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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

OLHAR O PASSADO COM OS PÉS NO PRESENTE: DOM CARLOS DE SÃO JOSÉ E SOUZA, CARMELITA.

D. Felipe Condurú Pacheco

            O 16º Bispo do Maranhão - DOM CARLOS DE SÃO JOSÉ E SOUZA, nascido em Recife a 4 de novembro de 1777, professou na Ordem Carmelita a 4 de dezembro de 1797. - Sacerdote, ocupou diversos cargos, entre os quais o de professor de filosofia e teologia em seu convento, mestre de noviços, examinador sinodal, Visitador Geral da Ordem e Governador da Diocese de Olinda. - O governo o nomeou Diretor do Colégio dos Órfãos de Olinda, após Professor de Filosofia, Diretor e Reformador do Liceu do Recife, sendo muito estimado pela juventude pernambucana. - Cultura, pois, e prática de governo não lhe faltavam.
            Também provecto em anos, nomeado Bispo do Maranhão por Decreto Imperial de 13 de maio de 1843, foi apresentado à S. Sé por S. Majde. a e de outubro, confirmado pelo Papa Gregório XVI a 24 de janeiro de 1844 e sagrado a 2 de julho desse mesmo ano, na igreja do Carmo do Recife. Sua aceitação foi celebrada em S. Luis com Te Deum  na Catedral pelo Cabido, e iluminação festiva da Cidade.
            Ainda apenas Bispo eleito, a 25 de novembro de 1843, o Vigário Capitular já lhe escrevia lastimando o estado do Paço (pág. 168 )
Episcopal. - Obtenha o Prelado do Governo Geral verba para sua reparação. Minguados os recursos da Mitra. As despesas com o Culto passaram, por lei,para o Governo Imperial, retardado nos pagamentos, achando-se em sérios apertos os Cônegos e Vigários.
            Já a 4 de janeiro de 1844, em carta ao Presidente da Província “dá seu parecer sobre a pretensão de Frei Lino da Anunciação, carmelita, o qual deseja candidatar-se à cadeira de francês, de Caxias. Sujeito à obediência, não apresenta o religioso licença do seu Superior, está sujeito à residência em seu convento, onde é o único sacerdote. Há muitos civis aptos ao cargo.
            A 7 de fevereiro do mesmo ano, opina, com as próprias razões de D. Marcos, contra a criação prematura do Bispado do Piauí, sobre a qual seja ouvido o novo Bispo eleito. Consultado pelo Ministro, a 23 de janeiro de 1843, dirigia-se ao Visconde da Parnaíba, já agora Presidente o Piauí, requisitando informações a respeito. A 21 de novembro, ainda desse ano, responde-lhe o Presidente vizinho, por ofício, cuja cópia envia ao Sr. Ministro.
            Também a D. Frei Carlos escreve o Vigário Capitular com as mesmas pondereções e lhe remete cópia do Ofício do Visconde da Parnaíba. - No Piauí há 15 paróquias, com 94.107 habitantes aproximadamente. Se as rendas atuais dificilmente bastam “para decente e parca sustentação do Prelado diocesano, o que será tirando-se-lhe a Província do Piauhy, cujos dízimos são de fácil remessa?”
            “V. Excia., com pleno conhecimento de causa, providenciará como em sua alta sabedoria achar mais consentâneo ao serviço de Deus e utilidade desta Egreja”.
            Razões humanas - pensamos  nós - a retardar a ação divina!
            Em seu Ofício da Parnaíba focaliza as dificuldades de recurso dos párocos do Piauí à Cúria de São Luis.
            A paróquia mais próxima, a de Parnaíba, está distante 40 e tantas léguas; São Raimundo Nonato dista 270 léguas, de caminhos dificílimos. “A creação de hum Bispado nesta Província he de summa utilidade para prover de prompto as necessidades espirituais, administrando o pasto a todos os fiéis, e afervorando o zello pela Religião, de que pende a Prosperidade da Igreja, e a segurança do Estado”. (pág.169)
             Em apêndice, o mapa das 15 paróquias com o número de fogos e de habitantes de cada uma.

