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sábado, 29 de dezembro de 2012

Olhar o passado com os pés no futuro: A Província dos Carmelitas da Bahia.

Por Frei Pedro Caxito, 0.Carm. In Memorian   
                    
      A respeito desta Província da Bahia escreve Fr. André Prat que, segundo documentos existentes no Mosteiro, ainda nos tempos do Brasil-Colônia reunia-se no Convento do Carmo de Salvador a Academia dos Ilustrados; mais ainda: que mantinha escolas públicas tendo recebido em 1871 os maiores elogios do Barão de São Lourenço e, já antes, em 1865, do próprio Dom Pedro II, por ter fundado escolas para educação da juventude desde épocas remotas. O Visconde de Cairu, José da Silva Lisboa, carmelita terceiro, economista, político e jurisconsulto, confessa que fez os seus estudos no Carmo da Bahia[1]; sabemos que aos oito anos aprendeu com os frades música e piano e teve lições de filosofia e teologia moral.
     Em 1770, certo Jerônimo Ferreira da Costa e Góis, filho de Francisco Ferreira da Costa, para receber Ordens, faz um requerimento, no qual pede certidão de ter freqüentado o curso de filosofia professado no Convento do Carmo por Fr. Francisco Félix de Santa Teresa[2].
     O Governador da Bahia, Marquês de Valença aos 26 de abril de 1783 remete da Bahia um ofício a Martinho de Melo e Castro, onde informa a fundação e extinção do Colégio das Artes e confessa que no restabelecimento do Colégio hão de seguir-se muitas vantagens para os moradores da Cidade e Capitania: tratava-se de um requerimento do Frei Francisco Xavier de Santana, "Procurador Geral do Carmo Calçado desta Província", diante do embargo oposto pela Irmandade do Santíssimo Sacramento da Freguesia do Pilar. Vem anexa cópia da provisão do Conselho Ultramarino dirigida ao Vice-Rei, Conde dos Arcos, datada de 16 de janeiro de 1755 com a ordem de extinção do Colégio. Fr. Francisco Xavier apresenta um memorial, onde mostra as vantagens de restabelecer o Colégio, e um requerimento onde pede certidão do Breve de 6 de julho de 1747 e de outros documentos relativos à fundação do Colégio.
     Compensa a publicação da íntegra do Ofício do Marquês de Valença:
     "Bahia, 26 de abril de 1783. Examinando, em execução da ordem de 2 de dezembro do ano passado, o como se erigiu nesta cidade o Colégio de Artes, de que faz menção o requerimento do Padre Fr. Francisco Xavier de Santana, procurador geral do Carmo Calçado desta Província achei que fora pela patente do seu Geral Fr. Luís Laghius de 6 de junho de 1747 intimada aos Padres desta Província, os quais lhes deram execução com consentimento do atual Vice-Rei, talvez que pela carta de Aviso da Secretaria de Estado de 9 de novembro do dito ano para o Provincial desta mesma Província, em que lhe concedeu Sua Majestade poder executar os breves da Sé Apostólica e do Núncio, como também as patentes do Prior Geral da Ordem Carmelita, expedido tudo para concessão de graças aos religiosos nelas respectivamente declarados. A cópia da dita carta, com a patente, remeto a V.Excia. nesta ocasião.
     O Irmandade do Santíssimo Sacramento da freguesia do Pilar desta Cidade se opôs quando os religiosos acrescentaram o mencionado Hospício, pelo que houveram (sic) pleitos que chegaram à Casa da Suplicação, até que por provisão do Conselho Ultramarino de 16 de janeiro de 1755 dirigida ao Conde dos Arcos se lhe ordenou a extinção do referido Colégio das Artes, vista a outra provisão de 21 de março de 1714 que proibiu no referido Hospício acrescentar obra ou fazer mais acomodações que as necessárias para dois religiosos. A dita provisão de 16 de janeiro de 55 igualmente vai remetida a V.Excia a qual foi executada e por isso se acha presentemente reduzido o sobredito Hospício ao seu primeiro estado.
     Sua Majestade pela mesma ordem de 2 de dezembro do ano passado me manda dar o meu parecer sendo este que, obrigando-se os referidos religiosos a ensinar no sobredito Hospício aos estudantes seculares gramática, filosofia e teologia, pondo-lhe mestres de virtudes e muito capazes nestas ciências me parece que sendo do Real agrado da mesma Senhora o estabelecer-se novamente nele o Colégio das Artes não deixará de se seguir alguma utilidade aos moradores desta Cidade e Província..." O aviso régio sobre o qual fala o ofício vem também anexo[3].

     Passamos a citar alguns escritores, oradores sacros, poetas, mestres e doutores da nossa Província da Bahia

     1. FREI EUSÉBIO DE MATOS
     "Nasceu o autor no ano de 1629, na Bahia. Em 1644 entrou para a Companhia de Jesus. Lecionou Filosofia, Letras Humanas[4] e Teologia. Em 1664 fez profissão solene no Rio de Janeiro. Segundo Barbosa Machado, em 1677 mudou-se para a Ordem de Nossa Senhora do Carmo, tomando então o nome de Frei Eusébio da Soledade. Faleceu na Bahia a 7 de julho de 1692". Entre as suas obras impressas cita-se Oraçam Funebre nas Exequias do Illustrissimo e Reverendissimo Senhor D.Estevam dos Santos Bispo do Brasil"[5].
     Em EDI encontramos: "Irmão do poeta satírico Gregório de Matos Guerra (...), substituiu Vieira na cátedra de filosofia, brilhando entre os seus colegas Vieira e Antônio de Sá, pela subtileza e burilado da frase. Dedicou-se também à poesia, pintura, música e matemáticas; compôs vários hinos religiosos e profanos, que tocava e cantava com letra sua na harpa e na viola. Dizia dele o Pe. Antônio Vieira que «Deus se apostara em o fazer em tudo grande e não o fora mais por não querer...». Vieira ficou pesaroso e dizia quando Eusébio deixou a Companhia para se tornar Carmelita: «Pois muito mal fizeram os Jesuítas, que tarde se criarão para a Companhia outros Matos».
     Os jesuítas, segundo o seu "modus agendi" severo e coerente, tiveram os seus motivos sérios para o não quererem e tiveram os carmelitas os seus motivos para o quererem[6].
     Deixou Sermões (1694), Oração Fúnebre (1672 - acima citada e publicada em 1735), Sermão da Soledade (1681) e Ecce Homo (1677)[7] e ainda Sermoens do Pe. Mestre Fr. Eusebio de Mattos, Religioso de Nossa Senhora do Carmo da Provincia do Brasil - Primeira Parte (1694).
     "Entrara o poeta Eusébio de Matos para a Companhia de Jesus em 1644, época em que era Reitor um Padre natural de Cabo Frio, mui rigoroso para os minoristas. Aconteceu ser afetado de um pleuris o Irmão Eusébio e tendo sido sangrado, vieram visitá-lo o Reitor e outros padres que observaram achar-se o sangue denegrido e como queimado, ao que replicou o doente: - «Pois não é queimado do calor, senão do vilão do Frio que logo ao princípio ia dando Cabo de mim»"[8].
     "Nesse século surge, - conta Renato Almeida - na Bahia, a única figura de músico, que se pode citar - Eusébio de Matos ou Frei Eusébio da Soledade (1629-1692). Manuel Raimundo Quirino, que o considera «o primeiro músico notável da Bahia», conta razão desse duplo nome. (...). "Além de músico exímio e inspirado compositor, tocava harpa e viola, instrumento muito em uso no seu tempo. Compôs muitos HINOS RELIGIOSOS e cantos profanos ameníssimos sobre poesias suas (...). Suas obras foram em grande parte perdidas"[9].
     "Pedro Diniz, a p. 281 da sua obra «Das Ordens Religiosas», diz que Fr. Eusébio de Matos era homem muito douto e que a sua erudição compreendia, além da Música, que tinha estudado seriamente e para a qual era naturalmente dotado de disposições vantajosas, a Teologia, Matemática e Filologia. Se era cultor distinto das ciências, não o era menos das Belas-Artes, pois à dedicação pela Música juntava os dotes do Desenho e da Pintura, sendo exímio am ambas estas artes"[10].
     Foram seus discípulos Frei Inácio de Jesus, Frei José de Jesus Maria, Frei Joaquim Ramos, escritor notável, e muitos outros[11].

