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terça-feira, 13 de novembro de 2012
A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 195: Vocação ou ilusão?
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Artigos do Frei Petrônio de Miranda
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Fogo na Televisão: Ofensiva eletrônica da Renovação Carismática Católica
Fogo na Televisão: Ofensiva eletrônica da Renovação Carismática Católica
“Foram os carismáticos os que, por qualquer critério que se possa adotar para medir seu empreendimento, lançaram o mais ambicioso projeto de telecomunicações da história da Igreja. Seu principal objetivo não é apenas o de promover os pontos de vista do próprio movimento, e talvez garantir para si mesmos, como fizeram, séculos atrás, Dominicanos e Jesuítas, um lugar central na configuração do perfil do catolicismo mundial, mas consiste sobretudo em ajudar a devolver tanto ao Papado, quanto ao seu magisterium, a proeminência dentro e fora da Igreja.” (DELLA CAVA, R;. MONTEIRO, P; 1994)
Até os anos 60 as Igrejas tinham um espaço muito tímido nas televisões, ao contrário, tinham grande expressão no que diz respeito às rádios. Depois do golpe militar de 1964, apoiado pela cúpula da Igreja Católica, esta cresce em poder e suas missas começam a ser transmitidas, embora em horário bastante tímido e a Igreja passa a ganhar mais e mais concessões de rádio.
Porém, não demora e no fim dos anos 60 e começo dos anos 70 começa a ganhar força as Comunidades Eclesiais de Base CEBs e a Teologia da Libertação que se contrapunham à ditadura e faziam dos meios de comunicação da Igreja (as rádios) seus instrumentos de interlocução.
Porém, nos anos 70 há uma reprodução, no Brasil, dos tele-evangelistas estadunidenses que alugam horários na TV e fazem uma espécie de consultoria religiosa, ou seja, são evangelistas autônomos, que não são ligados a qualquer denominação. Tais programas se apoiavam no carisma de seus líderes que possuíam várias tendências teológicas e ideológicas. Programas como Alguém Ama Você de Rex Humbard, Clube 700 de Pat Robertson, e os cultos do Pastor Jimmy Swaggart eram transmitidos para todo território nacional e duraram até meados da década de 1980, quando a produção nacional de televisão cresceu e tornou-se independente da produção estrangeira. Este modelo de tele-evangelismo faliu por dois motivos, o estilo americanizado encontrava resistências para ganhar o vulto que os sustentava nos Estados Unidos, ademais estes tele-evangelistas tinham de dividir a minguada disponibilidade financeira do povo brasileiro fiel com suas respectivas denominações, não conseguindo, portanto, auferir quantidade o bastante de dinheiro para a reprodução de sua atividade na TV, tendo em vista do alto custo que a atividade exige.
Eis que no fim dos anos 80 a Igreja Universal do Reino de Deus (à semelhança da adventista que também já tivera um programa televisivo no Brasil), copiando uma prática de Igrejas Protestantes estadunidenses, passa a alugar horários nos canais de TV para divulgação de sua igreja e em 1989 compra a Rede Record iniciando a concorrência das Igrejas no mundo televisivo (CAPPARELLI & SANTOS, 2005).
O que se viu na seqüência foi a explosão religiosa na televisão brasileira, com várias Igrejas, sobretudo as pentecostais, alugando espaços nas redes de TV, inclusive em horário nobre e outras concessões de TV dadas a grupos religiosos.
Igreja Eletrônica
O conceito de “Igreja Eletrônica” foi alcunhado às Igrejas que seguem a uma fórmula de atuação que se fundamenta em três pilares: reza, cura e salvação. Normalmente essas “igrejas” têm uma ligação intrincada com a arrecadação financeira e trabalham com a idéia de “teologia da prosperidade”, ou seja, quando se tem fé, esta lhe garantirá prosperidade, um bom emprego ou o sucesso de um empreendimento, mas é claro que a fé pressupõe a doação financeira a essas denominações (CAPPARELLI & SANTOS, 2005), veja um exemplo retirado do sítio eletrônico da Igreja Internacional da Graça de Deus, do Missionário R.R. Soares em que ele reponde a algumas perguntas dos fiéis:
Fiel: Assim que senti o chamado de Deus para patrocinar e depositei a primeira contribuição, perdi o meu emprego. Tento conseguir outro trabalho, mas, infelizmente, não está sendo possível. Missionário, será que eu não tinha o chamado para ser associado?