            35º quesito: COMO DECORREU A ADMINISTRAÇÃO DE D. FREI CARLOS DE SÃO JOSÉ?
             Resposta: D. Frei Carlos, a 28 de julho de 1844, tendo-se paramentado na matriz da Conceição, veio processionalmente para a Catedral, onde tomou posse da sua Diocese e concedeu 40 dias de indulgência.
            “Não obstante a sábia administração do saudoso D. Marcos, D. Frei Carlos - informa o piedoso D. Francisco - “encontrou a diocese em estado precário: egrejas matrizes em ruína e sem ornamento; clero, sem subsídio; a cathedral, sem verba em lei; o seminário sem recursos; o Recolhimento, com dívidas”. E explica o historiador, em parte, a causa desse regresso. A lei nº 105, de 12 de maio de 1840, declarára os ministros do cultos “empregados geraes” e, como tais, devendo receber congruas dos “cofres geraes”. Entretanto, a “Assembléia Geral” em 1842 ainda não havia criado verba orçamentária para esse fim, tendo já a Assembléia Provincial cancelado a verba com que mantinha o culto. Nessa situação difícil veio D. Frei Carlos encontrar a Egreja do Maranhão”.
            Logo a 25 de fevereiro de 1845 houve de apresentar ao Governo da Província um “Relatório” em que pinta ao vivo o lamentável quadro. “Os Ministros da Religião necessitam de recursos para viver com decência inherente ao Sacerdote, mormente os Cônegos que não recebem emolumentos, com que remediar as necessidades da vida”. Em algumas freguesias não têm os párocos onde celebrar, senão em casas particulares.  O Seminário vai prosperando, com alguns reparos “e accomodações feitas pelo Vice-Reitor Cgo. José Gonçalves da Silva; mas ainda precisa de novas construcções, que só com a ajuda da Província poderão fazer”. Ainda não fora possível “extrahir a loteria autorisada pela Assembléia para o Recolhimento”.
            Em abril de 1845, Frei José do Sepulcro, Guardião do convento de S. Antonio, enfermo, embarcou para Portugal, a fim de tratar de sua saúde. D. Frei Carlos, como Delegado da S. sé, nomeou D. Joaquim Nazareth administrador interino do convento, tomando um auxiliar para os cuidados materiais. (Carta de 17/1/1845) - A 21 de agosto o Pre- (pág. 170)
 Presidente da Província oficía ao Diocesano, pedindo informações sobre o convento, que lhe constava estar abandonado. Tal “consta” já tinha sido comunicado à Côrte, que mandára logo ordens ao Inspetor da Fazenda, para arrecadar o convento e tudo quanto pertencia aos frades.
            Contristado, o Sr. Bispo teve de provar ao Ministro da Justiça que o convento de S, Antonio - propriedade bissecular dos franciscanos - nunca fora abandonado. “Se houvessem abandonado os frades por algum tempo, logo teriam sido gravemente punidos pelo Prelado Diocesano, como era seu dever. Ali estão servindo a Igreja e o Estado cinco religiosos brasileiros e um portuguêz”. (Carta de 7/9/1845)
            A 28 de junho de 1846, D. Joaquim, velho e achacado, foi substituido por Frei Simeão da Rainha dos Anjos, Guardião interino.
            “Um esbulho violento - afirma D. Carlos - importa em flagrante transgressão do art. 199, § 22; da Constituição do Império”. O Inspetor já tinha vendido os escravos e sequestrado os bens do convento. graças, porém, à intervenção de D. Carlos, tudo foi  de novo entregue aos franciscanos.
            As insistentes reclamações do Pastor conseguiram também normalizar a situação financeira do culto e de seus ministros.
            Outra manifestação lamentável do regalismo. O Prelado diocesano visita canônica à Irmandade de S. João Batista, em sua Igreja. determina após que lhe sejam prestadas contas do movimento espiritual e do material. A Irmandade, à frente do Tte.-Coronel Comandante do 5º Batalhão de Fuzileiros apela para o Monarca que com o Alvará de 16 de abril de 1845, transfere a Irmandade para a jurisdição do Ouvidor, a fim de prestar contas. Os Irmãos declaram-se isentos do Bispo, também no espiritual. Não se conformando com isso o Pároco, que é o da Conceição, recorrem eles agora ao Presidente da Província, o qual manda todos os papéis a D. Carlos, pedindo o seu parecer. Responde o Antístite que não pode ser esbulhado de sua jurisdição “ordinária e espiritual por Autoridade alguma secular, sem offensa e quebra das Leis da Egreja e de todo o Direito”. O Capelão da Irmandade de S. João não pode exercer funções paroquiais; pois, está sujeito à jurisdição do Pároco da Conceição. (pág. 171)
Os sodalícios seculares continuariam a ser as rémoras da S. Igreja no Brasil!
            A 7 de setembro de 1845 D. Frei Carlos datou sua “Carta Pastoral de Saudação e Dever de Pregação”. A 11 de junho de 1847, outra sobre o “Jubileu concedido pelo S. Padre Pio IX”.
             36º quesito: QUE DIZER AINDA DO CLERO, ESPECIALMENTE DO CABIDO, NA ADMINISTRAÇÃO DE D. FREI CARLOS?
             Resposta: Em 1844 havia uma “pendência da Câmara com o Vigário de Viana”. No mesmo ano o Vigário de Caxias (?) é autorizado a crismar. Algumas nomeações curiais e eleições capitulares fizeram-se nesse período.
            A 12 de maio de 1846, D. Carlos censura o Pároco colado do Brejo - Pe. Jerônymo Antônio Proença - porque se recusára a empossar o Coadjutor nomeado pelo Sr. Bispo. Como pai exorta-o a não mais assim proceder.
            A 4 de janeiro de 1847, dirige o zeloso Antítite sensato Ofício ao Imperador. O Arcipreste João Ignácio de Moraes Rêgo passára a Arcediago. Comparecem agora dois “opositores! ao cargo vacante. - O Cônego Antônio Lobato de Araújo, alcantarense (?), vigário de S. Helena por dois anos e por um, de Alcântara. Embora provisionado para pregar, “não exercita tão santo e útil ministério”. É catedrático desde 1838. - O Cônego Joaquim José da Silva Sardinha, português, catedrático apenas desde 1842, é professor de latim, retórica, teologia dogmática e moral no Seminário e membro da Junta Administrativa do mesmo, examinador sinodal com frequente exercício, orador sacro de largos recursos, estando impressos diversos discursos seus. Procurador do Cabido e “recommendavel por sua conduta, lettras e valiosos serviços à Diocese. - O Concílio de Trento, sess. 24 De Reformatione, cap. 12, recomendo que para as 4 Dignidades sejão escolhidos Doutores ou ao menos Licenciados ou lido em Teologia ou direito Canônico, o que está também claramente expresso no Alvará de 17 de Abril de 1739. - A escolha do Cgo. Sardinha é reclamada pela indefectível Justiça de V. Magde. Imperial, e pela utilidade, e dignidade desta Igreja”.
            O Decreto Imperial de 9 de fevereiro de 1847 elevou o Cgo. J. J. da S. Sardinha às honras de Arcipreste do Cabido. (pág. 172)
             Apenas empossado, o Sr. D. Carlos pede ao Cabido informações a respeito da tabela de congruas de todos os serventuários da Catedral. São incumbidos de redigir a resposta os Revdos. Arcediago J.C. Gomes de Castro e Mestre-Escola Dr. Antônio Bernardo da Encarnação e Silva.
            A 21 de novembro de 1845, 1º Centenário da instalação e posse do Cabido da Catedral do Maranhão, depois de solene Missa Pontifical o Exmo. Sr. Bispo Diocesano, no altar-mór da Catedral de Nsa. Sra. da Vitória, em ação de graças, reune-se na Sala das Sessões o Corpo Capitular do Maranhão. Compunham-no, e todos subscreveram a ata da sessão, os M. Revdos. .......... (pág. 173)
  