     2. FREI JOSÉ DE JESUS MARIA
     "Religioso Carmelita, n. em 8 de janeiro de 1660, morreu em 8 de janeiro de 1727. Recebeu o hábito no convento do Carmo em 7 de dezembro de 1679, professou no convento de Goiana da Reforma de Pernambuco em 8 de dezembro de 1680. Foi eleito missionário apostólico pelo Arcebispo da Bahia, Dom Frei Manuel da Ressurreição, em 29 de março de 1690. Regressado a Portugal, exerceu o cargo de Comissário da Ordem Terceira, primeiro em Vila Franca de Xira, depois em Lisboa. Na vila Franca tinha erigido o Hospital junto ao Convento do Carmo, e mandou fazer, em 1722, com o produto de esmolas (e a soma que lhe renderam os seus sermões), o órgão do referido convento, que custou 7.000 cruzados (8:400$000). Foi definidor eleito em 1714. Escreveu: Tesouro Carmelitano Manifesto, e oferecido aos irmãos e irmãs da Venerável Ordem Terceira da Rainha dos Anjos, Mãe de Deus, Senhora do Carmo - Lisboa - 1705"[12]. Foi discípulo de Eusébio de Matos.

     3. FREI INÁCIO RAMOS
     "Pregador brasileiro; nasceu na Bahia em 1650 e morreu em 1731. Era irmão do padre Domingos Ramos (SJ). Professou (1672) no Convento de Nossa Senhora do Monte do Carmo, (onde adquiriu vasta ilustração e se tornou pregador notável) e indo a Portugal (1685) para tratar de negócios particulares, passou a Roma, a fim de assistir, na qualidade de representante do Provincial da Ordem, ao Capítulo celebrado em Santa Maria Transpontina (1692), sendo por essa ocasião nomeado Vigário Provincial do Brasil. Foi (na Bahia) também reformador e visitador geral dos conventos da Reforma de Pernambuco. Assistiu a um outro Capítulo celebrado em Roma (1700), ficando depois em Lisboa como Prior do Convento de São Domingos e secretário da Província de Portugal. Publicou os seus sermões em 4 volumes com o título Ramos Evangélicos (1724-1730)" - EDI[13]. Era filho de Manuel Ramos Parente e Da. Andrezza Casado Ramos; foi definidor perpétuo e faleceu no dia 18 de novembro de 1731[14].

     4. FREI ANTÔNIO DA PIEDADE
     "Religioso carmelita calçado; nasceu na Bahia e morreu na Cachoeira (1660-1724). Estudou filosofia na sua terra natal, recebendo o grau de Mestre em Artes. Entrando na Ordem do Carmo (1679), foi lente de filosofia e teologia na Vigararia do Maranhão, Prior do Convento do Pará, Vigário Provincial e Comissário da Bula (da Santa Cruzada) do Maranhão, Governador, Provisor e Visitador (e Vigário) Geral da Diocese do Pará. Deixou impressos dois sermões" - EDI. Um dos sermões é Sermam qve em as Exeqvias da Serenissima Rainha Nossa Senhora D.Maria Sophia Isabel de Neobvrg, feitas pela nobre villa de S.Amaro das Grotas do Rio de Sergipe a 19 de abril de 1700. Pregou o R. P. M. Fr. Antonio da Piedade[15].
     "Foi lente de Filosofia e Teologia em Maranhão, cargo em que se jubilou em 27 de junho de 1694. Foi duas vezes prior do Convento do Pará, vigário provincial do Maranhão e comissário da Bula da Cruzada, governador, provisor e visitador geral do Bispado do Pará em 1693. Depois da passar algum tempo em Portugal, voltou para o Brasil, onde foi ainda prior do Convento da Bahia e Definidor perpétuo. Além do sermão acima citado, publicado em 1703, publicou neste mesmo ano Sermão de Santa Teresa, pregado no Convento das Religiosas Carmelitas Descalças da Bahia"[16]

