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terça-feira, 21 de abril de 2015
CARMELITAS: Encontro Vocacional em São Paulo.
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CARMELITAS: Encontro Vocacional em São Paulo.
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segunda-feira, 20 de abril de 2015
OLHAR EDITORIAL: A Teimosia de Tiradentes.
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'Os demônios do Demônio', por Eduardo Galeano
Muçulmanos, judeus, mulheres,
homossexuais, índios, negros, estrangeiros e pobres: em ensaio de 2005, Eduardo
Galeano discorre sobre as diferentes faces do Demônio, descritas pela antítese
de cada um desses 'anjos do mal'. O artigo foi publicado por Le Monde
Diplomatique e republicado por Le Monde Diplomatique Montevidéu, 13-04-2015.
O
Demônio é mulçumano
A experiência prova que a ameaça do
inferno é sempre mais eficaz que a promessa do Céu.
Benditos
sejam os inimigos.
Dante já sabia que Maomé era terrorista.
Por alguma razão o colocou em um dos círculos do inferno, condenado à pena de
prisão perpétua. “O vi partido”, celebrou o poeta em A Divina Comédia , “desde
a barba até a parte inferior do ventre...”. Mais de um Papa já tinham
comprovado que as hordas muçulmanas, que atormentavam a Cristandade, não eram
formadas por seres de carne e osso, eram um grande exército de demônios que
aumentava quanto mais sofria com os golpes das lanças, das espadas e dos
arcabuzes.
Hoje em dia, os mísseis fabricam muito
mais inimigos que os inimigos das entranhas. Porém, que seria de Deus, afinal
de contas, sem inimigos? O medo impera, as guerras existem para desbaratar o
medo. A experiência prova que a ameaça do inferno é sempre mais eficaz que a
promessa do Céu. Benditos sejam os inimigos. Na Idade Média, cada vez que o
trono tremia, por bancarrota ou fúria popular, os reis cristãos denunciavam o
perigo muçulmano, desatavam o pânico, lançavam uma nova Cruzada, o santo
remédio. Agora, há pouco tempo, George W. Bush foi reeleito presidente do
planeta graças o oportuno aparecimento de Bin Laden, o grande Satã do reino,
que as vésperas das eleições anunciou, pela televisão, que ia comer todas as
crianças.
Lá pelo ano de 1564, o especialista em
demonologia Johann Wier teria contado os demônios que estavam trabalhando na
terra, a tempo integral, a favor da perdição das almas cristãs. Eram sete
milhões quatrocentos e nove mil cento e vinte sete, que agiam divididos em
setenta e nove legiões.
Muita água fervente passou, depois daquele
censo, debaixo das pontes do inferno. Quantos são, hoje em dia, os enviados do
reino das trevas? As artes do teatro dificultam as contas. Estes falsos
continuam usando turbantes, para ocultar seus cornos, e longas túnicas tampam
os rabos do dragão, suas asas de morcego e a bomba que carregam debaixo do
braço.
O
Demônio é judeu
A colossal carnificina organizada por
Hitler culminou uma longa história de perseguição e humilhação.
Hitler não inventou nada. Há mil anos,
os judeus são os imperdoáveis assassinos de Jesus e os culpados de todas as
culpas. Como? Jesus era judeu? E judeus eram também os doze apóstolos e os
quatro evangelistas? O que você disse? Não pode ser. As verdades reveladas
estão além das dúvidas e não exigem mais evidências do que a própria
existência. As coisas são como se diz que são, e se diz porque se sabe: nas
sinagogas o Demônio dá aulas, e os judeus desde há muito se dedicam a profanar
hóstias e a envenenar águas bentas. Por causa deles aconteceram bancarrotas
econômicas, crises financeiras e derrotas dos militares; são eles que trouxeram
a febre amarela e a peste negra e todas as outras pestes.
A Inglaterra os expulsou, nenhum
escapou, no ano de 1290, porém isso não impediu Chaucer, Marlowe e Shakespeare,
que nunca tinham visto um judeu, fossem obedientes à caricatura tradicional e
reproduzissem personagens judeus segundo o modelo satânico de parasita
sanguessuga e o avaro usurário. Acusados de servir ao Maligno, estes malditos
andaram durante séculos de expulsão em expulsão e de matança em matança. Depois
da Inglaterra foram sucessivamente expulsos da França, Áustria, Espanha,
Portugal e de numerosas cidades suíças, alemães e italianos. Os reis católicos
Izabel e Fernando expulsaram os judeus e também os muçulmanos porque sujavam o
sangue. Os judeus haviam vivido na Espanha durante treze séculos. Levaram com
eles as chaves de suas casas. Há quem as guardem ainda. Nunca mais voltaram.
A colossal carnificina organizada por
Hitler culminou uma longa história de perseguição e humilhação. A caça aos
judeus tem sido sempre um esporte europeu. Agora, os palestinos, que jamais a
praticaram, pagam a culpa.
O
Demônio é mulher
“Toda a bruxaria provém da luxúria
carnal, que nas mulheres é insaciável”.
O livro Malleus Maleficarum, também
chamado O martelo das bruxas, recomenda o mais ímpio exorcismo contra o demônio
que tem seios e cabelos compridos.
Dois inquisidores alemães, Heinrich
Kramer e Jakob Sprenger, o escreveram, a pedido do Papa Inocêncio VIII, para
enfrentar as conspirações demoníacas contra a Cristandade. Foi publicado pela
primeira vez em 1486 e até o final do século XVIII foi o fundamento jurídico e
teológico dos tribunais da Inquisição em vários países.
Os autores afirmavam que as bruxas, do
harém de Satanás, representavam as mulheres em estado natural: “Toda bruxaria
provém da luxúria carnal, que nas mulheres é insaciável”. E demonstravam que
“esses seres de aspecto belo, cujo contato é fétido e a companhia mortal”
encantavam os homens e os atraíam com silvos de serpentes, rabos de escorpião,
para aniquilá-los. Os autores advertiam aos incautos: “A mulher é mais amarga
que a morte. É uma armadilha. Seu coração, uma rede; e correias, seus braços”.
Esse tratado de criminologia, que enviou
milhares de mulheres às fogueiras da Inquisição, aconselhava que todas as
suspeitas de bruxaria fossem submetidas à tortura. Se confessassem, mereceriam
o fogo. Se não confessassem também, porque só uma bruxa, fortalecida por seu
amante, o Demônio, nos conciliábulos das bruxas, poderia resistir a semelhante
suplício sem soltar a língua.
O papa Honório III sentenciara que o
sacerdócio era coisa de machos: - As mulheres não devem falar. Seus lábios têm
o estigma de Eva, que provocou a perdição dos homens.
Oito séculos depois, a Igreja Católica
continua negando o púlpito às filhas de Eva.
O mesmo pânico faz com que os mulçumanos
fundamentalistas as mutilem o sexo e lhes cubram a cara.
E o alívio pelo perigo conjurado leva os
judeus mais ortodoxos a começar o dia sussurrando: “Graças, Senhor, por não me
ter feito mulher”.
O
Demônio é homossexual
Em nenhum lugar do mundo se levou em
conta os muitos homossexuais condenados ao suplício ou a morte pelo delito de
sê-lo.
Desde 1446, os homossexuais iam para a
fogueira em Portugal. Desde 1497 eram queimados vivos na Espanha. O fogo era o
destino merecido pelos filhos do inferno, que surgiam do fogo.
Na América, ao contrário, os
conquistadores preferiam jogá-los aos cachorros. Vasco Núnez de Balboa, que
entregou muitos deles para a refeição dos cães, acreditava que a
homossexualidade era contagiosa. Cinco séculos depois, ouvi o Arcebispo de
Montevidéu dizer o mesmo. Quando os conquistadores apontaram no horizonte, só
os astecas e os incas, em seus impérios teocráticos, castigavam a
homossexualidade com a pena de morte. Os outros americanos a toleravam e em
alguns lugares a celebravam, sem proibição ou castigo.
Essa provocação insuportável devia
desencadear a cólera divina. Do ponto de vista dos invasores, a varíola, o
sarampo e a gripe, pestes desconhecidas que matavam índios como moscas, não
vinham da Europa, mas sim do Céu. Assim, Deus castigava a libertinagem dos
índios que praticavam a anormalidade com toda a naturalidade.
Nem na Europa, nem na América, nem em
nenhum lugar do mundo se levou em conta os muitos homossexuais condenados ao
suplício ou a morte pelo delito de sê-lo. Nada sabemos dos longínquos tempos e
pouco ou nada sabemos dos tempos de agora.
Na Alemanha nazista, estes “degenerados
culpados de aberrante delito contra a natureza” eram obrigados a exibir a
estrela amarela. Quantos foram para os campos de concentração? Quantos lá
morreram? Dez mil? Cinqüenta mil? Nunca se soube. Ninguém os contou, quase
ninguém os mencionou. Tampouco se soube quantos foram os ciganos exterminados.
No dia 18 de setembro de 2002, o governo
alemão e os bancos suíços resolveram “retificar a exclusão dos homossexuais
entre as vítimas do Holocausto”. Levaram mais de meio século para corrigir essa
omissão. A partir dessa data os homossexuais que tinham sobrevivido em
Auschwitz e em outros campos, se é que ainda haja algum vivo, puderam reclamar
uma indenização.
O
Demônio é índio
Os conquistadores cumpriram a missão de
devolver a Deus o ouro, a prata e outras várias riquezas que o Demônio havia
usurpado.
Os conquistadores descobriram que Satã,
quando expulso da Europa, tinha encontrado refúgio na América. Nas ilhas e nas
praias do mar do Caribe, beijadas dia e noite por seus lábios flamejantes,
habitadas por seres bestiais que andavam nus, tal como o Demônio os havia
colocado no mundo, que cultuavam o sol, a terra, as montanhas, os mananciais e
outros demônios disfarçados de deuses, que chamavam de jogo ao pecado carnal e
o praticavam sem horário nem contrato, que ignoravam os dez mandamentos e os
sete sacramentos e os sete pecados capitais, que não conheciam a palavra pecado
nem temiam o inferno, que não sabiam ler nem tinham nunca ouvido falar do
direito de propriedade, nem de nenhum direito e que, como se tudo isso fosse
pouco, tinham o costume de comerem uns aos outros. E crus.
