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A Palavra do Frei Petrônio

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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

CARMELITAS: O Silêncio. (Formação para postulantes carmelitas)

Emanuele Boaga, O. Carm. e Augusta de Castro Cotta, CDP

Atitude dialogal e o silêncio «sonoro»
«Eu mesmo a seduzirei, conduzirei ao deserto, e lhe falarei ao coração.
Lá lhe restituirei suas vinhas.... e ela responderá como nos dias da juventude»
(Os 2,16-17)

A) Observações e conteúdos
1 - Os assuntos que compõem este tema oferecem elementos básicos para a dinâmica da vida espiritual carmelitana: levando a compreender o tipo do silêncio necessário ao Carmelita e a purificação-união com Deus.
2 - Para introduzir o tema, pode-se ajudar o Postulante a notar algumas situações viven­ciais (como se sente quem perde a paz interior, quem vive cheio de paixões, etc) e também próprias do ambiente (como se sente quem vive no barulho constante, quem fala muito e as consequências disto na vida). Exame de como tem sido a própria ex­periência na casa religiosa (horários e ambientes de silêncio). Oferecer como  leitura inicial o nº 21 da Regra do Carmo, comentando-o.
3 - Oferecer em seguida, os seguintes conteúdos:
• O silêncio na vida humana: noções sobre o silêncio como fator indi­spensável para o crescimento do ser na maturidade humana, utilizando algum texto adequado ou desenvolvendo os seguintes tópicos:
- o ser humano é feito para comunicar-se. E se realiza na comunicação que tem a forma de diálogo ou partilha da palavra, o que supõe dois interlocutores: o eu que fala e o tu que ouve e vice-versa. A primeira necessidade para que o diálogo seja produtivo é o conhecimento mútuo destes interlocutores. O silêncio está a serviço da palavra. Ele é «metade» da comunicação, sem a qual a própria palavra pode ser sem conteúdo (vazia, sem sentido, sem qualidade humana) ou sem compreensão, gerando mal en­tendimento;
- o silêncio será pois muito importante para esta comunicação. Ele  vai permitir  o recíproco conhecimento dos interlocutores. É necessário fazer silêncio para escutar o outro e a si mesmo (parar, pensar, examinar os próprios pensamentos, comporta­mentos, «pesar» as palavras que diz ou ouve). Deus é também o Outro, portanto, para conhecer a Deus é preciso silêncio. Enfim toda a criação (a finalidade de todas as coisas), só podemos conhecer quando fazemos silêncio para ouvi-las.
- É impossível crescer no amor sem a prática do silêncio que cria o espaço para a com­preensão e a aceitação de si mesmo e do outro na sua alteridade. Somente a pessoa que chega a aprender o silêncio chega à própria solidão (= a compreensão de que é um ser único, irrepetível, com características próprias) e, portanto, adquire também capacidade para compreender o outro, realizando assim,  a verdadeira comunicação.
- SOLIDÃO e SILÊNCIO ocupam um lugar de destaque na vida humana. Notar que jamais se pode confundir solidão com fossa, pois a solidão é estado do ser ( cada pessoa é só; existe sozinha; ninguém pode tomar o seu lugar na responsabilidade de assumir a vida) e se não procuramos a nossa «solidão» poderemos viver eternamente na periferia de nós mesmos, dependentes da propaganda, da manipulação, etc. Cada um é ser único diante de Deus.