            37º quesito: COMO DECORRERAM OS ÚLTIMOS ANOS DA VIDA DE D. FREI CARLOS DE SÃO JOSÉ E SOUZA?
             Resposta: Ainda em S. Luis, D. Frei Carlos escreve, em julho (?) de 1846, ao Vice-Presidente da Província - Ângelo Carlos Moniz - discordando do excessivo fracionamento das paróquias pelas Leis Provinciais, visto serem “tão pobres e faltas de matrizes e alfaias, que não pequeno trabalho hei tido em encontrar Sacerdotes que de sua administração queiram encarregar-se”.
            A 3 de maio de 1844, dois meses antes de sua sagração, escrevia o piedoso Pastor a S. Majde. Imperial, reclamando - “hua ajuda de custo para me transportar àquelle Bispado, porque sou Religioso pobre”.
            Agora (com indicação de 1847, posterior e protocolar) dirige D. Frei Carlos ao Imperador nova súplica, três anos após sua posse em sua sede. Requer 4 a 6 meses de licença, para tratar-se em Pernambuco ou Paraíba, de “huma affecção cutanea, de que sou atormentado à mais de hum anno”.
            O Dr. Paulo Saulnier de Pierrelevée, formado pela Faculdade de Medicina de Paris e sócio de diversas Academias da Europa, em S. Luis, aos 12 de março de 1847, atesta que D. Frei Carlos está atacado “de uma enfermidade caracterizada por dartros vivos, manchas avermelhadas multiformes, disseminadas por diversas partes do corpo; affeição sempre exasperada pela influência climatérica da Província. Sem a mudança para um clima mais benigno, os tratamentos não dão resultado”. (pág. 174)
             Ainda sem data, mas já em Pernambuco, onde se encontrava “desde julho deste anno” (1847), afirma “experimentar melhoras”, mas “ não poder regressar, para não peorar”. Por isso, requer mais 6 meses de licença. Assim, novamente a 11 de novembro de 1848 e a 12 de janeiro de 1849. Os Drs. Francisco José de C. Leal e José Eustáquio Gomes atestam hemiplegía esquerda.
            A 12 de junho de 49, apenas pode assinar nova petição de licença. No Rio, “J. M. Campos” opina que “S. Magde., de accordo com as Leis, visto o estado suplicante, pode conceder a licença com as côngruas integrais”. (Arquivo Nacional.)
            No convento do Carmo, em Recife, cercado de seus irmãos de hábito, rendeu sua bela alma a Deus, a 3 de abril de 1850, D. Frei Carlos de S. José e Souza. Em seu testamento legou sua livraria e 4 contos de réis para o Seminário de sua Diocese. Seus despojos foram inumados na capela-mór da igreja do Carmo, onde professara e fora sagrado.
            “Bello talento - afirmou um de seus cronistas - cultivou seu espírito nas lettras e o seu coração nas virtudes. Sabia conciliar a autoridade com amor e brandura. Um dos principaes oradores do seu tempo, eloquente, arrebatador. a si mesmo inflamava e o auditório”. (Pe. Carlos Augusto Peixôto de Alencar: Roteiro dos Bispados do Brasil.)
             38º quesito: QUE HOUVE NO GOVERNO DA DIOCESE DURANTE A AUSÊNCIA E APÓS A MORTE DE D. FREI CARLOS?
             Resposta: Antes de embarcar para Pernambuco D. Frei Carlos nomeou três Vigários Gerais, a sucederem-se por impedimento ......... (pág. 175)
CONDURÚ PACHECO, D. FELIPE - “História Eclesiástica do Maranhão” - S.E.N.E.C., Departaamento de Cultura, Maranhão, 1969.
Carlos de S. José, bispo de Maranhão, p. 118:
Natural de Recife. Eleito bispo de Maranhão por decreto de 13 de maio de 1843, foi confirmado pelo papa Gregório XVI, a 24 de janeiro de 1844? Sagrado pelo bispo de Olinda D. João da Purificação Marques Perdigão, a 2 de Junho do mesmo ano, fez no dia 28 a sua entrada solene em S. Luiz de Maranhão. Rege a diocese até 3 de abril de 1850, data em que faleceu com 73 anos de idade. Este prelado foi um dos primeiros oradores do seu tempo.
Manuel de Alvarenga, O Episcopado Brasileiro. Subsídio para a história da Egreja Catholica no Brasil, S. Paulo, A. Campos, 1916.
Sebastião de Vasconcellos Galvão, Diccionário Chorographico histórico e estatístico de Pernambuco, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, S-Z, 3ª ed., 1927.

p. 117-118: Frei Carlos De S. José e Suza, bispo.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 216: Quem se salva?


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

CARMELITAS: Um caráter Profético.