A conquista da América foi uma longa e
difícil tarefa de exorcismo. Tão arraigado estava o Demônio nestas terras, que
quando parecia que os índios se ajoelhavam devotamente ante a Virgem, estavam
na realidade adorando a serpente que ela amassava com o pé; e quando beijavam a
Cruz não estavam reconhecendo ao Filho de Deus, mas estavam celebrando o
encontro da chuva com a terra.
Os conquistadores cumpriram a missão de
devolver a Deus o ouro, a prata e outras várias riquezas que o Demônio havia
usurpado. Não foi fácil recuperar o tesouro. Ainda bem que de vez em quando
recebiam alguma pequena ajuda de lá de cima. Quando o dono do inferno preparou
uma emboscada em um desfiladeiro, para impedir a passagem dos espanhóis em
busca da prata de Cerro Rico de Potosi, um arcanjo baixou das alturas e lhe deu
uma tremenda surra.
O
Demônio é negro
Supunha-se que a leitura da Bíblia podia
facilitar a viagem dos africanos do inferno para o paraíso, mas a Europa
esqueceu de ensiná-los a ler.
Como a noite, como o pecado, o negro é
inimigo da luz e da inocência.
Em seu célebre livro de viagens, Marco
Pólo fala dos habitantes de Zanzibar. “Tinham uma boca muito grande, lábios muito
grossos e nariz como o de um macaco. Caminhavam nus, totalmente negros e para
quem de qualquer outra região que os visse acreditaria que eram demônios”.
Três séculos depois, na Espanha,
Lúcifer, pintado de negro, trepado numa carroça em chamas, entrava nos pátios
das comédias e nos palcos das feiras. Santa Tereza de Jesus, que viveu para
combatê-lo, apesar disso nunca pode entendê-lo. Uma vez ficou ao lado e viu “um
negrinho abominável”. Outra vez ela viu que do seu corpo negro saía uma chama
vermelha, quando se sentou em cima de seu livro de orações e queimou os textos
do ofício religioso.
Uma breve história do intercâmbio entre
África e Europa: durante os séculos XVI, XVII e XVIII, a África vendia escravos
e comprava fuzis. Trocava trabalho pela violência. Os fuzis punham ordem no
caos infernal e a escravidão iniciava o caminho da redenção. Antes de serem
marcados com ferro quente, na cara e no peito, todos os negros recebiam uma boa
unção de água benta. O batismo espantava o demônio e dava alma a esses corpos
vazios. Depois, durante os séculos XIX e XX, a África entregava ouro,
diamantes, cobre, marfim, borracha e café e recebia Bíblias. Trocava produtos
por palavras. Supunha-se que a leitura da Bíblia podia facilitar a viagem dos
africanos do inferno para o paraíso, mas a Europa esqueceu de ensiná-los a ler.
O
Demônio é estrangeiro
O imigrante está disponível para ser
acusado como responsável pelo desemprego, a queda do salário, a insegurança
pública e outras temíveis desgraças.
O “culpômetro” indica que o imigrante
vem roubar-nos o emprego e o “perigosímetro” acende a luz vermelha. Se for
pobre, jovem e não for branco, o intruso, que veio de fora, está condenado, a
primeira vista, por indigência, inclinação ao tumulto ou por ter aquela pele.
De qualquer maneira, se não é pobre, nem jovem, nem escuro, deve ser mal
recebido, porque chega disposto a trabalhar o dobro em troca da metade.
O pânico diante da perda do emprego é um
dos medos mais poderosos entre todos os medos que nos governam nestes tempos de
medo. E o imigrante está sempre disponível para ser acusado como responsável
pelo desemprego, a queda do salário, a insegurança pública e outras temíveis
desgraças.
Em outros tempos, a Europa distribuía
para o mundo soldados, presos e camponeses mortos de fome. Estes protagonistas
das aventuras coloniais passaram à história como agentes viajantes de Deus. Era
a Civilização lançada nos braços da barbárie.
Agora a viagem se faz na contramão. Os
que chegam, ou tentam chegar do sul em direção ao norte, não trazem nenhuma
faca entre os dentes nem fuzil no ombro. Vêm de países que foram oprimidos até
a última gota de seu sugo e não têm a intenção de conquistar nada além de um
trabalho ou trabalhinho. Esses protagonistas das desventuras parecem, muito
mais, mensageiros do Demônio. É a barbárie que toma de assalto a Civilização.
O
Demônio é pobre
Os bens de poucos sofrem a ameaça dos
males de muitos.
Se lambem enquanto você come, espiam
enquanto você dorme: os pobres espreitam. Em cada um se esconde um delinqüente,
talvez um terrorista. Os bens de poucos sofrem a ameaça dos males de muitos.
Nada de novo. Tem sido assim desde quando os donos de tudo não conseguem dormir
e os donos de nada não conseguem comer.
Submetidas a um acossamento durante
milhares de anos, as ilhas da decência estão encurraladas pelos turbulentos
mares da vida desgraçada. Rugem as ondas sucessivas que forçam viver em
sobressalto perpétuo. Nas cidades de nosso tempo, imensos cárceres que prendem
os prisioneiros ao medo, as fortalezas dizem ser casas e as armaduras simulam
ser trajes.
Estado de sítio. Não se distraia, não
baixe a guarda, desconfie: você está estatisticamente marcado, mais cedo ou
mais tarde terá que sofrer algum assalto, seqüestro, violação ou crime. Nos
bairros malditos espreitam, ocultos, remoendo invejas, tragando rancores, os
autores de sua próxima desgraça. São vagabundos, pobres diabos, bêbados,
drogados, carne de cárcere ou bala, pessoas sem dentes, sem rumo e sem destino.
Ninguém os aplaude, porém os ladrões de
galinha fazem o que podem imitando, modestamente, os mestres que ensinam ao
mundo as fórmulas do êxito. Ninguém os compreende, porém eles aspiram serem
cidadãos exemplares, como esses heróis de nosso tempo que violam a terra,
envenenam o ar e a água, estrangulam salários, assassinam empregos e sequestram
países. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br
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Tranca Rua
A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 858. A RCC e o diabo.
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domingo, 19 de abril de 2015
OLHAR EDITORIAL: Quem vai morrer neste feriado?
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sábado, 18 de abril de 2015
Na Amazônia há 55 anos, padre atende pacientes usando medicina da floresta
Aos 88 anos, o padre e médico autodidata
italiano Paolino Baldassari abre seu consultório de segunda a sexta-feira para
atender a doentes que lotam a antessala, em Sena Madureira (a 140 km de Rio
Branco, no Acre). Um por um, ouve os sintomas, faz perguntas e embrulha os
comprimidos dados gratuitamente na receita que escreve com orientações
nutricionais e chás. Com experiência de mais de meio século na Amazônia,
incluindo 84 malárias e viagens de até seis meses pela mata, o padre Paolino
afirma que o gado está destruindo a floresta e que os pobres “hoje são
acomodados”.
Estou no Brasil desde 1950. Primeiro, fiquei
em São Paulo, onde estudei teologia na PUC por quatro anos. Depois, fui ser
professor perto de Araranguá (SC), mas me botaram para fora porque era duro
demais. Fiquei um ano. Fizeram uma festa quando saí, porque eu só dava zero,
zero, zero.
De lá, fui ser padre na Amazônia. A
primeira cidade foi Brasileia (AC). Naquele tempo, era mato, mato. O bispo
disse: “Não pense que está na Itália, que o padre tem escritório. Não, não.
Lembre-se de que o seu povo está no interior. Portanto, não faça o ninho na cidade”.
Não tinha onde dormir, me botaram na
casa do prefeito. Cada família me mandava marmita durante uma semana. Eles
preparavam a minha comida e eu, no fim do mês, agradecia. Tinha gente que era
muito pobre. Eu dizia que não gostava de galinha, para não matarem a galinha
pra mim. Queria comer como a gente comia. Para ser igual.
De Brasileia, vim pra Sena Madureira em
1963, pelo rio. Levei um tempão. Rio Acre, Purus, e depois o rio Iaco.
Por muitos anos, fiz os desobrigas
[viagens a seringais, aldeias indígenas e comunidades ribeirinhas para celebrar
batismo, casamentos e outras cerimônias]. Fazia ciclos de dois anos. Primeiro,
seis meses no rio Purus. Depois, voltava a Sena Madureira por seis meses. Em
seguida, mais seis meses no rio Iaco e outros seis meses na cidade e tudo
recomeçava.
Eu sofria muito no desobriga. Peguei 84
malárias. Tive muita infecção intestinal.
Sempre que voltava de um desobriga,
fazia exame. Pra malária e verme, ganhei o campeonato.
MEDICINA
Na Itália, fiz um cursinho de
enfermeiro. Aqui, encontrei uma região pobre, cheia de lepra, malária e febre
amarela. Aí, comecei a aprender sobre medicina da floresta e consegui montar um
laboratório em Sena Madureira.
No começo, atendia 130 pessoas por dia.
Depois, por causa da minha saúde, veio uma ordem de não atender mais de 60.
Agora, atendo apenas 20, 25 por dia. Eu não sou médico prático, me deram o
título de doutor honoris causa na Universidade Federal do Acre.
Durante as viagens, tive a ideia de fazer
escolas. Encontrava algumas pessoas vindas do Nordeste que sabiam ler. Eu
dizia: “Você ensina ao menos a ler. Se sabe escrever, ensine a escrever
também”.
Foram talvez umas cem escolas, em todo
lugar fazia escolas de madeira. Nos rios, nos seringais, nas estradas.
Essas escolas acabaram. Derrubou a mata,
acabou a gente. Não é como o seringal. Para derrubar a mata, havia uns 500
peões. Quando acabava a mata, pronto, mandavam todos embora. No seringal, não,
alguns tinham mil pessoas. O seringalista é um pai em comparação com os
fazendeiros.