     5. FREI MANUEL DA MADRE DE DEUS BULHÕES
     Era filho do Capitão Manuel da Costa Campos e Da. Maria de Bulhões; nasceu na Bahia a 6 ou 26 de novembro de 1663 e faleceu em 1738, segundo Inocêncio Blake e Artur Mota, mas, segundo Pedro Calmon, o nascimento foi em 1666 e a morte em 1731[17].
     "Carmelita; nasceu na Bahia em 1663. Foi procurador da sua Ordem em Roma, Definidor Geral, Prior do Convento da Bahia e Provincial. Deixou um volume de sermões"  - EDI.
     "Religioso carmelita calçado, prior do convento da Bahia, definidor geral, provincial etc., nasceu na Bahia em 26 de novembro de 1663 e ignora-se a data do seu falecimento. Por morte dos pais, apesar de ser fidalgo cavaleiro e alferes de infantaria, entrou na vida claustral na ordem carmelitana, em 6 de dezembro de 1688 e professou um ano depois. Ensinou Filosofia no seu convento e ditou Teologia. Foi mandado a Roma como procurador da sua ordem para assistir ao capítulo geral em 1695, votando nele como definidor geral. Exerceu também o cargo de examinador sinodal do arcebispado da Bahia. Gozou fama de grande pregador e publicou em Lisboa os seguintes sermões pregados na Bahia: Sermão fúnebre pregado nas Exéquias de Roque da Costa Barreto, governador que foi do Brasil (1699); Sermão de Nossa Senhora da Ajuda (1704); Sermão em Ação de Graças pela saúde de El-Rei Nosso Senhor... Em 14 de maio de 1705 (1706); Sermão do Primeiro Sínodo Diocesano, que se celebrou no Brasil, pelo Ilmo. Sr. Dom Sebastião Monteiro, Arcebispo da Bahia, a 12 de junho de 1707 (1709); Sermão de Santa Teresa (1711); Sermão de São Félix de Cantalício (1717); Sermões da Soledade (1702, 1703, 1709); Sermão do Príncipe dos Apóstolos, na abertura do seu novo templo (1717); Sermão na festividade de Nossa Senhora da Barroquinha (1728); Oração Concionatória nas Exéquias da Ilma. Sra. Dona Mariana de Alencastro... (1732)[18]; Suma triunfal da nova e grande celebridade do Glorioso e Invicto Mártir São Gonçalo Garcia, dedicada ao sr. Capitão José Rebelo de Vasconcelos por seu autor (?) Sotério da Silva Ribeiro, com uma coleção de vários folguedos e danças, oração panegírica que recitou o Padre Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão na igreja do Sacramento em Pernambuco, no dia 1º de maio de 1745 (Lisboa, 1753); Sermões vários (2 tomos, 1737 e 1739)"[19].
     "Nasceu o autor a 6 de novembro de 1663 na Bahia. Entrou para a Ordem dos Carmelitas Calçados. Seguiu para Roma como Procurador da sua Ordem, onde votou como Definidor Geral. Foi ainda Prior no Convento da Bahia, Provincial do Carmo, Examinador Sinodal do Arcebispado da Bahia. Faleceu no ano de 1738". Foram publicados Sermam funebre nas Exequias do Senhor Roque da Costa Barreto, Sermam em Acçam de Graças pela saude DelRey Nosso Senhor (Dom Pedro II de Portugal) e Oraçam Concionatória nas sumptuosas Exequias da Excellentissima Senhora d. Marianna de Alencastro[20].

     6. FREI JOSÉ DE SANTANA
     "Religioso carmelita, nascido no Porto no último quartel do século XVII. Professou no Convento dos Carmelitas em outubro de 1700, na Bahia, ao tempo capital da américa Portuguesa, para onde foi da pátria. Ascendeu, mais tarde, a Prior do Convento da Cachoeira, no Recôncavo da Bahia, e publicou THEZOURO EUCARÍSTICO em Lisboa, por Manuel Fernandes da Costa, impressor do Santo Ofício - 1731"[21].

     7. FREI JOSÉ DE OLIVEIRA SERPA
     "Pregador do século XVIII; nasceu na Bahia em 1696[22]. Deixou manuscritas duas obras místicas: Novo Obséquio do Patriarca São José e Trindade da Terra exaltada no temor de Deus por causa de uma grande trovoada" - EDI. Dele estão publicados 5 sonetos elegíacos, um soneto contínuo e ainda um mote com a sua glosa, e uma décima: estes últimos e 3 dos sonetos foram para lamentar a morte de Dom João V de Portugal[23]. O Dicionário Literário Brasileiro cita-o como Jesuíta, sem o título de Frei.

      8. FREI MANUEL ÂNGELO DE ALMEIDA
     "O autor, natural da Bahia, onde nasceu a 26 de fevereiro de 1697, em 1716 recebeu o hábito de Carmelita Calçado. Tendo sido nomeado sócio do Capítulo Geral celebrado em Roma em 1725, foi-lhe conferido pelo Geral o grau de Doutor em Teologia. De secretário da Província subiu a Provincial em 1735. Ignoramos a data do seu falecimento". Dele foi impresso um Sermam que nas exequias do Excellentissimo, e Reverend. Senhor D. Joseph Fialho, Bispo que foy de Pernambuco, Arcebispo da Bahia, e Bispo da Guarda. Celebradas com toda magnificencia na santa igreja de Olinda pelo Excelentissimo e Reverendissimo Senhor D. Fr. Luiz de Santa Teresa bispo actual de Pernambuco. Pregou o P.M.Fr. Manoel Angelo de Almeida mestre, e doutor na Sagrada Theologia, Ex-Provincial do Carmo da Provincia da Bahia, e o ofereceu ao mesmo Excellentissimo e Reverendíssimo Senhor Bispo de Pernambuco (Lisboa - 1742)"[24].
     "Carmelita professo e grande orador sagrado, nasceu na Bahia em 1697. Lecionou ciências severas no convento de carmelitas de São Salvador, e foi eleito para o Capítulo Geral celebrado em Roma em 1725. Foi-lhe conferido pelo Geral da Ordem o grau de doutor em Teologia. (Além do sermão acima citado) publicou Sermão de Ação de Graça a Nossa Senhora da Vitória em satisfação de um voto que lhe fez por um benefício alcançado pela dita Senhora na sua santa igreja de Vitória da cidade de Elvas (Madri - 1733); Declamação moral na ocasião da rogativa que fez a venerável Ordem Terceira do Carmo da Bahia por ocasião da grande seca que sentiu a mesma cidade desde 1734 até 1735 (Lisboa - 1736)"[25].

     9. FREI HENRIQUE DE SOUSA DE JESUS MARIA
     Foram impressos 2 sonetos, 1 cenotáfio pela morte do Abade Dom Manuel da Matos Botelho, irmão do Arcebispo da Bahia, Dom José Botelho de Matos, e 1 epitáfio e 2 sonetos por ocasião da morte de Dom João V, todos compostos na Bahia[26].
     "Religioso Carmelita da Província da Bahia, nasceu em Viana do Castelo em 16 de abril de 1705, morreu em data que se ignora. Foi para o Brasil aos 14 anos e residiu na Vila de Cachoeira, onde aprendeu a gramática latina. Aos 22 anos professou no Convento da Bahia e estudou, depois, as Ciências Escolásticas. Foi pregador notável e escreveu as seguintes obras: Sermão da Justiça na primeira oitava do Espírito Santo, estando presente o Ilmo. e Exmo. Sr. André de Melo e Castro, Conde das Galveias, Vice-Rei do Estado do Brasil com toda relação do mesmo estado, pregado no Convento do Carmo da Cidade da Bahia (Lisboa - 1745); Três sonetos no Diário Histórico das Celebridades, que na cidade da Bahia se fizeram pelos felicíssimos casamentos dos sereníssimos Príncipes de Portugal e Castela (Lisboa - 1729); Dois sonetos e três décimas em aplauso do Reverendo Antônio de Oliveira (Lisboa - 1738); outra edição (1745); Três sonetos e um romance heróico às memórias fúnebres do Abade de Duas Igrejas, Manuel de Matos Botelho (Lisboa - 1745). Deixou alguns manuscritos, entre os quais um volume de Sermões vários"[27].