Resposta: A sua provação é realmente grande, o diabo quer lhe convencer de que você não tem o chamado. Não acredite no inimigo, ore a Deus e pegue a primeira oportunidade que se lhe abrir de emprego. Não fique escolhendo serviço, pois, talvez, em outra atividade, você seja bem mais abençoado. (I.I.G.D., 2004)
A Igreja Católica tem uma fatia nada desprezível nas concessões televisivas no Brasil, trataremos somente das três redes de maior vulto; observando, entretanto, que nenhuma delas tem ligação direta com a instituição da Igreja, mas indireta, são elas: Rede Vida, TV Século XXI e Rede Canção Nova.
A Rede Vida foi fundada pelo empenho do empresário João Monteiro de Barros Filho e de sua Família, que já possuíam larga experiência no ramo. Com o aval da CNBB foi organizado o Instituto Brasileiro de Comunicação Cristã – IMBRAC, responsável pelo empreendimento, rede que entrou no ar em 1995 a partir de São José do Rio Preto.
A rede tem audiência bastante baixa, mas deu grande impulso à venda de artigos religiosos, produz sua programação em estúdios próprios e tem relações com os grupos mais tradicionais e com a Renovação Carismática Católia RCC, onde inclusive o Pe. Marcelo Rossi tem um programa diário, no entanto, ela dão dá a tônica da rede, que se caracteriza mais por se caráter informativo.
A TV Século XXI É coordenada pelo Pe. Eduardo Dougherty, religioso que, em 1969 trouxe a RCC dos EUA para o Brasil. Um carismático inconfundível, impregnou a de TV que coordena desta tendência, em semelhança com a Rede Canção Nova - RCN, liderada pelo Pe. Jonas Abib e também absolutamente carismática.
O Pe. Eduardo estudou administração e Marketing nos Estado Unidos e é considerado um administrador competente, é o fundador da Associação do Senhor Jesus- ASJ em 1980, as atividades da ASJ se iniciaram na garagem da paróquia com a venda de livros da RCC, em 1983 a ASJ começou a produzir o programa Anunciamos ao Senhor, gravado na PUC Campinas e inicialmente transmitido nas TVs Gazeta, e que dentro de meses passou a ser transmitido em mais de uma dúzia de redes, incluindo Bandeirantes e Record e em 1995 passou a ser transmitido pela Rede Vida. A ASJ montou um centro de produção áudio-visual, denominado Século XXI, na cidade de Valinhos-SP que já produzia programas antes mesmo da montagem da TV própria, sobretudo para a Rede Vida, incluindo até mesmo novelas, como a Irmã Catarina, com atuação de Mirian Rios, carismática reconhecida que conta, inclusive, com um programa televisivo na Canção Nova.
O plano de Marketing religioso da ASJ foi elaborado por Antônio Kater Filho, em 1983, um dos mais conhecidos nomes do marketing católico no Brasil e autor do livro “O Marketing Aplicado à Igreja Católica”.
A ASJ foi responsável pelo contraste católico no que concerne ao relacionamento da Igreja com a ditadura militar (com a qual as demais redes não tiveram de conviver). Em 1983, a CNBB negou aval à organização para cooptar mais recursos no exterior para servir com seus programas ao conjunto da Igreja, e seu programa “Anunciamos ao Senhor” qualificado como de “linha desencarnada, pentecostal, espiritualista, autoritária e verticalista, contrária à caminhada pastoral da CNBB” A ASJ tinha uma postura diferenciada da caminhada de oposição ao regime, e fundava-se, para tanto, no financiamento de entidades católicas na Holanda, Alemanha e EUA, principalmente da God’s Delight. (DELLA CAVA, R;. MONTEIRO, P; 1994:80)
Hoje, com uma rede de televisão própria, a Século XXI, a ASJ cresce muito nos meios carismáticos em detrimento da rede RCN, por que, segundo me foi informado por um membro da RCC que prefere o sigilo, a RCN não tem uma ligação orgânica com o movimento, não estimula a participação dos telespectadores nos Grupos de Oração, preferindo atuar como comunidade eletrônica com seus membros e telespectadores.