John Welch, O. Carm (Foto).
Whitefriars Hall , Washington

Um escritor sugeriu que a vocação carmelita é estar suspenso entre o céu e a terra, sem encontrar apoio em nenhum dos lugares.  Esta é uma forma dramática de dizer que no fundo  nossa fé, nossa esperança e nossa confiança em Deus tem que ser seu próprio apoio e Deus nos conduz mais além de nossos feitos mundanos e espirituais.   No final de sua vida Teresa de Lisieux achou  que a esperança pelo céu sustentada em toda sua vida se esvaía.  João da Cruz nos lembrou as observações de São Paulo: se já temos aquilo que esperamos, já não é esperança; a esperança está naquilo que não possuímos. .A espiritualidade de João da Cruz tem sido descrita como uma contínua interpretação da natureza de Deus .
Será que esta suspeita que temos quanto às intenções e as construções humanas nos converte, a nós carmelitas, em uns eternos estressados?  Ou, ao contrário, nos permite fazer uma avaliação inteligente do coração humano e de sua tendência a criar ídolos? Não será isto realmente um exercício de libertação que vai nos libertando de todas as formas em que nos escravizamos e nos entregamos aos ídolos?  Não é a crítica carmelita um desafio para não nos apegarmos a nada, para que nada seja o centro de nossa vida, além do mistério que a envolve.  E nessa pureza de coração, somente conseguida pela ação do Espírito de Deus, somos capazes de amar aos outros e viver neste mundo sabiamente.  O desafio carmelita é cooperar com o amor de Deus, algumas vezes obscuro, que nos  vivifica e nos cura .
Esta contínua escuta para aproximar-nos de Deus, por meio de todas as palavras e estruturas que conseguimos, é a tarefa profética do Carmelo.  Que Deus seguimos? O deus de nossas afeições? O deus das ideologias ou das teologias ilimitadas? Os deuses opressores dos sistemas econômicos e políticos? Os deuses de todos os “ismos” de nosso tempo? Ou é nosso Deus o Deus que transforma , cura , liberta  e vivifica?
O arcebispo Oscar Romero foi um clérigo tradicional, cuidadoso e estudioso.  Era um bom homem , reservado, piedoso, orante.   Mas sua conversão chegou quando viu no outro o rosto de Cristo, um rosto diferente  do Cristo  de sua piedade e de sua oração, um rosto  diferente de sua teologia, um rosto diferente do Cristo familiar  à hierarquia de El Salvador. Era o rosto de Cristo no rosto do povo de El Salvador; era o rosto de Cristo verdadeiramente encarnado  na história e nas lutas do povo.  Romero disse:

Aprendemos a ver o rosto de Cristo – o rosto de Cristo que é também  o rosto do ser humano que sofre, o rosto do crucificado, o rosto do pobre, o rosto do santo e o rosto de cada pessoa – e amamos a cada um com o critério pelo qual seremos julgados: “tive fome e me deste de comer”.
Os ídolos de nosso tempo não são somente os amores pessoais e as possessões, mas especialmente  os ídolos do poder, do prestígio, do controle  e o domínio que deixam a maior parte da humanidade fora do banquete da vida.   Romero comentou:

A pessoa pobre é aquela que se converteu a Deus e põe toda a sua fé NELE, e a pessoa rica é aquela que não se converteu a Deus  e põe sua confiança nos ídolos: dinheiro, poder, bens materiais... Nosso trabalho deve procurar converter-nos a nós mesmos e a todo povo para este autêntico significado da pobreza.       
Muitas de nossas províncias tem participado na confrontação com os ídolos de nosso tempo através dos movimentos de libertação em muitas  regiões do mundo, que incluem Filipinas, América Latina, América do Norte, África, Indonésia e o Leste da Europa. Hoje em dia as diferenças entre o norte e  o sul apontam para os ídolos dos “ismos” que mantém a maioria do mundo em uma condição de marginalização.

 Resumo

A fome do nosso coração nos lança ao mundo em busca de alimento. De muitas formas perguntamos ao mundo. Viste aquele que fez isto em meu coração e o deixou chorando? Nosso coração vai se dispersando sobre a terra enquanto vamos perguntando a cada pessoa, a cada objeto de posse e a cada atividade que nos diga mais a respeito do Mistério que está no centro de nossas vidas.
A alma apaixonada pelos mensageiros de Deus, confunde-os com Deus mesmo. Tomamos as coisas boas de Deus e lhes pedimos que sejam deuses. O coração, cansado de sua peregrinação, tenta assentar-se  e construir um lar para si. Coloca seus desejos mais profundos nas relações, posses, planos, atividades, metas e pede a tudo isto que sacie sua fome profunda.  Pedimos muito e como nada pode corresponder às nossas expectativas, começam a desmoronar-se.  Mais e mais os santos carmelitas nos lembram que só Deus é o alimento que pode saciar a fome do nosso coração.

Perguntas para refletir:

1-Quais são os ídolos, os não-negociáveis, que se transformam em parte da minha vida?  Quais são essas coisas  sem as quais não posso passar?  Eu as estou prejudicando com meu apego?
2-Onde e como tenho me tornado  uma pessoa sem liberdade na vida?  Sinto-me livre para seguir meus desejos mais profundos?   Sou livre para escutar as necessidades da minha comunidade?
3-Tenho estado inconscientemente construindo meu próprio reino no lugar de estar preocupado pelo reino de Deus? Sem perceber, tenho tirado Deus do centro da minha vida e tenho colocado nesse centro meus objetivos, meu trabalho profético, minha compreensão das exigências do reino? Ao longo dos anos tenho me esquecido de perguntar:  o que é que Deus quer?
3-As paixões que me trouxeram ao Carmelo têm sido domesticadas ou vão se desvanecendo?  Tenho me transformado  numa pessoa compulsivamente ativa, talvez sentindo-me mais como um funcionário de uma instituição do que como um discípulo do Senhor?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 213: Primeira Missa do Frei Eduardo.


CHAMADOS - PARA ESTAR COM ELE - E SER ENVIADOS

     Vários chamados: para a vida, para tal família, para a Igreja, para o tal Instituto, para tal casa, tal lugar, tal trabalho.

