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quarta-feira, 6 de março de 2013

Entrevista com Dom Odilo Pedro Scherer.

 “Renúncia foi aula de eclesiologia”. Dom Odilo.
 
Para arcebispo de São Paulo, Bento 16 será lembrado como um dos grandes papas teólogos.
Especial para O SÃO PAULO
 
Por e-mail, diretamente de Roma, o cardeal dom Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano de São Paulo, falou com exclusividade sobre suas percepções a respeito dos quase oito anos do pontificado de Bento 16. Dom Odilo, que participará pela primeira vez de um Conclave, também orientou os católicos sobre como viver este tempo tão importante para a vida da Igreja. Veja a íntegra:
 
O SÃO PAULO – O que significou o pontificado de Bento 16 para a Igreja e quais foram suas principais contribuições?
 
Dom Odilo Pedro Scherer – Bento 16 deixa um legado importante para a Igreja e será certamente recordado na história da Igreja como um dos grandes papas teólogos; tanto pelo que escreveu e falou quando já era Sumo Pontífice, quanto pelo que escreveu antes disso. Será recordado também pelo seu esforço em ajudar a Igreja a voltar-se para a essência de sua fé e de sua missão. Mostram isso suas encíclicas sobre a esperança e a caridade, as Exortações Apostólicas sobre a Eucaristia e a Palavra de Deus. Mas será recordado, também, por ter estimulado o clero a buscar a autenticidade na vivência de sua vocação e toda a Igreja, na revalorização de sua fé e no esforço renovado para transmiti-la aos outros. Enfim, a própria renúncia é um gesto que ajudará a Igreja a voltar-se mais para o essencial de sua vida e missão, a partir de um renovado encontro com sua própria razão de ser e existir; um professor de teologia, em Roma, observou: a renúncia foi sua última aula de eclesiologia...
 
O SÃO PAULO – E o que significou a atuação de Bento 16 para a humanidade?
 
Dom Odilo Scherer – Isso ainda será melhor avaliado com o passar do tempo. De toda forma, continuando a tradição de seus predecessores, Bento 16 manifestou-se sobre todos os assuntos e fatos relevantes deste momento da vida e da história humanas. Sua contribuição para a cultura, a filosofia, a busca da verdade e do bem são extraordinárias; como teólogo e humanista tem largos horizontes e teve sua palavra geralmente acolhida com respeito e consideração; estimulou o mundo a pensar e a ir além das superficialidades de uma cultura consumista e imediatista. Sua encíclica social – Caritas in veritate – é uma contribuição importante para o discernimento sério sobre as questões que atualmente afligem a humanidade. Estimulou muito, também, o diálogo entre as religiões e as culturas. Teve sempre a preocupação da justiça, da paz e da solidariedade entre os povos.
 
O SÃO PAULO – Como os católicos devem encarar as críticas e este clima de “denuncismo” que se instaurou na mídia após o anúncio de que o papa iria renunciar?
 
Dom Odilo Scherer – Com muita serenidade e discernimento. É um fato interessante que, de um momento a outro, todos começaram de novo a falar da Igreja, mesmo sem conhecer bem as questões abordadas. Muita matéria produzida foi sensacionalista ou simplesmente marcada pelo preconceito contra a Igreja, sem o interesse de conhecer ou comunicar a verdade. É sempre importante tentar saber de qual púlpito vem o sermão e perguntar se merecem crédito certas afirmações bombásticas, de efeito retórico (ex. “guerra civil no Vaticano”...), que não se sustentam em fatos, mas em suposições e conjecturas que visam jogar no descrédito a Igreja perante o mundo e perante seus próprios fieis. É preciso lembrar que cada um deverá prestar contas a Deus pelas afirmações mentirosas e injuriosas ditas contra o próximo ou também a Igreja. Recomendo que não se dê crédito fácil a certas caricaturas que se fazem da Igreja; quem conhece a Igreja e vive dentro dela sofre com o desprezo à Igreja. Infelizmente, as palavras do próprio Papa, proferidas no anúncio do dia 11 de fevereiro sobre sua renúncia, foram deixadas de lado, como sendo não-verdadeiras, para dar largas a todo tipo de suspeitas, especulações e conjecturas sobre os “reais motivos” da renúncia. Alguém nas condições e na autoridade do Papa deveria merecer mais crédito e respeito.
 
 O SÃO PAULO- O senhor poderia descrever algum episódio mais pessoal de seus contatos com Bento 16?
 
Dom Odilo Scherer – Lembro da vigília na Jornada Mundial da Juventude em Madrid, em julho de 2011. Veio um temporal muito forte durante a fala do papa; o vento balançava até a estrutura do palco, onde estavam o Papa, os bispos e muitas outras pessoas. Mais de um milhão de jovens estavam à frente do papa, apanhando toda aquela chuva. Os seguranças sugeriram várias vezes que ele se retirasse para um lugar mais seguro, mas Bento 16 quis permanecer ali, com os jovens... No final da celebração, parecia que não queria ir embora, preocupado com os jovens... Aproximou-se deles, de maneira muito paternal, e desejou que, apesar de tudo, eles repousassem ao menos um pouquinho... Na manhã seguinte, já debaixo de muito sol, a primeira coisa que fez foi perguntar aos jovens como tinham passado a noite. Achei isso de uma sensibilidade finíssima, que emocionou e cativou o coração dos jovens.
 
O SÃO PAULO - A partir dos momentos reservados que teve com Bento 16, que características o senhor destacaria dele?
 