     10. FR.FRANCISCO FELIX DE SANTA THEREZA
     "Requerimento de Jeronymo Ferreira da Costa, em que pede certidão de sua frequencia no curso de philosophia, professado no Convento do Carmo (da Bahia) por Fr.Francisco Felix de Santa Thereza - ano de 1768"[28].

     11. FR. INOCÊNCIO DO MONTE CARMELO SENA
     Nasceu em Santo Amaro da Purificação (BA) no dia 28 de julho de 1828; com dezesseis anos professou na Ordem do Carmo. Foi nomeado Passante à cadeira de Filosofia e Lente de Teologia no dia 23 de abril de 1853. Como Reitor do Colégio dos Órfãos de São Joaquim lecionou latim e francês, agradando muito ao Arcebispo da Bahia, Dom Manuel Joaquim da Silveira, que no dia 25 de fevereiro de 1873 lhe concedeu o direito de usar anel e solidéu. Pelo seu grande amor à Ordem, em 1890, chegou a empreender uma viagem difícil até Roma para pedir ao Pe. Geral o envio de socorro à Bahia, que contava apenas com 6 religiosos, poucos e idosos. Foi nomeado Provincial da Província da Bahia no dia 1º de abril de 1892. Teve a felicidade de ver chegar no dia 25 de novembro de 1899 os primeiros religiosos vindos da Espanha para cuidar da restauração. Tendo tomado todas as providências canônicas e civis para que os frades espanhóis, já naturalizados brasileiros, não encontrassem dificuldades na obra da restauração, retirou-se para a sua Santo Amaro, onde faleceu piedosamente no dia 25 de junho de 1909[29].



    [1]. Frei André Prat O.Carm.  O Convento, a  Igreja  e  a  História dos Religiosos Carmelitas da BAHIA   Edição de Frei Reinaldo Verberk O.Carm.  Salvador   1964   Escola Gráfica Nossa Senhora de Loreto  p.11
    [2]. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro  v.32  1910  p.239 nº 8213.
    [3]. Ibidem  p.530-531  n.11.204-11.208
    [4]. Os Estudos de Humanidades na Companhia eram  Retórica, Humanidades, e 1ª, 2ª, 3ª, 4ª e 5ª classes de Gramática. Cf. Serafim Leite o.c.  v. VII  p.152.
    [5]. Em Brasiliana da Coleção Barbosa Machado  apud Anais da Biblioteca Nacional (Catálogo Organizado por Rosemarie Erika Horch)  v.83  p.128  n.95; v.92  tomo 5º p.249.
    [6]. Conta-nos o Pe. Serafim  Leite que em 1669  El-Rei Dom Pedro II de Portugal quis nomeá-lo Pregador Real em Lisboa, mas os Superiores apresentaram razões para que o não fizesse.
    [7]. Serafim Leite o.c. v. 8º  p.360-361
    [8]. Dr. Manuel  Duarte  Moreira  de  Azevedo  (1832-1899) em  Mosaico Brasileiro ou Coleção de Ditos, Respostas, Pensamentos, Epigramas, Poesias, Anedotas, Curiosidades e Fatos Históricos de Brasileiros Ilustres  Rio de Janeiro   B.L.Garnier (antes de 1877: tem uma data de 1866 e é citado pelo autor no seu livro de 1877 O Rio de Janeiro - sua história, monumentos, homens notáveis, usos e curiosidades acima citado).
    [9]. Frei Pedro Sinzig OFM em A Música Sacra no Brasil  VII (1600-1700) na revista Música Sacra  ano 7º  1947  Editora Vozes  p.53. São citados Renato Almeida em História da Música Brasileira  p.292 e Manuel Raimundo Quirino em Artistas Baianos  1911  p.164-165.
    [10]. Em Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
    [11]. Frei André Prat O.Carm.  o.c.  p.11
    [12].      Grande  Enciclopédia  Portuguesa  e  Brasileira  (os trechos entre parêntesis são da EDI)
    [13]. Completei com dados da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
    [14].      Raimundo de Menezes  o.c.  verbete Ramos
    [15]. Em Brasiliana da Coleção Barbosa Machado  apud Anais da Biblioteca Nacional  v.83  1963  p.92 e v.92  tomo 4º p.20 vêm outros títulos: "Doutor em a sagrada Theologia, Diffinidor perpetuo desta Provincia da Bahia, & actualmente Missionario da aldea de Japaratuba em o Certaõ do Rio de Saõ Francisco da Praya".
    [16]. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e Raimundo de Menezes  o.c.  verbete  Piedade
    [17].      Raimundo de Menezes  o.c.  verbete Bulhões
    [18].      Sobre esta Azevedo Salmodães afirma ser "apreciável e muito rara".
    [19]. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
    [20]. Anais da Biblioteca Nacional  v.83   1963  p.84-85, 94  e 121-122; v.92, tomo 3º p.245; tomo 4º p.60; tomo 5º p.207. Nesta obra aparecem outros títulos do autor: "Procurador geral da sua Religiaõ nesta Corte", "Vigario Provincial do Carmo", "Padre Mestre" e "Doutor jubilado na Sagrada Theologia".
    [21].      Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
    [22]. Descrito como carmelita e grande orador sacro  por Heliodoro Pires em Temas de História Eclesiástica do Brasil já citada  p.185.
    [23]. Brasiliana  da  Coleção  Barbosa  Machado  em  Anais da Biblioteca Nacional  v.83  1963  p.139-140, 170 e 174 e v.92  tomo 7º  p.11 e 15.
    [24]. Ibid  p.133 e v.92  tomo 6º  p.37.
    [25]. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
    [26]. Brasiliana  da  Coleção  Barbosa  Machado  em  Anais da Biblioteca Nacional  p.136-139 e 170; v.92  tomo 6º  p.95  e  tomo 7º  p.11.
    [27]. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
    [28]. Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro  v.XXXII  1910 em Inventario dos DOCUMENTOS RELATIVOS AO BRASIL existentes no Archivo da Marinha e Ultramar - II  BAHIA  1763-1786  p.239  n.8213.
    [29]. De um artigo de Frei Manuel Baranera Serra publicado no Mensageiro do Carmelo de junho de 1918  Rio de Janeiro  ano 6º  n.8  p.187-189.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Dom Helder Câmara: "O Santo Rebelde". (1ª Parte).