Aqui, a madeira e a venda de terras
acabaram com a mata. Escrevi para vários presidentes. O primeiro foi o Itamar
Franco, suplicando que desse alguma coisa, porque estava um desastre de fome.
Muitos vieram para as margens do rio e
plantavam feijão, arroz. Depois, começaram a descobrir o valor do gado. Agora,
todo mundo tem gado. Mas com o perigo de destruir a mata. Porque o gado quer
mata, mas essa terra não dá para o gado nem para a agricultura. Essa terra é
boa por três anos. Depois, é uma terra dura, dura.
A solução? Mecanizar a parte que já está
destruída.
AJUDA
O governo fez tudo para os pobres, hoje
dá dinheiro para ir para a aula. Infelizmente, o pobre se acomoda. Vive do
governo, vive de esmola. Antes, eram escravos e hoje são acomodados. A ideia do
Bolsa Família é muito boa, tirou mesmo gente da miséria. Mas, por outro lado,
abriu uma porta para a gente não fazer nada. É difícil.
Quando fazia escola, era combatido pelos
patrões e pelas autoridades. Agora que tenho quase 89 anos, eles compreenderam
que a escola é um marco bom. Por isso, digo: eu me arrependo de ter feito o
mal, mas não o bem. Eu fiz o bem.
Fonte:
Folha de São Paulo (http://amazonia.org.br).
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CAMPO LIMPO/SP: Missa com Frei Petrônio.
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A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 857. Anunciar o Ressuscitado.
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A PALAVRA... Nº 852. As Santas Mulheres e a Páscoa,
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A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 854. Maria e a Ressurreição.
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sexta-feira, 17 de abril de 2015
A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO. Nº 855. Papagaio do Facebook.
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quinta-feira, 16 de abril de 2015
AO VIVO-01: A Palavra do Frei Petrônio, Carmelita.
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A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO
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REPORTAGEM DO OLHAR: Ilha da Gipóia em Angra.
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BIOGRAFIAS DO OLHAR: Frei Geraldo Bezerra.
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terça-feira, 14 de abril de 2015
A PALAVRA... Nº 852. As Santas Mulheres e a Páscoa,
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“A Teologia da Libertação é uma carta de amor a Deus, à Igreja e ao povo”, afirma Gustavo Gutiérrez
É tão baixinho que mal pode ser visto no
palco, mas quando toma a palavra, se agiganta e converte-se em um ícone.
Gustavo Gutiérrez participou, na quarta-feira 08 de abril, da apresentação do
livro A Igreja pobre e para os pobres,
do cardeal Müller, com prólogo do Papa e uma colaboração especial do
‘pai da Teologia da Libertação’. Com linguagem simples, ao alcance de todos,
recordou, entre outras coisas, que a Teologia da Libertação é “uma carta de
amor a Deus, à Igreja e ao povo” e, talvez por isso, está mais viva do que
nunca. A reportagem é de José Manuel Vidal e publicado por Religión Digital,
08-04-2015. A tradução é de André Langer.
No grande salão de eventos do Colégio
Nossa Senhora de Belém, em Lima, não cabia mais sequer um alfinete. Calculo que
havia em torno de 1.000 pessoas. Toda a Lima da Igreja das periferias. Algo que
também aqui [em Lima, no Peru] não é muito habitual. “Fazia tempo que não via
tanta gente em torno de Gustavo. Tiveste muita sorte”, dizia, ao meu lado, o
Pe. Gastón Garatea, outro líder desta sensibilidade eclesial.
Entre as personagens presentes, além de
Garatea, estava o bispo jesuíta Luis Bambarén, emérito, ou o ex-ministro da
Justiça Fernández Sesaredo. Entre o público, gente de idade, mas também de
mediana idade e inclusive muitos jovens. Nota-se no ambiente que após anos de
sofrimento e até de “martírio”, o pontificado de Francisco voltou a lhes dar
asas.
Foi o que disse claramente o missionário
espanhol do IEME, Andrés Gallegos: “O sonho de Francisco de uma Igreja pobre e
para os pobres é realizado por todos os que estão aqui e faz parte de uma longa
história de alegria e de sofrimentos”.
Na sua opinião, neste processo, pode-se
falar inclusive de “experiências de martírio”. Desde a de dom Romero, às de
“outros mártires que deram a sua vida no dia a dia, gota a gota e pouco a
pouco”. Porque também na Igreja de Lima, assim como na da Espanha, a opção por
este modelo eclesial de Igreja aberta à misericórdia e aos pobres provocou
muitas perseguições.
Aqui, de fato, comparam a situação que
viveram (e, em certo sentido, ainda vivem) com o cardeal Cipriani, com a do
cardeal Rouco em Madri. E falam de “duas almas cardinalícias gêmeas, que
trataram de impor por meio do controle o velho modelo da Igreja do poder. Com a
diferença de que vocês já se livraram dele e nós continuamos sofrendo”.
Antes de Andrés Gallegos, interveio na
apresentação, o jesuíta Alberto Simons e, depois, a irmã Glafira Jiménez. O
professor jesuíta defendeu a opção pelos pobres e assinalou que “um dos maiores
sinais de credibilidade do Deus de Jesus é optar pelos pobres” e, portanto, “a
Igreja só será fiel ao Deus de Jesus se for pela opção preferencial pelos
pobres”.
No mesmo sentido, a irmã Glafira, que
estudou teologia na Universidade de Comillas de Madri, destacou que “Deus é
inimigo da morte e de tudo aquilo que a provoca ou a antecipa”, e que “Jesus
nos chama para tornar os pobres visíveis, porque a opção preferencial pelos
pobres é uma maneira de fazer teologia e de seguir Jesus”.
Para finalizar o ato, a intervenção
esperada de Gustavo Gutiérrez, que começou recordando a sintonia do cardeal
Müller, seu amigo, com a essência da Teologia da Libertação, que é o coração
mesmo da mensagem cristã: “Que venha a nós o vosso Reino”, ou seja, que “venha
o seu Reino à história humana, porque a mensagem cristã é chamada a transformar
a História com justiça, liberdade, verdade, amor e igualdade”.
Porque, segundo Gutiérrez, a Teologia da
Libertação nasce da convergência de três processos: a situação da América
Latina nos anos 1960; a realização do Concílio e sua continuação na Conferência
de Medellín. Nos anos 60 aconteceu “a irrupção dos pobres na América Latina”.
João XXIII e o Concílio “falam da Igreja dos pobres”. E Medellín “faz parte,
para mim, do acontecimento conciliar”. “Nessa confluência de fatores situa-se a
Teologia da Libertação e, nesse processo, alimentam-se mutuamente”, explicou.
Gutiérrez quis deixar claro que, na sua
opinião, o Vaticano II não é um Concílio pastoral, como alguns tratam de
repetir à saciedade numa tentativa de anulá-lo. “O Vaticano II é o Concílio
mais teológico de todos da história da Igreja”.
Desde essa confluência com o Concílio,
“a Teologia da Libertação não descobriu os pobres, embora alguns creiam nisso,
nem propõe um tema novo; a única coisa que faz é propor o tema dos pobres de
uma maneira nova”. E o novo da Teologia da Libertação é “sua linguagem e a
tomada de maior consciência das causas e da complexidade da pobreza”.
A Teologia da Libertação é, pois, uma
teologia pastoral, na qual insiste muito o Papa Francisco, porque “a Teologia é
feita para ajudar as pessoas a viverem plenamente o Evangelho”. Por isso, está
cada vez mais na moda. Por isso, não pode morrer ou “ao menos, não me
convidaram para o enterro”.
Mais viva do que nunca na esteira de
Francisco. Por isso, o pai desta corrente teológica termina a sua intervenção
convidando os presentes para “acompanharem o Papa, como irmãos e companheiros
de caminhada, como ele mesmo disse no prólogo do livro”.
Ovação cerrada para o pequeno-grande
gênio teológico, do qual as pessoas se aproximam para abraçá-lo, fazer selfies
com ele, parabenizá-lo ou simplesmente agradecer-lhe por seu martírio incruento
ao longo de todos estes anos de marginalização e de tentativas de linchamento.
A ‘gárgula’, como aqui chamam ao cardeal Cipriani, “quis eliminá-lo da presença
pública eclesial, mas não conseguiu, porque a força dos pobres, que é a força
de Deus, está com ele”. E, agora, Francisco e até o conservador presidente da Congregação
para a Doutrina da Fé, o reabilitaram.
Fonte:
http://www.ihu.unisinos.br
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Artigos do Frei Petrônio de Miranda
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CARMELITAS DO RIO DE JANEIRO: Pascoela-2015. (2ª Parte)
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Bula “Rosto da Misericórdia”.
Papa Francisco ao entrar na Basílica de
São Pedro para a proclamação oficial do Ano Santo da Misericórdia.
1. Jesus Cristo é o rosto da
misericórdia do Pai. O mistério da fé cristã parece encontrar nestas palavras a
sua síntese. Tal misericórdia tornou-se viva, visível e atingiu o seu clímax em
Jesus de Nazaré. O Pai, « rico em misericórdia » (Ef 2, 4), depois de ter
revelado o seu nome a Moisés como « Deus misericordioso e clemente, vagaroso na
ira, cheio de bondade e fidelidade » (Ex 34, 6), não cessou de dar a conhecer,
de vários modos e em muitos momentos da história, a sua natureza divina. Na «
plenitude do tempo » (Gl 4, 4), quando tudo estava pronto segundo o seu plano
de salvação, mandou o seu Filho, nascido da Virgem Maria, para nos revelar, de
modo definitivo, o seu amor. Quem O vê, vê o Pai (cf. Jo 14, 9). Com a sua
palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa,[1]Jesus de Nazaré revela a
misericórdia de Deus.
2. Precisamos sempre de contemplar o
mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da
nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima
Trindade. Misericórdia: é o acto último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso
encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa,
quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida.
Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à
esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado.
3. Há momentos em que somos chamados, de
maneira ainda mais intensa, a fixar o olhar na misericórdia, para nos tornarmos
nós mesmos sinal eficaz do agir do Pai. Foi por isso que proclamei um Jubileu
Extraordinário da Misericórdia como tempo favorável para a Igreja, a fim de se
tornar mais forte e eficaz o testemunho dos crentes.