Dom Odilo Scherer - Um homem sereno, simples, inteligente, atento ao interlocutor, interessado em ouvir, extremamente gentil e fino no trato com as pessoas. Nunca pude ver nele aquele homem “autoritário” ou “duro”, como algumas vezes foi descrito; isso não corresponde à verdade. Quando visitou o Brasil, em 2007, fiquei perto do Papa durante alguns dias, na sua estadia em São Paulo. Eu lia os títulos na imprensa e me perguntava: de qual papa estão falando? Não era do Papa Bento 16, que eu conheço...
 
O SÃO PAULO - Estamos aguardando a escolha do novo Pontífice. A Igreja está “acéfala” até que o próximo papa seja eleito?
 
Dom Odilo Scherer - Não, a Igreja nunca fica acéfala (“sem cabeça”, ou “sem chefe”) durante o período da vacância, porque o verdadeiro chefe da Igreja é Jesus Cristo glorificado, que nunca abandona o seu corpo, a Igreja. Além disso, durante a sede vacante, o Colégio dos Cardeais responde pela Igreja, segundo as competências que lhe são próprias.
 
 O SÃO PAULO - Quais as características que o novo papa deve ter?
 
Dom Odilo Scherer - O escolhido terá as qualidades que tiver, e não podemos idealizar demais. Nenhum papa é igual a outro. Ele deverá ser dócil às inspirações e à ação do Espírito Santo, inteiramente fiel a Cristo e à própria Igreja. Podemos, humanamente, desejar que seja uma pessoa muito capaz, cheia de virtudes, preparada do ponto de vista intelectual e teológico, homem de grande fé e vigor espiritual, capaz de liderança e de comunicação, segundo as condições do nosso tempo. Mas também neste caso, precisamos ter a consciência de que ninguém nasce papa, mas aprende a desempenhar essa árdua missão enquanto a exerce.
 
 O SÃO PAULO– Quais são os principais desafios que o próximo papa vai encontrar?
 
Dom Odilo Scherer - São os desafios de toda a Igreja, que se manifestam em toda parte: a nova evangelização, a transmissão da fé, a perseverança na fé e a operosidade dos filhos da Igreja para a irradiação da luz e da força viva do Evangelho no mundo... Há os desafios internos da renovação constante da Igreja, para que ela viva no compasso do tempo e da cultura, sem deixar de ser ela mesma; há os desafios externos, representados pela cultura do nosso tempo, muitas vezes fechada ao Evangelho, senão, contrária a ele. Há os desafios da presença pública da Igreja no mundo, no contexto da política, da economia, da educação, das relações sociais e internacionais. De fato, o Evangelho não é um bem privado da Igreja, mas uma “luz” para o mundo, que não deve ser ocultada, mas irradiada. Enfim, o desafios podem ser muitos, mas não devemos esperar que eles sejam enfrentados pelo papa sozinho, nem sempre em primeira pessoa. A missão e a responsabilidade pela Igreja são compartilhadas, com o Papa, por todos os bispos em comunhão com ele. E em cada Igreja local, com os bispos, também os sacerdotes e todos os fiéis assumem essa mesma responsabilidade. A Igreja não depende só do papa.
 
 O SÃO PAULO - Qual deve ser a atitude dos católicos neste tempo de espera para a eleição do novo papa?
 
Dom Odilo Scherer - Antes de tudo, uma serena fé e confiança na Igreja e na ação do Espírito de Cristo, que não abandona a Igreja. Talvez foi essa a mensagem mais insistente de Bento 16 nesses últimos dias de seu Pontificado: não estamos sozinhos; o Senhor não abandona a sua Igreja. Portanto, ninguém desanime, nem se deixe levar pelo pânico. Este é um tempo de espera e de serena esperança. A Igreja não conta apenas com as próprias forças e fragilidades. Ela pode continuar a contar com o seu supremo Pastor, que é o próprio Senhor Jesus.
Fonte: O SÃO PAULO, Jornal da Arquidiocese de São Paulo.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 260: Bento XVI, o PT e um osso.

A Igreja sem o Papa. E agora, rezar por quem?

A MENÇÃO DO NOME DO BISPO E DO PAPA NA ORAÇÃO EUCARÍSTICA
 
Cardeal Odilo Pedro Scherer. Arcebispo de São Paulo
 
A menção do nome do Bispo e do Papa na oração eucarística não tem a ver com distinção, mas para evidenciar que a Missa é celebrada em comunhão com os Pastores da Igreja. Por isso, só se menciona o nome daquele que, efetiva e canonicamente, desempenha o cargo de Ordinário tanto na diocese quanto na Sede Apostólica, desde a sua posse canônica até o fim do exercício de seu governo pastoral
Então, por quem se reza quando não se tem um Papa eleito?
Há notícias de celebrantes que, erroneamente, rezam nas preces eucarísticas "pelo Papa que será eleito", "pelo Colégio de Cardeais", pelo "Camerlengo". Apesar de o Missal reformado pelo Concílio Vaticano II não apresentar nenhuma indicação a este respeito, o “Missale
Romanun” (edição típica de 1962), é uma fonte que pode nos orientar: “'Una cum Papa nostro...'1, expressa o nome do Papa, 'mas estando a Sede vacante, estas palavras sejam omitidas'”. Portanto, omita-se tanto a menção do nome do nome Papa quanto o próprio texto da oração a ele referente, passando logo para o Ordinário do lugar, o Bispo.
A regra geral, por conseguinte, é que se omita tudo quanto se refere ao Papa na oração eucarística. A saber, as preces eucarísticas como devem ser rezadas após a renúncia de Bento XVI e o início do Pontificado do novo Papa:
 
Oração eucarística I ou "Cânon Romano"
Nós as oferecemos também [pelo vosso servo o papa N.] por nosso bispo N. e por todos os que guardam a fé que receberam dos apóstolos.
Oração eucarística II
Lembrai-vos, ó Pai, da vossa Igreja que se faz presente pelo mundo inteiro: que ela cresça na caridade [com o papa N.,] com o nosso bispo N. e todos os ministros do vosso povo.
Oração eucarística III
E agora, nós vos suplicamos, ó Pai, que este sacrifício da nossa reconciliação estenda a paz e a salvação ao mundo inteiro. Confirmai na fé e na caridade a vossa Igreja, enquanto caminha neste mundo: [o vosso servo o papa N,] o nosso bispo N. com os bispos do mundo inteiro, o clero e todo o povo que conquistastes.
 