A RCN é a TV mais assistida das três e projetou vários sucessos nacionais como o próprio Pe. Jonas, mas também o Pe. Leo e Dunga, ex-drogado que virou cantor e apresentador da Canção Nova.
A Comunidade de Aliança e Vida Canção Nova começou a desenvolver seu trabalho na mídia através de uma rádio em Cachoeira Paulista em 1980 e em 1989 foi montada a Televisão Canção Nova, que retransmitia a Rede Educativa do Brasil (TVE) e que em 1997 passou a operar em canal aberto com programação própria, 100% religiosa e produzida dentro dos limites das instalações da Comunidade. (SOUZA, 2001)
As redes ligadas à Igreja Católica não têm o cunho de arrecadadoras de dinheiro ainda que não deixem de arrecadar, porém, de maneira diferente, sem se utilizarem da Teologia da Prosperidade. Mas também são enquadradas como “Igreja Eletrônica” por trabalharem com a tríade: reza, cura e salvação, num tom mágico de cura instantânea por Deus. Seu tom emocionalista também não as deixa fugir da regra estabelecida pelas outras redes de TV de orientação protestante (CAPPARELLI & SANTOS, 2005).
Muito embora não seja adepta da teologia da prosperidade e não tenha o cunho de arrecadadora de dinheiro como articulação religiosa, a TV precisa se manter e o faz às custas dos fiéis (uma vez que não veicula comerciais. A maneira de arrecadação tem como base o associativismo, uma espécie de sócio simbólico, colaborador que pode depositar o dinheiro todo mês ou aderir ao plano de pagamento automático, o que é bastante estimulado. Outra forma é a venda de artigos religiosos, como a “Cruz da Terra Santa” vendida na Rede Vida ou adquirir, no Disk Shop, da TV Século XXI uma fita de VHS, DVC ou CD – ROM de palestras que a TV reproduz, entre outros.
Essas redes ligadas à RCC têm demonstrado grande capacidade de atrair o público e começa a surgir um grupo considerável que assiste a essas redes diuturnamente, que embora pequeno, é uma tendência interessante e demonstra a eficácia com que essas redes têm se projetado. Nos meios carismáticos as informações acerca da programação dessas TVs demonstram uma naturalidade e apontam para um fechamento que esses fiéis engendram de sua vida por sobre a Igreja e o conjunto da vida religiosa e por uma vivência de gueto incomum na prática religiosa católica convencional e já praticada por alguns grupos religiosos protestantes e correntes do islamismo.
A questão da eficiência comercial dessas redes tem alcançado sua meta, a rede que mais se projeta é a Canção Nova que, em 2001, contratou o publicitário Nizan Guanaes, famoso em todo o meio comercial como publicitário de sucesso, para dirigir a TV. Nizam “comercializou” a Canção Nova, adaptou-a de modo a otimizar sua audiência e está tendo bastante sucesso nesta empreitada. Ele reformou a estética da Rede aproximando-a das TVs comerciais, repetindo na empreitada televisiva a estratégia usada nos mais variados ramos pela RCC, a de absorver o que há de mais dinâmico na vida mundana, como a música pop, os espaços de encontro da juventude como as discotecas e imprimir-lhes uma pitada do sagrado. (CAPPARELLI & SANTOS, 2005)
Conclusão
A incursão da RCC na televisão reflete sucesso do movimento na adaptação de instrumentos mundanos na tarefa da evangelização. Essa adaptação é uma novidade no mundo da religião trazida pelas igrejas Neopentecostais, as mesmas que trouxeram à baila a Teologia da Prosperidade. Isso ratifica a posição de Mariano de que há uma tendência das várias correntes pentecostais de se aproximarem da corrente mais dinâmica, o Neopentecostalismo (MARIANO, 1999)
Também é sintomático e merecedor de um aprofundado estudo a formação dessas comunidades eletrônicas, a participação litúrgico/ritual de seus membros pela via eletrônica bem como o sentimento de pertença desses fiéis associados a essas redes, que pagam fielmente seus boletos e acompanham diuturnamente a programação dessas TVs.