O Ano Santo abrir-se-á no dia 8 de
Dezembro de 2015, solenidade da Imaculada Conceição. Esta festa litúrgica
indica o modo de agir de Deus desde os primórdios da nossa história. Depois do
pecado de Adão e Eva, Deus não quis deixar a humanidade sozinha e à mercê do
mal. Por isso, pensou e quis Maria santa e imaculada no amor (cf. Ef 1, 4),
para que Se tornasse a Mãe do Redentor do homem. Perante a gravidade do pecado,
Deus responde com a plenitude do perdão. A misericórdia será sempre maior do
que qualquer pecado, e ninguém pode colocar um limite ao amor de Deus que
perdoa. Na festa da Imaculada Conceição, terei a alegria de abrir a Porta
Santa. Será então uma Porta da Misericórdia, onde qualquer pessoa que entre
poderá experimentar o amor de Deus que consola, perdoa e dá esperança.
No domingo seguinte, o Terceiro Domingo
de Advento, abrir-se-á a Porta Santa na Catedral de Roma, a Basílica de São
João de Latrão. E em seguida será aberta a Porta Santa nas outras Basílicas
Papais. Estabeleço que no mesmo domingo, em cada Igreja particular – na
Catedral, que é a Igreja-Mãe para todos os fiéis, ou na Concatedral ou então
numa Igreja de significado especial – se abra igualmente, durante todo o Ano
Santo, uma Porta da Misericórdia. Por opção do Ordinário, a mesma poderá ser
aberta também nos Santuários, meta de muitos peregrinos que frequentemente,
nestes lugares sagrados, se sentem tocados no coração pela graça e encontram o
caminho da conversão. Assim, cada Igreja particular estará directamente
envolvida na vivência deste Ano Santo como um momento extraordinário de graça e
renovação espiritual. Portanto o Jubileu será celebrado, quer em Roma quer nas
Igrejas particulares, como sinal visível da comunhão da Igreja inteira.
4. Escolhi a data de 8 de Dezembro,
porque é cheia de significado na história recente da Igreja. Com efeito,
abrirei a Porta Santa no cinquentenário da conclusão do Concílio Ecuménico
Vaticano II. A Igreja sente a necessidade de manter vivo aquele acontecimento.
Começava então, para ela, um percurso novo da sua história. Os Padres, reunidos
no Concílio, tinham sentido forte, como um verdadeiro sopro do Espírito, a
exigência de falar de Deus aos homens do seu tempo de modo mais compreensível. Derrubadas
as muralhas que, por demasiado tempo, tinham encerrado a Igreja numa cidadela
privilegiada, chegara o tempo de anunciar o Evangelho de maneira nova. Uma nova
etapa na evangelização de sempre. Um novo compromisso para todos os cristãos de
testemunharem, com mais entusiasmo e convicção, a sua fé. A Igreja sentia a
responsabilidade de ser, no mundo, o sinal vivo do amor do Pai.
Voltam à mente aquelas palavras, cheias
de significado, que São João XXIII pronunciou na abertura do Concílio para
indicar a senda a seguir: « Nos nossos dias, a Esposa de Cristo prefere usar
mais o remédio da misericórdia que o da severidade. (…) A Igreja Católica,
levantando por meio deste Concílio Ecuménico o facho da verdade religiosa,
deseja mostrar-se mãe amorosa de todos, benigna, paciente, cheia de
misericórdia e bondade com os filhos dela separados ».[2] E, no mesmo
horizonte, havia de colocar-se o Beato Paulo VI, que assim falou na conclusão
do Concílio: « Desejamos notar que a religião do nosso Concílio foi, antes de mais,
a caridade. (...) Aquela antiga história do bom samaritano foi exemplo e norma
segundo os quais se orientou o nosso Concílio. (…) Uma corrente de interesse e
admiração saiu do Concílio sobre o mundo actual. Rejeitaram-se os erros, como a
própria caridade e verdade exigiam, mas os homens, salvaguardado sempre o
preceito do respeito e do amor, foram apenas advertidos do erro. Assim se fez,
para que, em vez de diagnósticos desalentadores, se dessem remédios cheios de
esperança; para que o Concílio falasse ao mundo actual não com presságios
funestos mas com mensagens de esperança e palavras de confiança. Não só
respeitou mas também honrou os valores humanos, apoiou todas as suas
iniciativas e, depois de os purificar, aprovou todos os seus esforços. (…) Uma outra
coisa, julgamos digna de consideração. Toda esta riqueza doutrinal orienta-se
apenas a isto: servir o homem, em todas as circunstâncias da sua vida, em todas
as suas fraquezas, em todas as suas necessidades ».[3]
Com estes sentimentos de gratidão pelo
que a Igreja recebeu e de responsabilidade quanto à tarefa que nos espera,
atravessaremos a Porta Santa com plena confiança de ser acompanhados pela força
do Senhor Ressuscitado, que continua a sustentar a nossa peregrinação. O
Espírito Santo, que conduz os passos dos crentes de forma a cooperarem para a
obra de salvação realizada por Cristo, seja guia e apoio do povo de Deus a fim
de o ajudar a contemplar o rosto da misericórdia. [4]
5. O Ano Jubilar terminará na solenidade
litúrgica de Jesus Cristo, Rei do Universo, 20 de Novembro de 2016. Naquele
dia, ao fechar a Porta Santa, animar-nos-ão, antes de tudo, sentimentos de
gratidão e agradecimento à Santíssima Trindade por nos ter concedido este tempo
extraordinário de graça. Confiaremos a vida da Igreja, a humanidade inteira e o
universo imenso à Realeza de Cristo, para que derrame a sua misericórdia, como
o orvalho da manhã, para a construção duma história fecunda com o compromisso
de todos no futuro próximo. Quanto desejo que os anos futuros sejam permeados
de misericórdia para ir ao encontro de todas as pessoas levando-lhes a bondade
e a ternura de Deus! A todos, crentes e afastados, possa chegar o bálsamo da
misericórdia como sinal do Reino de Deus já presente no meio de nós.
6. « É próprio de Deus usar de
misericórdia e, nisto, se manifesta de modo especial a sua omnipotência ».[5]
Estas palavras de São Tomás de Aquino mostram como a misericórdia divina não
seja, de modo algum, um sinal de fraqueza, mas antes a qualidade da
omnipotência de Deus. É por isso que a liturgia, numa das suas colectas mais
antigas, convida a rezar assim: « Senhor, que dais a maior prova do vosso poder
quando perdoais e Vos compadeceis…»[6] Deus permanecerá para sempre na história
da humanidade como Aquele que está presente, Aquele que é próximo, providente,
santo e misericordioso.
« Paciente e misericordioso » é o
binómio que aparece, frequentemente, no Antigo Testamento para descrever a
natureza de Deus. O facto de Ele ser misericordioso encontra um reflexo
concreto em muitas acções da história da salvação, onde a sua bondade prevalece
sobre o castigo e a destruição. Os Salmos, em particular, fazem sobressair esta
grandeza do agir divino: « É Ele quem perdoa as tuas culpas e cura todas as
tuas enfermidades. É Ele quem resgata a tua vida do túmulo e te enche de graça
e ternura » (103/102, 3-4). E outro Salmo atesta, de forma ainda mais
explícita, os sinais concretos da misericórdia: « O Senhor liberta os
prisioneiros. O Senhor dá vista aos cegos, o Senhor levanta os abatidos, o Senhor
ama o homem justo. O Senhor protege os que vivem em terra estranha e ampara o
órfão e a viúva, mas entrava o caminho aos pecadores » (146/145, 7-9). E, para
terminar, aqui estão outras expressões do Salmista: « [O Senhor] cura os de
coração atribulado e trata-lhes as feridas. (...) O Senhor ampara os humildes,
mas abate os malfeitores até ao chão » (147/146, 3.6). Em suma, a misericórdia
de Deus não é uma ideia abstracta mas uma realidade concreta, pela qual Ele
revela o seu amor como o de um pai e de uma mãe que se comovem pelo próprio
filho até ao mais íntimo das suas vísceras. É verdadeiramente caso para dizer
que se trata de um amor « visceral ». Provém do íntimo como um sentimento
profundo, natural, feito de ternura e compaixão, de indulgência e perdão.
7. « Eterna é a sua misericórdia »: tal
é o refrão que aparece em cada versículo do Salmo 136, ao mesmo tempo que se
narra a história da revelação de Deus. Em virtude da misericórdia, todos os
acontecimentos do Antigo Testamento aparecem cheios dum valor salvífico
profundo. A misericórdia torna a história de Deus com Israel uma história da
salvação. O facto de repetir continuamente « eterna é a sua misericórdia »,
como faz o Salmo, parece querer romper o círculo do espaço e do tempo para
inserir tudo no mistério eterno do amor. É como se se quisesse dizer que o
homem, não só na história mas também pela eternidade, estará sempre sob o olhar
misericordioso do Pai. Não é por acaso que o povo de Israel tenha querido
inserir este Salmo – o « grande hallel », como lhe chamam – nas festas
litúrgicas mais importantes.
Antes da Paixão, Jesus rezou ao Pai com
este Salmo da misericórdia. Assim o atesta o evangelista Mateus quando afirma
que « depois de cantarem os salmos » (26, 30), Jesus e os discípulos saíram para
o Monte das Oliveiras. Enquanto instituía a Eucaristia, como memorial perpétuo
d’Ele e da sua Páscoa, Jesus colocava simbolicamente este acto supremo da
Revelação sob a luz da misericórdia. No mesmo horizonte da misericórdia, viveu
Ele a sua paixão e morte, ciente do grande mistério de amor que se realizaria
na cruz. O facto de saber que o próprio Jesus rezou com este Salmo torna-o,
para nós cristãos, ainda mais importante e compromete-nos a assumir o refrão na
nossa oração de louvor diária: « eterna é a sua misericórdia ».