CARMELITAS: NOSSA MISSÃO HOJE

                                   
     Após anos de debates e discussão dentro da Ordem, chegamos enfim, nas nossas Constituições, a uma concordância sobre o Carisma Carmelitano. Leiam especialmente a primeira parte que descreve muito bem quem somos nós. Os Carmelitas transformaram-se em frades mendicantes, conservando contudo as peculiaridades do seu carisma inicial (10). Somos chamados a viver uma vida no obséquio de Jesus Cristo, comprometendo-nos com a busca do rosto do Deus Vivo (a dimensão contemplativa da vida), na fraternidade e no serviço (diaconia) no meio do povo (14). Como Carmelitas a nossa inserção no apostolado faz parte integrante do nosso carisma (91). Temos de realizar a nossa missão no meio do povo, antes de tudo com a riqueza da nossa vida contemplativa, enquanto a nossa ação profética pode adotar muitas modalidades (92). Fiéis ao patrimônio espiritual da Ordem, orientemos o nosso trabalho, por mais variado que seja, a favorecer a busca de Deus e a vida de oração (95). Na Igreja local tratamos de contribuir com nosso carisma no trabalho da evangelização, despertando a sensibilidade pela dimensão contemplativa da vida, pela fraternidade e pelos compromissos concretos em prol da justiça (97). Estamos dispostos a desenvolver as várias formas de apostolado desejadas pela Igreja, por exemplo, o apostolado paroquial, o serviço aos fiéis dentro das igrejas, a formação da juventude nas escolas e outras instituições, a pregação de exercícios espirituais, os estudos, a direção espiritual, o ensino sobre os problemas do espírito e outras iniciativas (98). A missão "ad Gentes" - isto é, a proclamação do Evangelho a quem ainda não o conhece - é uma das atividades fundamentais da Igreja, porque a Igreja por sua própria natureza é missionária (105). A Ordem tem que estar também comprometida, por conseguinte, neste grande trabalho, seguindo o nosso carisma.

     O que fazemos deve brotar daquilo que somos. Somos mais fiéis a Deus quando somos fiéis ao nosso carisma. Lembrem-se da distinção entre trabalhar para Deus e fazer o trabalho de Deus. Trabalhamos para Deus de muitas maneiras e os nossos trabalhos apostólicos podem ser muito dignos de louvor, porém... são todos os nossos trabalhos segundo a mente e o coração de Deus? Fazer o trabalho de Deus significa fazer o que Deus realmente nos está pedindo. Um carisma é um dom de Deus feito a nós e este dom deve ser usado para o bem dos outros. Por conseguinte fazemos o trabalho de Deus quando somos fiéis a nossa vocação de carmelitas. O nosso trabalho apostólico pode tomar vários aspectos. Não existe apenas um único tipo de trabalho Carmelita. Na Ordem temos muitas paróquias, escolas, santuários, centros de exercícios espirituais; trabalhamos com a juventude, com os pobres, de variadas maneiras. Pretendemos corresponder às necessidades da Igreja e do mundo, lendo os sinais dos tempos.

     Na base de todo este maravilhoso apostolado que os Carmelitas exercem pelo mundo está o sentido fundamental da nossa vida que, como ficou bem claro pelas Constituições acima citadas, está relacionado com o aspecto contemplativo do nosso carisma. Isto não quer  dizer  que todos nós devemos voltar a ser eremitas - esta é uma legítima expressão de vida Carmelitana - e sim que devemos ser contemplativos no meio de todas as diferentes atividades, em que estejamos comprometidos. Portanto devemos ser contemplativos em nossas paróquias e escolas e em toda parte, para onde nos dirija o nosso trabalho. A nossa atividade profética e apostólica emergirá espontaneamente da nossa vida contemplativa. Claro que não podemos tornar-nos contemplativos sem a oração, embora não se possa julgar a vida contemplativa pelo tamanho do tempo que dedicamos à oração. Ser contemplativo é penetrar num processo onde Deus nos purifica e transforma os nossos corações interiormente para fazer-nos como Deus. Este processo exige o nosso consentimento à ação de Deus em nossas vidas e um reconhecimento de que Deus trabalha amiúde de maneiras muito humanas. A nossa tradição espiritual fala deste processo no qual Deus transforma em puro amor o nosso egoísmo. As nossas emoções, o que sentimos dentro de nós, sobretudo diante das contradições e desilusões, mostrar-nos-ão quais são os nossos valores verdadeiros. Deus usará de todos os acontecimentos do dia-a-dia para revelar-nos o que na realidade está dentro de nós. Este é um processo muito doloroso, e será então muito mais fácil deixar de lado a oração e submergir-se em trabalhar para Deus, ao mesmo tempo olvidando-se, possivelmente, de fazer o trabalho de Deus.

     Não há nenhuma dicotomia entre o aspecto contemplativo e o aspecto profético ou ativo da nossa vida. Fluem um do outro e entre si. O que acontece conosco, o que vemos e ouvimos, quando estamos envolvidos em nosso trabalho apostólico, deve afetar a nossa oração. E a nossa oração afetará certamente a nossa maneira de trabalhar. Se a nossa oração for autêntica, - certamente o será - se for um encontro pessoal com quem sabemos que nos ama, transformar-nos-á de pessoas que trabalham para Deus em pessoas que fazem o trabalho de Deus. Começaremos a olhar para as pessoas e as situações, não meramente com os nossos olhares humanos, limitados, mas através dos olhos divinos. Assim já os nossos julgamentos não serão condicionados por considerações humanas, mas as nossas mentes e corações serão amoldados à vontade de Deus. Isto há de transformar a nossa maneira de estar no mundo e toda a nossa atividade apostólica. Compreenderemos que devemos plantar ou regar o jardim, mas é Deus quem dá o crescimento. Não teremos talvez muito êxito. Reflitam sobre o exemplo de Jesus, a quem nos empenhamos em seguir. Se o Senhor foi tratado assim, como podem os servos esperar algo diferente?

     Somos membros de uma fraternidade internacional, que sempre teve a sua parte no trabalho missionário da Igreja. Quero inflamar o zelo missionário dentro da Ordem. Os Carmelitas foram a outros países a fim de pregar o Evangelho, mas também propagar os nossos valores carmelitanos, que pensamos terem algo importante para dizer ao povo. Em vista disto fomos estabelecendo a Ordem em muitos países do mundo. Ao longo dos séculos teve o trabalho missionário que adaptar-se às transformações sucedidas na Igreja e no mundo e terá que fazê-lo novamente de acordo com as circunstâncias e os tempos. Devido à falta de vocações nas Províncias mais antigas, não é possível no momento enviar muitos elementos a uma nova região. Queremos estabelecer o Carmelo numa região com vocações locais e permitir-lhes ser independentes, quando for possível. Em geral os problemas que tem a Província-Mãe não são normalmente iguais aos que preocupam um território missionário ou Comissariado.