E é ilustrativo que o primeiro programa semanal católico, o “Anunciamos Jesus” apresentava uma linha condescendente com a ditadura militar em oposição à linha da CNBB, parece importante perceber que era produzido sobretudo a partir de financiamento americano e, portanto, a presença católica na Televisão não participa necessariamente da linha pastoral adotada pela igreja oficial.
Ademais muito parece há de vir neste campo, tendo em vista que há um movimento de ascendência da importância dos Meios de Comunicação Social de Massa na vida da sociedade bem como do reconhecimento dessa ascendência por parte das Igrejas e em especial da Católica e a RCC.
Referência Bibliográfica
ASSMAN; Hugo; O impacto da Igreja Eletrônica na América Latina; Petrópolis; Vozes; 1986
CAPPARELLI, Sérgio; e SANTOS, Suzy dos; Crescei e multiplicai-vos: a explosão religiosa na televisão brasileira; 2005; pág. 7
DELLA CAVA, R; MONTEIRO, P; E o verbo se faz imagem: Igreja Católica e os meios de comunicação do Brasil; São Paulo; Paulinas; 1994; Pág. 88.
IGREJA INTERNACIONAL DA GRAÇA DE DEUS; Home Page patrocinadores; seção perguntas e respostas; acesso em 03 de fevereiro de 2004 .
MARIANO, Ricardo; São Paulo; Loyola; 1999.
SOUZA, André Ricardo de; Padres Cantores, Missas Dançantes: A opção da Igreja Católica pelo espetáculo com mídia e Marketing; Dissertação de Mestrado apresentada ao Departamento e Sociologia da FFLCH DA USP, sob orientação do Prof. Dr. Reginaldo Prandi; São Paulo; 2001.
Revista Espaço Acadêmico – Nº 58 – Março de 2006.
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O Cultivo da Música entre os Carmelitas do Brasil (1ª Parte)
O Cultivo da Música entre os Carmelitas do Brasil (1ª Parte)
Frei Pedro Caxito O.Carm. (In Memorian)
INTRODUÇÃO
Ao tratarmos do "Cultivo da Música entre os Carmelitas do Brasil", queremos pôr em mente três realidades, que lhes dizem respeito: 1ª - São filhos da Igreja; 2ª - São membros da Ordem do Carmo surgida na Terra Santa, em plena Idade Média no decorrer do tempo das Cruzadas; 3ª - Aqui aportaram, já no final da Época das Descobertas, como filhos do Carmo português, do qual o Santo Condestável, Nuno Álvares Pereira, foi admirador, protetor, promotor e o maior filho. Dele vieram a receber, em Lisboa, o "Convento de Nossa Senhora do Vencimento (de Monte do Carmo)"[1]
AS ESCRITURAS
"São filhos da Igreja, o novo «Israel de Deus»".
Os israelitas eram constantemente convidados a louvar o Senhor com um cântico novo[2]. Nas várias festividades de Israel, o Senhor Jesus, como autêntico israelita, com voz de tenor, talvez, cantava os salmos com os seus discípulos e com o seu povo: "Depois de terem cantado os salmos, foram para a colina das Oliveiras" (Mt 26,30).
A Virgem Santa, em casa de Isabel, em alta voz entoou ao Deus Único o seu canto de alegria, de engrandecimento do Senhor e de libertação dos humildes.
Maria cantava. "O Universo, como a Catedral, é um conjunto cheio de harmonia a cantar a glória de Deus. Deste cântico a Santa Virgem é a nota mais alta, que ressoa em cada ângulo e oferece a tudo leveza e serenidade. Sobretudo às almas atormen-tadas"[3]. A eternidade inteira será pouca para Ela a cantar o seu Magnificat e engrandecer ao seu Deus e Salvador, toda alegre no seu espírito, deslumbrada a contemplar a beleza daqueles olhos, que olham para a pequenez da sua serva.
Para a freira jeronimita, Sóror Joana Inês de la Cruz (1651-1695), a humilde Mãe de Deus, "Angélica en hermosura", é "a Mestra Divina da Capela Suprema" do Universo[4].