8. Com o olhar fixo em Jesus e no seu
rosto misericordioso, podemos individuar o amor da Santíssima Trindade. A
missão, que Jesus recebeu do Pai, foi a de revelar o mistério do amor divino na
sua plenitude. « Deus é amor » (1 Jo 4, 8.16): afirma-o, pela primeira e única
vez em toda a Escritura, o evangelista João. Agora este amor tornou-se visível
e palpável em toda a vida de Jesus. A sua pessoa não é senão amor, um amor que
se dá gratuitamente. O seu relacionamento com as pessoas, que se abeiram d’Ele,
manifesta algo de único e irrepetível. Os sinais que realiza, sobretudo para
com os pecadores, as pessoas pobres, marginalizadas, doentes e atribuladas,
decorrem sob o signo da misericórdia. Tudo n’Ele fala de misericórdia. N’Ele,
nada há que seja desprovido de compaixão.
Vendo que a multidão de pessoas que O
seguia estava cansada e abatida, Jesus sentiu, no fundo do coração, uma intensa
compaixão por elas (cf. Mt 9, 36). Em virtude deste amor compassivo, curou os
doentes que Lhe foram apresentados (cf. Mt 14, 14) e, com poucos pães e peixes,
saciou grandes multidões (cf. Mt 15, 37). Em todas as circunstâncias, o que
movia Jesus era apenas a misericórdia, com a qual lia no coração dos seus
interlocutores e dava resposta às necessidades mais autênticas que tinham.
Quando encontrou a viúva de Naim que levava o seu único filho a sepultar,
sentiu grande compaixão pela dor imensa daquela mãe em lágrimas e entregou-lhe
de novo o filho, ressuscitando-o da morte (cf. Lc 7, 15). Depois de ter
libertado o endemoninhado de Gerasa, confia-lhe esta missão: « Conta tudo o que
o Senhor fez por ti e como teve misericórdia de ti » (Mc 5, 19). A própria
vocação de Mateus se insere no horizonte da misericórdia. Ao passar diante do
posto de cobrança dos impostos, os olhos de Jesus fixaram-se nos de Mateus. Era
um olhar cheio de misericórdia que perdoava os pecados daquele homem e,
vencendo as resistências dos outros discípulos, escolheu-o, a ele pecador e
publicano, para se tornar um dos Doze. São Beda o Venerável, ao comentar esta
cena do Evangelho, escreveu que Jesus olhou Mateus com amor misericordioso e
escolheu-o: miserando atque eligendo.[7] Sempre me causou impressão esta frase,
a ponto de a tomar para meu lema.
9. Nas parábolas dedicadas à
misericórdia, Jesus revela a natureza de Deus como a dum Pai que nunca se dá
por vencido enquanto não tiver dissolvido o pecado e superada a recusa com a
compaixão e a misericórdia. Conhecemos estas parábolas, três em especial: as da
ovelha extraviada e da moeda perdida, e a do pai com os seus dois filhos (cf.
Lc 15, 1-32). Nestas parábolas, Deus é apresentado sempre cheio de alegria,
sobretudo quando perdoa. Nelas, encontramos o núcleo do Evangelho e da nossa
fé, porque a misericórdia é apresentada como a força que tudo vence, enche o
coração de amor e consola com o perdão.
Temos depois outra parábola da qual
tiramos uma lição para o nosso estilo de vida cristã. Interpelado pela pergunta
de Pedro sobre quantas vezes fosse necessário perdoar, Jesus respondeu: « Não
te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete » (Mt 18, 22) e contou a
parábola do « servo sem compaixão ». Este, convidado pelo senhor a devolver uma
grande quantia, suplica-lhe de joelhos e o senhor perdoa-lhe a dívida. Mas,
imediatamente depois, encontra outro servo como ele, que lhe devia poucos
centésimos; este suplica-lhe de joelhos que tenha piedade, mas aquele recusa-se
e fá-lo meter na prisão. Então o senhor, tendo sabido do facto, zanga-se muito
e, convocando aquele servo, diz-lhe: « Não devias também ter piedade do teu
companheiro, como eu tive de ti? » (Mt 18, 33). E Jesus concluiu: « Assim
procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar ao seu irmão
do íntimo do coração » (Mt 18, 35).
A parábola contém um ensinamento
profundo para cada um de nós. Jesus declara que a misericórdia não é apenas o
agir do Pai, mas torna-se o critério para individuar quem são os seus
verdadeiros filhos. Em suma, somos chamados a viver de misericórdia, porque,
primeiro, foi usada misericórdia para connosco. O perdão das ofensas torna-se a
expressão mais evidente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um
imperativo de que não podemos prescindir. Tantas vezes, como parece difícil
perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis
mãos para alcançar a serenidade do coração. Deixar de lado o ressentimento, a
raiva, a violência e a vingança são condições necessárias para se viver feliz.
Acolhamos, pois, a exortação do Apóstolo: « Que o sol não se ponha sobre o
vosso ressentimento » (Ef 4, 26). E sobretudo escutemos a palavra de Jesus que
colocou a misericórdia como um ideal de vida e como critério de credibilidade
para a nossa fé: « Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia »
(Mt 5, 7) é a bem-aventurança a que devemos inspirar-nos, com particular
empenho, neste Ano Santo.
Na Sagrada Escritura, como se vê, a
misericórdia é a palavra-chave para indicar o agir de Deus para connosco. Ele
não Se limita a afirmar o seu amor, mas torna-o visível e palpável. Aliás, o
amor nunca poderia ser uma palavra abstracta. Por sua própria natureza, é vida
concreta: intenções, atitudes, comportamentos que se verificam na actividade de
todos os dias. A misericórdia de Deus é a sua responsabilidade por nós. Ele
sente-Se responsável, isto é, deseja o nosso bem e quer ver-nos felizes, cheios
de alegria e serenos. E, em sintonia com isto, se deve orientar o amor
misericordioso dos cristãos. Tal como ama o Pai, assim também amam os filhos.
Tal como Ele é misericordioso, assim somos chamados também nós a ser
misericordiosos uns para com os outros.
10. A arquitrave que suporta a vida da
Igreja é a misericórdia. Toda a sua acção pastoral deveria estar envolvida pela
ternura com que se dirige aos crentes; no anúncio e testemunho que oferece ao
mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia. A credibilidade da Igreja
passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo. A Igreja « vive um
desejo inexaurível de oferecer misericórdia ».[8] Talvez, demasiado tempo, nos
tenhamos esquecido de apontar e viver o caminho da misericórdia. Por um lado, a
tentação de pretender sempre e só a justiça fez esquecer que esta é apenas o
primeiro passo, necessário e indispensável, mas a Igreja precisa de ir mais
além a fim de alcançar uma meta mais alta e significativa. Por outro lado, é
triste ver como a experiência do perdão na nossa cultura vai rareando cada vez
mais. Em certos momentos, até a própria palavra parece desaparecer. Todavia,
sem o testemunho do perdão, resta apenas uma vida infecunda e estéril, como se
se vivesse num deserto desolador. Chegou de novo, para a Igreja, o tempo de
assumir o anúncio jubiloso do perdão. É o tempo de regresso ao essencial, para
cuidar das fraquezas e dificuldades dos nossos irmãos. O perdão é uma força que
ressuscita para nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com
esperança.
11. Não podemos esquecer o grande
ensinamento que ofereceu São João Paulo II com a sua segunda encíclica, a Dives
in misericordia, que então surgiu inesperada suscitando a surpresa de muitos
pelo tema que era abordado. Desejo recordar especialmente dois trechos. No
primeiro deles, o Santo Papa assinalava o esquecimento em que caíra o tema da
misericórdia na cultura dos nossos dias: « A mentalidade contemporânea, talvez
mais que a do homem do passado, parece opor-se ao Deus de misericórdia e, além
disso, tende a separar da vida e a tirar do coração humano a própria ideia da
misericórdia. A palavra e o conceito de misericórdia parecem causar mal-estar
ao homem, o qual, graças ao enorme desenvolvimento da ciência e da técnica nunca
antes verificado na história, se tornou senhor da terra, a subjugou e a dominou
(cf. Gn 1, 28). Um tal domínio sobre a terra, entendido por vezes unilateral e
superficialmente, parece não deixar espaço para a misericórdia. (...) Por esse
motivo, na hodierna situação da Igreja e do mundo, muitos homens e muitos
ambientes guiados por um vivo sentido de fé, voltam-se quase espontaneamente,
por assim dizer, para a misericórdia de Deus ».[9]
Além disso, São João Paulo II motivava
assim a urgência de anunciar e testemunhar a misericórdia no mundo
contemporâneo: « Ela é ditada pelo amor para com o homem, para com tudo o que é
humano e que, segundo a intuição de grande parte dos contemporâneos, está
ameaçado por um perigo imenso. O próprio mistério de Cristo (...) obriga-me
igualmente a proclamar a misericórdia como amor misericordioso de Deus,
revelada também no mistério de Cristo. Ele me impele ainda a apelar para esta
misericórdia e a implorá-la nesta fase difícil e crítica da história da Igreja
e do mundo ».[10] Tal ensinamento é hoje mais actual do que nunca e merece ser
retomado neste Ano Santo. Acolhamos novamente as suas palavras: « A Igreja vive
uma vida autêntica quando professa e proclama a misericórdia, o mais admirável
atributo do Criador e do Redentor, e quando aproxima os homens das fontes da
misericórdia do Salvador, das quais ela é depositária e dispensadora ».[11]
12. A Igreja tem a missão de anunciar a
misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve
chegar ao coração e à mente de cada pessoa. A Esposa de Cristo assume o
comportamento do Filho de Deus, que vai ao encontro de todos sem excluir
ninguém. No nosso tempo, em que a Igreja está comprometida na nova
evangelização, o tema da misericórdia exige ser reproposto com novo entusiasmo
e uma acção pastoral renovada. É determinante para a Igreja e para a
credibilidade do seu anúncio que viva e testemunhe, ela mesma, a misericórdia.
A sua linguagem e os seus gestos, para penetrarem no coração das pessoas e
desafiá-las a encontrar novamente a estrada para regressar ao Pai, devem
irradiar misericórdia.