Oração eucarística IV
E agora, ó Pai, lembrai-vos de todos pelos quais vos oferecemos este sacrifício: [o vosso servo o papa N.,] o nosso bispo N., os bispos do mundo inteiro, os presbíteros e todos os ministros, os fiéis que, em torno deste altar, vos oferecem este sacrifício, o povo que vos pertence e todos aqueles que vos procuram de coração sincero.
 
Oração eucarística V
Dai [ao Santo Padre, o Papa N., ser bem firme na fé e na caridade, e] a N., que é bispo desta Igreja, muita luz para guiar o seu rebanho.
 
Oração eucarística VI-A
Renovai, Senhor, à luz do evangelho, a vossa Igreja (que está em N.). Fortalecei o vínculo da unidade entre os fiéis leigos e os pastores do vosso povo, em comunhão com [o nosso papa N.e] o nosso bispo N. e os bispos do mundo inteiro, para que o vosso povo, neste mundo
dilacerado por discórdias, brilhe como sinal profético de unidade e de paz.
Oração eucarística VI-B
 
1 “Ubi dicit: una cum famulo tuo Papa nostro N., exprimit nomen Papae: Sede autem vacante verba praedicta omittuntur” (Missale Romanum, editio tipica 1962, Ritus servandus in celebratione Missae,
VIII, 2).
 
Fortalecei, Senhor, na unidade os convidados a participar da vossa mesa. Em comunhão com [o nosso papa N. e] o nosso bispo N. com todos os bispos, presbíteros, diáconos e com todo o vosso povo, possamos irradiar confiança e alegria e caminhar com fé e esperança pelas estradas da vida.
 
Oração eucarística VI-C
Pela participação neste mistério, ó Pai todo-poderoso, santificai-nos pelo Espírito e concedei que nos tornemos semelhantes à imagem de vosso Filho. Fortalecei-nos na unidade, em comunhão com [o nosso papa N. e] o nosso bispo N., com todos os bispos, presbíteros e diáconos e todo o vosso povo.
 
Oração eucarística VI-D
Senhor Deus, conduzi a vossa Igreja à perfeição na fé e no amor, em comunhão com [o nosso papa N.,] o nosso bispo N., com todos os bispos, presbíteros e diáconos e todo o povo que conquistastes.
 
Oração eucarística VII
Conservai-nos, em comunhão de fé e amor, unidos [ao papa N. e] ao nosso bispo N. Ajudai-nos a trabalhar juntos na construção do vosso reino, até o dia em que, diante de vós, formos santos com os vossos santos, ao lado da virgem Maria e dos apóstolos, com nossos irmãos e irmãs já falecidos que confiamos à vossa misericórdia. Quando fizermos parte da nova criação,
enfim libertada de toda maldade e fraqueza, poderemos cantar a ação de graças de Cristo que
vive para sempre.
 
Oração eucarística VIII
Ele nos conserve em comunhão com [o papa N. e] o nosso bispo N. com todos os bispos e o povo que conquistastes. Fazei de vossa Igreja sinal da unidade entre os seres humanos e instrumento da vossa paz!

Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer: Comunicado.


Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer: Comunicado.
Arcebispo de São Paulo. São Paulo, 25.02.2013
Aos irmãos bispos auxiliares de São Paulo
Aos sacerdotes e diáconos,
religiosas/os, consagradas/os e leigos/as
da Arquidiocese de São Paulo
Caríssimos/as,
 