Diz São Paulo: "Orabo spiritu, orabo et mente; psallam spiritu, psallam et mente" "Rezarei com o meu espírito, rezarei também com a minha mente; salmodiarei com o meu espírito, salmodiarei também com a minha mente" (1Cor 14,15): e os cristãos aprenderam, obedientes. Diz-nos Frei Carlos Mesters O.Carm: "Canta-se muito no Apocalipse" (4,8.11; 5,9-10.12-13; 6,10; 7,10.12; 11,15.17-18; 12,10-12; 15,3-4 etc)[5].
OS CRISTÃOS
As Atas dos Santos Mártires nos contam que "Cantantibus organis, Cæcilia virgo in corde suo soli Domino decantabat" (Enquanto os órgãos ressoavam, Cecília Virgem, no íntimo do seu coração, cantava somente ao Senhor).
E Santo Agostinho realmente o confessa:
"Quanto chorei copiosamente, ao som dos teus hinos e cânticos, comovido profundamente com as vozes da tua Igreja a cantar suavemente! Nos meus ouvidos aquelas vozes penetravam e a tua verdade destilava no meu coração. Acendia-se em mim um piedoso sentimento, dos meus olhos as lágrimas corriam e chorar fazia-me bem"[6].
O MAGISTÉRIO
A "Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium" o constatou:
"Na verdade, cumularam de louvores o canto sacro tanto a Sagrada Escritura (cf. Ef 5,19 e Cl 3,16) quanto os Santos Padres e os Romanos Pontífices que, recentemente, a começar por São Pio X, definiram mais claramente a função ministerial da música sacra no culto do Senhor"[7]. E continua: "A Igreja não considerou nunca como seu nenhum estilo de arte, mas conforme a índole dos povos e as condições e necessidades dos vários Ritos admitiu as particularidades de cada época, criando no curso dos séculos um tesouro artístico digno de ser cuidadosamente conservado"[8].
Dizia São Pio X:
"O fim próprio da (Música Sacra) é acrescentar mais eficácia ao texto (litúrgico), a fim de que por tal meio se excitem mais facilmente os fiéis à piedade e se preparem melhor para receber os frutos da graça próprios da celebração dos sagrados mistérios"[9]
E Pio XI afirmava:
"É admirável como quanto, já desde aquela mais remota antigüidade, aqueles cânticos ingênuos, que adornavam a prece e a Ação Litúrgica, concorreram para afervorar a piedade do povo! Nas antigas basílicas, principalmente onde o Bispo, o clero e o povo alternavam os louvores divinos, os cânticos litúrgicos contribuíram não pouco, segundo testemunha a História, para conduzir muitos dos bárbaros à cultura cristã e civil. (...) Em Milão, Santo Ambrósio era acusado pelos hereges de fascinar as turbas com cânticos litúrgicos, pelos quais Santo Agostinho foi empolgado e aceitou o conselho de abraçar a fé cristã"[10].
Diz ainda o Concílio Vaticano II na sua Constituição sobre a Sagrada Liturgia, "Sacrosanctum Concilium":
"Havendo em algumas regiões, principalmente nas Missões, povos que têm uma tradição musical própria, que desempenha importante função na sua vida religiosa e social, a esta música se dêem a devida estima e o lugar conveniente, tanto para lhes formar o senso religioso, quanto para adaptar o culto à sua mentalidade (...)"[11].
Já dizia anteriormente que a finalidade da Música Sacra é a glória de Deus e a santificação dos fiéis e que o canto sacro faz parte necessária ou integrante da liturgia solene. Mais: "A Igreja aprova e admite no culto divino todas as formas de verdadeira arte"[12]. Comenta alguém: "novamente a música como tal é Liturgia"[13]. Quer dizer então que Música Sacra é Liturgia, e a Liturgia é uma coreografia, para não falar uma dança. Eis o que para a sua filha escreve uma santa mãe: "A dança não é coisa má. Ela é o termômetro que marca a temperatura entre o nosso corpo e a nossa alma; ela «deve ser proporcional e harmônica e menos temperamental». Podemos até mesmo considerar todos os movimentos da Santa Missa como uma dança"[14].
A ORDEM CARMELITA
"São membros da Ordem do Carmo".