     Gostaria de falar agora um pouquinho sobre a situação da Ordem ao longo do mundo. Na Europa não há tantas vocações como no passado, há contudo, novamente, pequenos sinais de vida. A minha Província própria tem sido abençoada com um bom número de vocações durante os últimos anos. A Irlanda continua recebendo algumas vocações num clima bastante difícil para a Igreja. O pequeno grupo na França tem dois com votos simples e um noviço. A Espanha, como sabeis, tem quatro Províncias e, mesmo que não haja muitíssimas vocações, estamos recebendo ainda um ou dois candidatos. O Comissariado Geral de Portugal, embora pequeno, está florescendo. As duas Províncias da Alemanha têm no momento muito poucas vocações, porém na Holanda há sinais de renovado interesse pela vida religiosa. A Polônia continua recebendo cada ano algumas vocações e tem uma comunidade na Ucrânia. Espero que um dia possamos fazer uma fundação na Rússia. Na República Checa temos um pequeno e florescente grupo de frades que passaram por muitos anos de perseguição. A Itália tem duas Províncias e um pequeno Comissariado Geral e todos têm vocações. Na Província Italiana existe um plano de fazer uma fundação na Romênia e em vista disto há vários jovens professos e postulantes deste país preparando-se na Itália. A maioria das vocações na Província Italiana vêm da Romênia. Malta tem uma Província florescente e também está recebendo vocações.

     A Ordem está bem estabelecida há muitos anos nos Estados Unidos, em duas Províncias. A Província PCM (do Puríssimo Coração de Maria) tem uma missão no Peru, onde há algumas vocações. A Província tem ainda uma comunidade no México com esperança de vocações. A outra Província de Santo Elias de Nova York espera fazer logo uma fundação em Trinidad e Tobago. Temos também uma boa representação em Porto Rico e na República de São Domingos, com um Comissariado da Província Árago-Valentina e vários Mosteiros florescentes de Monjas Carmelitas. Na Venezuela há dois Comissariados Provinciais: os dois têm vocações. Na Argentina há um pequeno grupo e ali novamente surgem vocações. No mês de janeiro recebi na Bolívia os primeiros votos de dois jovens que terminaram o seu noviciado no Brasil, onde temos duas Províncias e um Comissariado da Província da Alemanha do Alto Reno. Na Colômbia existe um pequeno grupo de Carmelitas, que está apresentando agora alguns sinais de crescimento.

     Há frades jovens da África em algumas Províncias da Europa, nas várias fases de formação na Ordem. Um de Burquina Fasso já é sacerdote e há vários estudantes do mesmo país na Espanha. Três da Tanzânia estão estudando em Nápoles, e três do Quênia, em Barcelona. Da parte do Conselho Geral há grande esperança de que nos próximos anos se possa fazer fundações nestes países. Existem aproximadamente trinta Monjas Carmelitas do Quênia na Espanha: esperam fazer logo uma fundação na sua pátria. Além destas esperanças, temos também uma presença estabelecida no Zimbábue e na República Democrática do Congo. A Província Irlandesa, há cinqüenta anos, estabeleceu uma fundação no Zimbábue, mas após muitos anos sem vocações nativas há muitas no momento. Parece haver grande esperança para o Carmelo no Zimbábue. A Província Romana (hoje Italiana), há 25 anos, fez uma fundação no Zaire, como se chamava então, tem agora um Comissariado florescente e a maioria dos cargos de responsabilidade são agora sustentados pelas vocações nativas. Têm um bom número de vocações e atualmente estão pensando na possibilidade da abertura de uma missão em outras partes da África. Esperamos fazer uma fundação muito em breve em Moçambique. O primeiro Carmelita, faz vários meses, foi enviado da sua Província de Pernambuco no Brasil e está hospedado com os Carmelitas, no Zimbábue, enquanto se prepara para a fundação. O segundo religioso da mesma Província foi ordenado sacerdote em Moçambique no mês de abril.

     A Ásia é onde se dá o maior crescimento na Ordem. A Indonésia é uma Província grande com mais de 200 religiosos e mais de 50 noviços. Além disto há um total de aproximadamente 150 no período de formação inicial. Na Indonésia temos dois bispos e a Província enviou dois dos seus membros para ajudarem nas Filipinas. A Austrália é uma Província pequena e por vários anos não houve ali vocações, mas os confrades estão trabalhando e orando pelas vocações. As Filipinas devem tornar-se um Comissariado Geral até o ano de 2000. Atualmente fazem parte da Província da Holanda e ainda lá estão trabalhando mais ou menos 10 holandeses, mas a maioria dos cargos de responsabilidade estão nas mãos de filipinos. Há um bom número de novas vocações e há grandes esperanças para o futuro. Faz aproximadamente 25 anos partiram os primeiros estudantes da Índia para a Alemanha a fim de iniciarem o seu Postulado na Ordem. Existe agora um Comissariado Provincial florescente da Província da Alemanha do Alto Reno, que conta com mais de 50 membros professos (34 de votos solenes). Surgem cada ano novas vocações na Índia. No momento todos os membros do Comissariado são do Rito Siro-Malabar.

     Possivelmente tendes ouvido falar que esperamos fazer uma fundação no Vietnã. Por conta do governo comunista não é possível aos estrangeiros permanecerem no Vietnã além de 3 ou, no máximo, 6 meses. Não obstante, graças ao bom trabalho do "Donum Dei", existem aproximadamente 25 candidatos para a Ordem e aqueles que fizeram reunião com estes jovens acreditam que são excelentes candidatos. A Província de Santo Elias de Nova York, a pedido do Conselho Geral, aceitou a responsabilidade sobre este projeto com a ajuda das Províncias e Comissariados da região asiática. O plano é que os candidatos que se estão preparando vão aos Estados Unidos para começarem um Postulado formal de um ano, seguido do noviciado, e então, após a primeira profissão retornam ao Vietnã.
Neste entretempo está-se organizando uma equipe internacional de formadores. Os membros deste grupo serão os que irão para o Vietnã a fim de ficarem com os candidatos e professos por três ou seis meses cada um: formularão um programa integrado de formação, que assegurará aos que estão no período de formação inicial receber o melhor treinamento possível permitido pelas circunstâncias. Não é ideal e tem os seus riscos, mas provavelmente Província nenhuma ter-se-ia estabelecido, se os Carmelitas no passado não tivessem arriscado. Quem sabe alguns dentre vós estejam sentindo um pouco de receio pelo futuro, mas sede valentes, porque o Senhor está conosco. Se caminharmos com fé, Deus pode levar-nos por caminhos estranhos, mas não nos abandonará nunca.

     Temos 72 mosteiros de Monjas Carmelitas ao redor do mundo e 15 Congregações afiliadas, e também aproximadamente 30.000 pessoas do laicato que fizeram algum tipo de compromisso público de viver os valores da nossa espiritualidade. Há vários grupos, que no momento estão pedindo uma afiliação à Ordem.

     Contemplando a Família Carmelitana ao longo do mundo, existe claramente muita vida e esperança. Existem, sem dúvida, alguns problemas, mas as coisas boas pesam muito mais do que as outras. Quando visito as nossas comunidades, fico orgulhoso de ser Carmelita ao ver quantos bons trabalhos estamos fazendo. Dou ênfase à dimensão contemplativa do nosso carisma e à vida de comunidade, porque, na minha opinião, entre nós não são estas dimensões tão fortes como a dimensão pastoral.