- O silêncio é imprescindível à realização da vocação humana, das boas relações com todos. O silêncio não consiste exclusivamente no controle do falar. Este é apenas o primeiro passo para aprender o verdadeiro silêncio. É difícil definir o silêncio, so­bretudo porque são múltiplas as suas dimensões. Costuma-se apenas, comumente, considerar como silêncio a ausência de certos ruídos desagradáveis, preenchendo, contudo o espaço livre com outro tipo de ruídos mais aceitáveis, mas nem por isso, silêncio verdadeiro (música, comandos condicionantes, vídeos, etc.).  Existem pois, vários tipos de silêncio que se pode classificar da seguinte forma:
> silêncio negação da palavra que fecha o ser em si mesmo e pode ser ex­pressão de desprezo; de indiferença; de orgulho; de raiva, de fraqueza; de cumplicidade; de traição... (analisar cada tipo, aproveitando para formar também nas corretas e sadias (relações humanas);
> silêncio atitude de escuta e de abertura, expressão do coração em paz, puri­ficado, libertado das amarras interiores do egoísmo; da capacidade de olhar e de amar, como Deus vê e ama; expressão de alegria, «sinal de que o coração está em casa e está aberto ao outro; sinal de desprendimento de si para acolher as expressões do outro.
• O SILÊNCIO NA BÍBLIA: A Escritura - relato e dinâmica da revelação do AMOR DE DEUS a cada ser humano - é por este mesmo fato o lugar do encontro, do caminhar para a comunhão com o MISTÉRIO DE DEUS. Para ouvir e acolher a Deus é necessário conhecer o seu jeito de se comunicar a nós. Numerosos são os textos bíblicos sobre a necessidade e o valor espiritual do silêncio que po­dem ser utilizados para formar no silêncio como clima vital indispensável para a escuta da Palavra.
Julgando conveniente, pode-se desenvolver mais a aprendizagem do silêncio tomando-se os grandes personagens da Bíblia (Abraão, Samuel, Moisés, Profetas o nosso Elias) mas sobretudo Jesus e Maria. Algumas passagens da Bíblia nos revelam o silêncio de Maria. Pode-se analisá-las: Lc 1,34-38 (diálogo da Anunciação); Lc 1,46-55 (a palavra de Maria reveladora de Deus); Lc 2,48 (o silêncio de Maria ante a resposta de Jesus), etc. Quanto ao silêncio de Jesus basta percorrer algumas passagens dos evangelhos para explicá-lo facilmente.
• Silêncio carmelitano:  Informar o seu valor para o Carmelo. Na vida carmeli­tana o silêncio tem um lugar muito importante, uma vez que ela nos propõe como substância da vida a comunhão com DEUS, a vida em sua PRESENÇA, o «Vacare Deo» — atenção amorosa e continua a Deus — como um caminho para a realização integral da vida humana.
Tal atenção a Deus supõe COMUNICAÇÃO com seu amor, ESCUTA E RESPOSTA. Precisamos captar o que Deus nos revela. Para este diálogo, que introduz e mantém a comunicação, a partilha e compartilha da vida, o meio es­sencial é o SILÊNCIO e a SOLIDÃO: ciência que se aprende, sabedoria que se adquire, experiência que se vive, AMOR que se dá. A verdadeira motivação do silêncio reside em nossa própria opção de buscar a Deus, ou melhor, de acolhê-lo em nossa vida e de viver NELE.
• Verificar a visão carmelitana do silêncio em diálogo com os (as) Postulantes e aproveitar das perguntas e esclarecimentos para oferecer mais algumas noções, como:
- Todos os nossos  irmãos do Carmelo desenvolveram em suas vidas as atitudes nasci­das do silêncio e que o Nº  21 da Regra do Carmo tão bem nos ensina e propõe.
O silêncio assim ensinado pela espiritualidade carmelitana é o mesmo silêncio ne­cessário à vida humana em qualquer situação, somente que mais aperfeiçoado, pois a ele a pessoa que tem esta vocação vai se dedicar de forma mais consciente. É o «clima» especial» no qual desabrocha e cresce a interioridade do ser humano. Ele contribui para seu crescimento e amadurecimento, tornando-o sensível ao diálogo não só com os irmãos, mas sobretudo, com o INTERLOCUTOR DIVINO. Ele pre­dispõe para a Revelação, a Comunhão, a Aliança: «O Senhor fará com que gozes de um repouso perpétuo, inundará tua alma com seus resplendores; fortificar-te-á os os­sos. Serás como um jardim bem irrigado, como uma fonte cujas águas nunca se­cam...» (Is 58,10-12). É pois o silêncio carmelitano o comportamento indispensável para:
> escutar e conhecer a Deus: «O’ Verbo Eterno, Palavra de meu Deus, quero passar minha vida a escutar-vos» (Elizabete da Trindade).
> viver um sua intimidade: «Eu a levarei ao deserto e lhe falarei ao coração» (Os 2,16-17).
- O silêncio é o fator que reúne então todas as nossas forças interiores, orientando-as para Deus, permitindo-nos viver na INTERIORIZAÇÃO sempre maior do seu AMOR, revelado em Jesus Cristo, que é:
> Verdade que não passa - Mt 24,35;
> Profundidade inesgotável - Jo 6,64;
> Substância que sacia - Ex 3,1;
> Fortaleza e Conforto - Rom 15,4;
> Mistério que se comunica - 1Tim 3,16-17.
- O Carmelita educa o seu ser para o silêncio dos pensamentos, das palavras, dos com­portamentos para viver pacificado e atento a Deus e aos irmãos. Isto o ajudará a ser feliz e a adquirir uma «sensibilidade contemplativa» libertadora da dicotomia entre FÉ-VIDA, AÇÃO-CONTEMPLAÇÃO. Os efeitos desta educação serão percebidos pela pessoa que terá seu ser e agir plenificados e felizes, pois sempre mais alcançará:
> a libertação das amarras que impedem de amar e do silêncio vicioso da indiferença, do desprezo, da preguiça, da irresponsabilidade, da covardia, etc;
> o cultivo de situações de autenticidade, numa atitude constante de alegria, de reflexão, de respeito, de verdade, de caridade, de adoração a Deus e de atenção aos irmãos;
> a capacidade de ver e amar os irmãos e o mundo como Deus «vê» e «ama» a cada um com sua realidade;
> o desapego de tudo o que não é Deus e o enraizamento NELE, com a educação e orientação das paixões para o amor;
> a discrição que o torna ouvinte confiável e lhe dá a palavra exata quando precisa;
> a sabedoria e a  paz que lhe conferem a força interior, nascida da comunhão com Deus;
> a alegria que expressa a plenitude alcançada: «É no silêncio que   estará a vossa força» (Is 30,15).

