis (Eusebio), Tharmuth (O Livro dos Jubileos), Batyah (Exodo Rabba), Bithia (Talmud e 1Cro4,18).

Miriam, depois de preparar a estratégia junta a sua mãe de salvar o menino (isso o narrador não nos diz, porém é muito provável que aconteceu assim) “Ficou distante para ver o que acontecia” (Ex 2,4). É notável que todas as mulheres do relato vêem algo (a mãe de Miriam viu que o menino era belo, ela esperava ver o que aconteceria e depois a princesa verá o cesto e o menino chorando). Todas vêem, percebem, captam, porque nenhuma delas está distraída. Ao contrário, são mulheres observadoras, abertas, atentas aos outros, e a realidade que as rodeia. Desde o princípio a aparição de Miriam está estreitamente unida às águas do rio e à seu irmão. Lembremos que Miriam entra em cena no início do Livro de Êxodo e reaparece no final da primeira parte (Ex 15, depois da travessia do Mar Vermelho). Ambos os momentos estão relacionados com as águas do Nilo. Aqui Miriam se detém para ver, ali dará graças a Deus por ter visto.

d) A filha do Faraó

Em Ex 2,5, encontramos a filha do Faraó que desce ao Nilo para tomar banho enquanto suas donzelas passeavam pela beira do rio. A única, contudo, que descobre o cesto é a princesa (2,6). Prestemos atenção nas ações que realiza: desce ao Nilo, vê o cesto, envia uma criada para que o recolha, abre o cesto e vê o menino que chora. E em um instante passamos de ações a sentimentos: “se comoveu com ele” e logo as palavras “é um menino dos hebreus”. A detalhada descrição de Ex2,6 (as ações da princesa) nos lembra a preparação do cesto que vimos em Ex 2,2-3 (as ações da mãe de Moisés). Conhecemos as ações da princesa, os sentimentos e inclusive as palavras que pronunciou naquele momento. Assim sabemos que ela conhecia o decreto de seu pai, o Faraó. Um decreto que esteve disposta a desobedecer sem nenhum tipo de remorso. E mais, a atitude da princesa para com o menino nos faz lembrar a atitude de Deus para com seu povo 7. A princesa viu o menino no cesto, sentiu compaixão por ele e decidiu salvá-lo. Ressaltemos que a filha do Faraó se compadeceu não só de um menino que chorava mas também de um menino hebreu. Assim também se comporta Deus: vendo a aflição de seu povo, teve compaixão dele e decidiu salvá-lo do opressor (Ex3,7-9). Ambos, princesa e Deus, mostram uma grande preocupação com a pessoa necessitada, uma grande compaixão pela pessoa que sofre: duas atitudes do coração que os encorajam a realizar uma ação libertadora a favor do pobre, do pequeno, do indefeso, do oprimido.

e) O encontro desejado

E em Ex 2,7 acontece o encontro entre a irmã do menino e a filha do Faraó, um encontro já preparado de antemão. Em um primeiro momento, parece que a iniciativa de salva o menino tenha saído da princesa. Contudo, não foi assim.

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7 M. NAVARRO- C. BERNABÉ, Distintas y distinguidas. Mujeres em la Bíblia y e la historia (Debora 3), Madrid, Publicações Carmelitas 1995, 36-37.

Miriam chegou perto da filha do Faraó e lhe fez uma pergunta que, na verdade, era uma sugestão para resolver a situação: “Queres que busque para ti entre as mulheres dos hebreus uma ama de leite para amamentar o menino para ti?” Deste modo tão sutil, Miriam prepara o encontro da mãe com seu filho. A repetição da expressão “para ti” depois do verbo buscar e amamentar faz pensar em uma pessoa que está a serviço de outra (a irmã do menino a serviço da princesa). Na realidade, contudo, os dois “para ti” são “para nós” (para mim e para minha mãe). Em outras palavras, a solução que a irmã propôs é adequada para todos. Assim, graças a sua irmã maior, Moisés foi salvo da morte.

A princesa aceita a sugestão sem oscilar e responder à sua maneira: “Ve” (Ex 2,8a). Fica claro que as duas ações da irmã, ficar observando de longe e procurar uma ama de leite determinam o destino de Moisés. Vejamos o que diz agora o texto: “A jovens então foi e chamou a mãe do menino” (Ex 2,8b). Percebemos uma fina ironia na expressão “a mãe do menino”, porque a ama de leite dos hebreus é na realidade a mãe biológica do menino.

f) O final feliz

Depois desta inteligente intervenção, Miriam desaparece completamente da historia e a partir deste momento os acontecimentos acontecem rapidamente. A ironia do narrador se conde, como veremos, atrás de cada palavra. Em primeiro lugar, a princesa decide pagar certa quantidade para a mãe do menino como compensação pelo trabalho de amamentá-lo. A mãe não fala, mas aceita (supomos alegremente!) a ordem da princesa e cria o menino. Podemos dizer que de certo modo, Moisés é adotado e de fato recebe o nome de sua mãe adotiva 8. Seja como for, o libertador do povo de Israel foi criado na mesma casa do opresor, no palácio do Faraó do Egito, sob a custódia de sua filha, a princesa.