     MA 2 "(...) Abrindo o Santo Evangelho, os meus olhos caíram sobre as seguintes palavras: «Jesus, tendo subido a uma montanha chamou para junto dele quem Ele quis; e vieram até Ele»" Trata-se de Mc 3,13, que continua: "e constituiu doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar" (Mc 3,14). Ser Jesus pela vida, pela pregação. Seguir, mas na plenitude do sentido: transformar-se em Cristo Jesus. "Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e estabeleci para irdes produzir fruto" (Jo 15,16)
     3 "Aqui está o mistério da minha vocação, da minha vida inteira e, sobretudo, o mistério dos privilégios de Jesus pela minha alma..." (MA)

     1Sm 3,1-21; 4,1

     A Igreja é a nossa família convocada.

     Mt 4,18-22; Mc 1,16-20  X  Lc 5,1-11

     "A Vida Consagrada manifesta a sua dimensão de louvor à Trindade no sentido de que o início da vocação à Vida Consagrada é um chamado de Deus Pai a quem a pessoa se entrega totalmente". (VC cap. I; n. I).

     "Aliás, nós sabemos que tudo concorre para o bem dos que amam a Deus, que são chamados segundo o seu desígnio. Aqueles que de antemão conheceu também os predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho, a fim de que este seja o primogênito de uma multidão de irmãos; os que predestinou também os chamou; os que chamou justificou-os; e os que justificou também os glorificou" (Rm 8,28-30).

     Sacerdotes, Reis, Profetas. Chamados - com Ele - Enviados
     Missão do Religioso = Missão de Jesus - Para todos os homens
para o homem todo - A obra encomendada pelo Pai: a Salvação de todos.
     Eu Te glorifiquei na terra, concluí a obra que me deste para fazer (Jo 17,4).
     Ninguém jamais viu a Deus; Deus Filho Único, que está no seio do Pai, no-Lo revelou (Jo 1,18). Geração
     Pois Deus não enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele (Jo 3,17). Missão
     Estar com Ele - Conhecê-Lo intimamente - Revelá-lo (pela vida e pela palavra) Que pensamos sobre nós? Quem espera o povo que nós sejamos? Com Ele, como Ele, para Ele - Estar com Ele para ser por Ele transformado - Convivência, Amizade, Intimidade - Conhecimento íntimo -
     Não sou eu quem vive: é Cristo quem vive em mim, pois minha vida presente na carne vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim (Gl 2,20).
     Estar com Ele que sempre está vivo - Estar pelo amor - Tudo com Ele, como Ele e para Ele -
     Para Ele e para os outros como Ele
     Esta é a vontade do Pai
     Que os outros sejam para Ele, para o Pai no Espírito Santo.

     Como o Pai me enviou assim também eu vos envio (Jo 20,21).

     Ser sinal - ter uma vida significante - Significar Jesus, dar sentido de Jesus ao que fazemos e ao que vivem os outros e a história. Apóstolo = enviado para ser Jesus. Pelo Espírito Santo
Na conversão, em união com o Espírito na oração, na contemplação.

     Pedro (NT); Elias, Jonas (VT) - Nova oportunidade: Elias, Jonas, Pedro.

     ELIAS - Veio-lhe a palavra do Senhor: «Elias, que vieste fazer aqui?» (...) Veio-lhe uma voz: «Que vieste fazer aqui, Elias?» (...) Vai, retoma o caminho em direção ao deserto de Damasco (1Rs 19, 9. 13. 15).

     JONAS - A palavra do Senhor veio a Jonas, filho de Amitai: «Levanta-te e vai para Nínive, a grande cidade, e profere contra ela um oráculo, porque a maldade dos seus habitantes subiu até mim». Jonas se pôs a caminho mas para fugir para Társis (Jn 1, 1-2).
     A palavra do Senhor veio uma segunda vez para Jonas: «Levanta-te e vai para Nínive, a grande cidade, e profere contra ela o oráculo, que eu te comunicarei». Jonas levantou-se e partiu, mas, desta vez, para Nínive, conformando-se com a palavra do Senhor (Jn 3,1-3).
     Deus viu a reação deles: voltaram atrás do seu caminho e Deus voltou atrás da sua decisão de fazer o mal que anunciara; não o fez... (Jn 3,10) Reação de Jonas
     PEDRO - Ver Jo 20, 15-19

sábado, 1 de dezembro de 2012

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 211: Só os loucos libertam os normais.

Frei Vinícius vai para o Mosteiro dos Beneditinos.