A primeira verdade da Igreja é o amor de
Cristo. E, deste amor que vai até ao perdão e ao dom de si mesmo, a Igreja
faz-se serva e mediadora junto dos homens. Por isso, onde a Igreja estiver
presente, aí deve ser evidente a misericórdia do Pai. Nas nossas paróquias, nas
comunidades, nas associações e nos movimentos – em suma, onde houver cristãos
–, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia.
13. Queremos viver este Ano Jubilar à
luz desta palavra do Senhor: Misericordiosos como o Pai. O evangelista refere o
ensinamento de Jesus, que diz: « Sede misericordiosos, como o vosso Pai é
misericordioso » (Lc 6, 36). É um programa de vida tão empenhativo como rico de
alegria e paz. O imperativo de Jesus é dirigido a quantos ouvem a sua voz (cf.
Lc 6, 27). Portanto, para ser capazes de misericórdia, devemos primeiro pôr-nos
à escuta da Palavra de Deus. Isso significa recuperar o valor do silêncio, para
meditar a Palavra que nos é dirigida. Deste modo, é possível contemplar a
misericórdia de Deus e assumi-la como próprio estilo de vida.
14. A peregrinação é um sinal peculiar
no Ano Santo, enquanto ícone do caminho que cada pessoa realiza na sua
existência. A vida é uma peregrinação e o ser humano é viator, um peregrino que
percorre uma estrada até à meta anelada. Também para chegar à Porta Santa,
tanto em Roma como em cada um dos outros lugares, cada pessoa deverá fazer,
segundo as próprias forças, uma peregrinação. Esta será sinal de que a própria
misericórdia é uma meta a alcançar que exige empenho e sacrifício. Por isso, a
peregrinação há-de servir de estímulo à conversão: ao atravessar a Porta Santa,
deixar-nos-emos abraçar pela misericórdia de Deus e comprometer-nos-emos a ser
misericordiosos com os outros como o Pai o é connosco.
O Senhor Jesus indica as etapas da
peregrinação através das quais é possível atingir esta meta: « Não julgueis e
não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis
perdoados. Dai e ser-vos-á dado: uma boa medida, cheia, recalcada,
transbordante será lançada no vosso regaço. A medida que usardes com os outros
será usada convosco » (Lc 6, 37-38). Ele começa por dizer para não julgar nem
condenar. Se uma pessoa não quer incorrer no juízo de Deus, não pode tornar-se
juiz do seu irmão. É que os homens, no seu juízo, limitam-se a ler a
superfície, enquanto o Pai vê o íntimo. Que grande mal fazem as palavras,
quando são movidas por sentimentos de ciúme e inveja! Falar mal do irmão, na
sua ausência, equivale a deixá-lo mal visto, a comprometer a sua reputação e
deixá-lo à mercê das murmurações. Não julgar nem condenar significa,
positivamente, saber individuar o que há de bom em cada pessoa e não permitir
que venha a sofrer pelo nosso juízo parcial e a nossa pretensão de saber tudo.
Mas isto ainda não é suficiente para se exprimir a misericórdia. Jesus pede
também para perdoar e dar. Ser instrumentos do perdão, porque primeiro o
obtivemos nós de Deus. Ser generosos para com todos, sabendo que também Deus
derrama a sua benevolência sobre nós com grande magnanimidade.
Misericordiosos como o Pai é, pois, o «
lema » do Ano Santo. Na misericórdia, temos a prova de como Deus ama. Ele dá
tudo de Si mesmo, para sempre, gratuitamente e sem pedir nada em troca. Vem em
nosso auxílio, quando O invocamos. É significativo que a oração diária da
Igreja comece com estas palavras: « Deus, vinde em nosso auxílio! Senhor,
socorrei-nos e salvai-nos » (Sal 70/69, 2). O auxílio que invocamos é já o
primeiro passo da misericórdia de Deus para connosco. Ele vem para nos salvar
da condição de fraqueza em que vivemos. E a ajuda d’Ele consiste em fazer-nos
sentir a sua presença e proximidade. Dia após dia, tocados pela sua compaixão,
podemos também nós tornar-nos compassivos para com todos.
15. Neste Ano Santo, poderemos fazer a
experiência de abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias
existenciais, que muitas vezes o mundo contemporâneo cria de forma dramática.
Quantas situações de precariedade e sofrimento presentes no mundo actual!
Quantas feridas gravadas na carne de muitos que já não têm voz, porque o seu
grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferença dos povos ricos.
Neste Jubileu, a Igreja sentir-se-á chamada ainda mais a cuidar destas feridas,
aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las
com a solidariedade e a atenção devidas. Não nos deixemos cair na indiferença
que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade,
no cinismo que destrói. Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo,
as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos
desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos
e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e
da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a
barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a
hipocrisia e o egoísmo.
Não podemos escapar às palavras do
Senhor, com base nas quais seremos julgados: se demos de comer a quem tem fome
e de beber a quem tem sede; se acolhemos o estrangeiro e vestimos quem está nu;
se reservamos tempo para visitar quem está doente e preso (cf. Mt 25, 31-45).
De igual modo ser-nos-á perguntado se ajudamos a tirar da dúvida, que faz cair
no medo e muitas vezes é fonte de solidão; se fomos capazes de vencer a
ignorância em que vivem milhões de pessoas, sobretudo as crianças desprovidas
da ajuda necessária para se resgatarem da pobreza; se nos detivemos junto de
quem está sozinho e aflito; se perdoamos a quem nos ofende e rejeitamos todas
as formas de ressentimento e ódio que levam à violência; se tivemos paciência,
a exemplo de Deus que é tão paciente connosco; enfim se, na oração, confiamos
ao Senhor os nossos irmãos e irmãs. Em cada um destes « mais pequeninos », está
presente o próprio Cristo. A sua carne torna-se de novo visível como corpo
martirizado, chagado, flagelado, desnutrido, em fuga ... a fim de ser
reconhecido, tocado e assistido cuidadosamente por nós. Não esqueçamos as
palavras de São João da Cruz: « Ao entardecer desta vida, examinar-nos-ão no
amor ».[12]
16. No Evangelho de Lucas, encontramos
outro aspecto importante para viver, com fé, o Jubileu. Conta o evangelista que
Jesus voltou a Nazaré e ao sábado, como era seu costume, entrou na sinagoga.
Chamaram-No para ler a Escritura e comentá-la. A passagem era aquela do profeta
Isaías onde está escrito: « O espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o
Senhor me ungiu: enviou-me para levar a boa-nova aos que sofrem, para curar os
desesperados, para anunciar a libertação aos exilados e a liberdade aos
prisioneiros; para proclamar um ano de misericórdia do Senhor » (61,1-2). « Um
ano de misericórdia »: isto é o que o Senhor anuncia e que nós desejamos viver.
Este Ano Santo traz consigo a riqueza da missão de Jesus que ressoa nas
palavras do Profeta: levar uma palavra e um gesto de consolação aos pobres,
anunciar a libertação a quantos são prisioneiros das novas escravidões da
sociedade contemporânea, devolver a vista a quem já não consegue ver porque
vive curvado sobre si mesmo, e restituir dignidade àqueles que dela se viram
privados. A pregação de Jesus torna-se novamente visível nas respostas de fé
que o testemunho dos cristãos é chamado a dar. Acompanhem-nos as palavras do
Apóstolo: « Quem pratica a misericórdia, faça-o com alegria » (Rm 12, 8).
17. A Quaresma deste Ano Jubilar seja
vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a
misericórdia de Deus. Quantas páginas da Sagrada Escritura se podem meditar,
nas semanas da Quaresma, para redescobrir o rosto misericordioso do Pai! Com as
palavras do profeta Miqueias, podemos também nós repetir: Vós, Senhor, sois um
Deus que tira a iniquidade e perdoa o pecado, que não Se obstina na ira mas Se
compraz em usar de misericórdia. Vós, Senhor, voltareis para nós e tereis
compaixão do vosso povo. Apagareis as nossas iniquidades e lançareis ao fundo
do mar todos os nossos pecados (cf. 7, 18-19).
As páginas do profeta Isaías poderão ser
meditadas, de forma mais concreta, neste tempo de oração, jejum e caridade. « O
jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injustamente,
livrá-los do jugo que levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar
toda a espécie de opressão, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo
aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão.
Então, a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se.
A tua justiça irá à tua frente, e a glória do Senhor atrás de ti. Então
invocarás o Senhor e Ele te atenderá, pedirás auxílio e te dirá: “Aqui estou!”
Se retirares da tua vida toda a opressão, o gesto ameaçador e o falar ofensivo,
se repartires o teu pão com o faminto e matares a fome ao pobre, a tua luz
brilhará na escuridão, e as tuas trevas tornar-se-ão como o meio-dia. O Senhor
te guiará constantemente, saciará a tua alma no árido deserto, dará vigor aos
teus ossos. Serás como um jardim bem regado, como uma fonte de águas
inesgotáveis » (58, 6-11).
A iniciativa « 24 horas para o Senhor »,
que será celebrada na sexta-feira e no sábado anteriores ao IV Domingo da
Quaresma, deve ser incrementada nas dioceses. Há muitas pessoas – e, em grande
número, jovens – que estão a aproximar-se do sacramento da Reconciliação e que
frequentemente, nesta experiência, reencontram o caminho para voltar ao Senhor,
viver um momento de intensa oração e redescobrir o sentido da sua vida. Com
convicção, ponhamos novamente no centro o sacramento da Reconciliação, porque
permite tocar sensivelmente a grandeza da misericórdia. Será, para cada
penitente, fonte de verdadeira paz interior.