A santa Regra diz no Capítulo 10º[15]: Oratorium, prout comodius fieri poterit, construatur in medio cellularum, ubi mane per singulos dies ad audienda missarum solemnia convenire debeatis, ubi hoc comode fieri potest.(Da maneira que for possível fazê-lo mais comodamente, no centro das celas seja construído um Oratório[16], aonde, cada dia pela manhã, deveis ir encontrar-vos[17], para ouvirdes as solenidades das missas, sempre que isto puder realizar-se comodamente). Capítulo central: o oratório no centro das celas; Jesus Eucarístico e Maria, Mãe de Jesus, no centro do oratório; e o convenire no centro da vida fraterna.
Dizia Santo Atanásio, Bispo: "Os Santos, enquanto viviam neste mundo, estavam sempre alegres, como em contínua festa. Um deles, o Bem-Aventurado Davi, levantava-se de noite, não uma, mas sete vezes, para atrair com suas preces a benevolência divina. Outro, o grande Moisés, exprimia a sua felicidade entoando hinos e cânticos de louvor a Deus pela vitória alcançada sobre o Faraó e sobre todos os que tinham oprimido o povo hebreu. Outros ainda dedicavam-se alegremente ao exercíco contínuo do culto sagrado, como o grande Samuel e o Bem-Aventurado Elias. Todos eles, pelo mérito das suas obras, já conquistaram a liberdade e celebram no céu a festa eterna[18]".
Elias arquétipo constelado: do canto, portanto, e da música também.
Segundo Frei Egídio Palumbo O.Carm.[19]:
"No Capítulo III (da Institutio Primorum Monachorum) dizem-nos que Elias, quando voltou do Horeb, escolheu o Carmelo como o lugar mais apto para a vida monástica e para a «disciplina profética», porque um lugar sadio, lugar de paz e tranqüilidade. Aí Elias, juntamente com os seus discípulos, edificou uma casa de oração, chamada «semnion»[20], onde se reuniam três vezes por dia para louvarem a Deus por meio de salmos e cânticos acompanhados de instrumentos musicais, e para ouvirem a Lei e os Profetas".
"No Capítulo V do Livro VI se diz que os monges do Carmelo eram chamados «profetas» porque salmodiavam: cantavam em louvor de Deus salmos e hinos, acompanhados por instrumentos musicais".
Já se dizia o mesmo no Livro II, cap. III, como se fosse "outra imagem complementar da primeira"[21]. "Com a vinda de Jesus Cristo - contam-nos assim naquela mesma obra (Livro IV, cap.5º) - este rito de louvor a Deus ao som de instrumentos musicais foi interiorizado conforme as palavras do Apóstolo: «Sede cheios do Espírito, entretendo-vos mutuamente por meio de salmos e cânticos espirituais, entoando hinos ao Senhor com todo o vosso coração, por todas as coisas dando graças a Deus Pai continuamente, em nome do Senhor Nosso, Jesus Cristo» (Ef 5,18-20). Aqui também, segundo penso, revela-se o peso da intenção do autor de, numa linguagem e figuras diversas, reafirmar aquele «entrelaçamento»: oração/vida já observado na Regra, e que significa fazer da nossa vida uma doxologia perene, um autêntico «Louvor de Glória» - para usar o modo de falar de Isabel da Trindade - onde esteja espelhada a presença do Deus Vivo".
Tudo é sacramento, sempre sinal de uma realidade mais alta.
Se não julgarmos apressadamente, entenderemos a "mentalidade simbólica" do homem da Idade Média, que confirma gestos presentes e anseios, garantindo que eram gestos e anseios dos antepassados, gestos e anseios presentes naqueles tempos, em que viviam.
Diz Carlos Cicconetti O.Carm., citando Lubach H.[22]:
"Para o homem da Idade Média o universo, mais do que uma série de efeitos, é um sistema de símbolos. Apresentar a razão das coisas, portanto, não consiste unicamente em explicá-las pelas causas internas, mas em descobrir a sua misteriosa densidade simbólica que vai além da cortiça das aparências. O simbolismo, mais do que uma simples mentalidade, torna-se então um método universal, um meio de conhecimentos, que se aplica em todos os domínios, sempre à procura dos Arcana spiritualis intelligentiæ, dos arcanos de uma inteligência espiritual. Aplica-se bem, tanto ao estudo do cosmos, da filosofia, da teologia e da história, como às regras do direito canônico"[23]. Anteriormente, Joris-Karl Huysmans (1848-1907), pela boca de Durtal, herói do seu romance La Cathédrale, tinha proclamado: "A Idade Média sabedora de que tudo é sinal nesta terra, tudo é figura, que o visível tanto vale quanto revela o invisível, a Idade Média que não era, na verdade, escrava das aparências, como somos nós, estudou profundamente esta ciência (o simbolismo) e dela fez criada e servidora da mística"[24].