Antes de partir para Roma, onde participarei da “despedida” do papa Bento XVI e do Conclave, desejo dirigir-lhes ainda uma breve palavra.
Antes de tudo, convido-os a vivermos com intensa fé este momento raro na vida da Igreja. Talvez nem todos vêem e compreendem a Igreja como nós a vemos ecompreendemos, a partir da fé e da estima que nutrimos por ela; por sermos parte
da mesma Igreja, conhecemos que ela é mais do que a soma de todos os membros e organizações visíveis que dela fazem parte.
A Igreja faz parte do “Mistério”, do desígnio salvador de Deus, que se serve da fragilidade humana para vir ao encontro dos homens, mostrar-lhes seu amor e para dar-lhes a plenitude da vida. Na base da Igreja, no seu interior e à frente está sempre a ação providente da Trindade Santa. Portanto, tenhamos coragem e fiquemos firmes na nossa fé, mesmo se as águas onde navega a barca de Pedro ficam agitadas. Lembremos sempre de que Jesus vai conosco na barca!
Convido a rezar intensamente pela Igreja nesses dias, para que ela seja sempre mais fiel a Cristo e à missão recebida; que todos nós, católicos, nos convertamos profundamente à verdadeira fé e à vida cristã autêntica, ouvindo os apelos da Palavra de Deus nesta Quaresma e no Ano da Fé. Rezemos e confiemos n’Aquele que disse: “tende coragem! Eu estarei sempre convosco!”.
Sugiro que, durante o período da “sede vacante”, até que seja eleito o novo Papa, em todas as igrejas da Arquidiocese sejam feitas celebrações e orações especiais pela Igreja, pedindo o aumento de nossa fé; pelo Conclave e pelo que será eleito Papa, para que tenha toda a assistência do Espírito Santo no desempenho de sua árdua missão à frente da Igreja inteira, como Sucessor de Pedro. Poderão ser feitas “horas santas”, adoração ao Santíssimo Sacramento, oração do Rosário e Santas Missas nessas mesmas intenções. Conclamemos o povo à oração neste momento importante da vida da Igreja.
Esclareço que, durante a minha ausência da Arquidiocese de São Paulo, Dom Tarcísio Scaramussa, bispo auxiliar para a Região Sé, responderá pela Arquidiocese na condição de Vigário Geral para toda a Arquidiocese. E o Cônego Antônio Aparecido Pereira é o porta voz da Arquidiocese.
Enfim, respondo a uma pergunta feita por vários sacerdotes: como se deve mencionar o nome do Papa na Oração Eucarística da Missa durante o período da sede vacante? A resposta simples é esta: não se menciona. E nem se substitui pelo “Papa que será eleito”, nem pelo “Cardeal Camerlengo”, nem pelo “Conclave”.
Simplesmente, omite-se a referência ao Papa durante o período da sede vacante. Explicações mais detalhadas sobre o mesmo assunto podem ser lidas a seguir, logo abaixo.
Que o apóstolo São Paulo interceda por nós todos e nos ajude a ser fortes na fé, alegres na esperança e operosos na caridade! Que o exemplo de fé de Nossa
Senhora nos ajude!
Aproveito a ocasião saudar a todos e para lhes desejar todo o bem. Deus abençoe a todos!

Last general audience of Pope Benedict XVI


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Muitos usam cargos na igreja só para obter benesses, diz presidente da CNBB.



FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL A APARECIDA (SP)

Na véspera de embarcar a Roma, o presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e arcebispo de Aparecida, dom Raymundo Damasceno Assis, disse que a renúncia do papa Bento 16 representa um "gesto profético" diante das divisões internas da Igreja Católica provocadas por "carreirismo".
"Cargo na igreja não é honra, não é poder no sentido como entendemos, de opressão às outras pessoas ou de ser favorecido pelo cargo. Nesse sentido, a sua renúncia é um gesto profético", disse à Folha dom Damasceno, 76, um dos cinco cardeais brasileiros que estarão no conclave, a ser realizado logo após a saída de Bento 16, nesta quinta-feira.
Anfitrião do papa durante visita ao Brasil, em 2007, dom Damasceno disse que o principal legado do pontífice alemão será o seu magistério e que, apesar de grande intelectual, deixa uma lição de humildade e simplicidade.
Antes, em missa celebrada às 8h, dom Damasceno havia exortado a uma basílica lotada a pedir a Deus que os cardeais "possam também estar abertos aos sinais dos tempos de hoje" durante o processo de escolha para o novo papa.
O cardeal também falou em entrevista coletiva, quando endossou a recente crítica do papa à "hipocrisia dentro da igreja": "Muitas vezes, você prega, anuncia e nem sempre vive o que está pregando".
Também ali, dom Damasceno admitiu que "há pessoas em que eu penso mais" para o papado, mas que só decidirá o seu voto durante os encontros em Roma: "Ninguém tem uma estrela na testa para ser identificado como o candidato ideal".
A seguir, trechos da entrevista concedida à Folha:
*
Folha - O que significa "sinais dos tempos" para o senhor?