     A nossa missão como Carmelitas hoje comprometer-nos-á em muitos e diferentes trabalhos. Como Ordem, temos feito uma opção pelos pobres que implica intentar "escutar e ler a realidade desde o ponto de vista do pobre" (113). O nosso trabalho pastoral não pode ser simplesmente assistência social, mas ao mesmo tempo, como nos recordam as nossas Constituições, "vivemos num mundo cheio de injustiças e ansiedades. É obrigação nossa ajudar a descobrir as causas, tornar-nos solidários com os sofrimentos dos marginalizados, participar da sua luta pela justiça e pela paz, trabalhar pela sua libertação integral, ajudando-os a realizar o seu desejo de uma vida digna" (111).

     Entender a realidade sob a perspectiva dos "anawin" não é fácil. Uma transformação deve ter lugar em nossas vidas. Esta transformação não é provocada pelo nosso próprio poder, mas somente por uma experiência do poderoso amor de Deus que, como as nossas Constituições nos proclamam, "esvazia-nos das nossas limitadas e imperfeitas maneiras humanas de pensar, de amar e de agir, e as substitui por outras divinas" (17). Por conseguinte, se levamos a cabo a missão que Deus nos dá hoje, devemos procurar ser sempre mais fiéis ao nosso carisma carmelita, para que não somente trabalhemos por Deus, mas façamos segundo a verdade o trabalho de Deus, que é fazer a sua vontade.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O Diálogo solitário com Deus como oração da Igreja