Na manhã deste sábado, 01 de dezembro de 2012, o Frade Carmelita da Província Carmelitana de Santo Elias, Frei Ezequiel Vinícius (Foto), natural de Unaí-MG, deixou o Convento do Carmo e foi para o Mosteiro dos Beneditinos no Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo, onde vai fazer uma experiencia vocacional-religiosa na Ordem de São Bento. A seguir, leia uma entrevista sobre a música liturgia na Igreja com o Frade Carmelita.
Entrevista com Frei Ezequiel Vinícius de Oliveira Pereira O. Carm.
Visitou a Igreja da Ordem e participou da Missa Tridentina na manhã do dia 18 de julho o Frei Ezequiel Vinícius de Oliveira Pereira O.Carm, que é carmelita da antiga observância, e reside no Convento de Nossa Senhora do Carmo de São Paulo. Atualmente exerce a responsabilidade de Organista da Basílica Nossa Senhora do Carmo e esta concluindo este ano seu bacharelado em Órgão pela Unesp- Universidade Estadual Paulista.
Agradecemos o Frei Vinicius que nos deixou um pouquinho mais perto do céu com sua presença musical em nossa Igreja. Segue a entrevista que o religioso concedeu ao Jornal Adorador.
Adorador: Frei Vinicius conte-nos um pouco sobre sua vida pessoal e familiar.
Frei Vinicius: Sou natural de Unaí- MG. Minha família teve um grande papel em minha vida musical e religiosa, pois graças a Deus são muito religiosos e isso me motivou a amar a Igreja e a minha vocação. Através da religião tive contato direto com a música litúrgica, de maneira especial a música de órgão que desde pequeno me cativou e muito despertava interesse.
Adorador: Caro Frade, os jovens que estudam música é necessário ter um berço musical?
Frei Vinicius: Acredito que o mais importante seja a perseverança e a vontade de aprender, ter sempre o coração aberto para o novo. A família pode influenciar na vida ou no talento do músico com apoio e atenção. O mais importante é o dom e a opção particular de cada um e a maneira que se cultiva este dom.
Adorador: O Senhor acha possível utilizar a teoria e a técnica que se aprende na universidade de musica, nas celebrações dominicais?
Frei Vinicius: A teoria e a técnica são ferramentas de grande importância para o canto litúrgico uma vez que vivemos em um tempo de muito amadorismo em todos os parâmetros da sociedade. Na música litúrgica não é diferente, estamos nos acostumando e nos acomodando com os novos gêneros musicais na liturgia, e que na maioria das vezes ocorrem sem a menor reflexão ou seriedade no repertório e na execução das “músicas sacras” sendo muitas composições utilizadas hoje em missas não são propriamente para uso em liturgias.
Adorador: Tocar e ser responsável pelo Órgão da Basílica do Carmo de São Paulo, deve ser fabuloso! Conte-nos sua experiência.
Frei Vinicius: De fato, sou muito grato a Deus por esta oportunidade. Quando assumi esta função o primeiro passo foi fazer que o instrumento passasse por várias manutenções. O segundo passo era fazê-lo ser ouvido pela comunidade, este trabalho resultou em um coral, agora com quarenta membros da comunidade e que atua constantemente nas liturgias e solenidades da Basílica.
Adorador: Como foi executar algumas peças no Órgão dedicado a Sebastian Bach, Primeiro de Curitiba e que fica sob a responsabilidade da Igreja da Ordem?
Frei Vinicius: Foi uma alegria muito grande poder participar ativamente da liturgia desta Igreja tocando órgão. O órgão da Igreja da Ordem é um instrumento com características muito particulares e que exigem um repertório específico com articulações precisas e adequadas ao som e registros do instrumento. Fazer este trabalho para mim foi algo de grande valor e aprendizado, agradeço muito ao Mons. Luiz por toda acolhida, ao Coral Gregoriano na pessoa da maestrina Madalena e ao amigo Eduardo Omar a quem devo este convite.
Adorador: Por favor, deixe-nos uma palavra de incentivo e animo para nossos músicos
amadores e profissionais.
Frei Vinicius: Finalizo então com as palavras de nossa Santa Regra do Carmo: “E tudo que tiverdes de fazer, fazei-o na Palavra do Senhor”. RC.14. Que todos os músicos litúrgicos tenham sempre o interesse de aprender cada vez mais, cultivando a humildade, e que tenhamos sempre a consciência que estamos a serviço de Deus e o povo de Deus, que espera de nós apenas uma coisa: Música com seriedade e piedade que se faça ouvir a voz do Senhor.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 207: 425 Anos dos Carmelitas em Santos. (...


QUE FAZES AQUI, ELIAS?”

Frei Jerry de Sousa Fonseca, 0. Carm. Comunidade Carmelitana Edith Stein, Planalto. Belo Horizonte, MG

Há quem diga que projetar a vida é assumir a própria história, tomá-la nas mãos e orientar todas as energias para seu principal objetivo. De fato, o mesmo Jesus que veio não para fazer sua vontade, mas a vontade do Pai, declarou: “Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por própria vontade” (Jo 10,18). Jesus entrega sua vida e, ao mesmo tempo, a tem em suas próprias mãos. Se somos chamados, como carmelitas, a viver em obséquio de Jesus Cristo com puro coração e consciência serena numa comunidade concreta, então podemos crescer até a estatura de Jesus Cristo. Podemos também entregar a vida, amadurecer nesta entrega, assumindo em nossas mãos a própria história. Podemos viver a vocação, plano de Deus e projeto de vida... Ser carmelitas.
A beleza da vocação que nos foi confiada faz dizer: quero seguir Jesus Cristo no estilo de vida carmelitana e amá-lo com todas as forças; quero abraçar o exemplo da Virgem Maria, autêntica discípula do Senhor; quero ser presença profética e orante no meio do povo; quero subir o “Monte Carmelo” e encontrar o Deus da brisa suave; quero viver a contemplação na ação e sentir com o coração de Deus. Quero ser discípulo e missionário de Cristo para que Nele os povos tenham vida; quero viver a fraternidade a todo custo e me identificar com os mais pobres e excluídos de nossa sociedade, dar a vida pela Igreja, pelo Carmelo e pelo povo!
Quero dialogar com todos, respeitar todas as formas de pensamento, acolher as várias manifestações de fé, tradições e culturas; quero ser sinal de contradição no mundo de hoje. Quero fazer grandes coisas ou simplesmente viver o Amor, e com amor assumir os compromissos do dia a dia. Posso dizer tão somente que me basta buscar o Reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais virá por acréscimo.
Tudo muito bom e maravilhoso! Porém permanece um espaço para se responder à provocação de Deus: “Que fazes aqui, Elias?”. Talvez este espaço seja justamente o lugar da resposta que cada um pode dar a Deus hoje. Respondemos com um pé na convicção de um plano que se traduz nos compromissos de cada etapa de formação (inicial ou permanente), numa estrutura e planejamento que tem por objetivo oferecer boas condições de crescimento humano e espiritual.
Respondemos também com um pé na incerteza de um caminho marcado por indefinições. A vida é assim, a porta está aberta para o que não está previsto. Isso pode ser muito bom, se bem aproveitado para discernir os apelos de Deus, definir o ritmo da caminhada em cada momento, renovar a disposição de se encontrar no horizonte da vocação. Quem caminha está sujeito a tudo, mas a graça de Deus oferece sempre boas condições para responder e retomar o caminho. Sabemos em Quem colocamos a nossa confiança! 
      Desejamos, sobretudo, fazer a vontade de Deus, por ela estamos aqui, esta é a nossa convicção e assim respondemos Àquele que nos interpela: “Que fazes aqui, Elias?”. Ouvimos tua voz, Senhor, bebemos da Fonte e tudo o que queremos ser encontramos no Carmelo. A cada dia, sempre de novo, respondemos: “Eis-nos aqui, Senhor, para fazer tua vontade, pra viver do Teu Amor”.
      Maria, Mãe do Carmelo e Irmã dos carmelitas, anima nossa caminhada, inspira nossa vivência, ajuda-nos a ser mais fraternos e solidários uns com os outros, e com todos os que esperam de nós um sinal do amor misericordioso de Deus. Aos carmelitas dai vossas graças, ó Estrela do Mar.