Dom Raymundo Damasceno Assis - Significa mudanças profundas que todos nós experimentamos. Estamos falando hoje de uma mudança de época, e não de uma época de mudanças. Não são mudanças superficiais, mas que atingem a pessoa, os seus valores, o seu modo de viver, o seu estilo de vida, a sua maneira de julgar as coisas e de se relacionar com Deus, com o próximo, com a natureza.
O avanço das comunicações está afetando as pessoas no comportamento, nos valores, nas relações. Basta pensarmos hoje no celular, na internet, em todos esses meios modernos de comunicação, blog, YouTube etc.
Há a crise pela qual a família passa, o modelo de família hoje. São muitas as mudanças que estamos enfrentando, e a igreja tem de estar atenta a isso. São sinais dos tempos que nos falam também e que, portanto, o papa e nós, os bispos, temos de estar atentos para responder pastoralmente.
São muitos os desafios, não podemos desconhecer que a igreja também vive neste mundo, numa realidade histórica, não é só humana e divina. E a missão da igreja é responder a esses desafios com o anúncio do Evangelho. Sem perder a fidelidade do Evangelho, mas tem de atualizá-lo. Como fazer? Com que linguagem? De que maneira? Esses são os grandes desafios que nós temos pela frente.
Qual legado o papa Bento 16 deixará para a igreja?
Ele nos deixa um legado muito rico quanto ao magistério. Grande teólogo, grande pensador, mesmo antes de ser papa, como sacerdote, como professor em uma das principais universidades da Alemanha. Depois, como cardeal em Munique e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, ele publicou muitos textos, muitos livros.
Como papa, infelizmente não deixou as três encíclicas que esperávamos. Deixou uma sobre a caridade, sobre a esperança, mas faltou a encíclica sobre a fé. As homilias, as audiências gerais às quartas-feiras são riquíssimas.
Muitos comparavam o papa Bento 16 aos grandes padres do início da igreja, tamanha a riqueza teológica. Será apreciado ainda mais com o passar do tempo.
O papa Bento 16 é chamado de conservador, mas inovou ao renunciar pela primeira vez em mais de 600 anos. O ato abriu uma discussão sobre os rumos da igreja, como a fala recente de um cardeal escocês a favor do fim do celibato?
Primeiramente, você vê que esse termo conservador/progressista é relativo. Muitas vezes, chama-se um papa de conservador e ele faz inovações extraordinárias.
João 23 (1958-63) era considerado conservador. Ele começou a usar aquela toca que nenhum papa mais usava e estabeleceu o latim para a igreja, para Roma, num sínodo em que ele realizou. E, no entanto, foi ele quem convocou o Concílio Vaticano 2º, que maior repercussão teve na vida da igreja.
O papa Bento 16 realmente inovou nesse sentido. Ninguém esperava essa renúncia. Sabíamos que o papa estava fragilizado fisicamente, faltava força, vigor, como ele disse, do ponto de vista físico e também de espírito.
Isso todo mundo sentia e via pela televisão, mas não se esperava que viria a renunciar. Foi um gesto de humildade, porque reconheceu as suas limitações e não ficou apegado ao poder. Quantos ficam apegados ao poder mesmo estando doente, que não largam de jeito nenhum, que se acham insubstituíveis?
Foi também um gesto de coragem, porque ele tem consciência da repercussão que teria o seu ato. Estamos vendo pelos meios de comunicação o impacto que a renúncia teve em toda a igreja.
E é um sinal profético. Se nós estamos preocupados com poder, com carreirismo na igreja, como ele fez aceno em algumas homilias, que é um dos pecados da igreja, essa busca do poder que cria divisão na igreja, então ele diz: "Eu renuncio, o cargo não é fundamental pra mim, eu cumpri a minha missão até quando eu podia cumprir. O apego ao poder, as honras, a glória do cargo, entrego a quem conduzir melhor a igreja no momento de hoje".
Com a consciência tranquila de quem cumpriu seu dever diante de nós. É um exemplo pra todos. Aqui em Aparecida, o papa nos deu um exemplo de humildade, de simplicidade, até um pouco tímido.
O sr. mencionou o carreirismo. Esse é o grande motivo da divisão interna?
O papa Bento 16 fez uma alusão a isso. Muitas vezes a pessoa está usando o seu cargo não para servir. [Mas] muitas vezes, quem sabe, em busca de benesses, até para se promover mais ainda.
Ele não citou nomes, mas deu a entender que a comunhão é fundamental na igreja, que é fundamental entender na igreja que todo cargo é serviço, serviço à igreja, à comunidade, à sociedade.
Cargo na igreja não é honra, não é poder no sentido como entendemos, de opressão às outras pessoas, ou de ser favorecido pelo cargo. Nesse sentido, a sua renúncia é um gesto profético.
Em 2007, o sr. disse que havia chegado a hora de a América Latina evangelizar a Europa. Essa percepção deveria ser levada em conta na escolha do papa?
Eu digo sempre que o continente não é decisivo, mas a América Latina está contribuindo hoje para a evangelização da Europa, da África, da Ásia. É um fato, é verdade.
Quantos brasileiros hoje, padres, membros de novas comunidades e leigos consagrados estão na Europa no campo da evangelização, da comunicação?
Então a América Latina está contribuindo para a Europa, embora não tanto quanto nós gostaríamos. Mas isso não quer dizer que seja o critério decisivo para a escolha do papa.

Então quais são esses critérios?
Um perfil que atenda às necessidades de hoje da igreja. Isso se faz num processo de discernimento, num clima de oração e reflexão, de partilha de experiências durante o conclave, talvez até antes do conclave, nos contatos entre os cardeais.
É muito difícil antecipar isso, mas, de um modo geral, é uma pessoa de experiência pastoral, de diálogo, que promova o diálogo no mundo de hoje entre os povos, entre as religiões, cristãs e não cristãs, uma pessoa sensível aos problemas sociais. E preparado também do ponto de vista teológico, filosófico, intelectual. É um conjunto de elementos.
Como presidente da CNBB, o que o senhor quer falar ao novo papa?
Os nossos anseios são de uma igreja missionária, dinâmica, uma igreja capaz de renovar-se para cumprir sua missão, que quer justamente estar no estado permanente de missão. Essa missão não é só dos bispos, mas de todo cristão e de todo batizado. Uma igreja solidária com os pobres sobretudo, que esteja a serviço do mundo, e não o mundo a serviço da igreja.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 254: A tentação de Jesus.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 253: Catequizar os filhos.


A eleição de um novo papa e o Espírito Santo

Ivone Gebara, escritora, filósofa e teóloga.
 
"Gostaria que a atitude louvável de renúncia de Bento XVI pudesse ser vivida como um momento privilegiado para convidar as comunidades católicas a repensar suas estruturas de governo e os privilégios medievais que esta estrutura ainda oferece", escreve Ivone Gebara, escritora, filósofa e teóloga, em artigo publicado por Adital, 13-02-2013.
 