Santa Edith Stein (Teresa Benedita da Cruz)
Traduzido por José Alberto Pedra
           
        A vida de oração de Jesus pode ser a chave para compreendermos a oração da Igreja. Vimos que Cristo participou nas cerimônias públicas e prescritas do seu povo, isto é, participou daquilo que usualmente denominamos de "liturgia."Ele estabeleceu a mais íntima relação entre esta liturgia e a oferta de sua própria pessoa e, também, pela primeira vez deu-lhe o pleno e verdadeiro significado, que é a ação de graça da criação para o seu Criador. Foi assim que ele fez a liturgia da Antiga Aliança realizar-se na Nova Aliança.
           Mas Jesus não participou somente das cerimônias públicas e prescritas. Talvez, com mais freqüência que estas, os evangelhos nos falam de sua oração solitária no silêncio da noite, no alto das montanhas, no deserto, distante dos homens. Quarenta dias e quarenta noites em oração precederam a vida pública de Jesus. Antes de escolher e enviar seus doze apóstolos, Ele retirou-se para rezar na solidão das montanhas. Com sua oração no monte das oliveiras se preparou para sua subida ao Calvário. O pedido que fez ao seu Pai, nesta hora que foi a mais difícil de sua vida, nos é contada em poucas palavras. Palavras que foram dadas a nós, como estrelas-guia, para nos orientar quando vivemos nosso calvário pessoal: "Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita!" Como relâmpago, estas palavras iluminaram por um instante, para nós, a vida espiritual mais íntima de Jesus, o insondável mistério de sua existência como Deus homem e seu diálogo com o Pai. Este diálogo foi, certamente, contínuo e durante toda a sua vida.
          Cristo rezava interiormente não somente quando se afastava da multidão, mas também quando estava entre seu povo. E, uma vez, ele nos permitiu olhar longa e profundamente este diálogo secreto. Foi pouco antes da hora do Monte das Oliveiras; na despedida: ao final da última ceia com seus discípulos que foi, como já vimos, a hora do nascimento da Igreja. "Tendo amado os seus... amou-os até o fim." Ele sabia que esta era a última vez que estariam juntos, e procurou dar-lhes tudo o que era possível dar naquele momento.
           Ele teve que se conter para não dizer mais. Certamente sabia que eles não conseguiriam compreender mais nada, na verdade, eles sequer podiam entender o pouco que já haviam recebido até aquele momento. Era necessário que o Espírito da Verdade viesse abrir seus olhos para tudo o que estava acontecendo.
            Depois de ter dito e feito tudo o que podia dizer e fazer, ele ergueu seus olhos para céu e falou para ao Pai diante deles. Nós chamamos estas palavras de "Oração Sacerdotal" de Jesus. Esta conversação solitária com Deus também tem antecedente na Antiga Aliança. Uma vez por ano, no maior e mais santo dos dias, o dia da Reconciliação, o Sumo Sacerdote entrava no Santo do Santos para, diante da face do Senhor, orar "em favor de si mesmo, em favor da sua casa e em favor de toda assembleia de Israel" Aspergia o trono da graça com o sangue de um novilho e de um carneiro anteriormente imolado e, deste modo, absolvia a ele mesmo e sua casa "das impurezas dos filhos de Israel e das rebeldias deles, isto é, de todos os seus pecados. "Ninguém podia estar na tenda (i.e., no lugar santo que se estendia diante do Santo dos Santos) quando o Sumo Sacerdote ficava na presença de Deus, neste temível e sublime lugar, neste local onde ninguém, exceto ele, ingressava e somente naquela hora. Além disso, tinha que queimar incenso para que "a nuvem perfumada recobrisse o propiciatório ... para que ele não morresse."Aquele encontro solitário se realizava no segredo mais profundo.
          O Dia de Reconciliação é, no Antigo Testamento, a figura da sexta-feira santa. O carneiro imolado pelos pecados do povo representa o Cordeiro imaculado de Deus ( como o representa, também, aquele outro, que era enviado ao deserto, após ter sido escolhido pela sorte, para carregar os pecados do povo). E Sumo Sacerdote, da descendência de Aarão, simbolizava o Sumo e Eterno Sacerdote. Na última ceia Cristo previu sua morte como sacrifício e pronunciou a Oração Sacerdotal. Ele não tinha necessidade de oferecer sacrifício para si, pois Ele não tinha pecados. Ele não tinha que esperar a hora prescrita pela Lei e tampouco entrar no Santo dos Santos do templo. Ele está, sempre e em todos lugares, diante da face de Deus; sua alma é o Santo dos Santos, não somente como a morada de Deus, pois a Ele está unida de modo essencial e indissoluvelmente. Ele não tinha que se esconder de Deus por trás de uma nuvem protetora de incenso. Ele contempla, diretamente, a face do Eterno e não tem nada a temer. A visão do Pai não o mataria. E ele desvela o mistério do reino do Supremo Sacerdote. Todos que a ele pertencem podem entender como Ele falou ao Pai no Santo dos Santos do Seu coração; Todos que a Ele pertencem podem ter a mesma experiência, quando aprenderem falar ao Pai em seus próprio coração.
         A oração sacerdotal de Jesus desvela o segredo da vida interior: unidade íntima das pessoas divinas e habitação de Deus na alma. Foi, nestas secretas profundezas - no mistério do silêncio - , que a obra da Redenção foi preparada e se realizou. E é desse modo que continuará até que todos estejam reunidos, no final dos tempos. A Redenção foi decidida no silêncio eterno da vida divina. No segredo da silenciosa morada de Nazaré o poder do Espírito Santo cobriu, com sua sombra, a jovem virgem que orava na solidão e operou a Encarnação do Redentor. Reunida em torno da Virgem, orando silenciosamente, a igreja nascente esperou ardentemente a nova efusão do Espírito que lhe havia sido prometido para a vivificar, para lhe dar luz interior e tornar fecunda sua ação. Na noite de trevas que Deus pos em seus olhos, Saulo esperou, orando na solidão, a resposta de Deus para sua pergunta, "Senhor, o que queres que eu faça?". Foi também, na prece solitária que Pedro se preparou para sua missão junto aos gentios. Assim, através dos séculos, os acontecimentos visíveis da história - aqueles que renovam a face da terra - são preparados, sempre, no diálogo silencioso que as almas consagradas.
            Os limites deste ensaio me impedem de transcrever integralmente a oração sacerdotal de Jesus. Devo pedir ao leitor que a leia no Evangelho de São João, cap. 17 a Deus mantêm com o seu Senhor. A Virgem, que guardou em seu coração toda palavra que Deus lhe enviou, é o exemplo das pessoas que escutam e nas quais a oração sacerdotal de Jesus revive. E aquelas que, como ela, se entregam totalmente, esquecendo-se delas mesmas na imitação da vida e paixão de Cristo, são as escolhidas, preferencialmente, por Deus como instrumentos de suas grandes obras na igreja: uma Santa Brígida, uma Catarina de Sena, por exemplo.
             Quando St. Teresa, a enérgica reformadora de sua Ordem, na época da grande apostasia, quis ajudar a igreja, viu a renovação da autêntica vida interior como o meio para tal fim. Teresa estava muito transtornada pelas notícias do alastramento da apostasia:"... e, como se pudesse ou valesse alguma coisa, chorava com o Senhor, suplicando-lhe para remediar tanto mal. Parecia-me que mil vidas daria eu para salvação de uma só alma das muitas que ali se perdiam.. Sendo mulher e ruim, senti-me incapaz de trabalhar como desejava para a glória de Deus. Tendo o Senhor tantos inimigos e tão poucos amigos, toda a minha ânsia era, e ainda é, que ao menos estes fossem bons. Determinei-me então a fazer este pouquinho a meu alcance, que é seguir os conselhos evangélicos com toda a perfeição possível e procurar que estas poucas irmãs aqui enclausuradas fizessem o mesmo. Confiava na grande bondade de Deus.... E, ocupadas todas em oração pelos defensores da Igreja, pregadores e letrados que a sustentam, ajudaríamos, no que estivesse a nosso alcance, a este meu Senhor, tão atribulado por aqueles a quem fizera tanto bem. Até parece que esses traidores pretendem crucificá-lo de novo..... Ó minhas Irmãs em Cristo! Ajudai-me a suplicar isto ao Senhor, já que para este fim vos reuniu aqui. Esta é a vossa vocação." A Teresa parecia necessário fazer: "...como em tempo de guerra, quando o inimigo invade uma região. O soberano, em apuros, se recolhe a uma cidade, que fortifica muito bem. Dali sai para atacar os adversários. Os da cidadela são gente tão escolhida que podem mais, eles sozinhos, que muitos soldados, se estes são covardes. Desta maneira muitas vezes conseguem a vitória..... Mas para que vos digo isto? Para que entendais, minhas irmãs, o que havemos de pedir a Deus. É que neste pequeno castelo, já guarnecido de bons cristãos, nenhum se bandeie para os adversários. Que os comandantes deste castelo ou cidade, isto é, os pregadores e teólogos, se tornem ilustres no caminho do Senhor. Na maior parte eles pertencem às ordens religiosas, suplicai para que avancem na perfeição própria de sua vocação, .... Cf. Caminho de perfeição. Cap. 1
               Eles são obrigados a viver entre os homens, a tratar com eles, a estar em palácios, e ainda algumas vezes a conformar-se exteriormente com as exigências dos mundanos..... E julgais, minhas filhas, que é preciso pouca virtude para tratar assim com o mundo, e viver no mundo, e se envolver em negócios do mundo, ... e, não obstante, ser no íntimo estranhos ao mundo...; em uma palavra: não ser homens, mas, anjos? Com efeito, se assim não fossem, nem merecem o nome de comandantes, nem permita o Senhor que saiam de suas celas. Fariam mais mal do que bem. Não é tempo agora de se verem imperfeições nos que devem ensinar.... Não é com o mundo que eles têm que negociar? Estejam certos: o mundo nada lhes perdoa, nem deixa de perceber as menores imperfeições. De muitas obras boas, os mundanos não farão caso e talvez nem as tenham nesta conta.
            Mas faltas ou imperfeições, não há dúvida, nada escapa! Causa-me espanto: quem lhes ensina a perfeição? Não para praticá-la - parece-lhes que disto não têm obrigação e muitos fazem se guardam sofrivelmente os mandamentos - senão para tudo condenar e, por vezes, considerar comodismo o que é virtude. Não penseis, por conseguinte, que seja mister pouco favor de Deus para esses soldados ....precisam de grandíssimo auxílio.
             Peço-vos, por amor de Deus, rogai a Sua Majestade que nos atenda. Eu, embora indigna, peço-o a sua majestade, pois é para sua glória e bem de sua Igreja que estão dirigidos meus desejos.... Se vossas orações e desejos, disciplinas e jejuns não se empregarem no que deixei indicado, ficai certas de que não realizais nem cumpris o fim para o qual o Senhor vos reuniu aqui".
           O que levou esta religiosa, que consagrou à oração décadas de sua vida na cela de um mosteiro, ao desejo apaixonado de fazer algo para a igreja e à lucidez para discernir as necessidades e demandas do seu tempo? Precisamente o fato de que ela vivia em oração e deixou que o Senhor a conduzisse, mais e mais profundamente, em seu "castelo interior" até que encontrasse àquela morada escura onde ele poderia lhe dizer, "que já era tempo de tomar como seus os interesses divinos. Por sua vez, ele cuidaria dos interesses dela.". Foi por isso que ela não pode fazer outra coisa senão "arder de zelo pelo Senhor, o Deus dos exércitos" (zelo zelatus sum pro Domino Deo Exercituum) (palavras de nosso Pai Santo, Elias, que estão presentes como divisas, no brasão de nossa Ordem). O Caminho de perfeição - Essas duas citações são lidas, por nós, todos os anos no mês de setembro. Castelo interior ou Moradas - 7,2,1