Não me cansarei jamais de insistir com
os confessores para que sejam um verdadeiro sinal da misericórdia do Pai. Ser
confessor não se improvisa. Tornamo-nos tal quando começamos, nós mesmos, por
nos fazer penitentes em busca do perdão. Nunca esqueçamos que ser confessor
significa participar da mesma missão de Jesus e ser sinal concreto da continuidade
de um amor divino que perdoa e salva. Cada um de nós recebeu o dom do Espírito
Santo para o perdão dos pecados; disto somos responsáveis. Nenhum de nós é
senhor do sacramento, mas apenas servo fiel do perdão de Deus. Cada confessor
deverá acolher os fiéis como o pai na parábola do filho pródigo: um pai que
corre ao encontro do filho, apesar de lhe ter dissipado os bens. Os confessores
são chamados a estreitar a si aquele filho arrependido que volta a casa e a
exprimir a alegria por o ter reencontrado. Não nos cansemos de ir também ao
encontro do outro filho, que ficou fora incapaz de se alegrar, para lhe
explicar que o seu juízo severo é injusto e sem sentido diante da misericórdia
do Pai que não tem limites. Não hão-de fazer perguntas impertinentes, mas como
o pai da parábola interromperão o discurso preparado pelo filho pródigo, porque
saberão individuar, no coração de cada penitente, a invocação de ajuda e o
pedido de perdão. Em suma, os confessores são chamados a ser sempre e por todo
o lado, em cada situação e apesar de tudo, o sinal do primado da misericórdia.
18. Na Quaresma deste Ano Santo, é minha
intenção enviar os Missionários da Misericórdia. Serão um sinal da solicitude
materna da Igreja pelo povo de Deus, para que entre em profundidade na riqueza
deste mistério tão fundamental para a fé. Serão sacerdotes a quem darei
autoridade de perdoar mesmo os pecados reservados à Sé Apostólica, para que se
torne evidente a amplitude do seu mandato. Serão sobretudo sinal vivo de como o
Pai acolhe a todos aqueles que andam à procura do seu perdão. Serão
missionários da misericórdia, porque se farão, junto de todos, artífices dum
encontro cheio de humanidade, fonte de libertação, rico de responsabilidade
para superar os obstáculos e retomar a vida nova do Baptismo. Na sua missão,
deixar-se-ão guiar pelas palavras do Apóstolo: « Deus encerrou a todos na
desobediência, para com todos usar de misericórdia » (Rm 11, 32). Na verdade
todos, sem excluir ninguém, estão chamados a acolher o apelo à misericórdia. Os
missionários vivam esta chamada, sabendo que podem fixar o olhar em Jesus, «
Sumo Sacerdote misericordioso e fiel » (Hb 2, 17).
Peço aos irmãos bispos que convidem e
acolham estes Missionários, para que sejam, antes de tudo, pregadores
convincentes da misericórdia. Organizem-se, nas dioceses, « missões populares
», de modo que estes Missionários sejam anunciadores da alegria do perdão.
Seja-lhes pedido que celebrem o sacramento da Reconciliação para o povo, para
que o tempo de graça, concedido neste Ano Jubilar, permita a tantos filhos
afastados encontrar de novo o caminho para a casa paterna. Os pastores,
especialmente durante o tempo forte da Quaresma, sejam solícitos em convidar os
fiéis a aproximar-se « do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e
encontrar graça » (Hb 4, 16).
19. Que a palavra do perdão possa chegar
a todos e a chamada para experimentar a misericórdia não deixe ninguém
indiferente. O meu convite à conversão dirige-se, com insistência ainda maior,
àquelas pessoas que estão longe da graça de Deus pela sua conduta de vida.
Penso de modo particular nos homens e mulheres que pertencem a um grupo
criminoso, seja ele qual for. Para vosso bem, peço-vos que mudeis de vida.
Peço-vo-lo em nome do Filho de Deus que, embora combatendo o pecado, nunca
rejeitou qualquer pecador. Não caiais na terrível cilada de pensar que a vida
depende do dinheiro e que, à vista dele, tudo o mais se torna desprovido de
valor e dignidade. Não passa de uma ilusão. Não levamos o dinheiro connosco
para o além. O dinheiro não nos dá a verdadeira felicidade. A violência usada
para acumular dinheiro que transuda sangue não nos torna poderosos nem
imortais. Para todos, mais cedo ou mais tarde, vem o juízo de Deus, do qual
ninguém pode escapar.
O mesmo convite chegue também
às pessoas fautoras ou cúmplices de corrupção. Esta praga putrefacta da
sociedade é um pecado grave que brada aos céus, porque mina as próprias bases
da vida pessoal e social. A corrupção impede de olhar para o futuro com
esperança, porque, com a sua prepotência e avidez, destrói os projectos dos
fracos e esmaga os mais pobres. É um mal que se esconde nos gestos diários para
se estender depois aos escândalos públicos. A corrupção é uma contumácia no
pecado, que pretende substituir Deus com a ilusão do dinheiro como forma de
poder. É uma obra das trevas, alimentada pela suspeita e a intriga. Corruptio
optimi pessima: dizia, com razão, São Gregório Magno, querendo indicar que
ninguém pode sentir-se imune desta tentação. Para a erradicar da vida pessoal e
social são necessárias prudência, vigilância, lealdade, transparência,
juntamente com a coragem da denúncia. Se não se combate abertamente, mais cedo
ou mais tarde torna-nos cúmplices e destrói-nos a vida.
Este é o momento favorável para mudar de
vida! Este é o tempo de se deixar tocar o coração. Diante do mal cometido,
mesmo crimes graves, é o momento de ouvir o pranto das pessoas inocentes
espoliadas dos bens, da dignidade, dos afectos, da própria vida. Permanecer no
caminho do mal é fonte apenas de ilusão e tristeza. A verdadeira vida é outra
coisa. Deus não se cansa de estender a mão. Está sempre disposto a ouvir, e eu
também estou, tal como os meus irmãos bispos e sacerdotes. Basta acolher o
convite à conversão e submeter-se à justiça, enquanto a Igreja oferece a
misericórdia.
20. Neste contexto, não será inútil
recordar a relação entre justiça e misericórdia. Não são dois aspectos em
contraste entre si, mas duas dimensões duma única realidade que se desenvolve
gradualmente até atingir o seu clímax na plenitude do amor. A justiça é um
conceito fundamental para a sociedade civil, normalmente quando se faz
referimento a uma ordem jurídica através da qual se aplica a lei. Por justiça
entende-se também que a cada um deve ser dado o que lhe é devido. Na Bíblia,
alude-se muitas vezes à justiça divina, e a Deus como juiz. Habitualmente é
entendida como a observância integral da Lei e o comportamento de todo o bom
judeu conforme aos mandamentos dados por Deus. Esta visão, porém, levou não
poucas vezes a cair no legalismo, mistificando o sentido original e
obscurecendo o valor profundo que a justiça possui. Para superar a perspectiva
legalista, seria preciso lembrar que, na Sagrada Escritura, a justiça é
concebida essencialmente como um abandonar-se confiante à vontade de Deus.
Por sua vez, Jesus fala mais vezes da
importância da fé que da observância da lei. É neste sentido que devemos
compreender as suas palavras, quando, encontrando-Se à mesa com Mateus e outros
publicanos e pecadores, disse aos fariseus que O acusavam por isso mesmo: « Ide
aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não
vim chamar os justos, mas os pecadores » (Mt 9, 13). Diante da visão duma
justiça como mera observância da lei, que julga dividindo as pessoas em justos
e pecadores, Jesus procura mostrar o grande dom da misericórdia que busca os
pecadores para lhes oferecer o perdão e a salvação. Compreende-se que Jesus,
por causa desta sua visão tão libertadora e fonte de renovação, tenha sido
rejeitado pelos fariseus e os doutores da lei. Estes, para ser fiéis à lei,
limitavam-se a colocar pesos sobre os ombros das pessoas, anulando porém a
misericórdia do Pai. O apelo à observância da lei não pode obstaculizar a
atenção às necessidades que afectam a dignidade das pessoas.
A propósito, é muito significativo o
apelo que Jesus faz ao texto do profeta Oseias: « Eu quero a misericórdia e não
os sacrifícios » (6, 6). Jesus afirma que, a partir de agora, a regra de vida
dos seus discípulos deverá ser aquela que prevê o primado da misericórdia, como
Ele mesmo dá testemunho partilhando a refeição com os pecadores. A misericórdia
revela-se, mais uma vez, como dimensão fundamental da missão de Jesus. É um
verdadeiro desafio posto aos seus interlocutores, que se contentavam com o
respeito formal da lei. Jesus, pelo contrário, vai além da lei, a sua partilha
da mesa com aqueles que a lei considerava pecadores permite compreender até
onde chega a sua misericórdia.
Também o apóstolo Paulo fez um percurso
semelhante. Antes de encontrar Cristo no caminho de Damasco, a sua vida era
dedicada a servir de maneira irrepreensível a justiça da lei (cf. Fl 3, 6). A
conversão a Cristo levou-o a inverter a sua visão, a ponto de afirmar na Carta
aos Gálatas: « Também nós acreditámos em Cristo Jesus, para sermos justificados
pela fé em Cristo e não pelas obras da lei » (2, 16). A sua compreensão da
justiça muda radicalmente: Paulo agora põe no primeiro lugar a fé, e já não a
lei. Não é a observância da lei que salva, mas a fé em Jesus Cristo, que, pela
sua morte e ressurreição, traz a salvação com a misericórdia que justifica. A
justiça de Deus torna-se agora a libertação para quantos estão oprimidos pela
escravidão do pecado e todas as suas consequências. A justiça de Deus é o seu
perdão (cf. Sl 51/50, 11-16).
21. A misericórdia não é contrária à
justiça, mas exprime o comportamento de Deus para com o pecador, oferecendo-lhe
uma nova possibilidade de se arrepender, converter e acreditar. A experiência
do profeta Oseias ajuda-nos, mostrando-nos a superação da justiça na linha da
misericórdia. A época em que viveu este profeta conta-se entre as mais
dramáticas da história do povo judeu. O Reino está próximo da destruição; o
povo não permaneceu fiel à aliança, afastou-se de Deus e perdeu a fé dos pais.