Eis o artigo.
Depois da louvável atitude do ancião Bento XVI renunciando ao governo da Igreja Católica Romana sucederam-se entrevistas com alguns bispos e sacerdotes nas rádios e televisões de todo o país. Sem dúvida, um acontecimento de tal importância para a Igreja Católica Romana é notícia e leva a previsões, elucubrações de variados tipos, sobretudo de suspeitas, intrigas e conflitos dentro dos muros do Vaticano que teriam apressado a decisão do papa.
No contexto das primeiras notícias, o que chamou a minha atenção foi algo à primeira vista pequeno e insignificante para os analistas que tratam dos assuntos do Vaticano. Trata-se da forma como alguns padres entrevistados ou padres liderando uma programação televisiva, quando perguntados sobre quem seria o novo papa saíssem pela tangente. Apelavam para a inspiração ou vontade do Espírito Santo como aquele do qual dependia a escolha do novo pontífice romano. Nada de pensar em pessoas concretas para responder a situações mundiais desafiantes, nada de suscitar uma reflexão na comunidade, nada de falar dos problemas atuais da Igreja que a tem levado a um significativo marasmo, nada de ouvir os clamores da comunidade católica por uma democratização significativa das estruturas anacrônicas de sustentação da Igreja institucional.
A formação teológica desses padres comunicadores não lhes permite sair de um discurso padrão trivial e abstrato bem conhecido, um discurso que continua fazendo apelo a forças ocultas e de certa forma confirmando seu próprio poder. A contínua referência ao Espírito Santo a partir de um misterioso modelo hierárquico é uma forma de camuflar os reais problemas da Igreja e uma forma de retórica religiosa para não desvendar os conflitos internos que a instituição tem vivido. A teologia do Espírito Santo continua para eles mágica e expressando explicações que já não conseguem mais falar aos corações e às consciências de muitas pessoas que têm apreço pelo legado do Movimento de Jesus de Nazaré. É uma teologia que continua igualmente a provocar a passividade do povo crente frente às muitas dominações inclusive as religiosas. Continuam repetindo fórmulas como se estas satisfizessem a maioria das pessoas.
Entristece-me o fato de verificar mais uma vez que os religiosos e alguns leigos atuando nos meios de comunicação não percebam que estamos num mundo em que os discursos precisam ser mais assertivos e marcados por referências filosóficas para além da tradicional escolástica. Um referencial humanista os tornaria bem mais compreensivos para o comum das pessoas incluindo-se aqui os não católicos e os não religiosos.
A responsabilidade da mídia religiosa é enorme e inclui a importância de mostrar o quanto a história da Igreja depende das relações e interferências de todas as histórias dos países e das pessoas individuais. Já é tempo de sairmos dessa linguagem metafísica abstrata como se um Deus iria se ocupar especialmente de eleger o novo papa prescindindo dos conflitos, desafios, iniqüidades e qualidades humanas. Já é tempo de enfrentarmos um cristianismo que admita o conflito das vontades humanas e que no final de um processo eletivo, nem sempre a escolha feita pode ser considerada a melhor para o conjunto. Enfrentar a história da Igreja como uma história construída por todos e todas nós é testemunhar respeito por nós mesmas/os e mostrar a responsabilidade que todas e todos que nos consideramos membros da comunidade católica romana temos.
A eleição de um novo papa é algo que tem a ver com o conjunto das comunidades católicas espalhadas pelo mundo e não apenas com uma elite idosa minoritária e masculina. Por isso, é preciso ir mais além de um discurso justificativo do poder papal e enfrentar-se aos problemas e desafios reais que estamos vivendo. Sem dúvida, para isso as dificuldades são muitas e enfrentá-las exige novas convicções e o desejo real de promover mudanças que favoreçam a convivência humana.
Preocupa-me mais uma vez que não se discuta de forma mais aberta o fato de o governo da Igreja institucional ser entregue a pessoas idosas que apesar de suas qualidades e sabedoria já não conseguem mais enfrentar com vigor e desenvoltura os desafios que estas funções representam. Até quando a gerontocracia masculina papal será o doublé da imagem de um Deus branco, idoso e de barbas brancas? Haveria alguma possibilidade de sair desse esquema ou de ao menos começar uma discussão em vista de uma organização futura diferente? Haveria alguma possibilidade de abrir essas discussões nas comunidades cristãs populares que têm o direito à informação e à formação cristã mais ajustada aos nossos tempos?
Sabemos o quanto a força das religiões depende de desafios e comportamentos frutos de convicções capazes de sustentar a vida de muitos grupos. Entretanto, as convicções religiosas não podem se reduzir a uma visão estática das tradições e nem a uma visão deliberadamente ingênua das relações humanas. As convicções religiosas igualmente não podem ser reduzidas a onda de devoções as mais variadas que se propagam através dos meios de comunicação. E mais, não podemos continuar tratando o povo como ignorante e incapaz de perguntas inteligentes e astutas em relação à Igreja. Entretanto, os padres comunicadores acreditam tratar com pessoas passivas e entre elas estão muitos jovens que desenvolvem um culto romântico em torno da figura do papa.
Os religiosos mantêm essa situação muitas vezes cômoda por ignorância ou por avidez de poder. Provar a interferência divina nas escolhas que a Igreja Católica hierárquica, prescindindo da vontade das comunidades cristãs espalhadas pelo mundo é um exemplo flagrante dessa situação. É como se quisessem reafirmar erroneamente que a Igreja é em primeiro lugar o clero e as autoridades cardinalícias às quais é dado o poder de eleger o novo papa e que esta é a vontade de Deus. Aos milhares de fiéis cabe apenas rezar para que o Espírito Santo escolha o melhor e esperar até que a fumaça branca anuncie uma vez mais o "habemus papam”. De maneira hábil sempre estão tentando fazer os fiéis escapar da história real, de sua responsabilidade coletiva e apelar para forças superiores que dirijam a história e a Igreja.
É pena que esses formadores de opinião pública estejam ainda vivendo num mundo teologicamente e talvez até historicamente pré-moderno em que o sagrado parece se separar do mundo real e pousar numa esfera superior de poderes à qual apenas alguns poucos têm acesso quase direto. É desolador ver como a consciência crítica em relação às suas próprias crenças infantis não tenha sido acordada em beneficio próprio e em benefício da comunidade cristã. Parece até que acentuamos os muitos obscurantismos religiosos presentes em todas as épocas enquanto o Evangelho de Jesus continuamente convoca para a responsabilidade comum de uns em relação aos outros.
 