A PALAVRA DO FREI PETRÔNIO, Nº 207: 425 Anos dos Carmelitas em Santos. (...


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A Impunidade no Pará

Dom Frei Frei Wilmar Santin, Carmelita.
           Os assassinatos por causa de denúncias de ilegalidade ambiental continuam aterrorizando os moradores do Pará. Depois da morte de Dorothy Stang, em 2005, vários assassinatos se sucederam no Norte do país, ampliando a descrença na justiça. No dia 22 de outubro, o bispo da Prelazia de Itaituba, no Pará, Dom Frei Wilmar Santin, comunicou a morte do líder comunitário João Chupel Primo. “Tudo indica que a morte foi encomendada por causa das denúncias que ele vinha fazendo em relação à extração ilegal de madeira em uma reserva florestal. Foi uma execução covarde e muito bem planejada, por pessoas altamente profissionalizadas no crime de extermínio”, contou à IHU On-Line, em entrevista concedida por telefone.
Dom Frei Wilmar Santin foi nomeado bispo há seis meses e diz que, nesse período, escuta com frequência a pergunta: “Será que nós vamos voltar ao tempo do faroeste?”. Para ele, a segurança e a prostituição são os principais problemas sociais de Itaituba, e só serão resolvidos quando houver intervenção estatal. Na entrevista a seguir, ele cobra a atuação do governo federal. “Nas eleições, Dilma prometeu intensificar a segurança, e portanto precisa disponibilizar meios necessários para elucidar esse crime. (…) A Polícia Federal tem que ajudar nas investigações e colocar um basta nesse negócio de encomendar morte dos outros”. Dom Frei Wilmar Santin, frei carmelita, é bispo da Prelazia de Itaituba, no Pará.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Quais foram as razões da morte do líder comunitário João Chupel Primo? Como o senhor recebeu a notícia?
Dom Wilmar Santin – Tudo indica que a morte foi encomendada por causa das denúncias que ele vinha fazendo em relação à extração ilegal de madeira em uma reserva florestal. Foi uma execução covarde e muito bem planejada por pessoas altamente profissionalizadas no crime de extermínio. Mataram-no com um único tiro no meio da testa.
Ainda não podemos fazer acusação, mas tudo indica que a morte foi encomendada por quem estava vendendo a madeira na região. Ele era conhecido como João da Gaita (foto), gostava de cantar, tocar sanfona, era muito animado, uma boa liderança na região. Não consigo entender como a situação chegou a esse ponto.
IHU On-Line – O senhor conhece o Assentamento Areia? João Primo denunciava o corte e a venda de madeira ilegal que acontecia nesse local?
Dom Wilmar Santin – Nessa região foi criada uma área de preservação. Entretanto, a informação que tenho é de que 15 a 20 caminhões retiram madeira do local durante a noite. João foi assassinado porque passou a denunciar essa situação.
IHU On-Line – Há quanto tempo o senhor vive em Itaituba? Quais foram suas impressões ao chegar à região, especialmente no que se refere à condição de vida das pessoas e aos problemas sociais?
Dom Wilmar Santin – Estou na cidade há seis meses. Nasci no estado do Paraná e, nos dois últimos anos, morei em Manaus, nas paróquias São Lázaro e Coração Imaculada de Maria do Morro da Liberdade. Tomei posse como bispo no dia 10 de abril deste ano. Então, ainda não conheço toda a região.
Itaituba cresceu muito nos anos 1980, 1990, devido ao garimpo, mas hoje não há tanto ouro na região. Apesar disso, os principais problemas sociais estão relacionados a esta atividade. Quando a extração de ouro diminui, permanece a pobreza. Recentemente escutei a expressão “no tempo do garimpo se matava cinco por noite e se amarrava mais cinco para matar no café da manhã”. De uma maneira poética e bem humorada, as pessoas dizem que a situação antigamente era ainda pior. Toda noite tinha briga, rixas nos garimpos. A violência é bastante parecida com outros lugares do país. O que mais me choca é a desagregação familiar provocada pela prostituição. Outro dia encontrei uma mulher com sete filhos de sete pais diferentes. De certa maneira, essa situação é consequência dos garimpos.
IHU On-Line – Qual a reação da população diante do assassinato de pessoas que denunciam as ilegalidades da região?
Dom Wilmar Santin – Tenho escutado frequentemente esta expressão: “Será que nós vamos voltar ao tempo do faroeste?”. A polícia do Pará conseguiu prender os assassinos da Ir. Dorothy, e tenho esperança de que consigam prender o assassino de João Primo. Em função da repercussão internacional, acredito que a polícia está se empenhando mais nas investigações para elucidar esse crime e, principalmente, para limpar o nome do país e do Pará.
Fiz e reitero o apelo à nossa presidente. Nas eleições, ela prometeu intensificar a segurança, e, portanto, precisa disponibilizar meios necessários para elucidar esse crime. Se esses crimes que estão acontecendo no Pará ficarem impunes, o governo dela ficará manchado. A Polícia Federal tem que ajudar nas investigações e colocar um basta nesse negócio de encomendar morte dos outros.
No mês de setembro estive na Itália, e os amigos perguntaram se eu morava próximo do local onde Ir. Dorothy foi assassinada. Expliquei que residia em uma cidade mais tranquila, onde os conflitos eram menos acentuados e, de repente, João Primo é assassinado. A morte dele ganhou repercussão internacional e, desde então, tenho recebido muitos e-mails de pessoas que moram no exterior.