B) Sugestões para atividades  formativas
a) Organizar as próprias anotações, verificando as dúvidas para perguntar no próximo encontro Os trabalhos preparados devem ser apresentados sempre antes de se passar para outro tema ou valorizados de outra forma, quando for o caso. (Isto será sempre bom, pois constitui uma forma de verificar a com­preensão,  de tirar dúvidas e de promover a atenção e fixação dos conteúdos mais importantes).

b) Analisar estas afirmações do Carmelita Miguel de S. Agostinho

«... Por isso os Carmelitas são sempre modestos no andar, nunca falam em voz alta,
procuram não fazer barulho e assim guardam sempre o silêncio. [...] mas existe outro silêncio que é o silêncio interior... Tal é o silêncio que deve praticar o carmelita, a fim de que, fazendo neste silêncio todas as obras, adquira a disposição próxima para a união com Deus, com o celestial esposo, e para a vida na intimidade contínua com Ele.
[...] Todo o verdadeiro carmelita esteja persuadido de que o segundo sinal do espírito carmelitano é a solicitude em observar o silêncio, sendo o primeiro o amor à solidão».

c) Fazer o mesmo com os seguintes textos de dois leigos poetas: 
«Agora deixemos agir o silêncio. É um grande mestre da Verdade. A esses espaços de silêncio que atravessam a minha alma, devo eu afinal,  tudo o que em mim possa haver de bom. pobres daqueles que não conhecem o silêncio [...] Então eu parava cheio de amor e de respeito, porque o silêncio é também o mestre do amor» ( Psichari)

«Hei de escrever-vos um hino sobre o silêncio, vigilância de Deus sobre nossa febre, manto de Deus sobre a agitação dos homens. É bom que encontres Deus que é Silêncio eterno, Silêncio porto do navio, Silêncio em Deus em Deus, porto de todos os navios.
O amor começa onde não há dádiva a esperar. O amor primeiramente é exercício da oração e oração, é exercício do silêncio. Eles e eu não éramos mais que a oração, no silêncio de Deus» (Saint-Exupery)

d) Reler o texto oferecido no início (nº 21 da Regra do Carmo) e fazer um elenco dos textos bíblicos citados no mesmo. Tomar a Bíblia e ler nela os referidos textos dentro de seu contexto.
e) Discutir: que tipos de silêncio são recomendados na Regra do Carmo? Explicar os tipos a partir dos conteúdos estudados sobre o silêncio na vida humana e o silêncio na Bíblia. Qualquer forma de silêncio é válida? Por que?
f) Procure alguns pensamentos, nos escritos de nossos santos sobre o silêncio.
g) Conceituar - silêncio, solidão e deserto, estabelecendo a relação entre estes três elementos e sua importância na vida espiritual.

C)Sugestões para a oração e aprofundamento individual

• Fazer a oração a partir dos seguintes textos:
- Sl 15: Deus é minha herança.
- 1Reis 17,1-7 e 19,10-18: Elias no Carit e no Horeb.
- Mt 27,11-14: O silêncio de Jesus.
• Fazer a experiência de um tempo de silêncio. Procurar um lugar e um momento favorável. Levar consigo somente o desejo de passá-lo a sós, na presença de Deus. Em outro momento avalie a experiência:
a) - por onde andou seu coração?
b) - o que percebeu que foi constante na sua atenção?
c) - que qualidade notou naquele momento de silêncio: foi alegre ou triste? espontâneo ou forçado? enriquecedor ou empobrecedor? tranquilo ou tenso? O que aprendeu?

• Repetir a experiência.
• Tomar a «Elevação à SSma Trindade» de Elizabete da Trindade e rezar com ela. Desfrutar os pensamentos de nossa Irmã. Tentar perceber o sentido do silêncio encontrado nesta oração. Aprofundar o seu significado.

D) Auto-avaliação
• Anotar no próprio diário as principais impressões que lhe ficaram do conheci­mento sobre o valor do silêncio para nossa vida carmelitana, as aspirações e pensamentos que julga que possam alimentar a própria vivência neste mo­mento vocacional.

• Já percebeu em alguém de suas relações as características próprias da vida si­lenciosa que o Carmelo propõe?  Descrever de que forma as percebe .  O que você aprende com esta observação?
• Você está convencido de que o silêncio é importante para sua própria vida seja ou não carmelita?
• Individuar as principais dificuldades para viver o silêncio (momentos, atitudes, pessoas, preocupações, etc.).
• «Maria conservava todas estas coisas  meditando-as em seu coração» (Lc 2 ,19) Que comunicações você percebe de Deus para a sua vida? Como as recebe, Como as conserva?

• Converse sobre esta  autoavaliação com seu orientador espiritual.

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