Sabendo das muitas dificuldades enfrentadas pelo papa Bento XVI durante seu curto ministério papal, as empresas de comunicação católica apenas ressaltam suas qualidades, sua doação à Igreja, sua inteligência teológica, seu pensamento vigoroso como se quisessem mais uma vez esconder os limites de sua personalidade e de sua postura política não apenas como pontífice, mas também por muitos anos, como presidente da Congregação da Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício. Não permitem que as contradições humanas do homem Joseph Ratzinger apareçam e que sua intransigência legalista e o tratamento punitivo que caracterizaram, em parte, sua pessoa sejam lembrados. Falam desde sua eleição, sobretudo de um papado de transição. Sem dúvida de transição, mas de transição para que?
Gostaria que a atitude louvável de renúncia de Bento XVI pudesse ser vivida como um momento privilegiado para convidar as comunidades católicas a repensar suas estruturas de governo e os privilégios medievais que esta estrutura ainda oferece. Estes privilégios tanto do ponto de vista econômico quanto político e sócio cultural mantêm o papado e o Vaticano como um Estado masculino à parte. Mas um Estado masculino com representação diplomática influente e servido por milhares de mulheres através do mundo nas diferentes instâncias de sua organização. Esse fato nos convida igualmente a pensar sobre o tipo de relações sociais de gênero que esse Estado continua mantendo na história social e política da atualidade.
As estruturas pré-modernas que ainda mantém esse poder religioso precisam ser confrontadas com os anseios democráticos de nossos povos na busca de novas formas de organização que se coadunem melhor com os tempos e grupos plurais de hoje. Precisam ser confrontadas com as lutas das mulheres, das minorias e maiorias raciais, de pessoas de diferentes orientações sexuais e escolhas, de pensadores, de cientistas e de trabalhadores das mais distintas profissões. Precisam ser retrabalhadas na linha de um diálogo maior e mais profícuo com outros credos religiosos e sabedorias espalhadas pelo mundo.
E para terminar, quero voltar ao Espírito Santo, a esse vento que sopra em cada uma/um de nós, a esse sopro em nós e maior do que nós que nos aproxima e nos faz interdependentes de todos os viventes. Um sopro de muitas formas, cores, sabores e intensidades. Sopro de compaixão e ternura, sopro de igualdade e diferença. Este sopro não pode mais ser usado para justificar e manter estruturas privilegiadas de poder e tradições mais antigas ou medievais como se fossem uma lei ou uma norma indiscutível e imutável.
O vento, o ar, o espírito sopra onde quer e ninguém deve se atrever a querer ser ainda uma vez seu proprietário. O espírito é a força que nos aproxima uns dos outros, é a atração que permite que nos reconheçamos como semelhantes e diferentes, como amigas e amigos e que juntos/as busquemos caminhos de convivência, de paz e justiça.
Esses caminhos do espírito são os que nos permitem reagir às forças opressoras que nascem de nossa própria humanidade, os que nos levam a denunciar as forças que impedem a circulação da seiva da vida, os que nos levam a des-cobrir os segredos ocultos dos poderosos. Por isso, o espírito se mostra em ações de misericórdia, em pão partilhado, em poder partilhado, em cura das feridas, em reforma agrária, em comércio justo, em armas transformadas em arados, enfim, em vida em abundância para todas/os. Esse parece ser o poder do espírito em nós, poder que necessita ser acordado a cada novo momento de nossa história e ser acordado por nós, entre nós e para nós.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Os gays e a Igreja: ''uma caixa de Pandora"

Talvez o sentido teológico da missa de Soho “se resuma na fórmula: Lex orandi, lex credendi, a comunidade que reza provoca reflexão teológica”, diz o jornalista inglês.
As missas de Soho são “antes tudo uma ação pastoral para pôr em prática o ensino da Igreja de que as pessoas LGBT são valorizadas pela Igreja, não devem ser discriminadas, nem excluídas da comunhão”, argumenta Francis McDonagh, em entrevista concedida à IHU On-Line, por e-mail. Segundo ele, as missas que são celebradas no bairro Soho, em Londres, “não são uma campanha, não se argumenta sobre o ensino da Igreja sobre a sexualidade, mas se dá testemunho a uma realidade: a dos católicos LGBT, que querem praticar sua fé”. Para ele, as missas de Soho são um “reconhecimento” da “diocese de Westminster, após diálogo com o Vaticano, da necessidade de uma pastoral para a comunidade LGBT, e do direito das pessoas LGBT e seus familiares e amigos, de serem acolhidos oficial e publicamente pela Igreja católica”. 
Na entrevista que segue, o jornalista inglês enfatiza outro ponto polêmico entre a Igreja e a comunidade LGBT: o casamento. Apesar de muitos homossexuais reivindicarem esse direito, McDonagh aponta que “alguns ativistas LGBT rejeitam o casamento como esquema essencialmente patriarcal, que não corresponde à união em base à igualdade que procuram.  E o Vaticano vem insistindo que as conferências episcopais façam campanha contra esses modelos de casamento por serem um ataque à família como fundamento da sociedade, e uma restrição à liberdade das igrejas a manterem sua visão do casamento”.
E opina: “Pessoalmente, acho que a suposta ameaça à liberdade religiosa vinda das propostas de ‘casamento igual’ é exagerada.  Assinei uma carta aberta em que se defendia o direito dos católicos de apoiar ou não a proposta do governo, em base a considerações do bem comum”.
Francis McDonagh é correspondente dos jornais católicos Tablet, de Londres, National Catholic Repórter e membro do Gay Christian Movement, UK.
 
Confira a entrevista
IHU On-Line - Qual a importância para a Igreja da realização das missas de Soho, bairro de Londres, destinadas à comunidade LGBT?
 