Segundo uma lógica humana, é justo que Deus pense em rejeitar o povo infiel:
não observou o pacto estipulado e, consequentemente, merece a devida pena, ou
seja, o exílio. Assim o atestam as palavras do profeta: « Não voltará para o
Egipto, mas a Assíria será o seu rei, porque recusaram converter-se » (Os 11,
5). E todavia, depois desta reacção que faz apelo à justiça, o profeta muda
radicalmente a sua linguagem e revela o verdadeiro rosto de Deus: « O meu
coração dá voltas dentro de mim, comovem-se as minhas entranhas. Não
desafogarei o furor da minha cólera, não voltarei a destruir Efraim; porque sou
Deus e não um homem, sou o Santo no meio de ti e não me deixo levar pela ira »
(11, 8-9). Santo Agostinho, de certo modo comentando as palavras do profeta,
diz: « É mais fácil que Deus contenha a ira do que a misericórdia ».[13] É
mesmo assim! A ira de Deus dura um instante, ao passo que a sua misericórdia é
eterna.
Se Deus Se detivesse na justiça,
deixaria de ser Deus; seria como todos os homens que clamam pelo respeito da
lei. A justiça por si só não é suficiente, e a experiência mostra que,
limitando-se a apelar para ela, corre-se o risco de a destruir. Por isso Deus,
com a misericórdia e o perdão, passa além da justiça. Isto não significa
desvalorizar a justiça ou torná-la supérflua. Antes pelo contrário! Quem erra,
deve descontar a pena; só que isto não é o fim, mas o início da conversão,
porque se experimenta a ternura do perdão. Deus não rejeita a justiça. Ele
engloba-a e supera-a num evento superior onde se experimenta o amor, que está
na base duma verdadeira justiça. Devemos prestar muita atenção àquilo que
escreve Paulo, para não cair no mesmo erro que o apóstolo censurava nos judeus
seus contemporâneos: « Por não terem reconhecido a justiça que vem de Deus e
terem procurado estabelecer a sua própria justiça, não se submeteram à justiça
de Deus. É que o fim da Lei é Cristo, para que, deste modo, a justiça seja
concedida a todo o que tem fé » (Rm 10, 3-4). Esta justiça de Deus é a
misericórdia concedida a todos como graça, em virtude da morte e ressurreição
de Jesus Cristo. Portanto a Cruz de Cristo é o juízo de Deus sobre todos nós e
sobre o mundo, porque nos oferece a certeza do amor e da vida nova.
22. O Jubileu inclui também o
referimento à indulgência. Esta, no Ano Santo da Misericórdia, adquire uma
relevância particular. O perdão de Deus para os nossos pecados não conhece
limites. Na morte e ressurreição de Jesus Cristo, Deus torna evidente este seu
amor que chega ao ponto de destruir o pecado dos homens. É possível deixar-se
reconciliar com Deus através do mistério pascal e da mediação da Igreja. Por
isso, Deus está sempre disponível para o perdão, não Se cansando de o oferecer
de maneira sempre nova e inesperada. No entanto todos nós fazemos experiência
do pecado. Sabemos que somos chamados à perfeição (cf. Mt 5, 48), mas sentimos
fortemente o peso do pecado. Ao mesmo tempo que notamos o poder da graça que
nos transforma, experimentamos também a força do pecado que nos condiciona.
Apesar do perdão, carregamos na nossa vida as contradições que são consequência
dos nossos pecados. No sacramento da Reconciliação, Deus perdoa os pecados, que
são verdadeiramente apagados; mas o cunho negativo que os pecados deixaram nos
nossos comportamentos e pensamentos permanece. A misericórdia de Deus, porém, é
mais forte também do que isso. Ela torna-se indulgência do Pai que, através da
Esposa de Cristo, alcança o pecador perdoado e liberta-o de qualquer resíduo
das consequências do pecado, habilitando-o a agir com caridade, a crescer no
amor em vez de recair no pecado.
A Igreja vive a comunhão dos Santos. Na
Eucaristia, esta comunhão, que é dom de Deus, realiza-se como união espiritual
que nos une, a nós crentes, com os Santos e Beatos cujo número é incalculável
(Ap 7, 4). A sua santidade vem em ajuda da nossa fragilidade, e assim a
Mãe-Igreja, com a sua oração e a sua vida, é capaz de acudir à fraqueza de uns
com a santidade de outros. Portanto viver a indulgência no Ano Santo significa
aproximar-se da misericórdia do Pai, com a certeza de que o seu perdão cobre
toda a vida do crente. A indulgência é experimentar a santidade da Igreja que
participa em todos os benefícios da redenção de Cristo, para que o perdão se
estenda até às últimas consequências aonde chega o amor de Deus. Vivamos
intensamente o Jubileu, pedindo ao Pai o perdão dos pecados e a indulgência
misericordiosa em toda a sua extensão.
23. A misericórdia possui uma valência
que ultrapassa as fronteiras da Igreja. Ela relaciona-nos com o judaísmo e o
islamismo, que a consideram um dos atributos mais marcantes de Deus. Israel foi
o primeiro que recebeu esta revelação, permanecendo esta na história como o
início duma riqueza incomensurável para oferecer à humanidade inteira. Como
vimos, as páginas do Antigo Testamento estão permeadas de misericórdia, porque
narram as obras que o Senhor realizou em favor do seu povo, nos momentos mais
difíceis da sua história. O islamismo, por sua vez, coloca entre os nomes dados
ao Criador o de Misericordioso e Clemente. Esta invocação aparece com
frequência nos lábios dos fiéis muçulmanos, que se sentem acompanhados e
sustentados pela misericórdia na sua fraqueza diária. Também eles acreditam que
ninguém pode pôr limites à misericórdia divina, porque as suas portas estão
sempre abertas.
Possa este Ano Jubilar, vivido na
misericórdia, favorecer o encontro com estas religiões e com as outras nobres
tradições religiosas; que ele nos torne mais abertos ao diálogo, para melhor
nos conhecermos e compreendermos; elimine todas as formas de fechamento e
desprezo e expulse todas as formas de violência e discriminação.
24. O pensamento volta-se agora para a
Mãe da Misericórdia. A doçura do seu olhar nos acompanhe neste Ano Santo, para
podermos todos nós redescobrir a alegria da ternura de Deus. Ninguém, como
Maria, conheceu a profundidade do mistério de Deus feito homem. Na sua vida,
tudo foi plasmado pela presença da misericórdia feita carne. A Mãe do
Crucificado Ressuscitado entrou no santuário da misericórdia divina, porque
participou intimamente no mistério do seu amor.
Escolhida para ser a Mãe do Filho de
Deus, Maria foi preparada desde sempre, pelo amor do Pai, para ser Arca da
Aliança entre Deus e os homens. Guardou, no seu coração, a misericórdia divina
em perfeita sintonia com o seu Filho Jesus. O seu cântico de louvor, no limiar
da casa de Isabel, foi dedicado à misericórdia que se estende « de geração em
geração » (Lc 1, 50). Também nós estávamos presentes naquelas palavras
proféticas da Virgem Maria. Isto servir-nos-á de conforto e apoio no momento de
atravessarmos a Porta Santa para experimentar os frutos da misericórdia divina.
Ao pé da cruz, Maria, juntamente com
João, o discípulo do amor, é testemunha das palavras de perdão que saem dos
lábios de Jesus. O perdão supremo oferecido a quem O crucificou, mostra-nos até
onde pode chegar a misericórdia de Deus. Maria atesta que a misericórdia do
Filho de Deus não conhece limites e alcança a todos, sem excluir ninguém. Dirijamos-Lhe
a oração, antiga e sempre nova, da Salve Rainha, pedindo-Lhe que nunca se canse
de volver para nós os seus olhos misericordiosos e nos faça dignos de
contemplar o rosto da misericórdia, seu Filho Jesus.
E a nossa oração estenda-se também a
tantos Santos e Beatos que fizeram da misericórdia a sua missão vital. Em
particular, o pensamento volta-se para a grande apóstola da Misericórdia, Santa
Faustina Kowalska. Ela, que foi chamada a entrar nas profundezas da
misericórdia divina, interceda por nós e nos obtenha a graça de viver e
caminhar sempre no perdão de Deus e na confiança inabalável do seu amor.
25. Será, portanto, um Ano Santo
extraordinário para viver, na existência de cada dia, a misericórdia que o Pai,
desde sempre, estende sobre nós. Neste Jubileu, deixemo-nos surpreender por
Deus. Ele nunca Se cansa de escancarar a porta do seu coração, para repetir que
nos ama e deseja partilhar connosco a sua vida. A Igreja sente, fortemente, a
urgência de anunciar a misericórdia de Deus. A sua vida é autêntica e credível,
quando faz da misericórdia seu convicto anúncio. Sabe que a sua missão
primeira, sobretudo numa época como a nossa cheia de grandes esperanças e
fortes contradições, é a de introduzir a todos no grande mistério da
misericórdia de Deus, contemplando o rosto de Cristo. A Igreja é chamada, em
primeiro lugar, a ser verdadeira testemunha da misericórdia, professando-a e
vivendo-a como o centro da Revelação de Jesus Cristo. Do coração da Trindade,
do íntimo mais profundo do mistério de Deus, brota e flui incessantemente a
grande torrente da misericórdia. Esta fonte nunca poderá esgotar-se, por maior
que seja o número daqueles que dela se abeirem. Sempre que alguém tiver
necessidade poderá aceder a ela, porque a misericórdia de Deus não tem fim.
Quanto insondável é a profundidade do mistério que encerra, tanto é inesgotável
a riqueza que dela provém.
Neste Ano Jubilar, que a Igreja se faça
eco da Palavra de Deus que ressoa, forte e convincente, como uma palavra e um
gesto de perdão, apoio, ajuda, amor. Que ela nunca se canse de oferecer
misericórdia e seja sempre paciente a confortar e perdoar. Que a Igreja se faça
voz de cada homem e mulher e repita com confiança e sem cessar: « Lembra-te,
Senhor, da tua misericórdia e do teu amor, pois eles existem desde sempre » (Sl
25/24, 6).
Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia
11 de Abril – véspera do II Domingo de Páscoa ou da Divina Misericórdia – do
Ano do Senhor de 2015, o terceiro de pontificado. Fonte: http://pt.radiovaticana.va
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