No final de agosto, os bispos do Pará se reuniram com o governador. Nós apresentamos as problemáticas das nossas regiões e sugestões de como resolver certos problemas. Percebi que ele tem boa vontade em resolver as questões. Quando falamos sobre a segurança, principalmente no chamado sul do Pará, ele disse que, infelizmente, os recursos que chegam para o estado não são suficientes para investir mais em segurança porque o Pará é grande demais.
IHU On-Line – E o senhor é favorável à divisão do Pará em três estados (o novo Pará, Tapajós e Carajás)?
Dom Wilmar Santin – Para ir até Belém é uma epopeia; é longe demais. O acesso é difícil: a passagem de avião é muito cara, e a estrada não é asfaltada. A geografia da região dificulta o acesso de uma cidade à outra.
A história do Brasil recente demonstra que a criação de novos estados é positiva para o desenvolvimento das regiões. Um exemplo disso é a divisão entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Hoje, devido à falta de recursos o Pará está abandonado. Com a criação de Tapajós, será possível estabelecer um canal de proximidade geográfica entre as regiões. Por outro lado, os paraenses de Belém se opõem em relação à criação de Carajás. Eles alegam que todas as riquezas ficarão para o novo estado de Carajás: a hidrelétrica de Tucuruí, e as grandes jazidas. Sou favorável à criação do estado do Tapajós e acredito que, com a divisão, o povo será favorecido, pois o estado terá mais recursos para investir em segurança.
IHU On-Line – Como os indígenas que vivem no Pará estão se manifestando diante do Complexo do Tapajós?
Dom Wilmar Santin – Os indígenas vivem em terras demarcadas, em uma área da cabeceira do rio Tapajós. Dias atrás ouvi a notícia de que eles prenderam alguns funcionários da Funai, tendo como objetivo pressionar o governo para um diálogo. O planejamento de construir cinco represas hidrelétricas na região está criando uma certa intranquilidade entre as comunidades, porque essas obras irão atingir a reserva indígena. Dois caciques estão sob proteção da Política Federal porque estão sendo ameaçados de morte.
IHU On-Line – Como o senhor vê o projeto de Belo Monte, no Pará? Como a população tem se manifestado diante da liberação para construir essa obra?
Dom Wilmar Santin – Em relação a Belo Monte, existe, de um lado, a propaganda, que diz que a obra é necessária; e, de outro, existe a realidade concreta. Dom Erwin tem se empenhado na luta contra Belo Monte e explicou, recentemente em um encontro dos bispos da região, que mais de 30 mil pessoas estão sendo arrancadas de suas casas e não sabem para onde ir. Não há diálogo e nem indenizações. As pessoas são retiradas de suas moradias na base da pressão. Os moradores saem da região que será inundada e mudam para Altamira. A cidade está um caos, porque mais de 30 mil pessoas estão sem trabalho, sem casa, sem escola, sem hospital, sem luz, sem água. A violência e a prostituição aumentaram. Além disso, os técnicos dizem que as 40 condicionantes foram cumpridas, mas isso é mentira. Não sei o que fazer para mudar essa situação. Tentamos todas as formas de diálogo, mas nada adiantou. O governo federal está desdizendo tudo o que prometeu em campanha. Parece que Dilma jogou no lixo a luta pela justiça. Agora ela está comprometida com o capital internacional.
IHU On-Line – Qual é a distância entre Itaituba e Altamira? Belo Monte pode impactar Itaituba também?
Dom Wilmar Santin – A distância entre as cidades é de aproximadamente mil quilômetros. Indiretamente, a obra de Belo Monte pode causar algum impacto na cidade à medida que as trinta mil pessoas que estão em Altamira não tiverem mais condições de sobreviver no município. Certamente elas migrarão para outros lugares e poderão vir para Itaituba. Talvez aconteça uma migração relevante de cinco a dez mil pessoas para a cidade.
IHU On-Line – Itaituba também tem recebido empreendimentos do PAC?
Dom Wilmar Santin – Será construído um porto do outro lado da cidade, em Miritituba. Itaituba está na margem esquerda do rio Tapajós e Miritituba, no lado direito. Por enquanto as pessoas vão de balsa de uma cidade à outra. A informação que temos é de que será construído um porto para escoar a soja colhida no Mato Grosso. Apesar de ser um porto destinado à atividade comercial, acredito que ele irá favorecer a população, pois serão criados novos empregos.
IHU On-Line – Qual tem sido a atuação da Igreja na região em relação aos grandes empreendimentos financiados pelo governo?
Dom Wilmar Santin – A Igreja sempre tenta desenvolver um trabalho de conscientização, de união do povo, de dizer o que está acontecendo. Estamos tentando alertar a população para os problemas que serão gerados em função da construção das hidrelétricas. Pessoalmente, acredito que podemos falar o que quisermos, mas, se o governo federal já está comprometido com grandes empresas, as hidrelétricas vão sair de qualquer jeito. Não adianta lutar contra.
Vamos lutar para que as indenizações sejam justas e que os impactos ambientais sejam pequenos. Em Itaipu não previram os impactos. Poderia ter construído uma inclusa para navegação e transporte fluvial, mas nada foi feito. Tenho informações de que boa parte das pessoas que perderam as suas terras não foram bem indenizadas.