A história tem um final feliz graças a mulher sem nome, uma mulher que aparece de na pontas dos pés no cenário bíblico, sem uma genealogia que a proteja, sem um anuncio de seu nascimento nem um ritual para lhe por um nome. Aparece em silêncio e contempla a cena de longe. Com sua palavra sábia e oportuna consegue que duas mães, completamente distintas uma da outra, se unam para conseguir o mesmo objetivo: salvar a vida de um recém nascido. Uma vez terminada sua missão, nossa protagonista desaparece em silêncio. Humanamente falando, a historia do Êxodo deve seu principio não a Moisés e sim a Miriam e a esperança, esperança de vida par ao menino, para sua família, para o povo de Israel, e por último, para todo nós que ainda hoje nos deixamos surpreender por esta historia de esperança e por sua extraordinária protagonista.

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8 Se discute sobre a legitimidade de uma tal adoção e também sobre o nome do menino, já que o nome de Moisés é egípcio, mas sua explicação (salvo das águas), é feita a partir da etimologia hebréia.

5- Miriam e Maria de Nazaré

Façamos agora um salto no tempo. Séculos mais tarde nascerá outra filha de Israel, também chamada Miriam: Maria de Nazaré, uma jovem judia, que conceberá e dará a luz ao salvador do mundo.

Os evangelhos falam pouco de Maria. A encontramos nos “evangelhos da infância” principalmente em Lucas (Mateus se centra mais na figura de José) e também no evangelho de João (nas bodas de Caná e aos pés da cruz). Maria está presente nos momentos cruciais da vida de Jesus (o nascimento, o inicio do mistério público, a morte na cruz). O mesmo acontece com Miriam e Moisés: ela está presente quando seu irmão ainda é um recém nascido (Ex 2), e no acontecimento mais importante de sua vida: a travessia do Mar Vermelho (Ex 15), e também na dura experiência do deserto (Num 12). Os evangelhos calam sobre a morte de Maria. A morte de Miriam, ao contrário, só se conservou a notícia (Num 20).

Miriam e Maria de Nazaré são duas mulheres que se deixaram guiar pelo espírito do Senhor e tiveram a coragem de realizar uma missão na historia de seu povo, uma missão arriscada, mas decisiva. Ambas estão unidas ao destino de um menino (Moisés e Jesus), destinado a ser salvador do povo, no caso de Moisés e salvador do mundo no caso de Jesus. Ambas estão unidas pelo sofrimento que lhes causa o menino (sua infância, sua educação, seu futuro...). Ambas tiveram que escapar de uma perseguição contra os inocentes (Miriam foge do Egito por causa do Faraó e Maria foge em direção ao Egito por causa de outro Faraó, Herodes). Ambas tiveram que esperar em silêncio confiando no Senhor e sem entender ao certo a lógica dos acontecimentos. Além disso, tanto uma como a outra tiveram que sofrer a incompreensão da parte do irmão e do filho (pensemos no episódio das murmurações no deserto e o castigo da lepra para Miriam ou na cena de Jesus perdido e encontrado no templo para Maria).

Mulheres de ação, poucas palavras e grande esperança. Falaram somente quando foi necessário. Em um mundo que nos oferece tantos motivos para nos desesperar, estas duas mulheres nos indicam uma alternativa possível. São mulheres de esperança e sabem mostrá-la aos seus, seu povo, a história, ao mundo. Além disso, a mostram com admiração, louvor e gratidão: Miriam cantou junto a outras mulheres o Canto do Mar e Maria cantou o Magnificat.

6- E nós, somos homens e mulheres de esperança?

Chegou o momento de refletir sobre nossa vida à luz do texto bíblico que levamos em consideração. Para mim, mais que uma reflexão tranqüila e bem ordenada, a leitura do segundo capítulo do livro do Êxodo me levantou um monte de perguntas impetuosas e rebeldes que não se deixam encerrar em nenhum esquema preconcebido. É como se jorrassem do texto e brigassem para abandoná-lo e entrar em nossas vidas, não necessariamente pela entrada principal, mas pelo menos por um resquício de porta, por uma janela entreaberta, por uma fenda esquecida. Me atrevo a apresentá-las assim como chegaram, sem ordem nem concerto, com o desejo profundo de que nos ajudem a esperar ativamente, nos encorajem a construir esperança e transmiti-la ao nosso mundo de hoje, um mundo que vive encurralado pelo medo, insegurança e incertezas diante do futuro.

Nossos pensamentos, palavras e ações são a favor da vida ou da morte? Temos medo de perder o poder, o controle, o pequeno reino que criamos? A vida dos outros nos preocupa mais que a nossa? Somos solidários com os outros ou isso nos custa? Temos sagacidade, presteza, humor para catalisar as palavras venenosas e responder ao mal com o bem? Sabemos esperar com paciência o momento oportuno? Sabemos contemplar de longe antes de começarmos a agir? Nossa compaixão se traduz em ações concretas e eficazes ou em palavras e sentimentos? Aplicamos nossa inteligência e sagacidade para ajudar os outros? Temos ideias, planos, iniciativas ou deixamos que a inércia e a preguiça nos vençam? Somos homens e mulheres de esperança ou vivemos de ilusões? Em que se baseia nossa esperança ou falta de esperança?... Somos capazes, apesar de todos os pesares, de entoar um cântico? Qual é a nossa palavra de esperança e de salvação?

Convido-lhes a pensar e escrever seu cântico (para cada um ou para a congregação).