Francis McDonagh - Foi um reconhecimento por parte da Igreja local, a diocese de Westminster, após diálogo com o Vaticano, da necessidade de uma pastoral para a comunidade LGBT, e do direito das pessoas LGBT e seus familiares e amigos, de serem acolhidos oficial e publicamente pela Igreja católica.  Por isso, em 2007, a diocese convidou a comunidade a se deslocar da Igreja anglicana de St Anne para a Igreja católica vizinha de Nossa Senhora da Assunção, em Warwick Street.  A decisão de oficializar uma pastoral gay tem sua origem em toda uma série de reflexões da conferência episcopal de Inglaterra e Gales sobre as orientações da Congregação da Doutrina da Fé em 1986 sobre o “atendimento pastoral das pessoas homossexuais”.  Entre estas, destaca-se um documento da conferência de 1979, onde se lê: “Os homossexuais têm direito a um acompanhamento pastoral esclarecido prestado por ministros devidamente capacitados para atender suas necessidades pastorais”. É importante destacar que entre os sacerdotes que presidiram a missa em Warwick Street, vários são de renome nacional, como o ex-mestre geral dos dominicanos, Timothy Radcliffe, um bispo, e vários jesuítas.
 
IHU On-Line - Em que sentido a missa impacta em nível pastoral e teológico?
Francis McDonagh - As missas são antes tudo uma ação pastoral para pôr em prática o ensino da Igreja de que as pessoas LGBT são valorizadas pela Igreja, não devem ser discriminadas, nem excluídas da comunhão. Construíram uma comunidade eucarística entre pessoas que sentiam excluídas, e até perseguidas, como no caso dos ugandeses.  As missas não são uma campanha, não se argumenta sobre o ensino da Igreja sobre a sexualidade, mas  se dá testemunho a uma realidade: a dos católicos LGBT, que querem praticar sua fé. Talvez o sentido teológico se resuma na fórmula: Lex orandi, lex credendi, a comunidade que reza provoca reflexão teológica.
 
IHU On-Line - Como a Igreja deve lidar com a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo e também com toda a questão da homossexualidade? Quais os desafios que se colocam? 
Francis McDonagh - Essa é uma questão complexa.  Por um lado, a Igreja defende que as pessoas LGBT têm direito a respeito, à igualdade de direitos com outros cidadãos.  Na Inglaterra e em Gales, a união civil entre pessoas do mesmo sexo é geralmente aceita como uma medida de justiça social, garantindo os direitos dos casais LGBT. Inclusive os bispos da Inglaterra e de Gales chegaram a reconhecer que a união civil oferece uma estabilidade a estes casais, de acordo com a justiça.
A questão do casamento é mais controvertido. Se pode perguntar: o que acrescenta a união civil em termos de direitos?  Os que argumentam a favor do ‘casamento igual’, como é chamada a proposta do governo britânico, ou o ‘casamento para todos’ na fórmula do governo francês, dizem que representa a igualdade plena entre os LGBT e os heterossexuais. Alguns ativistas LGBT rejeitam o casamento como esquema essencialmente patriarcal, que não corresponde à união em base à igualdade que procuram.  E o Vaticano vem insistindo que as conferências episcopais façam campanha contra esses modelos de casamento por serem um ataque à família como fundamento da sociedade, e uma restrição à liberdade das igrejas a manterem sua visão do casamento.
Pessoalmente, acho que a suposta ameaça à liberdade religiosa vinda das propostas de ‘casamento igual’ é exagerada.  Assinei uma carta aberta em que se defendia o direito dos católicos de apoiar ou não a proposta do governo, em base a considerações do bem comum.
A questão da homossexualidade em si abre uma caixa de Pandora para a Igreja. Tem-se questionado a interpretação dos textos bíblicos que denunciam a homossexualidade, alegando que os autores não tinham o conceito de orientação sexual, e condenavam um desvio consciente da ética aceita por todos.  E o conceito do “natural”, no sentido de dizer que a homossexualidade é “contra a natureza”, é questionado por muitos teólogos. 
 
IHU On-Line - As missas de Soho vão realmente acabar durante a Quaresma?
Francis McDonagh - Não.  O que vai terminar são as celebrações da missa na Igreja de Warwick Street no bairro de Soho, que é o tradicional bairro gay de Londres. A proposta do arcebispo Vincent Nichols é de transferir as missas para a igreja jesuíta de Farm Street, num bairro de embaixadas, inclusive as do Brasil e dos EUA.  Ele mesmo vai se encontrar com a comunidade que assiste às missas, na ocasião da primeira missa, em 3 de março, como sinal de apoio à pastoral da comunidade das missas de Soho. O que por enquanto está em dúvida é a possibilidade do comitê organizador das missas continuar convidando a sacerdotes externos a presidir as missas, como foi a prática acordada com a diocese em Warwick Street.
 
IHU On-Line - Considerando uma possível aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, o que faria parte de um redesenho da imagem da família?
 
Francis McDonagh - Acho que já se convive com várias imagens da família, famílias monoparentais, famílias dos divorciados, onde os filhos conhecem, respeitam e amam os novos companheiros/companheiras do pai ou da mãe, e os filhos que resultam dessas uniões.  Agora surgem famílias de pessoas do mesmo sexo com filhos.  Ao longo da história a família tem tomado várias formas, e não é tão evidente que Jesus viveu numa família convencional, nem que escolheu seus amigos dentre as boas famílias. Trata-se de compreender e proteger os valores defendidos por Jesus que se evidenciam entre essas famílias diversas.
Fonte: www.ihu.unisinos.br

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 246: Jesus e a contemplação.