Declarava o piedoso Geral da Ordem, Nicolau, o Francês:
"Nobis autem ad laudem psallentibus Creatoris, montes circumstantes, fratres nostri conventuales, iuxta identitatem vocis nostræ, linguæ polite plectra percutientes, ac versus organice in aere modulantes, una nobiscum tono concordi resonant Dominum collaudantes" (Quando, porém, entoamos os nossos salmos em louvor do Criador, os montes dos arredores, confrades nossos conventuais, identificam-se com as nossas vozes, tangendo afinadamente a lira das suas línguas e, ao som dos órgãos, pelos ares ecoando os seus hinos, ressoam conosco numa tonalidade cheia de harmonia, e louvam ao Senhor)[25].
Com toda a natureza o carmelita canta louvores ao Criador e ama a "diaconia da beleza"[26].
JOÃO DU MOULIN aos três anos de idade ficou cego em conseqüência de um sarampo mal cuidado, mas Deus e a natureza compensaram a falta da visão com uma grande força de vontade e um ouvido e talento musicais, que muito o alegraram. Aprendeu bem cedo órgão, espineta, cítara, guitarra, viola, alaúde, flauta doce, flauta alemã e oboé: João du Moulin, que muito alegrou as festas populares, tornou-se Fr. João de São Sansão, carmelita, para alegrar a casa de Deus com as suas melodias e fazer os corações aspirar às alturas harmoniosas da mística[27].
ANTÔNIO EDUARDO JAWELAK, natural de Pittsburg na Pensilvânia (USA), cego de nascença, foi chamado a "maravilha da nossa época". Nasceu a 1º de abril de 1896. Aos dois anos de idade a todos já supreendia pela facilidade de decorar e executar qualquer trecho dos grandes compositores: os dedinhos, os cotovelos e até o nariz o ajudavam. Aos cinco anos já era levado em excursões musicais. Cresceu alegre e musical. Foi organista da igreja carmelita de Pittsburgh. Se era organista de um repertório de mais de 400 partituras, tornou-se também compositor e, para agradecer a graça da sua vocação, compôs uma admirável Missa em louvor de Nossa Senhora do Carmo. De fato, já órfão de pai e mãe e - apesar de alguns membros da família lamentarem "tal desperdício de talento" - apoiado pela sua tia e madrinha, professou na Ordem do Carmelo no dia 15 de agosto de 1932, quando tinha 36 anos de idade,... e "a sua música pertenceu ciosamente só a Deus, Nosso Senhor". Vítima de úlcera varicosa nas pernas, sofreu pacientemente por quase dez anos, sem perder aquele humor inocente, quase infantil, transbordante de simplicidade, que sempre o assinalou. Faleceu no dia 14 de agosto de 1976, aos 80 anos de idade, marcado pela Vigília da gloriosa Assunção da Virgem Maria, Nossa Senhora, aos céus. Para ele "obstáculo = uma coisa que a gente sempre vence!"[28].
"Aqui aportaram, já no final da época das Descobertas, como filhos do Carmo português". Veremos no capítulo seguinte.
[7]. Sacrosanctum Concilium n.112. "Estejais repletos do Espírito Santo, alegrando-vos uns aos outros com salmos, hinos, cânticos espirituais, cantando e festejando ao Senhor com todo o vosso coração" (Ef 5,19); "Instruí-vos e admoestai-vos mutuamente com toda a sabedoria, de todo o coração e com gratidão cantando a Deus salmos, hinos e cânticos espirituais" (Cl 3,16).
[15]. É o Capítulo Central: Oratório no centro físico - Eucaristia do Senhor e Maria no centro espiritual
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